Sigilo

39 Capítulo 36 - Erza


Notas iniciais
Olá! Como estão? Por aqui começou a corrida para o TCC! Como já dá pra saber pelo título, este capítulo será narrado por uma pessoa especial e que vai trazer várias coisas interessantes no decorrer do capítulo, portanto se atentem aos detalhes. Já vou adiantando que vão haver mais narrações sob o ponto de vista dela, mas eles são estilo do Natsu, ou seja, especiais. Vão ocorrer ocasionalmente entre a linha de narração normal (Gajeel, Levy e Lucy). Quero agradecer de coração a Lura, (uma autora maravilhosa, vão ler Vínculo Mágico e depois Conspiração, prometo que não vão se arrepender!) por ter betado este capítulo e me auxiliado em minhas dúvidas! Também gostaria de mandar um beijo especial para Evi, pela belíssima recomendação que fez! Fiquei emocionada com suas palavras e extremamente contente em saber que Sigilo esteja lhe agradando! Portanto, dedico a vocês duas este capítulo! ^~ Sem mais delongas, desejo a todos uma boa leitura!

Sigilo

Capítulo 36

Erza

— Sempre lhe achei teimoso por discordar de meus ideais, mas admirava essa sua capacidade de continuar esmurrando a ponta da faca incansavelmente – comentei, entrando no recinto, olhando para o homem deitado a cama.

Gildarts ainda tinha o rosto talhado pelos machucados, mas suas forças voltavam gradualmente, permitindo uma conversa franca entre nós.

— Finalmente posso ver seu rosto, Erza – respondeu, a voz rouca.

Sentei-me ao lado da cama, mantendo o rosto com a expressão de pena. Sabia que manter o rosto desse modo o enfureceria. Homens não gostam de serem alvos de pena, principalmente se for do sexo oposto. Que atitude mais idiota.

— Apesar do tempo em que nos conhecemos, jamais nos vimos – concordei, lembrando-o do nosso passado não tão distante de ameaças – diga-me, valeu a pena a recusa? Tanto tempo negando meus pedidos e o que eu vinha lhe advertindo ocorreu. Sua filha está morta, Gildarts.

O homem tentou avançar em minha direção, mas as amarras postas por prevenção lhe contiveram. Seus olhos fitavam-me com ódio. Compreensível a dor pela filha, diria.

— Sua maldita! — urrou, tossindo logo em seguida.

— Vamos ser práticos. Capturei sua noiva e você recusou – ergui um dedo, ignorando sua face retorcida pela emoção negativa a mim – fingimos a morte dela e você recusou novamente – ergui outro dedo – capturamos sua filha e você, adivinha? – sorri e ergui o terceiro dedo – Recusou! — completei, dando de ombros.

— Kagura não morreu – retrucou.

Ah, então ele se atinha a um fio de esperança.

Já esperava essa reação. Balancei a cabeça, levantei-me e abri a porta. Coloquei uma mão no coração e fiz uma cara triste.

— Entrem – comandei.

Gildarts começou a respirar rapidamente, seus olhos demonstravam que não queriam ver, porém ansiavam pela verdade. Então, dois soldados entraram, carregando um baú em tamanho humano, contendo um corpo coberto por um pano escuro.

— A esperança é uma vadia, meu caro. Eu mesmo provei dela no passado – falei, puxando o pano.

Ele soltou um berro dolorido, tão sofrido que se meu coração ainda fosse completo, teria realmente pena dele. Repousando no baú estava Kana, a amada filha de Gildarts. Aquela por quem ele moveu mundo e fundos junto dos Revolucionários para recuperar. Mas, infelizmente, alguém por quem ele continuou negando-me a verdade sobre a cura.

— Kana ajudou Kagura a escapar. Elas embebedaram o estúpido guarda que vigiava as celas delas. Com isso, sua filha conseguiu as chaves e saíram do cativeiro. Mas, foram surpreendidas por novos guardas mais aditante. Kana lutou com eles e foi ferida, entretanto conseguiram escapar novamente. Acontece que a sua noiva achou que Kana estava lhe atrasando e resolveu seguir sem a outra, deixando sua filha para trás que teve de se esconder numa cabana abandonada perto do nosso esconderijo. Devido a fraqueza e ao ferimento acabou falecendo. Encontramos seu corpo no dia seguinte. Resolvemos usar a Magia de preservação para que você pudesse dar uma última olhada nela.

