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2 Capítulo 1 - Lembre de mim
Notas iniciais
Se ouvir uma voz
Dentro da escuridão
Diminuindo a solidão
Lembre de mim
Se o toque da mão
De alguém sentir
A te conduzir
Quando o caminho parecer errado
Lembre de mim
It Will Be Me — Melissa Etheridge
—----- ****------
— Vai com Deus, Nora
— Amém
Essas eram as palavras-chave de todos os dias depois que ela havia retomado sua independência após o acidente. Sua mãe havia desenvolvido um protecionismo exacerbado, mas ela entendia e não ligava. Saiu de casa, no mesmo horário de sempre, pra continuar sua rotina. Pegar ônibus com dificuldade, descer com dificuldade e ir para as aulas da faculdade que havia parado, ou melhor, nem chegado a começar.
Faziam 3 anos desde o episódio mais triste de sua vida. Ficou no hospital público por cerca de 1 ano em coma e quando acordou, teve que enfrentar um longo processo de reabilitação devido ao enfraquecimento de seus músculos e em decorrência da perda da perna direita que precisou ser amputada.
A muleta era sua melhor amiga e com o tempo, passou a ter melhor domínio sobre ela, podendo, assim, voltar a faculdade. Como as condições financeiras de sua família eram baixas, utilizar próteses estava fora de cogitação.
Caminhando em direção a sua sala, ela viu um rapaz de cabelo castanho-claro, vestindo uma jaqueta de time da NBA. Seu coração doeu. Aquele não era seu Tiago, mas alguém idêntico a ele. O irmão gêmeo Tony.
Ela não possuía muito contato com o irmão de Tiago, pois, o garoto resolveu morar com o pai. Foi somente depois do acidente que ele voltou pra cidade. Já havia ouvido falar que ambos eram bem diferentes em personalidade. Tony era mais irresponsável, preferia viajar a estudar, gostava de sair muito e estar entre amigos o tempo todo. Tiago era mais calmo e reservado, sua faculdade de Engenharia era levada bem a sério, não à toa suas notas eram quase sempre as melhores da turma.
No entanto, Tony havia voltado, talvez pela morte do irmão, ele tinha mudado um pouco. Entrou na faculdade de Engenharia Mecânica e passara a ter um pouco mais de responsabilidade. Ao virar, o garoto viu a namorada do seu falecido irmão caminhando em direção ao pavilhão de salas do bloco da saúde e resolveu acompanhar.
— Nora — Chamou Tony — Quer ajuda?
— Não precisa, estou bem, obrigada — Recusou a oferta, pois era doloroso olhar pra ele e não lembrar de Tiago.
— Ok, acho que entendo você — Havia percebido o jeito que a garota o olhava. Parecia sofrer.
— Vocês são idênticos. Desculpe Tony, ainda estou me acostumando — Era um processo lento que já durava 2 anos. Ainda não havia se habituado a ausência. Também pudera, os dois haviam se conhecido na infância.
— Não se preocupe — Disse, por fim, acenando condescendente com a cabeça e se afastou.
O resto do dia de Nora, fora exatamente a mesma coisa dos outros. Matérias sendo jogadas na cara dos alunos por professores sem vontade de dar aula, encarar o olhar de pena das pessoas e mais tormenta para pegar o ônibus da volta.
No entanto, não resistiu a vontade de descer naquele lugar. Ela nunca havia ido desde que saíra do hospital, talvez por medo. Era como se enquanto não visse com seus próprios olhos, a realidade não cairia em cheio em si. Todos os dias passava na frente e somente olhava pela janela, o grande cemitério, mas dessa vez resolvera descer e visitar a lápide que nunca vira.
Entretanto, era melhor nunca ter visto.
Tiago Farias Andrade
* 16/01/1994 + 05/03/2014
Aquilo doeu na alma. Como se todo o peso da dor que perdurara durante aqueles anos, houvesse se fundido e a atingido naquele momento sem hesitação.
As lágrimas rolaram, molhando o chão. O choro era doloroso de ouvir para quem estivesse por perto. Era alto, desesperador.
Clima em cemitério parecia diferente. Podia-se dizer que ultrapassava 40° em escalas de tristeza. Mesmo que você não conheça, é fácil visualizar quantas pessoas não passaram por ali e se desesperaram como Nora.
Se você tem um familiar, amigo, amante, uma pessoa especial que já tenha partido deve imaginar como é o sentimento opressor da perda.
Nora ficou ali apoiada na muleta por longos minutos enquanto as lágrimas desciam. E assim como o clima triste, o céu fechou e nuvens carregadas apareceram. Não demorou muito para o céu derramar junto com a garota, gotas pelo chão, como se estivesse lavando sua alma.
Ela não sabe quanto tempo se passou, mas começava a escurecer. Estava chegando a hora do cemitério fechar. Enxugou as lágrimas e voltou ao ponto de ônibus com os olhos inchados.
Chegando em casa, jogou suas coisas e foi tomar um bom banho. As cicatrizes nas costelas não deixavam mentir as inúmeras cirurgias que tivera.
— Nora, minha filha, chegou tarde hoje — Sua mãe falou quando ela saiu do banho.
— Eu... — Pensou em mentir e dizer que estava fazendo trabalho da faculdade mas pra quê? Sua mãe a conhecia tão bem — Eu fui visitar o Tiago.
O olhar da sua mãe mostrou certo susto e depois ficou triste. Ela levantou, mandou Nora esperar um instante e saiu. Quando voltou, trazia uma caixa média na mão.
— Eu esperei um bom tempo pra lhe dar isto aqui — deu uma batida na caixa — Mas agora, tenho certeza que você está pronta.
— Pronta?
