Shooting Star
1 Shooting Star
Notas iniciais
Duas estrelas vibrantes e azuis assistiam, sem pestanejar, o cintilar das demais que iluminavam o céu. Aquilo havia se tornado um hábito há alguns meses.
Assim que se via livre de todas as suas obrigações e os servos finalmente o deixavam só em seus aposentos, o imperador dedicava seu tempo à admirar o céu daquela ampla sacada.
Sentado no beiral de madeira, indiferente às longas e pomposas vestes que podiam atrapalhá-lo, inconscientemente ele estendia uma mão em direção àqueles pontos brilhantes, a mesma direção na qual ele havia desaparecido.
Por mais que tanto tempo tivesse passado, Hakuryuu não se conformava com as palavras de Aladdin e, todos os dias, rezava para o retorno daquele que não era apenas seu magi. Pena que o ditado é bem certo, só se valoriza algo ao perder aquilo que era tão especial e não conseguíamos enxergar seu valor até darmos falta.
Com os dedos abertos em direção ao azul infinito, Hakuryuu sorria com os olhos cerrados.
- Você vai voltar, não é? — ele indagou com um suspiro, recolhendo a mão e a levando até o centro de seu peito. — Por favor, eu preciso dizer o quanto você é importante para mim… Volte, Judal! — clamou num sussurro.
Afagou a si mesmo, sentindo os pêlos de seu corpo se arrepiarem com a brisa fria da noite. Mas não queria entrar. Não queria se deitar.
Ficar ali lhe proporcionava uma sensação tão confortante. Era como se soubesse que estava sendo observado por ele, uma das estrelas daquele céu.
Tão exausto que estava diante de tantas atribulações que aconteciam em Kou ultimamente, e perdido em seus pensamentos, acabou adormecendo ali mesmo. Com os braços cruzados em volta do corpo, sentado naquele beiral.
Nem percebeu quando as contas daquela coroa foram afastadas. Apenas sentiu uma mão masculina tocar suavemente em seu rosto e afagar o lado que era maculado por aquela cicatriz.
Abriu os olhos vagarosamente e demorou focar aquele que estava à sua frente. Quem era? Droga, será que havia adormecido ali na sacada?
- Sentiu minha falta?
Aquela voz inconfundível fez o coração do jovem imperador saltar. Não podia ser possível.
Ergueu o rosto e foi recepcionado pelo par de rubis brilhantes daquele que sorria abertamente.
Seus lábios ficaram entreabertos, mas trêmulo como estava, não conseguiu falar nada. Começou a balbuciar coisas ininteligíveis ao se levantar, apoiado nos braços de Judal que o ajudou a descer do beiral. O magi ria da confusão na qual Hakuryuu se encontrava.
- Na-não é… não é po… possível… — o imperador gaguejava.
- É claro que é! Não sou um fantasma, vê? — Judal tocou a mão que se apoiava em seu antebraço.
Ele estava certo.
Hakuryuu sentiu aquele calor tão familiar da pele do rapaz que o soltou para segurar as duas maçãs de seu rosto e encará-lo sem vacilar.
- Eu voltei, Hakuryuu! Voltei para você!
Era real e Hakuryuu não tinha mais dúvidas. Sentindo as pernas bambas, ele se lançou nos braços de Judal e o agarrou com tanta firmeza que assustou o magi. As unhas de seu candidato à rei cravavam em suas costas, como se ele quisesse ter certeza de que ninguém tiraria Judal dali, dos seus braços.
- Ha… Hakuryuu? — Judal sorriu afagando as costas do mais baixo, mas logo se surpreendeu ao sentir o corpo do rapaz tremer ao soluçar. Ele estava chorando.
- Eu pensei que nunca mais fosse te ver! — Hakuryuu declarou aos prantos.
Judal suspirou com um sorriso melancólico. Ele mesmo também acreditava que jamais fosse voltar a ver Hakuryuu. E como doía a cada vez que pensava aquilo. 3 anos afastado daquele que mais amava, daquele que finalmente lhe aceitara. Tinha sido tão difícil.
Abraçado ao imperador, Judal se permitiu derramar algumas lágrimas, mas tentando escondê-las para transmitir forças àquele que nitidamente havia sofrido mais do que ele.
As roupas longas e pomposas não escondiam a magreza e aquele par de olheiras não combinava com o rosto tão bonito de seu amado rei.
