Show Me Love
2 Capítulo 1
Notas iniciais
“É incrível como minutos podem mudar toda a sua vida.”
Apertei a campainha da casa pela segunda vez, mexendo minhas mãos nervosamente nos bolsos do casaco. Não era a primeira vez que eu ia na casa de William de noite, enquanto os pais dele viajavam, mas aquela vez era diferente.
O fato de alguns postes de luz terem se apagado de repente e a rua estar escura me fazia tremer dentro do sobretudo, embora eu estivesse com calor. Apertei uma terceira, quarta vez a campainha e peguei o celular, enviando rapidamente uma mensagem procurando por ele.
A janela do segundo andar tinha uma luz acesa, que mais parecia a da escrivaninha, então ele estava em casa. Não podia não estar.
E então, enquanto eu sentia que poderia colocar tudo para fora pelo nervosismo (ou talvez pela outra coisa), eu pensei na porta dos fundos da casa, que costumava ficar aberta já que a senhora Sttaff, mãe de William, sempre se esquecia das chaves. Olhei para os lados mais uma vez e caminhei rapidamente até a parte de trás. Situações desesperadoras pedem medidas desesperadas, certo? Com esse pensamento na cabeça para não me sentir culpada eu subi as escadas até a porta cinzenta.
Abri a porta e no minuto seguinte me arrependi de tê-lo feito. A cena que se passou diante dos meus olhos, sem eu conseguir acreditar num primeiro momento me fez balançar a cabeça negativamente.
William e Meredith só perceberam a minha chegada alguns segundos depois, e olharam assustados para mim. Os outros detalhes pareciam mais como um filme de terror, em que as cenas pareciam mais pausadas do que o normal, para assustar as pessoas. E estava conseguindo. William sem camisa. O cardigã de Meredith no chão. Resquícios de batom vermelho na boca de ambos. Cabelos desgrenhados. Dois rostos surpresos.
E eu. Como uma mera telespectadora. Antes eu havia sido uma das pessoas mais importante da vida dessas pessoas. E agora eu estava de lado, vendo algo em que não podia acreditar.
Em contraste, no minuto seguinte tudo passou de forma abrupta.
–O que é isso?
Foi a única coisa que eu consegui falar, baixa e quase inaudivelmente, mais para mim mesma. Nem um dos dois respondeu, eles apenas se levantaram e ficaram me olhando horrorizados. Como se eles fossem as vitimas. Isso foi o suficiente para eu começar a gritar.
–O que é isso?!
Eu percebi que estava esperando uma resposta quando ela não veio e isso me fez ficar mais irritada ainda. É claro que não tem uma explicação boa o suficiente para te fazer entender o que o seu namorado estava fazendo com a mão dentro da blusa da sua amiga.
–O que vocês fizeram?
Eu comecei a andar pelo quarto e á passar a mão pela franja, jogando-a para trás compulsivamente, enquanto os dois ainda continuavam mortificados. Eu fui até Meredith e comecei a chacoalhá-la, sem saber direito o que estava fazendo.
–Por quê?
Seus olhos se arregalaram e William me segurou, enquanto ela caia sentada na cama novamente.
–Você... Você disse que era o entregador de pizza...
Foi o que ela conseguiu dizer, balançando a cabeça.
–O que? – olhei de um para o outro, sem entender, mas depois desisti – Não importa! Você!
Apontei para William.
–Você disse que eu era tudo para você! Como você pode? Com a Meredith! E você! – apontei para a morena do outro lado – Você disse que não gostava dele! Por que agora?
Meredith começou á chorar com as mãos no rosto enquanto eu não conseguia sequer pensar.
–Kylie.
William me chamou, mas eu apenas conseguia ouvir como se fosse á quilômetros de distancia, e não apenas á centímetros. Sequer conseguia me mover.
–Kylie. — chamou novamente, com as mãos nos meus ombros. – Me escuta. Eu não quis fazer isso. Eu não quis te enganar. Eu gosto muito de você. Mas eu amo Meredith agora. Eu não quis...
Eu não sei quando parei de ouvir o que ele disse e nem quando consegui recolher meus membros e pensar em ir embora. Eu só sei que corri como nunca até a porta. E depois da porta corri ainda mais. Só consegui recuperar o fôlego perto de uma loja de conveniência, que não era muito perto da casa dos Staffs. Minhas pernas e cabeça doíam, mas meu coração sequer existia mais.
Eu não podia simplesmente ir para casa – eu sequer agüentaria isso – chorando. Isso levaria á muitas explicações á serem feitas, e no momento eu não conseguia sequer explicar á mim mesma o que tinha acabado de ver.