Não desviei o olhar dele durante o relato, Gildarts fitava o rosto da filha emudecido. Seu rosto murchou e ficou inexpressivo. Sua alma e convicção se foram naquele momento. Cobri Kana e mandei que a levassem para o antigo laboratório de Poluchka.

— Irei enterrá-la apropriadamente – voltei a falar, sentando-me na cadeira novamente – agora sabe quais eram as novidades sobre sua filha, aquelas que fora buscar anteriormente. Peço desculpas pelo modo que meus Magos o trataram, eles estavam enraivecidos pelas suas recusas.

Gildarts continuou calado, apenas olhava para o local onde tinha lhe mostrado Kana. Respirei fundo, acalmando meus nervos levemente irritados e fui para seu lado. Pegando seu queixo, forcei-lhe a me ver. E ali estava o vazio que queria ver em seus olhos. Sabia que enquanto tivesse esperanças, ou houvesse algo pelo que lutar, esse homem jamais abriria a boca.

— O que descobriu sobre a cura? — perguntei.

(…)

Voltei para o aposento privado do Rei, satisfeita. Minhas suposições estavam certas, afinal. Gildarts cantou tudo o que sabia conforme havia presumido com aquele espetáculo macabro. Disse-me que havia encontrado a mesma pista sobre o Mago de cabelo azul, mas que achou um item interessante em sua busca. A Magia Script.

Não sabia me dizer exatamente como, porém tinha me dado a certeza de que essa Magia estava diretamente relacionada com a cura. Isso reafirmava minha crença de que a garota consorte do Príncipe sabia da cura. Um fogo de raiva me subiu pelas veias por ela ter escapado por meus dedos.

Peguei o livro da estante e o coloquei em cima da mesa, observando-o. Após ter me assegurado do Castelo, resolvi fazer uma visita a Kagura. Ela mostrou pouco disposta a cooperar novamente com a minha traição. Mas, com algumas sessões de tortura ela cantou a mim o que sabia. A amante de Gajeel era Maga e usava o estilo Script. Era só o que sabia sobre a garota, os demais detalhes que me contara já eram de meu conhecimento.

Assim, revistei cada canto do quarto de Levy e acabei encontrando um livro interessante. Seu título dizia Símbolos e Segredos. Era o único livro do local que não estava na estante privada, e após olhar o conteúdo dos demais foquei-me nele. E touché, falava de Magia Script. Haviam símbolos desenhados a esmo ao longo das páginas, intrigando-me, sem contar que eu conseguia sentir Magia emanando daquele livro.

Este item definitivamente continha segredos, como enunciava em sua capa.

Estava absorta em pensamentos, tentando encontrar a lógica em meio a tudo o que havia capturado quando uma luminosidade brilhou a minha esquerda. Era a lacrima de comunicação, uma bola de cristal azulada e presa a um suporte dourado. Um presente confeccionado por Jellal para que pudéssemos conversar mesmos distantes, mas após seu falecimento resolvi dar a outra lacrima do par para uma amiga nossa, responsável por algo importante a mim.

Passei a palma esquerda por cima da esfera e sussurrei Galwad, permitindo que a outra pessoa tivesse contanto comigo. O rosto que apareceu na esfera era sensual e exalava um ar perigoso. Ultear Milkovich era uma beldade, dona de longos cabelos de tonalidade roxo escuro e olhos castanhos.

— Olá, meu anjo – Ultear saudou-me pelo nosso apelido. Uma brincadeira interna, afinal de anjo nenhuma de nós possuía traços.

— Olá, anjo. Não estava esperando receber notícias suas tão cedo – comentei, curvando-me sobre a mesa em direção a lacrima.

A mulher sorriu.

— A viagem foi rápida e sem transtornos, não pegamos tempestades nem seres marítimos. Devem ser os bons ventos de sua prosperação por Crocus nos ajudando.

Soltei um curto riso, Ultear era uma das poucas pessoas que podiam me fazer ter emoções sinceras.

— Não tão prósperos, diria. Ainda me falta ter o controle sobre o Lucy, Príncipe Gajeel e sua consorte Levy – respondi.

— Como conseguiram escapar?

— Lucy fugiu durante o ataque e os outros foram auxiliados por traidores. Mirajane e Laxus – contei, reprimindo a raiva – por isso seria maravilhoso se aquilo que lhe pedi tenha dado certo.

Ultear soltou um suspiro, indicando-me que não conseguira.

— Criar Magias não é algo fácil, e não encontrei nada naquele lugar. Quem me dera ter o estilo daquele garoto líder dos fujões para rastrear nossos Magos.