- Não chore mais. — Judal o afastou, sem deixar de abraça-lo, para admirar a expressão do rapaz. — Olha só, você é o imperador de Kou agora! Haha! Nos livramos da bruxa velha e você se livrou do lixo do Kouen! — Judal tentava animá-lo, dedilhando as lágrimas. — Aliás… — ele então notava os dedos entrelaçados nos seus. — Uau! Você está sem o braço de madeira! — Judal se surpreendeu. — Olha só, tudo o que você conseguiu!
- Mas… mas nada disso tinha sentido… — Hakuryuu tentou esboçar um sorriso, tocando a mão que acariciava seu rosto. — Nunca… nunca me senti feliz em todo esse tempo, Judal…
- Mas por que não? Cumpriu seu objetivo, não? Estou muito feliz, Hakuryuu! — Judal sorria abertamente. Se existia algo que ele gostaria de fazer era realizar os sonhos de Hakuryuu, em especial aquela vingança que ele tanto merecia e o magi sabia.
- Não… Eu… — Hakuryuu tomou a mão do moreno e a levou ao seu peito. — Judal, eu… eu demorei muito, mas eu percebi que… que eu amo você! Eu… — era difícil conter o choro que voltava à acometê-lo ao se lembrar daquele dia. — eu não tive mais forças para seguir em frente depois de te perder!
Aquelas palavras tiraram o equilíbrio de Judal. Que ele amava Hakuryuu não era novidade, mas ouvir aquelas palavras que lhe eram ditas com tanta emoção, era algo que ele realmente nunca esperaria. O antigo príncipe era tão recatado e reservado. Agora estava ali, se declarando e, com a mão apoiada em seu peito, podia sentir as batidas fortes daquele coração que acelerava meio fora de ritmo.
- EU TE AMO, JUDAL! — Hakuryuu praticamente cuspiu. Eram as únicas palavras que poderiam resumir aquela enxurrada de emoções que o dominava, que o corroía, que o consumia. — NUNCA MAIS VÁ EMBORA! EU IMPLORO! — ele prosseguiu.
- Ha-Hakuryuu! — a atitude de seu rei havia sido tão abrupta, que Judal ficou sem reação.
Os joelhos do imperador tocaram o chão, mas suas mãos não soltaram o moreno, puxando suas vestes. Ergueu o rosto para não deixar de encará-lo, afinal, foram três anos privado de admira-lo.
- NUNCA ME DEIXE! EU NÃO VOU AGUENTAR FICAR SEM VOCÊ! EU PENSEI EM ACABAR COM A MINHA VIDA! EU PENSEI EM DESISTIR DE TUDO POR NÃO TER VOCÊ!
- Hakuryuu!!!
Judal estava chocado. Ele era um mero sacerdote do Império Kou e Hakuryuu, sempre orgulhoso e um nobre, agora não mais um príncipe e sim um imperador, estava ajoelhado aos seus pés.
Ele se agachou e segurou o rapaz que chorava pelos ombros. Como doía vê-lo chorar. Como doía vê-lo sofrer. Sentia tanta culpa. O quanto ele havia sofrido enquanto estava distante?
Aproximou-se mais e o abraçou com toda a ternura que podia. Como se quisesse confirmar que jamais o abandonaria, que jamais o deixaria novamente.
- Hakuryuu, eu nunca mais vou te deixar! Eu prometo! Eu juro… — ele se afastou para encará-lo, rubis e safiras numa sincronia única. — pelo meu amor por você!
E com aquela declaração tão intensa, Judal arrancou de Hakuryuu aquela coroa, cujas contas e joías separavam daquela beleza tão singular. Daquele rosto cuja imperfeição dos olhos desiguais, da cicatriz que cobria metade de seu rosto, o tornava único. Seu Hakuryuu.
Tendo visão total do rosto mais maduro daquele que tanto amava, Judal finalmente se sentiu à vontade para consumar o ato que ansiava por tantos anos.
Tomou os lábios de Hakuryuu com paixão. Seguiu em uma busca intensa por mais e mais do sabor que havia na boca daquele rapaz que o correspondeu da mesma forma.
O imperador se pendurou no pescoço de Judal, afundando as mãos nos fios negros que cobriam a nuca do magi, fazendo com que ele se arrepiasse. As mãos de Hakuryuu eram mais suaves que as de qualquer mulher. Aquela carícia só aumentou sua fome por aquele que havia finalmente lhe aceitado… agora por completo.
Guiado pelos instintos e simplesmente não querendo perder mais um segundo, Judal o reclinou para trás, fazendo Hakuryuu se deitar sobre o assoalho de madeira.
O imperador corou sabendo o que aquilo significava, ainda mais quando o moreno começou a despi-lo, desfazendo aqueles laços e afastando para os lados as longas vestes.
