Show Me Love
3 Capítulo 2
Notas iniciais
“Já percebeu que nos momentos em que você mais precisa, não tem ninguém lá?”
No dia seguinte tudo ficou pior do que eu podia esperar. Uma dor de cabeça enorme, que não me fez sequer conseguir procurar por uma aspirina me atingiu logo assim que acordei com a claridade da janela, que estava meio aberta.
Um vento gelado entrava no quarto, e quando eu consegui abrir os olhos consegui ver a grande bagunça formada por potes de sorvete abertos no chão, embalagens e a TV ligada passando um episodio da primeira temporada. O fato de os personagens estarem fazendo barulho apenas piorou tudo.
Normalmente, eu odiava bagunça. Sempre andava atrás da minha mãe na cozinha, colocando os ingredientes no lugar, jogando fora o que não poderia usar. Ela ficava irritada por eu andar sempre atrás dela, mas com o passar do tempo ela viu nisso uma coisa boa: a de não ter que lavar a louça e nem arrumar a cozinha. O cheiro de louça limpa era uma coisa que eu sempre gostei, talvez por que eu ficava ao lado da minha avó conversando enquanto a mesma lavava os pratos do almoço que eu havia tido com ela.
Mas, naquele instante, tudo o que eu quis foi cobrir a cabeça e fingir que a bagunça não estava ali. Me virei na cama e percebi que estava deitada em cima do controle da televisão, e a desliguei. Mesmo assim, a minha cabeça latejava freneticamente e nem esfregar as têmporas adiantava.
Tentei dormir, mas nenhuma posição me parecia boa o suficiente. Ou meus braços doíam ou o zíper da minha blusa atrapalhava. Eu deitei então de barriga para cima, olhando para o teto.
De repente, um forte enjôo me fez sair correndo da cama para o banheiro. Abri a tampa do vaso sanitário e me debrucei sobre ele, colocando todo o sorvete da noite passada para fora. Era a pior sensação do mundo. Fechei a tampa e encostei-me na parede, fechando os olhos e tentando respirar fundo diversas vezes. A tontura por ter levantado tão rápido da cama me fez pensar que poderia morrer agora mesmo.
Comecei a listar todas as coisas que doeriam menos. Provavelmente, morte por guilhotina. Deveria ser rápido certo? Puxou, cortou e acabou. Ou então... Pular de um prédio muito alto. Sessenta e sete andares. Você provavelmente não vai estar vivo lá embaixo. Cólica, talvez?
Tentei me levantar algumas vezes, mas todas sem sucesso. Queria apenas me arrastar até a cama e dormir. Quando finalmente consegui, o simples fato de respirar fundo o cheiro de vários sabores de potes de sorvete me fez querer voltar ao banheiro, mas eu duvidava muito que tivesse energia para tal. Mesmo assim, com uma força sobre humana eu consegui colocar sabe-se-lá-o-que que poderia ter dentro de mim ainda.
Me apoiei sobre a bancada de mármore frio em volta da pia, abri a torneira e tentei jogar água no rosto, pescoço e pulsos, para tentar aliviar. E, não sei de onde consegui forças, mas ainda consegui escovar os dentes – com as mãos tremendo, já que nem tudo é perfeito – antes de dar a descarga e sair do banheiro.
A minha vontade era de, mais uma vez, cair na cama e não sair nunca mais. Só que os enjôos provavelmente continuariam. Então, contrariando todo o meu cansaço, recolhi os seis potes de sorvete, me perguntando como consegui comer tudo aquilo. Fechei a janela e as cortinas, deixando o ambiente mais quente e escuro.
E então, depois de colocar tudo em um lixo que eu tinha perto da mesa do computador, fui á busca de uma aspirina. Achei um ultimo comprimido da cartela em uma das gavetas ao lado da cama e engoli sem água.
Consegui deitar, e me virando diversas vezes, por uns vinte minutos, me dei por vencida. A dor de cabeça não me deixava dormir. Uma vez, Meredith havia me dito que quando você estava de ressaca ou chorava muito, era necessário tomar diversos copos de água, já que o seu corpo procurava água nos neurônios. Na época eu duvidei, mas talvez não fosse mentira, afinal.
Desci as escadas, e enquanto bebia a água foi que eu me dei conta sobre Meredith. E William. Juntos. Na mesma cama. Se beijando. E então eu entendi que aspirina nenhuma poderia resolver o problema. Nada poderia resolver o problema.
