Shugo Tenshi
1 Recepção
Notas iniciais
Eu estava lá, no topo do prédio onde moro, Olhando para os pequenos pontos que se uniam lá embaixo, eu apenas chorava... Coloquei um de meus pés a frente do meu corpo, de modo que me equilibrava em um só pé, um deles me posicionava em uma vida cruel e o outro me levaria ao descanso eterno, só então eu saltei...
A queda me pareceu demorada, e o vento forte secava as lágrimas do meu rosto, e um fogo intenso tomou conta de meu coração, o arrependimento surgiu, mas Já era tarde, eu havia escolhido morrer. Logo observei uma irradiante faixa de luz que vinha em minha direção, seria o anjo da morte? Seria alguém a me salvar? Foi então que acordei, foi um dos sonhos mais realísticos que tive até agora, pude sentir o vento, a amargura... Mas esse era de longe o fato mais estranho do meu dia que estava a iniciar.
Era um Sábado, a droga de um Sábado! Levantei-Me e escovei os dentes, e logo deitei novamente, seria mais um tedioso dia de Sábado, trancada no meu apartamento, longe da minha família, entediada e rodeada de estranhos... Decidi me arrumar para sair um pouco, tinha de comprar algo novo para ler.
Vesti um vestidinho preto que deixava visível meus ombros magros, e ia até o joelho. Procurei até achar dinheiro e penteei meu cabelo de modo que parecesse algo normal.
A livraria mais próxima ficava em um Shopping ali perto, que infelizmente era freqüentado por patricinhas e riquinhas da mesma escola que eu, mas eu tinha de ir lá.
Sentei-me em uma das mesas da praça de alimentação e decidi ligar para minha mãe, que me deu um de seus calorosos "Bom dia meu amor... ''
–Como vai minha pequena?
–Vou bem mãe! –disse em um tom rude o bastante para mostrar o quanto não gostava que se referissem a minha altura-
–Bem mesmo? Então, como vão as amizades?
Droga, fazia quase quatro ou cinco meses que me mudei pra fora da minha cidade para estudar em um colégio de alta qualidade, um desses que tem de passar em prova e tudo mais, e minha mãe continuava me perguntando se fiz amigos, pois é, eu não fiz!
–Vou bem mãe e meus amigos também!
–Estava indo agora mesmo recarregar seus cartões, pra que você possa sobreviver ai, pagar o seu aluguel, ai.. ai.. Minha filha esta crescendo, e antes da hora pra falar a verdade!
–Mãe!!
– Filha, Não tem nada que queira me contar?
Eu senti um refluxo subir a minha garganta, e queimar aos poucos a minha laringe.
–Pra falar a verdade eu..
Um vulto negro passou por mim e meu celular caiu no chão, ele resistiu à queda, mas o susto que levei foi enorme, e só conseguia ouvir a voz de minha mãe, chamando meu nome pelo celular, e sua voz ia se destorcendo aos poucos, se tornando grossa e assustadora. Mas a única coisa em que conseguia reparar agora, era no que estava em minha frente! Um homem alto, encapuzado, sorria para mim, não via seus olhos, nem seu rosto, apenas seu sorriso amarelo! Eu estava parada em estado de choque, e então ele passou a mão em minha testa me marcando com uma espécie de tinta e dizendo a mim:
– Veja o mundo onde vive, sofra com ele, e enlouqueça por ele!
–Eu já sofro com o mundo onde vivo –retruquei-
– Veja o mundo onde vive, sofra com ele, e enlouqueça por ele!-disse ele novamente-
O homem encapuzado saiu de lá e só então percebi que tudo á minha volta havia parado e adquirido um tom envelhecido, eu só via pequenas luzes negras saindo de dentro das pessoas, luzes que se uniram e formaram uma moça de cabelos longos e ruivos, seus olhos emanavam um tom de roxo que nunca havia visto antes, até que seus cabelos se tornaram secos e seu corpo esguio, ela então abriu uma boca enorme com dentes de variados tamanhos, o bastante para me fazer gritar, naquele momento apenas estava parada gritando, quando então decidi correr sem nem saber pra onde ir, tudo estava parado, todas as pessoas em um tom envelhecido, como se fosse um filme que alguém havia dado ''pause".
Eu preferia morrer a olhar aquela imagem horrenda novamente, eu gritei histericamente, até que comecei a chorar e só então me recordei de um fato que ocorreu anos atrás comigo ... Apenas um fragmento de minha Memória...
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