Por isso, ignorei o olhar interessado da atendente e peguei a chave para o banheiro feminino. Sentei em cima da tampa do vaso sanitário e comecei a chorar. De inicio, apenas algumas lagrimas, até que meus olhos começaram a arder e os soluços começaram. E então pararam. E então recomeçaram.
Eu não fazia a mínima idéia de quanto tempo havia se passado enquanto eu remoia a cena milhares de vezes. Pensando que talvez eu não devesse ter entrado aquela hora. Se eu simplesmente tivesse pensado que ele deixou a luz da escrivaninha acesa sem querer. E então tivesse dado meia volta e ido para casa. Talvez eu devesse ter pegado uma gripe de ultima hora e ficado de cama. Meus pais podiam ter sugerido uma janta em família. Meredith podia... Ah. Meredith não. Era tão fácil pensar em Meredith que eu nem percebi que ela também era culpada pelo meu choro. E isso fez com que os soluços recomeçassem.
Até baterem na porta.
–Você está bem?
Provavelmente ela deveria estar checando se eu não morri; o que me fez pensar se o meu estado era tão ruim assim. Eu tentei responder, mas a primeira vez foi mais um sussurro.
–Desculpa, foi uma pergunta idiota. Saia um pouquinho daí.
Eu me levantei lentamente e passei as mãos debaixo dos olhos. Não adiantaria muito, mas talvez ajudasse um pouco. E então abri o fecho da porta, vendo Mathy me esperando.
–Ah, garota... O que aconteceu com você?
A mulher de quase quarenta anos que eu conhecia tão bem nunca veio em tão boa hora. Mathy era irmã de uma das amigas da minha mãe, o que me fez crescer indo até a casa dela.
Ela me levou até uma mesa com duas cadeiras fora da loja e se sentou na minha frente.
–Pode começar a falar.
Eu sorri fraco e fiquei pensando por onde começar. E então, me lembrei mais uma vez do que havia acontecido mais cedo, respirei fundo e comecei a contar.
O melhor de Mathy eram as expressões dela. Ela era a melhor pessoa do mundo para se contar novidades – e fofocas – e, talvez, seja por isso que ela sempre queria saber primeiro de todas as coisas. Apesar disso, era uma ótima ouvinte, e só divulgava o que não fosse constranger ninguém.
Era o tipo de pessoa que todos gostariam de ter por perto, e eu sentia pena de quem não fosse gostar. Nas vezes que eu lhe contava boas novidades ela sempre fazia expressões de surpresa, mesmo que, no fundo, já soubesse. E sabia me colocar para cima em um minuto quando as noticias eram ruins. E os conselhos... Eram simplesmente conselhos que você não podia deixar de ouvir nunca.
E enquanto eu contava tudo e encharcava a minha camiseta e os lenços de papel que ela havia me dado, eu percebi que tinha feito a coisa certa mesmo sem nem pensar. Ela começou a fazer expressões de reprovação ou raiva e eu podia quase ver um bloco de anotações na cabeça dela, para que ela falasse tudo o que queria assim que eu terminasse.
Tinha até mesmo uma linha para isso. Primeiramente, a raiva e indignação.
–Esse cafajeste... Ele era tão “eu sou lindo e sei disso”. Mas a verdade é que ele era mais um idiota do que qualquer outra coisa. Você acredita que uma vez ele disse que o meu Drew parecia com um rato? Afinal, onde no mundo gatos podem ter meio metro e serem de três cores? Desde aquilo eu soube que ele tinha um parafuso á menos. Onde é possível, um fato se parecer com um rato? Pobre Kylie...
Depois, sorvete.
–Espere aqui um minuto. Vou ligar para a sua mãe e avisar que você está comigo.
Ela voltou menos de cinco minutos depois, com dois potinhos de sorvete que eram vendidos nesse tipo de loja, em pequenos frigobares. Ela os colocou na mesa, e por cima, as colherzinhas. Verde para mim, vermelho para ela. O sabor do meu sorvete era de morango, por que eu odiava sorvete de chocolate.
E então os conselhos.
