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11 Capítulo 10 - Lucy
Notas iniciais

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Capítulo 10
Lucy
A primeira coisa que registrei quando voltei de meu apagão, foi uma terrível dor no corpo. Fisgadas incômodas vinham de lugares que eu nem lembrava de ter, meu corpo parecia que tinha sido atropelado por uma tropa de cavalos em fuga. Tentei não soltar qualquer gemido e, ainda de olhos fechados, procurei me localizar.
Pela sensação gélida em minhas costas, braços e pernas, deduzi que estava deitada no chão. O clima úmido e frio só podia significar que era no subsolo. Um calabouço. Sem aguentar mais, abri os olhos.
— Bom dia, dorminhoca.
Uma figura encapuzada, de capa negra, estava sentado ao meu lado e brincava com uma pedrinha, jogando-a na parede a sua frente e pegando-a novamente. Vagarosamente, fui erguendo meu troco e tentei identificar quem era. Não precisei me esforçar muito, pois no próximo movimento da figura, captei algumas mexas róseas balançando.
Natsu.
— Você... – sussurrei, tentando compreender como o nobre que dançara comigo na festa tinha parado nesse calabouço. Então, para solucionar minhas dúvidas, minhas memórias das últimas horas voltaram e se chocaram contra minha mente – Ah, mas que ótimo! Isso significa que seu maravilhoso plano de resgate não funcionou – ironizei.
— Quanta ingratidão – ele fingiu estar desapontado, pondo a mão em cima de seu coração.
Bufei e virei a cara. Se não fosse por esse inconsequente, eu poderia estar salva e não trancafiada numa cela imunda. Afinal, quando os rebeldes me capturaram e estavam me levando para uma carruagem, provavelmente roubada, Natsu havia aparecido e tentara abater os raptores. Mas, ele não conseguiu fazer muita coisa contra a magia deles. A última coisa que me lembro antes de desmaiar, foi de receber um golpe extremamente forte que estava direcionado ao rosado, por que ele havia me puxado para seu lado em uma tentativa de fuga. Então, era um pouco difícil fazer qualquer coisa para se salvar quando estava desacordada, assim meu pequeno plano de fuga que idealizei enquanto era levada, fora por água abaixo.
— Talvez queira saber que a tranca dessa cela está um pouco frouxa, arrebentá-la seria fácil – ele comentou e olhou-me significativamente. Ele tinha me esperado para tentar arrombá-la. Uma pontinha de esperança palpitou em meu peito.
— E os guardas? – indaguei, levantando-me.
— Dormindo.
Espiei pelas frestas das grades e vi a dupla que deveria nos vigiar tirando um cochilo, sem preocupação nenhuma. Eles deviam imaginar que uma Princesa e um Nobre não sabiam fazer coisa alguma, então uma tentativa de fuga seria anulada. Idiotas. Minha mãe sempre me dizia para não subestimar o inimigo, não importando a aparência ou status dele.
Natsu começou a mexer na tranca com cuidado, suas mãos se mexiam com uma agilidade e delicadeza que quase não consegui acreditar, afinal aquelas mãos eram fortes e grandes. O que estou pensando?! Tornei a espiar os guardas como desculpa, assim não ficaria analisando as partes do corpo dele.
Depois de um tempo, que mais parecia uma eternidade, um abafado cleng soou. Olhei para o lado e constatei que a tranca fora removida. Graças aos Deuses. Mordi meu lábio inferior quando um pensamento me ocorreu, a aparência da grade era velha e enferrujada, então provavelmente rangeria quando fosse mexida. Natsu parecia ter notado a mesma coisa, pois não tentara abri-la, ele fitava a grade com extrema concentração.
— Certo, você puxa rapidamente as grades e eu corro para os guardas e os nocauteio – sugeri em voz baixa, apontando os dois dorminhocos.
— Você batendo em guardas? – a voz dele era sarcástica e sua expressão incrédula.
Bufei, indignada. Só por que sou mulher, não posso bater em homens? O meu limite de paciência ia se esgotando e a cara que o rosado fazia não ajudava em nada. Agindo por impulso e raiva, lancei meu punho contra aquele rosto, chocando com seu nariz empinado.
— Ouch, o que diabos foi isso?
Ele segurava o nariz que fora quebrado com as mãos, conseguia ver um filete de sangue escorrer por entre dos dedos.
— Provando que posso nocautear quem eu quiser – respondi, olhando satisfeita a sua expressão mudar para dor. – agora, a madame consegue fazer o que sugeri, ou terei de fazer tudo sozinha?