Ela se referia a Magia de rastreamento que Gray usava em seus companheiros, podendo saber em que local do reino estavam e qual sua situação. Tinha pedido a Ultear que procurasse algo parecido para usarmos em nossos rebeldes durante sua estadia em Bosco, porém não havia tido sorte. E com a recente traição de Mirajane e Laxus seria uma tremenda mão na roda ter algo do tipo, pois poderíamos rastrear o Príncipe e assim encontrar os demais.

— Minhas meninas estão bem? — pedi, não aguentando mais a curiosidade.

Verdade seja dita, estava espiando por detrás de Ultear para ver se encontrava algum sinal delas, aquelas duas por quem ainda nutria sentimentos bons. O principal motivo de ter mandado Ultear para Bosco foi para deixá-las longe dos conflitos que criaria em Fiore, pedindo que regressassem apenas agora, quando já tinha posse de Crocus.

— Ótimas e com muita fome, comeram quase todo o estoque do navio – brincou, aliviando meu parco coração – só vai precisar de um pouco mais de paciência, meu anjo, logo poderá abraçá-las.

— Por quê?

— A estrada mais rápida de Hargeon à Crocus seria pelo sul, porém ela teve duas pontes destruídas pelas constantes chuvas, assim vamos precisar recorrer pelo leste da estrada do rei, levando mais tempo.

Soltei um bufo.

— Preferiria que não a usassem – comentei.

Milkovich ergueu as sobrancelhas, surpresa.

— A estrada do rei passa pelas terras sob proteção de Lorde Navish, e este Lorde não se manifestou a meu favor até o momento. Tenho minhas dúvidas de que Lucy já o tenha fisgado – expliquei, pensando em minha asseguração pelo reino.

— Então deixe-me lhe aliviar – ela retrucou, a voz animada – correm boatos por Hargeon de que os Lordes Navish, Kartt e Dragneel estão se reunindo para apoiar a coroa e estão contando por onde passam sobre a traição da Rainha.

Agora foi a minha vez de erguer as sobrancelhas.

— Isso significa…

— Que seu plano está dando certo. Fiore está virando as costas para Lucy.

Um lento sorriso começou a se formar em meu rosto, contente com a notícia. Mas, ainda havia uma leve inquietação da comoção recende e inesperada desses Lordes. Ainda precisava agir com cautela.

— Quero que venham com calma e façam uma pausa Vila Cael, vou enviar um grupo para lhes encontrar e acompanhá-las no restante da viagem.

— Como desejar – concordou com um aceno – agora, preciso ir, pois preciso tomar um banho antes de preparar a nova etapa da viagem.

— Boa sorte e diga a elas que estou ansiosa pelo nosso reencontro – desejei, passando a palma pela esfera novamente, apagando a lacrima.

Gritei para o guarda que ficava prostrado perto da porta pouco depois, ordenando a ele que buscasse um de meus rebeldes com urgência. Não tardou para que uma batida soasse, indicando que minha ordem havia sido cumprida com rapidez.

— Entre – falei, ainda olhando o livro que vibrava levemente, envolvido pela barreira de proteção que criei.

José, um de meus homens, entrou no aposento com cuidado. As notícias de que eu estava de mau humor espalharam-se pelo Castelo, fazendo com que as pessoas dali pisassem com cuidado a minha presença. Felizmente, hoje era uma exceção. Estava mais tranquila. Pelo menos por hora.

José Porla fora um dos primeiros a seguir Jellal em sua empreitada pela cura, e um dos homens em quem confiava para cuidar de meus passarinhos, mensageiros que traziam notícias de Fiore inteira. Ele deu um leve sorriso e encostou-se na porta.

Ele era alto, possuía a pele morena, uma barba e cabelo de corte questionável. Tinha tido a surpresa de ver mulheres suspirando por ele. Em minha opinião, José era puramente um cérebro bom o suficiente para ser utilizado, o que carregava nas calças não me trazia curiosidade.

— Mandou me chamar, Majestade? – respondeu.

Assim como os demais, haviam adotado o costume de me chamar por Majestade desde a tomada. Ato que não fazia a mínima vontade de mudar. Verdade seja dita, possuía tantos títulos que nem me lembrava de todos.

— Quantos homens consegue reunir hoje para uma jornada de escolta? — pedi, levantando-me.

— Dependendo da escolta o número se altera – comunicou, dando de ombros.

— As minhas garotas chegaram de Bosco e estão voltando ao lar. Quero o máximo de segurança que conseguir, porém sem chamar atenção – tive que ceder a informação.