Normalmente, quando algo estava errado, era um dos dois – ou para os dois – que eu ia desabafar e pedir ajuda. Mas eles quem eram o problema agora. Para quem eu deveria contar?
Por nunca ter sido exatamente muito sociável, eu tive poucas amizades, que começaram bem cedo, na infância e se prolongaram por anos. Meredith era um desses casos. Eu a conheci com sete anos, na escola primária, e desde então nós nunca mais nos desgrudamos. Isso fez com que outras possíveis amizades não existissem para nós duas, mas estava tudo bem, por que sempre seria Edith + Kylie, certo? Errado.
E então eu me arrependi. Me arrependi de ter recusado á ir no parquinho com outras garotas. De todas as coisas que eu fiz terem sido com ela. Me arrependi por dez anos da minha vida. Sem perceber, minhas mãos começaram a tremer, e o copo vazio caiu, formando diversos cacos no chão.
O baque me assustou, e isso foi o suficiente para que eu começasse a chorar de novo. Agachei e me pus á recolher o que restava do copo, não conseguindo ver muita coisa com as lagrimas grossas.
Até que um caco escorregou na minha mão, fazendo um corte na palma da mão. Tentei secar o rosto para conseguir ver como estava o corte, mas o fato de estar ardendo me fez ter vontade de chorar de novo, de novo e de novo.
Cansada e me dada por vencida, escorreguei até ficar sentada com o queixo apoiado no joelho, os braços em volta das pernas. De alguma forma, pareceu mais aconchegante.
Poderiam ter passado horas, dias ou meses e eu ficaria naquela posição. A minha cabeça mais parecia como um filme, em que imagens minhas e de Meredith passavam rapidamente. A nossa primeira viagem que fizemos juntas. Os trabalhos de escola. Todas as festinhas de aniversário. Os segredos que compartilhamos. As saídas escondidas para as baladas. Quando eu a ajudei com a decoração do quarto dela. Eram tantas coisas que eu poderia ficar o resto da vida me lembrando de cada detalhe. Cada detalhe que eu sempre dei tanta importância e, no final, não eram importantes para ela.
O resto passou como um borrão. Minha mãe perguntando o que havia acontecido, a expressão assustada dela. Ela me ajudou a levantar e ligou a torneira, colocando a minha mão debaixo da água. Acho que ela também disse algo como “vai ficar tudo bem” antes de me colocar sentada e sair. Algum tempo depois, ela estava com a caixinha de primeiros socorros, que eu sequer lembrava que nós tínhamos. Ela pegou algum esparadrapo, passou uma pomada na minha ferida – que parecia ser apenas superficial – e então enrolou pela minha mão.
Não estava exatamente doendo, era apenas algo que incomodava. Depois, ela me ofereceu um copo de água, e me ajudou a subir as escadas. Eu deitei novamente na cama, e ela sentou-se ao meu lado, deixando a porta fechada e a única claridade era o abajur ao lado da cama.
–Meredith te ligou. Chorando.
Disse ela após alguns minutos, enquanto eu quase pegava no sono. Isso foi o suficiente para me fazer ficar alerta novamente.
–Kylie... O que aconteceu?
Por eu não dizer nada, ela soltou um longo suspiro e levantou as mãos para o alto.
–Tudo bem! Não vou perguntar mais.
Isso me fez ficar um pouco mais aliviada. Eu não queria explicar a historia inteira de novo. Não queria nem lembrar da historia inteira de novo. Minha mãe estava quase saindo do quarto quando eu me lembrei de algo.
–Mãe. – ela se virou para mim, apoiando-se na porta – Eu não quero falar com a Meredith. Nem com o William.
Ela franziu a testa e parecia estar prestes a me questionar novamente, mas acabou se lembrando do que havia dito antes e pareceu desistir.
–Tudo bem. Só... Não fique assim, OK?
E antes de ela fechar a porta novamente eu ouvi-a dizer baixinho “adolescentes”.
Eu acordei novamente, totalmente desnorteada. Será que já era outro dia? Ou era ainda de tarde? Tateei pela cama em busca do meu celular, mas não achei. A vontade de ir ao banheiro me obrigou á levantar da cama.