Natsu assentiu em concordância e limpou o rosto com a manga da camisa. Posicionando-me ao seu lado, respirei fundo e dei o sinal para agir. O ruído ecoou pelo calabouço como imaginávamos, o rangido foi alto o suficiente para começar a acordar os guardas, mas eu já estava sobre eles quando ameaçaram abrir os olhos. Sem esperar muito, dei dois socos em cada e os atordoei.
— Pretende deixá-los aí?
— Precisamos amarrá-los, ou vão nos seguir depois – comentei, observando as proximidades a procura de cordas.
Dessa vez, ele foi mais rápido. As encontrou debaixo das cadeiras que os guardas ocupavam. Após amarrá-los e nos certificarmos de que não conseguiriam se soltar tão cedo, pegamos as chaves que estavam em sua posse e rumamos pelo extenso corredor a nossa frente.
O que mais queria era sair dali, entretanto havia a possibilidade de alguns conhecidos nossos também estarem presos. Então, espiávamos cela a cela a procura de rostos conhecidos, mas até o momento não encontramos nenhum. O corredor tinha acabado e a nossa frente uma porta grossa de madeira bloqueava a saída. Natsu pegou o molho de chaves e começou a testar uma a uma, procurando a correta.
— Ora, ora, o que temos aqui? Uma dupla de fujões! – uma voz feminina soou assim que conseguimos abrir a porta.
Ergui os olhos a fim de procurar a fonte da voz, e a encontrei do outro lado nos olhando com um misto de curiosidade e perversidade. A moça em questão não devia ter mais do que vinte anos de vida, mas havia um certo ar de experiência nela. Ela possuía cabelos azuis que davam um destaque os olhos da mesma cor, porém mais escuros. Ela segurava um pequeno chapéu de cor preta, e parecia se divertir em jogá-lo de uma mão a outra.
— É uma pena que Juvia não possa dar uma lição aos fujões, a Mestra ficaria muito furiosa com Juvia se os machucasse demais. Não resta outra opção, Juvia terá que levá-los a Mestra.
Natsu tentou correr de encontro com ela, provavelmente para atacá-la, mas antes que pudesse dar um passo sequer, nos dois fomos envolvidos num enorme globo d'água. Com uma pontinha de pânico, comecei a chutar e socar aquela água toda, porém não surgia efeito nenhum, a não ser me cansar. Pelo canto do olho vi Natsu fazendo a mesma coisa, mas ele tinha o cenho franzido e fechava as mãos em punho como se fosse acontecer algo.
— Por que todos tentam furar as bolhas da Juvia? É inútil – ouvi a moça, Juvia, comentar e olhar-nos com uma falsa piedade. Então ela ergueu as mãos e colocou o chapeuzinho na cabeça, e no mesmo instante a água foi escurecendo-se, roubando o ar de meus pulmões.
E novamente desmaiei.
(…)
O tempo é uma coisa relativa, para uns é rápido demais e outros, vagaroso. Calculá-lo é complicado, a melhor alternativa é acompanhar o sol, mas se torna um tanto impreciso quando se está trancada em um precário quarto, tendo como referência apenas uma abertura pequena entre duas placas de ferro. Então não tinha certeza de que realmente se passaram oito dias desde que fui posta aqui, ou não.
Havia uma quantidade razoável de suposições do porquê nos trancaram em locais separados, sem nenhum contato com o que ocorria lá fora, e por tanto tempo. Causar medo, pânico, desânimo. E claro, um enorme estresse mental. Essa última eles conseguiram com louvor, pois passei os últimos dias esperando que a porta se abrisse e a tal Mestra que a moça, Juvia, falara viesse. Entretanto, nada ocorreu e eu já estava começando a ficar maluca.
Para completar, meu estado físico estava uma merda. O cheiro que exalo não é o dos melhores, afinal não tomo banho desde que cheguei aqui. Continuo usando o outrora belíssimo vestido da festa, mas que agora não passa de um monte de tecido encardido, faltando cristais e rasgado em alguns lugares. Minhas necessidades eram feitas em um nojento penico, coisa que tento evitar ao máximo usar. Somando tudo isso, não era um cenário que me deixasse animada.
Por isso, quando o som da porta sendo destrancada gerou-me um enorme susto. Pulei da precária cama que estava sentada e me pus de costas a parede. Olhei com expectativa a porta ir se abrindo centímetro a centímetro, revelando pouco a pouco a pessoa que almejava entrar. Para meu desapontamento, era a moça que tinha nos capturado.
