Sigilo
3 Capítulo 2 - Levy
Notas iniciais
Sigilo
Capítulo 2
Levy
Virei-me para trás pela quinta vez, a sensação de ser perseguida ainda estava presente, apesar de não ter visto ninguém todas as vezes que verifiquei. Dando um suspiro cansado continuei a caminhada, só desejava a minha cama e uma boa noite de sono, meu corpo protestava das horas de trabalho pesado, minha profissão de lavadeira em casas nobres exigia muito de mim.
Troquei o cesto de lado, tendo cuidado em não derramar as pinhas no chão. Olhando o conteúdo da cesta, lembrei-me do misterioso que me ajudou. Apesar de toda a pose rude, ele parou e terminou de recolher as pinhas que haviam caído num trombo com ele. Algo em suas características me incomodava, ele parecia ser familiar e ao mesmo tempo um desconhecido.
— Com licença, moça. A senhorita poderia me dizer onde fica a hospedaria principal daqui?
Pulei de susto com a voz repentina, olhei para os lados e me deparei com um homem de aparência comum – olhos e cabelos castanhos – a me fitar com curiosidade. Ele parecia genuinamente perdido, devia ser algum integrante da caravana que chegara em Ran a poucas horas. Recuperando minha voz, sorri um pouco para o estranho.
— Fica a quinze minutos daqui, é só seguir a estrada principal – respondi, indicando com a mão a estrada a nossa direita. Nervosamente, coloquei alguns fios azuis de meu cabelo atrás da orelha, um sinal que eu sempre costumo fazer quando me deparo com estranhos.
— Então estou em uma área mais afastada da cidade? – tornou a me questionar.
— Creio que sim, senhor – retruquei, perdendo a paciência. Se eu ficar falando com ele, irei me atrasar para chegar em casa, fato que pode desencadear uma agressão por parte de meu padrasto. Ele me odeia e procura por qualquer motivo para punir-me. – se me der licença, preciso ir.
Dei meia volta, seguindo o caminho de casa novamente. Tinha dado apenas dois passos quando senti meu braço ser agarrado, o cesto que era sustentado por ele caiu no chão, espalhando novamente o conteúdo. Ia me virar brava, mas fui impedida por um aperto forte de mão em minha boca.
Meu sangue gelou e comecei a sentir pânico. Porém não deixei que o medo se apossasse de mim, permiti que ele viesse por apenas cinco segundos e então o afastei. O estranho me puxou para trás, foi aí que agi. Mordi sua mão com força, sentindo gosto de sangue. Um urro de dor veio e minha boca foi liberta em seguida. Sem dar tempo para ele, impulsionei meu pé esquerdo para trás, acertando o meio de suas pernas, um lugar que se acertado gera uma extrema dor para os homens. Quando o agarre dele afrouxou, desvincilhei-me e corri. O homem claramente não esperava por uma reação dessas, o elemento surpresa foi o meu aliado.
Com o passar dos anos aprendi que os caras gostam de meninas delicadas e de baixa estatura – no caso, igual a mim – pois são mais fáceis de subjugar e molestar. Comigo era um pouco pior, pois além da minha pequena estrutura, a cor azul de meus cabelos chama muito a atenção, dobrando assim, o interesse dos homens. Então tive de aprender alguns truques para que não me violentassem. Viver no subúrbio era um teste de sobrevivência diário.
Uma parte de mim ficou com raiva do estranho, pois tive de deixar o cesto para trás. Agora com certeza levaria uma bronca de Makarov. Eu só rezava que ele não tivesse bebido, ou poderia querer me bater. As marcas em minhas costas ainda doíam um pouco, lembrando-me da última surra. Minha visão começou a embaçar por conta das lágrimas que estavam caindo, limpei elas com a mão trêmula sem deixar de correr.
Arrisquei dar uma espiada para trás ao virar uma esquina, o caminho estava vazio atrás de mim. Sorri, aliviada. Tornei a correr, faltava três quadras e chegaria em casa. Já podia ver as luzes acessas dentro da precária residência e alguns vultos movendo-se dentro, meu coração se apertou ao reconhecer um vulto maior. Laxus.
Um arrepio involuntário desceu por minha espinha. Ele é tecnicamente meu meio irmão por ser filho de Marakov. Quando minha mãe casou-se novamente, meu padrasto trouxe seu filho de outro casamento para morar conosco. Laxus e eu tínhamos uma relação amigável, mas isso mudou drasticamente depois de alguns acontecimentos e só piorou com a morte de minha mãe.
Parei ao lado da enorme árvore que ladeia a minha casa, recuperando a postura e limpando o rosto das lágrimas. Fiquei alguns minutos respirando forte, acalmando-me. Quando senti estar segura das emoções, fui para a porta.