Quando eu me olhei no espelho, com o cabelo todo desarrumado, olheiras e olho inchado eu quase não me reconheci. Joguei um pouco de água no rosto e sai, sem dar a mínima para a minha aparência desastrosa. O som da minha barriga roncando me levou até a cozinha, que por sinal estava vazia.
Meus pais haviam deixado um bilhete na geladeira, avisando que havia comida pronta, apenas para esquentar.
Abri a geladeira e peguei o prato envolto em papel alumínio, colocando em cima da bancada. Removi o papel, me deparando com espaguete ao molho branco, com almôndegas. O cheiro estava tão bom e a minha fome tão grande que eu quase comi frio. Coloquei no microondas por um minuto, e enquanto o timer não apitava fui em busca de um relógio. Odiava estar perdida no tempo.
O relógio da sala marcava oito horas, e olhando para fora da janela, percebi que era da noite. Por quanto tempo eu dormi?
Peguei um garfo na gaveta do armário e subi para o quarto novamente. Fiquei em duvida do que assistir, mas acabei colocando em um canal qualquer, que passava sobre a vida das Kardashian.
Enquanto eu comia, lembrei de coisas das quais eu não deveria me lembrar mais. Que espaguete era a comida preferida de William. O jeito que ele comia. As noites que eu passava na casa dele e o pai dele, que era um ótimo cozinheiro, fazia esse prato.
Quando os meus olhos começaram a arder e eu já previa que ia chorar, sequer fiquei com vontade de comer, jogando o resto de comida fora e deixando o prato na pia.
Voltei quase que rastejando de volta para a minha cama, em que eu assisti á diversos programas, sem sequer estar realmente prestando atenção.
Eram duas da manhã quando um enjôo me fez acordar e correr até o banheiro. Voltei cambaleando até a cama novamente, mas não consegui dormir. Quando eu mudava de posição, ela se tornava automaticamente desconfortável. Seria estranho se eu dormisse tanto e ainda conseguisse pegar no sono novamente.
É engraçado como você continua remoendo algo na sua cabeça, repetidas vezes, até que você consiga decorar tão bem na sua cabeça que é capaz de enlouquecer.
Eu amo Meredith agora. Eu amo Meredith agora. Eu amo Meredith agora...
Quantas vezes ele falou que me amava?
A primeira vez, no estacionamento da escola. A segunda... Bom, na frente da casa dela. E as outras eu não contei, é claro, mas não precisava para saber que eram muitas.
E então ele simplesmente resolveu, de uma hora para outra, amar outra? Meredith, ainda por cima?
Eu queria ligar chorar no colo de alguém nesse momento. Mas também queria ficar sozinha, e me olhar como o ser mais deplorável do mundo. Bom, a pessoa mais deplorável do mundo eu já era. Tudo ao mesmo tempo. Era difícil escolher algo quando a única coisa que você conseguia pensar era William e Meredith.
Quando você dá conselhos ás pessoas, falando “não pense nele”, “ele não te merece” parece tão fácil. Como apertar um botão. Um botão que te faz pensar “nossa, como eu deveria seguir em frente!”, assim, magicamente.
Mas é claro que não é assim.
Bom, agora eu consegui me dar conta de que não era assim. E então, antes de conseguir pegar no sono, pensei que nunca mais ia dizer essas frases, por que realmente não gostaria de ouvi-las.
Os cientistas descobriram que nos primeiros dez segundos que você acorda, você não se lembra de nada, por que o seu cérebro ainda não se “ligou” totalmente.
Esses foram os dez segundos mais felizes do meu final de semana, que se dividiu entre vomitar após as refeições (pelo menos a maioria delas), chorar, ver algo na TV sem realmente prestar atenção, me lamentar, ficar com vontade de enviar mensagem, muito sorvete (uma das únicas coisas que não dava enjôos com tanta freqüência), relembrar de tudo, tentar esquecer de tudo, e um pouco mais de sorvete. Ah, e ficar no quarto o tempo inteiro.
Meus pais passavam pelo menos dez vezes por dia no quarto, perguntando se eu estava bem. Talvez por que tivessem medo que, em baixo de tantos cobertores, potes vazios e colheres, estivesse um cadáver da filha deles.
E a resposta era sempre um “sim” forçado, como se eu sempre quisesse dizer o contrário.
Algumas vezes, pensei em dizer o motivo. Mas não queria parecer tão patética, isso magoaria meu orgulho.
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