— Juvia veio lhe ajudar a se arrumar, a Mestra não vai recebê-la desse jeito – a azulada torceu o nariz em minha direção, causando uma pequena onda de raiva em mim. Era culpa deles, não minha!
Ela foi na direção oposta a minha, na segunda porta que havia no aposento, e a destrancou também. Fui para junto dela após receber um aceno que pedia aproximação. Era um banheiro, constatei assim que entrei no local. Um banheiro bem razoável se comparado ao quarto que estive confinada.
— Aqui estão uma muda de roupa, sabonete e esponja. Não demore muito, ou a Mestra ficará impaciente.
— Se queriam um banho rápido deviam ter me deixado fazê-lo regularmente – comentei, secamente.
— E perder a visão da Princesa se deteriorando? Juvia acha que não seria tão emocionante.
Então, ela fechou a porta. Ouvi um pequeno clic indicando que fui trancada novamente. Soltando um suspiro, comecei a me despir. Por um momento pensei que minha pele sairia junto com o vestido, do modo como ele grudara em minha pele. Foi um certo alívio sentir meu corpo livre daquela peça, e aproveitando a sensação de liberdade fui em direção a banheira feita de madeira que ocupada boa parte do cômodo. Ela já estava cheia, fazendo-me perguntar como ela havia sido cheia se eu entrava aqui a tão pouco tempo.
Colocando de lado os pensamentos indagativos, puxei um balde que tinha ali perto e o enchi. Notei que se entrasse no jeito que estou, sujaria toda a água e ficaria parcialmente limpa. Então, fui jogando a água do balde no meu corpo aos poucos e ia me esfregando, tirando a camada mais grossa de sujeira. Quando estive satisfeita da primeira limpeza, entrei na banheira.
Devo ter demorado mais do que imaginei, pois uma ligeira batida na porta me indicou que estava acabando meu tempo. Gemendo por ter de sair do conforto da água, apressei-me em colocar a muda de roupa dada. O conjunto consistia em um simples vestido preto de mangas longas e peças íntimas. Deixei meu cabelo molhado solto, não havia nada para secá-lo ou prendê-lo. Analisei o chão a procura de algo para calçar, afinal o sapato que estive usando nos últimos dias me causaram bolhas dolorosas, mas infelizmente não encontrei nenhum. Então, optei por ir descalça.
Não houve muita enrolação depois que saí do banheiro. Juvia logo me vendou e guiou-me porta afora. A sensação de desorientação foi inevitável, a visão era um grande companheiro nessas horas. Porém, eu ainda tinha minha audição e tato para tentar entender o local. O piso frio e um tanto úmido abaixo de meus pés, me diziam que estava andando por um caminho de terra, e suas pequenas lombadas informavam que era natural. Florestas possuíam estradas assim. Os ruídos eram cuidadosamente mínimos, não conseguia detectar se havia mais alguém junto de nós duas. Podia deduzir que estive trancada em um outro prédio, longe da tal Mestra.
— Juvia fará algumas informações, mas não pense que Juvia é sua amiga, – a moça comentou, após um tempo. – é apenas para que a Mestra não fique brava. Não olhe diretamente nos olhos dela. Não fale se não lhe for feita uma pergunta. Não ria. Fique parada e nem ouse sentar, apenas faça se ela lhe ordenar. Se fizer o que Juvia indicou, é capaz de voltar viva.
Havia um pouco de sinceridade nas palavras dela, mas não conseguia crer que poderia ser morta só por deixar a Mestra irritada. Tenho conhecimento de que quando um prisioneiro é valioso, tenta-se fazê-lo acreditar que não é, ou pode se tornar incômodo. Eles não me matariam por conta do meu status real, disso eu tinha certeza.
Entretanto, esse grupo não era comum. Nada impediria de que me torturassem ou me privassem de coisas essenciais por uma desfeita. Existem coisas piores que a morte. E Magos Rebeldes saberiam como fazer isso.
Meu coração começou a martelar mais fortemente quando notei a mudança de local. O chão tornou-se um piso bruto, provavelmente feito de pedra. Havia um fraco som de espadas se chochando ao longe, e uma certa agitação a minha frente. Já devíamos estar no prédio principal. Respirei fundo e tentei acalmar-me, não devia mostrar nervosismo.
Houve um rangido, indicando que uma porta fora aberta, e então pisei em algo macio. A venda foi arrancada bruscamente de mim, aumentando momentaneamente minha desorientação. Antes que eu pudesse analisar o local que fui levada, uma voz gélida e feminina soou do mesmo aposento.
— Bem-vinda, Dama das Constelações.
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