–Sabe, um termino de relacionamento não é o fim do mundo. Você pode não saber disso, mas uma vez eu namorei o mesmo cara que a minha amiga. Ele era bonito e todas o queriam. Pena que era um idiota. E então, minha amiga descobriu, e bem, nós não nos falamos. Esses dias ela até mesmo tentou jogar suco na minha blusa. Ah, aquela mulher... Ela sabia que era uma Docce e Gabana! Enfim, não importa. Eu consegui desviar á tempo. – isso me fez rir um pouco, e quase engasgar com o meu sorvete – Mas voltando ao que importa, não foi melhor você descobrir? Teria sido pior confiar mais tempo ainda nos dois, e então depois de anos descobrir isso. Eu sei que está doendo. Mas não vai durar para sempre. Poderia ter sido pior. Você poderia ter sido enganada por uma vida inteira ou então ele poderia terminar com você dando outros motivos, quando, na verdade, o culpado era ele. E não, você não foi culpada por isso. Em toda a minha vida eu nunca vi uma pessoa que merecesse ser traída, e com certeza, você não vai ser a primeira, Kylie. Isso, no fundo, não importa. Vai doer amanhã. Ah... Vai doer como a morte. Depois de amanhã e na semana que vem também. Daqui alguns meses vai estar quase cicatrizando. E então, um dia, você vai agradecer por isso ter acontecido, por que fala sério, você não ia suporta-lo por muito tempo. O cara não gostava de Friends! Ninguém que não goste de Friends é confiável... Tsc tsc.
E, por fim, ela cuidava de mim como uma mãe.
Ela fez isso quando eu parei de chorar. Me mandou lavar o rosto algumas vezes, para que o meu nariz não parecesse vermelho demais. Apesar de os meus olhos estarem inchados, depois de pentear os cabelos com os dedos e prende-los num rabo de cavalo, eu já estava melhor. Pelo menos, dava para entrar em casa.
E quando eu sai do banheiro, e falei que estava OK, ela me levou até em casa, uns três ou quatro quarteirões dali. O caminho foi silencioso — dentro do possível que poderia ser com Mathy.
Quando chegamos na porta de casa, eu me virei para ela com curiosidade.
–Mathy, como você sabia que era eu no banheiro?
Ela sorriu amorosamente, e depois de apertar a campainha respondeu.
–Eu simplesmente soube. E é claro, eu tive ajuda das minhas amigas, câmeras de segurança. A atendente do outro turno me avisou que tinha uma garota possivelmente chapada que não saia do banheiro e que era melhor checar para não termos o CSI na nossa porta. Isso me deixou meio triste, é claro, por que quem não queria o Garet na minha porta, não é? E então eu tive que checar.
Eu ri enquanto ela me abraçou. E então, colocou uma sacola na minha mão e disse:
–Estoque de sorvete. Uma das coisas boas em se trabalhar em lojas são os cupons grátis. Minha querida, você não sabe como eles são maravilhosos para assistir TV no sábado á noite.
Eu estava rindo e agradecendo quando minha mãe abriu a porta com o avental na cintura, meio suja de algo que eu penso ser massa. Ela saudou Mathy com os típicos beijinhos na bochecha, e depois fez o mesmo comigo, menos formalmente.
–Ela deu uma passadinha na loja e então eu a acompanhei até em casa.
–Obrigada, Mathy. Quer entrar? Daqui alguns minutos pode sair a minha maravilhosa torta de maçã.
–Maravilhosa?
Mathy torceu o nariz e então todas nós rimos. A torta da mamãe era horrível.
–Hoje eu passo, obrigada Ivy.
Recusou ela.
–Tudo bem. Boa noite.
Minha mãe disse fingindo estar contrariada, mas no fundo, ela sabia muito bem que não possuía muitos dotes culinários – apenas o de ligar para o Delivery. Nos despedimos de Mathy e minha mãe fechou a porta.
–Já comeu, Kylie?
–Sim. Estou com sono, acho que já vou dormir mãe.
Menti. Não tinha comido nada, mas também não conseguiria comer. E muito menos dormir tão cedo. Mas sem saber de nada ela apenas assentiu e foi para a cozinha terminar a tal torta.
Antes de subir as escadas eu peguei um copo de água na cozinha e uma colher, que ia ser bem útil para a minha noite de filmes e series.
–E meu pai?
–Ele foi para a noite do Golf, você sabe como ele é as quartas.
–Sei.
Dei-lhe um beijo na bochecha depois de colocar o copo na pia e enfim subi.
Olhando para o meu pequeno catalogo de filmes e series ao lado do aparelho eu pensei se deveria optar por algo de comedia. Ou então drama. Drama estava mais de acordo com o meu humor e por isso escolhi um episodio triste de Friends, quando Rachel e Ross se separam. Apertei o botão, coloquei o disco e então comecei a chorar.
Não prestei muita atenção na TV que iluminava o quarto escuro ou então no episódio que escolhi, que ainda tinha um pouco de humor, por que apesar de tudo, era Friends. Pensei em como invejava o fato de que gostaria de conseguir ter um pouco de humor e fazer piadas com o que havia acontecido, assim como Rachel.
Alguns potes de sorvete e muito choro depois, eu acabei pegando no sono, com a TV ligada mesmo.
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