— Sabe, Nora — Sua mãe sentou-se em sua cama com a caixa no colo — Você estava em negação durante tanto tempo que eu estava pensando em lhe entregar assim mesmo, mas foi bom ter esperado. Você sabia da morte de Tiago, mas você nunca havia enfrentado ela. Era como se, no fundo, você achasse que ele estava por aí é um dia voltaria — Sua mãe estava mais do que certa sobre aquilo — Mas ele não vai voltar e ele deixou isso aqui.
— Essa caixa? O que tem nessa caixa? — Ficou intrigada com aquela colocação.
— Ele não sabia que iria morrer, é claro, isso não é uma despedida — Samanta, sua mãe, fez questão de dizer — Isso é uma chance de seguir em frente.
— Eu estou seguindo em frente, mãe — Respondeu como se fosse um absurdo ouvir aquilo.
— Está e não está. Você está seguindo no automático e sem um propósito — Falou — Mas venha ver isto aqui — Começou a abrir o pacote.
Nora se aproximou e assistiu sua mãe tirar as coisas que estavam ali. Basicamente, haviam 2 livros, 5 Cds é uma folha de papel solta.
— Bom, esses livros são diários — Começou sua mãe — Tiago começou a escrever um ano antes do acidente e tem muita coisa boa de vocês aqui neles, mas está inacabado, é claro. Aqui são CDs que não estão todos gravados. Esses 3 aqui estão cheios — Levantou 3 CDs com um adesivo amarelo — E esses outros estão virgens ainda. Esta folha tem uma lista de coisas pra fazer — Levantou a folha preenchida com a letra de Tiago.
— Mas o que? — Nora não entendia tudo aquilo — Por que ele estava fazendo isso?
— Ele pretendia lhe dar no final daquele ano, como um presente. Eu não sabia se seria bom você ter essas coisas enquanto estava em negação, mas parece que não está mais.
Nora pegou um dos diários e se emocionou ao ler uma passagem sobre uma simples saída deles ao shopping. Ela não sabia se queria ler essas coisas.
— Mas mãe...
— Eu sei — Respondeu enxugando uma lágrima teimosa — Não é pra você ler, é pra você escrever. Você deve completar este diário aqui — Pegou o diário azul e colocou em suas mãos — Você tem que escrever sua vida agora. O que você está fazendo e seus sonhos. Tenho certeza que ele amaria saber como você está indo bem.
— E os CDs?
— Grave as músicas que você gosta, passe seu humor pra eles. Tiago gravou as preferidas dele aqui nesses 3, assim como aquelas que o remetiam a alguma situação. Escute-as e grave as suas. Na lista tem algumas que ele não gravou e tem coisas que pretendia fazer com você. Sabe, Nora, leia o item 10.
Ela pegou a folha e leu.
10 — Levar Nora no Café gourmet que vai inaugurar
O café gourmet já havia inaugurado e era uma das vontades de Tiago ir lá realmente. Mas ela iria lá? Sozinha?
— Você quer que eu vá sozinha? Mãe...
— Não, chame seus amigos. Chame Vic.
Victoria era, talvez, a única amiga que havia lhe sobrado. Ela já não tinha muitos e as que tinha já haviam se formado, se mudado e/ou até casado. A amizade havia se perdido. Vic não. Ela estava se formando naquele ano, mas nunca deixou de estar presente na vida de Nora.
— É, pode ser — Disse pensativa. Não seria má ideia e seria uma forma de espairecer.
— Agora, termine de se arrumar e desça. Seu irmão está chegando. Daqui a pouco coloco a janta na mesa.
— Tudo bem, mãe.
Pegando um dos CDs, colocou no computador e deu play. A primeira música a soar não podia ser mais apropriada para o momento. It Will Be Me.
Essa é a música de um filme infantil chamado "O irmão urso" que ambos eram apaixonados. Aquela que estava tocando era a versão original, em inglês, composta por Melissa Etheridge.
If you hear a voice in the middle of the night
Saying, it will be all right, it will be me
If you feel a hand guiding you along
When the path seems wrong,
It will be me
Dessa vez Nora não chorou. Ela sorriu com a nostalgia daquilo. Talvez, devesse seguir em frente e não no modo automático como sua mãe havia dito. Tiago gostaria disso. Ele não era egoísta.
Seu celular vibrou na cama com a chegada de uma mensagem. Era Vic.
Nora, eu tenho uma coisa pra te contar *-*
Deveria ser uma boa notícia. Logo, respondeu.
Você tá namorando agora é?
Ela brincou
Como você sabe? #Chocada
O que??? Era somente uma brincadeira. Vic não havia lhe contado sobre crush algum. É, talvez, tenha estado tanto tempo no automático que não havia prestado atenção.
Na verdade estava brincando, mas como assim?? Você nem me falou que existia alguém na mira!
E a conversa continuou com Vic explicando a situação. Nora havia ficado feliz e um pouco triste. Justamente agora que saíra da bolha teria menos tempo com a melhor amiga. No entanto, Vic não era tão cheia de grude namorando e isso era um ponto positivo.
Lembrou-se de quando falou pra ela que estava namorando Tiago. Ela foi a que mais torceu por aquilo e só faltou soltar fogos na rua.
Vic, vamos no Café Gourmet?
Enviou. O primeiro passo para a superação é entender que seguir em frente não é esquecer as pessoas que partiram e sim, que a vida pode acabar a qualquer momento e você não vai ter vivido tudo aquilo que sonhou.
Como Tiago brincava dizendo: Pra todo game over, existe um play again. O seu Game Over aconteceu no acidente e ainda não havia tido coragem pra apertar o play sem ele. Mas bem, a vida era dela. Se ela não morreu ali, algum propósito havia.
Claro, quando?
Assim, Nora deu "Play Again" no seu destino.
Amanhã, depois da aula.
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