— Achou que ia escapar de mim? – a voz do homem soou próxima. Antes que pudesse gritar por socorro fui paralisada por algo. A princípio pensei ser outra pessoa, mas depois vi que não havia nada ao meu redor. Meus olhos se arregalaram quando a compreensão veio.
Um Mago.
(…)
Pelas minhas contas, já faziam uns bons quinze minutos que fui deixada, vendada, no chão frio atrás de algum galpão. Até tentei me manter calma, porém minha mente fértil gosta de ficar cogitando várias hipóteses para explicar a minha situação. A princípio pensei que o homem fosse algum molestador, entretanto quando percebi que ele não me violentaria mudei a opinião para sequestrador. Mas quem quereria sequestrar uma menina pobre?
Após ter sido capturada em frente de casa, fui levada para alguma parte mais afastada de Ran, sabia disso através do clima, fazia mais frio que o normal do subúrbio. Tentei me distrair contando o tempo e funcionou um pouco, mas eu sempre voltava a imaginar o porquê de tudo isso. O som de passos se fez presente, vindo cada vez mais perto de onde eu estava.
— Ela não serve – uma voz masculina falou, seu timbre acusava que o dono tinha uma idade mais avançada.
Franzi o cenho diante o comentário. Não sirvo? Seja lá o que for o planejado, eu não estava mais envolvida. Isso me trouxe um sentimento de esperança e receio. Haviam duas opções, ou eles me deixam ir embora sob uma ameaça, ou me matam. Rezei que fosse a primeira, apesar de a segunda ser a mais provável.
— Mas que droga, ela até é bonitinha – a voz do homem que me capturou apareceu. Fiquei um pouco receosa pelo modo como ele soava ao falar de mim. – se não podemos usá-la como fonte, posso levá-la como escrava?
O segundo homem riu.
— Por que não? – comentou, provavelmente achando graça. – Ela é toda sua.
Houve novamente o som de passos, porém dessa vez distanciando-se dali. Senti uma mão passear pelo meu ombro direito, os dedos percorriam uma linha imaginária ali. O toque me causou arrepios e enjoo, agora eu tinha uma noção de que tipo de escrava eu seria. Eu tinha de arranjar um jeito de escapar.
A mão desceu para minhas pernas, parando nos joelhos. Minha vontade era de arrancar aquelas palmas de mim, mas minhas mãos estavam amarradas firmemente. A saia de meu vestido foi sendo levantada vagarosamente até que chegasse um pouco acima dos joelhos. O ruído de trituração de pedras me indicou que o captor devia estar se arrastando em torno de mim, provavelmente achando uma boa posição.
O próximo toque, já por debaixo do pano, me deu a certeza de que ele estava parado em frente a mim. Com todo meu autocontrole esperei o momento certo. Quando ele estava na metade da coxa, lancei meus pés contra ele. Houve um gemido de dor e as mãos sumiram. Não tive tempo para comemorar, pois meu corpo sofreu um ataque de espasmos por conta de dor.
— Isso é para você aprender a não me rejeitar, vadia! – ele gritou, arrancando a venda de mim logo depois.
O seu rosto estava enfurecido, seu olhar era maníaco. Ele desferiu um tapa forte no meu rosto, fazendo-me virar a cabeça com a força. O lado direito de minha face ardia. Um segundo tapa veio em cima do antigo, gerando mais dor. Uma pena para ele que eu já estivesse acostumada a isso, Makarov batia mais forte.
Fechei os olhos ao sentir a dor percorrer o corpo todo, sem dúvidas por causa de algum feitiço. Um pequeno grito escapou de mim, ouvi seu riso em júbilo por isso. Motivado, acertou-me novamente com o golpe mágico. Encolhi-me, esperando um terceiro ataque, porém este não veio. Abri os olhos e estaquei. O homem estava no chão com a boca escancarada e os olhos esbugalhados, seu olhar era surpreso e dirigia-se para o conjunto de árvores perto de nós.
Demorei alguns segundo para compreender a cena, só entendi quando ergui o olhar para as árvores mais a frente. O moreno de antes, que ajudou-me a recolher as pinhas, estava parado ali e fitava o homem caído com raiva. Ele estava trajando apenas calças de couro e botas, o dorso bem definido estava exposto pela falta de camisa, seu longo cabelo negro estava molhado e solto, chegando até o meio das costas. Surpresa, vi que uma de suas mãos era ferro puro.
Mas que merda!
Outro Mago.