José também era um dos poucos que sabia sobre essa questão mais pessoal.

— Acredito que três pessoas, contando comigo, são o suficiente, então.

— Ótimo. Agora vá se preparar. Os quero na estrada ainda hoje – falei, voltando-me para a lareira.

— Qual o destino, Majestade? — pediu, com a mão na maçaneta.

— Vila Cael.

Com uma reverência curta, saiu. Novamente a sós, permiti-me mergulhar novamente na questão da Magia Script. Sentia que estava deixando algo passar.

(…)

Após certificar de que o grupo de José saíra e que levara o necessário, dei-me uma pausa para relaxar. Haviam tantas coisas interessantes no Castelo que ficava tentada em aproveitá-los a todo momento, entretanto minha estadia aqui não era para descanso. Pelo menos, não por enquanto.

Mas, nos dias em que me permitia descansar dirigia-me aos aposentos reais da Rainha. Era engraçado que Rogue e Gajeel mantiveram o local dos pais limpo e intacto. Apesar de Rei, Rogue não ocupava o quarto do antigo monarca.

Lá dentro haviam cinco aposentos. Um para banho, contendo duas banheiras, lavabos, uma estante enorme com vários sais e perfumes, e um espelho de corpo inteiro. Outro para dormir, contento uma cama macia e tapetes em igual textura. Um terceiro para questões didáticas, quase uma pequena biblioteca, contendo vários livros, mesas e uma lareia. Uma varanda espaçosa com espreguiçadeiras e várias plantas. E por último, uma sala de lazer. Todas elas davam para uma recepção ovalada decorada em tons branco e dourado.

E era no último aposento que me encontrava no momento. O antigo Rei mandou construir a sala para que sua esposa aproveitasse enquanto grávida de seu primogênito. Seu tamanho era a soma de todos dos outros quatro aposentos, ocupando um andar inteiro da Ala Real.

No centro havia uma larga banheira hexagonal, diferente das demais no outro local. Precisava-se subir dois degraus de mármore branco para acessá-la. A borda também era de mármore, mas a sua cor era levemente rosada com fios dourados se enroscando por sua extensão. Quatro pilares adornado com heras circundavam a banheira, dando um ar floral e aconchegante.

À esquerda da banheira haviam pinturas das mais diversas paisagens, mostrando as belezas de Fiore. Logo na entrada haviam sofás e estantes com peças delicadas e livros e a direita havia um alto e largo espelho emoldurado. Aos fundos abria-se uma alta e larga porta de madeira clara talhada com o brasão real, dando para uma varanda coberta por um pergolado de madeira igualmente claro, coberto por heras e flores das mais diversas cores, abrigando uma espécie de cama ao chão, recheada de travesseiros e panos finos.

Estava fitando o local admirada com os detalhes que o Rei providenciara para sua amada, enquanto duas aias preparavam a banheira com água quente e sais de aroma amadeirado mesclado com jasmim.

— Está pronta, Majestade – uma das aias respondeu, curvando-se.

— Ótimo. Podem sair – dispensei-as.

Retirei meu roupão assim que saíram. Virei-me para o espelho e analisei a imagem refletida. Via uma mulher ruiva com olhos tempestuosos que demonstravam firmeza. As cicatrizes ao longo das pernas e ventre evidenciavam o sofrimento que passara. As mãos calejadas diziam o quanto trabalhou e treinou com armas. Sua aparência não era a mais bonita imagem de se admirar.

Uma lembrança veio fresca e envolveu-me com saudades. Quase podia ouvir sua voz sussurrando em meu ouvido, ainda de olho na imagem.

“— És a mais bela mulher que já encontrei – Jellal dizia, suas mãos passando pelos fechos do vestido.

Quando o tecido caiu ao chão, tentei cobrir-me com as mãos, querendo esconder as marcas que recebi daquele homem que deveria ter cuidado de mim quando meu pai mandou-me para este reino estranho.

Os lábios dele pousaram em meu ombro nu, enquanto as mãos pegavam as minhas com delicadeza. Havia tanto sentimento em seu olhar, apenas com ele conseguia sentir-me segura. Amada. Ele não ligava para as cicatrizes ou para meu passado, apenas me amava pelo que sou e isso bastava.”

Balancei a cabeça e dei as costas para o espelho. Lembrar de Jellal ainda doía. Subi os degraus e direcionei-me para a banheira, afundando-me pouco a pouco na água quente. Para uma pessoa comum, a temperatura seria insuportável, mas para mim estava perfeita.

