Side

1 Capítulo 1


Side
Caverna
“Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto.
Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imaginam um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.”
“Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.”


Um sonho estranho, aquele. Sonhei que acordava em algum outro lugar tão branco e puro que meus olhos arderam no primeiro instante. A princípio pensei que estava morto, mas não estava. Na verdade, não sabia dizer se estava, afinal, deste sonho tão estranho jamais voltei a acordar, e se não acordei, poderia estar morto.
Estava confuso. Branco nunca foi minha cor favorita, me irrita a imensidão branca e confunde minha realidade. No mundo real, tudo era mais colorido e bonito; o sol, o céu, as árvores, até mesmo o próprio branco. Ali, onde quer que seja o lugar daquele sonho, era tudo desbotado e morto. Dor era o que eu sentia, como se há muito não enxergasse. Não se pode sentir quando se está morto.
Havia pessoas no lugar, vestidas de branco. Outras vieram me visitar, minha família ou algo parecido com isso, foi o que eles disseram ser. Estavam contentes com algo, embora estivessem desbotados, distorcidos.
“Isso é um sonho”, disse a eles, e como resposta, apenas sorriram e diziam “Não”.
“Se isso não é um sonho, onde estão os outros?”, perguntei, e eles não responderam, “Outros? Que outros?” “Seja quem for,” responderam depois que expliquei sobre meus amigos do mundo real “Não existe, foi um sonho, está de volta agora”.
De volta. Um sonho. Também sonhava dentro do sonho? Isso já aconteceu, um sonho com camadas, como uma boneca russa, quanto mais dentro do inconsciente, mas profundo o sonho, mais difícil acordar.
Depois de alguns anos, pensei ter me afogado, descobri que nunca mais acordaria.
Distorcido. Grotesco. Eu acordei em um mundo vazio, mas ninguém parecia entender ou acreditar que eu vivia em mundo de sonho. O mundo real era mais... real, inconcebível a ideia de aquele mundo de sonho era verdadeiro, no Mundo real, o Mundo de Fôrmas como era chamado, eu era um criador! Ali, era apenas um doente louco morando com pessoas que não me lembro de ter conhecido.
Aqueles que diziam ser minha família se tornavam cada vez mais estranhos, assim como eu para eles, a perspectiva era a mesma.
Várias pessoas me analisaram querendo saber mais, pensando que em mim habitava alguma doença que manipulasse e turvasse meus sentidos. Eles foram chamados por aqueles que viviam comigo e insistiam para que eu os chamasse de nomes como pai e mãe, mesmo eu insistindo em dizer que eles não eram nada disso para mim. Pobres almas condenadas a viver em um mundo cavernoso, escuro e desbotado como aquele. Ao meu redor, via apenas sombras.
Em tal enigma, procurei soluções para acordar daquele pesadelo. De que modo cheguei lá? Dormindo, na verdade, não me lembro de ter adormecido no mundo real, o que é comum, afinal, em sonhos, nunca sabemos como aparecemos no lugar onde estamos. Se foi dormindo, poderia sair do mesmo modo.
Mas não funcionou. Sempre que dormia, sonhava normalmente e acordava no mesmo mundo de sonhos. Mais camadas de sonho! “Não posso dormir mais”, pensei “Se dormir, novas camadas serão criadas, ficarei ainda mais preso nesse lugar”. Então parei de dormir.
Nos sonhos, temos a sensação de nos locomover mais devagar, naquele sonho, eu me locomovia normalmente, embora isso poderia bem ser uma ilusão de meu cérebro, acostumado aquele mundo e sua forma estranha de locomoção, nesse ponto, teria eu me adaptado ou estaria mesmo me movendo em um ritmo normal? Teria meu corpo físico se acostumado mais rápido que minha própria mente? Sobre isso, jamais conheci a resposta.
Nos sonhos, tudo parece real, ao menos quando você sabe que está sonhando. Eu sabia, e sabia que aquele mundo não era real.
Nos sonhos, podemos sentir dor, tristeza, alegria ou frio. Naquele eu também sentia. Fome é uma coisa que geralmente não se sente nos sonhos, mas se pode comer e sentir o sabor das coisas, embora quando comemos em sonhos, sempre acordamos com um terrível gosto na boca e o estômago embrulhado.
No começo daquele sonho eu comia normalmente. Então percebi que estava cometendo um erro! Como no Jardim de Perséfone, se comer da fruta deste jardim, permanecerá para sempre em Hades. Então, para me distanciar da fome daquele mundo e de suas comidas e coisas que me prendessem a ele, parei de comer (e também porque não queria retornar para o mundo real com uma terrível dor de barriga).
Sem dormir, sem sair de casa ou comer, esperei acordar e retornar.
Primeiro, amnésia. Disseram que anos atrás eu havia me acidentado e, portanto, fiquei dormindo durante muito tempo e, portanto aquilo poderia ser alguma perda de memória.
Depois, loucura. Disseram que minha mente estava perturbada e tal perturbação poderia ter sido causada por lesões na minha cabeça.
Eu retornei ao branco. Mas desta vez era um lugar diferente do que eu havia acordado no mundo de sonho. Minhas palavras ao explicar meu comportamento levaram aqueles que diziam ser minha família a me colocarem naquele lugar. Depois se despediram de mim; “É para o seu próprio bem” foi à frase que os levou embora e nunca mais os vi.
Tantos homens de branco me visitaram e a todos eles eu contei que era um sonho que eu estava, e todos eles disseram que era um caso grave.
Eu retornei ao branco desbotado, com o passar, esperei voltar ao meu mundo real naturalmente, do mesmo modo que havia ido parar naquele sonho, mas isso jamais aconteceu.
Nunca imaginei que tantas pessoas poderiam viver em um sonho. Por tentar lhes ensinar que aquele mundo não era o real, me fizeram cativo em um lugar escuro.
Eu retornei ao escuro vazio. Foi desse modo que fiquei preso dentro do mundo que eu chamei de sonho, os outros o chamavam realidade.


“E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale à pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria se pudesse fazê-lo?”

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