Num piscar de olhos os dois estavam travando uma briga, de um lado o moreno dos olhos vermelhos golpeava fisicamente, de do outro o captor desferia ataques mágicos luminosos. Mesmo sem querer, comecei a torcer pelo Misterioso das Pinhas – como particularmente apelidei – ele batia fortemente, fazendo o outro homem recuar.
Quando um golpe do captor passou raspando por mim, fiquei bem ciente de que poderia me machucar seriamente se não me movesse rápido. Arrastei-me pela terra para longe deles, o que era um tanto difícil quando se tinha as mãos presas atrás de si. Fui salva por um triz novamente, olhando o captor vi que ele me observava, ele queria me acertar!
Porém seu próximo ataque nunca chegou a me acertar, ou se quer ser lançado. Ao olhar para mim, ele distraiu-se e foi atacado pelo outro. O braço do Misterioso transformou-se numa enorme espada dentada nos dois gumes, e com uma bela investida ela atravessou o peito do oponente. Meus olhos grudaram naquele corpo que caía sem vida, notando o enorme ferimento que sangrava.
Não sei quando tempo fiquei paralisada, fitando o morto. Só voltei a mim quando fui sacudida por alguém. Desviei o foco do corpo e constatei que o moreno estava a minha frente, segurando-me pelos braços, seus olhos rubros me fitavam intensamente. Vagamente registrei que já não estava mais presa, apenas conseguia manter em mente que acabei de ver dois Magos lutando.
Dois Magos!
Por lei eles deveriam estar mortos! Isso não estava certo. Minha mente estava embaralhada pela quantia de informações colhidas recentemente. Fechei os olhos, cansada. Queria apenas voltar para casa e dormir, mas isso não era uma opção convidativa, não quando eu sabia que Makarov estaria me esperando com um açoite em mãos.
— Hey!
Abri os olhos, assustada. Fitei a pessoa a minha frente, ele parecia ponderar o que fazer comigo, eu claramente não devia saber desse segredo dele. Eu só esperava que não fosse morta. Quando o moreno levantou-se, tentei fazer o mesmo, mas o desgaste emocional e os ferimentos de antes me impediram disso. Ouvi um bufo irritado e senti ser içada. Estava sendo carregada pelo Mago.
— O que vai fazer comigo? – Pedi.
— Ainda não sei – seu peito tremeu quando falou, sua voz era um tanto grave e charmosa, um sentimento estranho me aqueceu ao ouvi-lo. Tentei não prestar atenção ao calor que aquele peito descoberto emanava. – Não vou lhe matar, se é o que pensa – terminou de falar.
Soltei um suspiro de alívio com a resposta, eu ficaria viva por enquanto.
— Obrigada – murmurei. Ele lançou-me um olhar interrogativo. – por ter me salvado daquele homem e por não me matar – expliquei.
Ele deu de ombros, sacudindo-me em seu colo. Uma pequena coceira de curiosidade começou a me incomodar, aquela sensação de conhecer e não tinha voltado. Por mais que eu lhe olhasse, não me vinha nenhuma memória que pudesse identificá-lo.
— Posso saber o seu nome? – Indaguei, não aguentando mais a inquietação.
Ele olhou-me por alguns segundos, ponderando se devia ou não responder.
— Gajeel – disse, por fim.
Agora eu sabia o porquê de eu sentir algo familiar nele, apesar de nunca o ter visto antes. Esse homem é Gajeel RedFox, irmão mais velho do Rei Rogue, e Protetor do Reino. Uma das pessoas mais importantes de Fiore.
— Não faça essa cara de espanto, não sou tudo o que falam – Gajeel comentou ao perceber meu espanto em seu reconhecimento.
— Não mesmo – concordei. – poucas pessoas devem saber que você é um Mago – falei, sem pensar.
O moreno parou de caminhar na hora, suas mãos me apertaram com mais força. Eu tinha acertado em um ponto doloroso para ele. O vi apertar os lábios, arrependi-me de ter falado aquilo, porém não deixava de ser verdade, se alguém soubesse que ele tem magia deveria denunciar, então o moreno seria morto.
— Precisamos ter uma conversa – comentou, colocando-me sentada no chão. Gajeel agachou-se a minha frente e fitava-me com firmeza – Você deve estar bem ciente de que viu algo que é um segredo. Não posso te deixar a solta por aí, pois não tenho nenhuma garantia de que vai manter a boca fechada.
Ele parou e esperou por alguma resposta minha, mas mantive-me calada.
— Espero que você goste de viajar, porque vai passar algum tempo conosco – sentenciou.
— Viajar?
Gajeel deu um sorriso torto para mim.
— Exato, a partir de agora você está sob meu domínio, ficará grudada em mim para que eu tenha certeza de que não falará nada.
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