Mergulhei, isolando tudo ao meu redor e relaxei. Expulsei todas as estratégias, ideias e dúvidas da mente. Foquei apenas na água que me abraçava por inteira. Não sei quanto tempo permaneci debaixo d’água, mas fui interrompida por um chamado insistente.

Emergi, o rosto escurecendo de irritação. Havia avisado que não queria intromissões.

— O que foi?

Ao tom de minha voz, Jenny Realight encolheu-se e baixou os olhos. Não sabia se era devido meu semblante carregado ou minha nudez. Não importava-me, pois havia perdido a vergonha de meu corpo a um tempo.

— Chegou uma carta para a Madame – a loira respondeu, a mão erguendo-se para mostrar a carta.

Reprimi uma risada cética pelo modo como me chamava, pois de Madame não havia nada em mim. Porém, gostava do respeito em sua voz.

— E quem mandou? — questionei, sentando-me na borda.

— Mestre Hades – Jenny respondeu, criando um pouco de coragem para erguer os olhos.

Ela então pegou uma toalha do monte encaixado numa estante e veio até mim. Sequei as mãos e pousei a tolha nas pernas, pegando a carta. Estava para romper o lacre, mas ainda sentia o olhar na moça em mim. Ergui os olhos e lhe olhei séria.

— O que ainda está fazendo aqui? Curiosa?

— Não, Madame… apenas queria comunicar-lhe que o RedFox já acordou.

Jenny fez uma breve reverência e saiu correndo. Soltei um suspiro diante a atitude dela, acredito que José ande assustando demais meus passarinhos. Assim que voltasse teria uma conversa com ele.

A última notícia fez com que eu franzisse o cenho. Não era para ele ter acordado. Atrabos deveria continuar mantendo-o no sono pesado para que não tentasse cometer alguma estupidez, como se matar por exemplo. O fato de desobedecer quase que intencionalmente minhas ordens – tinha lhe ordenado para desacordá-lo por um bom tempo, mas não tinha dito quanto – indicava-me que estava ficando sem paciência sobre o preço que deveria pagar.

Com o coração acelerando, abri a carta. Já imaginando o que conteria. Assim que rompi o selo o papel em minhas mãos iluminou-se e uma projeção fantasmagórica de tamanho real de Hades surgiu, pairando a poucos centímetros do chão a minha frente.

Era um das especialidades de meu antigo Mestre. Ele conseguia anexar Magia nos objetos além de sua especialidade natural com selos. Cobri os seios com a pequena toalha, mesmo sabendo que aquela projeção não poderia se comunicar comigo, já que era uma cópia do que ele havia falado enquanto escrevia a carta. Mas, ainda sim, existia um certo respeito ao me portar diante dele, mesmo que fosse uma imagem.

Como vai, pequena Erza? — iniciou a fala, usando meu apelido de infância – Fiquei muito contente em receber uma carta sua. Confesso que sinto saudades de todos meus pupilos que instruí ao longo dos anos e saber que ainda lembra desse velho senhor, deixa-me alegre.

Dei um curto sorriso. Apesar de ter lhe enviado a carta por razões pessoais e de estratégia, ainda sentia um pouco de afeto pelo Mestre, pois foi um dos primeiros a ver a minha capacidade.

Não sabia de sua família aí por Fiore! Desculpe esse velho por não estar devidamente informando, mas as notícias tardam a chegar aqui em Stella, onde estou ensinando. Entretanto, você já sabia disso, não é? — ele soltou uma pequena risada.

De fato sabia que ele estava em Stella, um reino um pouco distante de Fiore e Ghaléia. O que era bom, pois para Hades, eu ainda era a pequena Erza que ele ensinara e que teve o azar de fazer coisas erradas no reino natal, tendo de se mudar para Fiore. Ele não tinha acesso as últimas aventuras minhas, pois se soubesse, não se comunicaria comigo com tanta facilidade. Afinal, Hades pertence a Ghaléia e sua lealdade é para com o Rei Jude, e se Jude apoia a investida contra mim, Hades também apoiaria.

Fico contente em saber que suas meninas se interessam pelas histórias que lhe contei enquanto jovem. De fato a história do Celestial Negro é deveras interessante, bem como a categoria de Estrelas Caídas, ou Demônios, como preferir chamar.

Havia mentido na carta, dizendo que contava as histórias dele para as duas que estavam chegando e que elas se interessaram por uma parte dela, pois não havia outro método de lhe questionar sem levantar suspeitas sobre o por que do assunto.

