Short Stories - Romione
4 Uma Partida de Xadrez
Notas iniciais
Hermione entrou na sala e não se surpreendeu ao ver a cena que se passava. Seu marido e seu filho fitavam um tabuleiro de xadrez bruxo. Ambos estavam igualmente centrados. Encostou-se ao portal e cruzou os braços, observando o acontecimento que se repetia quase todas as noites dos últimos meses.
Rony e Hugo estavam frente a frente, duas cabeleiras vermelhas se destacando a luz da lâmpada. Era perceptível a semelhança entre os dois, desde as testas franzidas pela concentração as mãos unidas sobre o queixo.
Hugo às vezes parecia uma versão em miniatura do pai, porém ainda com o rosto arredondado característico da infância e a boca pequena, mas de traços firmes, o que fazia Hermione dizer que ela havia sido desenhada.
Mas o que ela mais adorava eram os olhos azuis que transmitiam tudo que se passava em seu interior, e era isso que Rony tentava fazer, ler na expressão do filho o próximo passo que ele daria.
Alguns segundos se passaram e Hugo mexeu seu bispo, deixando o pai em xeque. Rony franziu ainda mais a testa diante do fato. Hermione não conteve o riso. Ela se divertia ao ver como o marido e o filho levavam aquelas partidas a serio.
Era sempre assim, enquanto ela arrumava a cozinha após o jantar e Rose subia para estudar ou ler, os dois se dirigiam a sala e iniciavam uma partida, ou, ainda, continuavam uma que haviam deixado pendente em uma noite anterior.
O tabuleiro permanecia sempre no mesmo lugar, pronto para o próximo duelo, em cima da pequena mesinha redonda da sala, onde ambos apoiavam seus cotovelos durante as partidas.
Ronald pegou uma das peças e com uma pontada de hesitação, a moveu. A mulher viu o filho se mover minimamente na cadeira e soube que o viria a seguir. Aqueles movimentos do pequeno lhe eram totalmente reveladores, ela conseguia lê-los tranquilamente.
Os dedos infantis moveram uma peça e naquele momento algo extraordinário aconteceu: pela primeira vez, desde sua entrada em Hogwarts, Ronald Weasley perdia uma partida.
Hermione fechou o riso e franziu o cenho. Ela nunca pensara na possibilidade de ter de lidar com isso tão cedo, pois mesmo que o filho houvesse herdado o jeito do pai para o tal jogo, ela esperava que isso só acontecesse anos à frente.
Foi por esse motivo que ela deu alguns passos, se aproximando quase inconscientemente. O filho não se movera muito, mas o rosto estava radiante, um risinho se abrira revelando os dentes da frente, levemente salientes. Era o mesmo riso que ela via em Ron sempre que ele sabia ter feito algo do qual devia se orgulhar.
O ruivo mais velho permanecia estático pela surpresa e ela começou a ficar apreensiva. Nunca imaginara a reação dele naquela situação. Sabia que se havia uma coisa da qual o marido sempre se orgulhara era de que ninguém conseguia superá-lo quando o assunto era xadrez.
Lhe preocupou que a derrota para um garoto de nove anos, que ainda tinha medo do escuro e do bicho papão, pudesse causar algum impacto negativo no ego já frágil do marido, pois por mais que a maturidade o tivesse fortalecido, Ron ainda era capaz de acessos de infantilidade que ela sabia que não o abandonariam.
E foi por isso que quando a cara de espanto sumiu e deu lugar aos olhos brilhantes de orgulho que a morena percebeu que não porque se preocupar.
Ronald estendeu a mão para o filho e esperou que ele encaixasse a mão ainda pequena ali.
– Parabéns meu garoto! — exclamou ele, a voz travando levemente — Você arrasou! Hugo ampliou o riso e o fato de seu pai ter confirmado sua vitoria estampou em seu rosto a empolgação contida e fez sua voz sair alta.
– Eu arrasei mesmo, não foi? – ele estava exultante.
Ron apenas moveu a cabeça num gesto afirmativo. O garoto não conseguiu mais se conter e pulou nos braços do pai, batendo na mesinha e bagunçando as peças, mas isso já não importava mais para o pequeno.
O maior apertou ainda mais o menor, com a consciência de que ele crescia e que não seria mais seu garotinho por muito tempo. Quando Hugo começou a falar ele o soltou.
– Papai... — Ron percebeu a relutancia.
– O que foi meu filho? — incentivou.
– Você... Bom... Você não me deixou ganhar, não né?
Ronald sorriu mais uma vez para o filho e falou com calma, sabendo que assim suas palavras seriam ouvidas com mais atenção.
– Não meu filho, eu não te ajudo desde que você completou sete anos.
O menino abriu a boca numa mostra de surpresa.
– Sério? — ele saltitava agora pela sala.
– Seríssimo — confirmou.
Os olhos do pequeno reluziram novamente.
– Rose precisa saber disso! Ela fica se achando só porque já vai pra Hogwarts e todos dizem que ela vai ser uma ótima aluna, mas ela não é capaz de vencer o senhor e eu sou!
Correu escadas acima sem dizer mais uma palavra sequer e deixando os pais se fitando. Ambos riam e Hermione sentou no braço da poltrona, se aconchegando ao marido, sentindo o prazer da sensação de conforto que aquilo lhe passava.
– Pode falar – disse ele prevendo que ela tinha algo a dizer sobre o que se passara.
– Você se saiu muito bem – respondeu ela, sem mais explicações, sabia que ele entenderia.
– O que você esperava que eu fizesse? – perguntou ele, rindo, mas ela sabia que no fundo ela dava mais valor ao seu julgamento do que desejava demonstrar.
– Não sei – ela foi sincera, como normalmente era – Mas fico feliz que você tenha agido assim. Isso é importante para ele.
Ron puxou a mulher para o seu colo antes de lhe responder.
– Eu sei. Porque é importante para ele do mesmo modo que era para mim.
– Era? – perguntou a morena, surpresa pelo uso do verbo no passado.
– Sim – disse ele e sorriu – Mas agora eu descobri coisas mais importantes.
E sabendo que teria pouco tempo antes de Hugo retornar arrastando Rose consigo, beijou a esposa intensamente.
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