Durante todo aquele longo processo, Judal depositava beijos suaves e, algumas vezes, sugava com mais intensidade aquela pele tão alva, deixando ela marcada por hematomas e as marcas de seus dentes que foram cravados ali.
Hakuryuu só podia se revirar de prazer entre gemidos que enlouqueciam ainda mais Judal e o faziam ter mais e mais sede por seu amado. Mas assim que se viu despido na frente do magi, Hakuryuu arregalou os olhos e voltou a se cobrir em suas vestes em completo desespero. O magi ficara surpreso com a atitude do mais jovem.
- O-oe, o que aconteceu? — Judal indagou vendo o imperador de costas enrolado naquele enorme kimono.
- Na-nada. — Hakuryuu gaguejou.
- O que está me escondendo?
E sem a menor cerimônia, ele arrancou aqueles longos e luxuosos tecidos de Hakuryuu e revelou o corpo que era coberto de cicatrizes. Até mesmo em suas pernas.
Praticamente toda a parte esquerda do corpo de seu candidato a rei era marcado por sequelas daquele incêndio que quase havia tirado sua vida na infância.
Hakuryuu permaneceu de costas, abraçado a si mesmo. Judal nunca havia o visto completamente nu e, provavelmente, não tinha ideia de que possuía tantas cicatrizes assim.
Judal analisou um tempo aquelas marcas. Seu peito se comprimiu. Que crueldade haviam feito com ele, pensou.
- P-pode parar, Judal. — Hakuryuu dizia de costas ainda, envergonhado. — Deve estar com nojo de mim agora que viu essas marcas horrorosas…
O imperador soluçava. Certamente seu magi não o via mais da mesma maneira.
Mas assim que pensou que Judal já havia lhe deixado, com asco daquelas marcas que infestavam seu corpo, ele sentiu novamente os lábios dele lhe tocarem. Agora tendo alvo suas costas e aquela parte violada.
- Você é lindo, Hakuryuu… — o moreno pausou as carícias para elogiá-lo. — Como pode esconder um corpo tão bonito? Essas cicatrizes… são únicas… É a prova de que você permaneceu vivo, mesmo depois de tanta dificuldade… — ele o beijava. — Viveu por mim… Me permita te amar como você merece, Hakuryuu.
Estava atônito sentindo os beijos que Judal depositava em todo seu corpo. Sentia-se desejado e amado. Uma sensação que jamais havia sentido antes e há tanto poderia ter sentido, se houvesse se entregado antes, confiado antes, amado antes…
- Eu quero ser seu, Judal… — Hakuryuu se virou de frente para recostar sua fronte na dele. — Por favor, me ame… — ele entrelaçava os dedos nos de seu magi, cerrando os olhos. — Nunca mais me deixe!
Hakuryuu voltou a abrir as safiras azuis para encarar Judal, pronto para finalmente amar e deixar ser amado por aquele que era o único que poderia lhe fazer feliz. Mas tudo o que viu na sua frente foi… o nada.
- Judal?
Ele piscou, ajeitando-se naquele beiral e percebendo que todo aquele amor, todas aquelas intensas carícias… não passavam de um sonho. As lágrimas caíam como naquela fantasia. A dor do medo de perdê-lo era a mesma.
Voltou a encarar o céu, já estava amanhecendo. Foi quando a porta de seus aposentos se abriu e uma dupla de encapuzados adentraram o lugar.
- Hakuryuu-san!
O mais alto descobriu seu rosto e revelou ser a bela fanalis, enquanto que o mais baixo fez o mesmo, se revelando ser o magi de seu antigo amigo, Alibaba.
- Morgiana-dono! Aladdin-dono!
- Hakuryuu-oniisan, estava chorando? — Aladdin perguntou preocupado.
- Está pálido. — a ruiva comentou.
- Na-na verdade… Não, não foi nada. — ele encarou o céu mais uma vez.
Estamos atrasados! Não pode ir com essas roupas, temos que fugir hoje! — o menor lembrou. — Vamos logo, Hakuryuu-oniisan.
- S-sim...
Hakuryuu estava partindo mais uma vez. Agora sem rumo ao lado de seus companheiros.
E se Judal voltasse? Saberia onde encontrá-lo naquele vasto mundo no qual se perderiam? Não custava pedir mais uma vez.
- Volte, por favor. — sussurrou sua silenciosa prece.
Cerrou novamente os olhos ao encarar aquele infinito azul, não sabendo que naquele momento, uma estrela cadente cruzava os céus.
Seu pedido seria realizado.
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