Respondendo sua pergunta, o preço requerido pelos Demônios pode variar de acordo com o gosto de cada um. Em sua maioria eles preferem almas, como um prêmio de consolação para quando voltarem ao submundo que foram exilados. A Estrela Caída do conto era de fato Atrabos, e este tem um gosto peculiar de almas. Prefere as puras. Puras seriam aquelas que nunca tiveram contato com Magia, pessoas comuns que jamais tiveram Magia tocando em sua pele. Apesar de no conto ele não ter especificado devido a tragédia que ocorreu.

Aí estava a resposta que queria.

E eles gostam de garantir a alma, ou o preço pedido. Com precaução de que terão o devido pagamento ao encerramento da invocação. Já ouvi relatos de que as emoções negativas desses Demônios lhes dão força. Quando lhes é negada a garantia, no caso um contrato de sangue daquele que a alma será colhida, eles ficam irados e consequentemente poderosos, podendo romper a Magia de controle do Mago que o invocou, levando a alma do invocador como punição.

Senti um leve arrepio descer por minha espinha, lembrando do recado de Jenny. Rogue acordara. Atrabos tinha interrompido uma ordem minha sob meu controle. Precisava dar-lhe seu preço urgentemente.

Enfim, acho que era tudo o que tinha por aqui para sanar a dúvida de suas garotas. Gosto quando se interessam pelos assuntos. Deveria lhes incentivar ler mais, com certeza darão tão inteligentes quanto você. Peço desculpar por ter que partir agora, mas o jantar está pronto e preciso comer. Um forte abraço a ti, minha querida. Espero notícias suas!

Com isso a projeção apagou-se e o papel escureceu, ficando apenas a assinatura elegante de Hades no meio do papel como recordação de que a mensagem existira um dia.

Peguei-me pensando com cuidado sobre tudo o que ele havia contado. Logo após a invocação de Atrabos, o Demônio exigiu seu preço pelos serviços, mesmo eu tendo pegado seu coração como forma de controle dele durante a invocação. Com um rabisco no chão de terra, ele escreveu Uma alma pura. Como ele não falava, não conseguia tirar dele o significado de seu preço, precisando recorrer a Hades. Pois, foi através de uma história contada pelo meu antigo Mestre que tive a ideia da invocação.

Tendo todos os detalhes que precisava, saí da banheira e vesti-me com o roupão deixado pelas aias. Em pouco tempo já havia me deslocado para meus aposentos e enfiado-me num vestido cinza com detalhes em prata. Escondendo o colar que sempre carregava dentro do decote, pois era ele quem permitia a invocação continuar ativa, saí pelo corredor, direcionando-me ao aposento privado de Rogue, onde ele estava sendo mantido preso.

Quando adentrei no recinto, deparei-me com Atrabos escorado na parede leste, olhando divertido para o rapaz que encolhia-se na parede oposta, segurando um atiçador como arma. Provavelmente horrorizado com a imagem do Demônio.

— Olá, Vossa Graça – saudei, irônica – acordaste mais cedo que o previsto – continuei, dando uma olhada significativa para Atrabos.

Em resposta, ele virou seus olhos sem alma para mim, como se me desafiasse, lembrando que ainda não tinha lhe apresentado seu preço, conforme Hades me informara. Sua postura diante mim, mostrava que o alerta era real e que a raiva dele estava lhe dando poder para se sobrepor ao meu controle.

Felizmente isso se encerra agora mesmo.

— Aliados interessantes você tem – Rogue comentou, sem se mexer.

Atrabos, faça-o se sentar e largar esse estúpido atiçador. Quero conversar com ele a respeito de sua alma – ordenei, sentando-me em uma das duas poltronas que ladeavam a lareira do local.

Entendendo a explicação oculta em minha fala, Atrabos relaxou a pose e ergueu a mão em direção a Rogue, forçando-o a fazer o que mandei.

— Minha alma? — ele questionou, arisco.

Existiam dois motivos por ter mantido Rogue como estava. O primeiro era para que ele não se reunisse com os Lordes e propagasse minha invasão, e o segundo era que após o conflito ser encerrado precisaria eliminá-lo para que não houvessem riscos a minha governança. Era engraçado como ele se tornaria uma peça valiosa para meus planos, pois sua alma era pura. E dar-lhe como pagamento a Atrabos cairia perfeitamente no plano de matá-lo ao encerrar de tudo.

— Ouvi dizer que gosto muito de contar histórias – iniciei, ignorando sua fala – e devo concordar. Afinal, o que vou fazer agora é lhe contar uma.

— Histórias como foi esperta e conseguiu o Castelo? Se for essa, devo lhe dizer para aguardar um pouco antes de cantar vitória, pois ouvi através de seus guardas que meu irmão escapou – ele retrucou, zombeteiro, indicando com o queixo a porta.

Uma centelha de irritação veio fácil a mim, incitando meu lado negativo. Mas, lembrando do destino que ele teria em pouco tempo, consegui ignorar sua ousadia. Por um lado, gostava de sua língua afiada, seria entediante dialogar com um medroso, clamando misericórdia por sua vida. Entretanto, não deixaria seu desafio passar em branco.

— Essa por enquanto não – respondi, balançando uma mão em descaso – assim como não é a mentira que Lucy vem esfregando em seu nariz desde que pôs os pés em Fiore.

Rogue franziu o cenho, mas não falou nada.

Sabia que tinha lhe plantado a semente da dúvida.

— Nada a declarar? Que pena – instiguei.

— Está querendo me colocar contra minha esposa. Não vai funcionar, Erza – ele falou, sua voz calma.

— Como o amor é cego. Não consegue nem ver a mentirosa com quem casou. Mas, meu coração adoece em lhe ver com essa venda nos olhos. Deixe-me ajudá-lo – fingi puxar um pano imaginário de seu rosto – Lucy é uma Maga.

Rogue olhou-me por poucos segundos antes de se recuperar.

— Seus antepassados eram. Você a queria pelo sangue e herança que ela carrega. Lucy contou-me sobre seus objetivos assim que regressou a Crocus – ele contou, recusando-se em acreditar no que eu dizia.

Dei uma risada.

— Ah, sim! De fato eu precisava do sangue dela para um objetivo. Uma arma diria. Está vendo Atrabos ali? — indiquei o Demônio com a mão e erguendo as sobrancelhas – precisava do sangue dela para trazê-lo. E sabe por quê? Apenas o sangue de um Mago Celestial pode invocar Estrelas Caídas. Se Atrabos está aqui é porque Lucy é Maga.

Rogue encostou-se no respaldo da poltrona, surpreso. Dava para notar em seu rosto como se sentia traído pela esposa. E com esse choque, era o momento perfeito para iniciar o que pretendia fazer quando entrei ali.

— Agora, se me permite. Quero contar-lhe a história que havia comentado anteriormente – voltei a falar, ajeitando-me na poltrona – Magos Celestiais sempre me interessaram muito, sabia? Desde que conheci Lucy achei sua Magia repleta de possibilidades. Imagine poder invocar Estrelas que possuem diversas habilidades! Assim, pedia ao meu antigo tutor para contar-me contos sobre esses Magos. Havia um em especial que me deixava intrigada, pois mostrava o lado obscuro dessa Magia.

“O conto narra sobre um casal que vivia em harmonia, ele um Mago Celestial e ela uma Maga Elementar. Tiveram uma linda criança, mas a mesma acabou sendo morta pelos aldeões por medo da Magia. O pai ficou enfurecido com a injustiça e resolveu se vingar daqueles que fizeram mal a sua criança, matando todos da Vila usando suas Estrelas. Porém, devido ao fim que utilizou sua Magia, seu coração ficou negro, tornando-se um Mago Negro. Sua esposa já não reconhecia aquele por quem se apaixonou e ficara devastada pelas atrocidades que ele vinha cometendo a cada dia.

Para dar fim ao tormento de seu marido, a mulher buscou um método que pudesse matá-lo. Ela sabia que não existia volta para ele, e o mesmo havia ficado forte demais para que ela fizesse aquilo com as mãos. Descobriu um ritual escondido nas coisas deles, um que poderia invocar Estrelas Caídas, servos que se perderam nas depravações do mundo ou que mataram seus Mestres. Ela só precisava do sangue de seu esposo por ele ser um Mago Celestial, embora escurecido, e um símbolo carregado de poder.

Dia após dia, fingiu que estava tudo bem em seu casamento. Durante a noite ela colocava um pouco de seu poder no símbolo e picava o dedo de seu esposo, retirando gota a gota até que o frasco estivesse cheio. Quando todos os itens estavam prontos, realizou o ritual e invocou uma Estrela Caída, que na verdade era um Demônio. O ser invocado cumpriu com sua tarefa e matou o marido, entretanto seu serviço tinha um preço. Uma alma. Uma vida. Assim, entristecida pelo que teve que fazer, ela deu a própria vida como pagamento.”

Ao final do conto enxuguei lágrimas falsas, como se tivesse ficado emocionada com o desfecho trágico do casal.

— O Conto de Mavis e Zeref – Rogue comentou, seu rosto neutro.

— Oh! Que surpresa! Você já sabia! — exclamei, falsamente. Apesar de internamente estar realmente surpresa pelo seu conhecimento.

— Um antigo Mestre de meu irmão contou-lhe este conto, que por sua vez repassou para mim. Alguns detalhes ficaram de fora, como a Magia Celestial e o Demônio – ele estava recuperando a pose pouco a pouco.

— Interessante – contemplei.

Rogue soltou um suspiro e me olhou um pouco irritado.

— O que pretende com isso, Erza? Veio até aqui, instigou-me contra Lucy e agora narra uma história para crianças. O serviço de cuidar do reino está tão tedioso assim?

Apesar de Rogue ser uma pedra em meu sapato devido sua posição de Rei, se nos encontrássemos em uma situação diferente, poderia me interessar por ele.

— Gosto de manter as pessoas informadas sobre o que pretendo fazer – falei, levantando-me e voltando-me para Atrabos — seu preço para este serviço era uma alma jamais tocada por Magia, certo? — O demônio assentiu – Pois, bem. Aqui está o pagamento – finalizei, indicando Rogue.

O rapaz tentou pular da poltrona assim que anunciei, mas o demônio que estava ávido pelo seu pagamento o imobilizou com rapidez. Com poucos passos se aproximou do Rei, as mãos em garras próximos da pele macia dele.

— Lembre-se de que só pode levá-lo ao findar da invocação – alertei, pousando uma mão em seu braço, ignorando os arrepios de nojo que subiram por mim.

Atrabos limitou-se a me olhar com desdém e afundou duas garras no braço de Rogue, fazendo o monarca soltar um lamúrio de dor.

Estou confirmando o pagamento. Mesmo que eu não recolha sua alma para mim no fim do serviço, ele ainda pertencerá a mim – encarei um pouco enjoada a voz grossa e obscura do demônio sair pela boca de Rogue, os olhos dele tornando-se leitosos.

A compreensão daquilo chegou até mim.

— Está marcando-o.

Sem me dizer nada a mais, voltou sua concentração a Rogue. Retirei minha mão de seu braço, observando com um pouco de fascínio e pavor enquanto Atrabos forçava Rogue a beber goles de seu sangue negro através de um corte no braço.

Ao final de tudo, o rapaz caiu no chão, debatendo-se. De sua boca saía uma leve espuma. Perguntava-me se precisava fazer algo para auxiliá-lo, mas já havia entregado a vida dele ao demônio, não cabia a mim ajudá-lo.

Quando por fim levantou-se, estava mudado.

Se não tivesse presenciado a cena, poderia dizer que haviam trocado o Rei por outra pessoa. Seu cabelo cresceu, chegando a sua cintura, e ganhou uma tonalidade branca, permanecendo do antigo cabelo apenas uma franja negra que escondia o lado direito do rosto. No lado esquerdo, uma marca negra adornava-lhe o olho, desde a têmpora, descendo até o meio do rosto. Pelo que conseguia enxergar, seu olho direito havia sido destruído e transformado-se numa cicatriz que se estendia até seu nariz.

A aura que ele carregava não era mais limpa, havia algo asqueroso o envolvendo, quase como uma Magia escura.

— Você anexou sua Magia nele – falei para Atrabos, finalmente entendendo a transformação e o porquê de ser uma alma pura, sem contato com Magia.

Somente uma alma pura poderia receber uma nova Magia.

Atrabos confirma sua fala e diz que ganhaste um novo aliado – o novo Rogue falou, reverencia-me.

Devido a marca em sua alma, os dois deviam ter uma ligação mental. Olhando para tudo o que ocorreu de um modo estratégico, o pagamento me saiu uma ótima situação. Sorrindo, aproximei-me de Rogue e lhe estendi a mão.

— Seja Bem-Vindo.

Notas finais
E então, o que acharam? Capítulo grande, né? hahahaha. Prometo não me estender tanto nos próximos ^^ Quero agradecer a todos que leem, comentam, favoritam e recomendam. Sigilo é o que é por vocês S2 E estou ansiosíssima pelas teorias de vocês! Pois, estão cada dia mais criativos e mais perto da verdade, haha. Um beijo a todos e até o próximo!