Shoot into the sky

3 Desisto de tentar inventar um nome


Notas iniciais
Não adiantou nada eu fazer um prazo para mim mesma. Eu simplesmente não consigo escrever rápido, sinto muito. Dei meu melhor para tentar escrever uma coisa decente, mas sei lá, acho que não consegui. Espero que goste do mesmo jeito. Vou revisar melhor depois. PS- mudei uma coisinha no primeiro capítulo. Nada demais, coisa pequena.

Eli foi direto para sua oficina assim que acordou, e acordou muito mais tarde do que costumava. Dormira o dia anterior inteiro, acordando apenas para ir ao banheiro e tomar banho. Por algum motivo não sentia muita fome. E sem falar que as marcas de dedos na pele morena de seu pescoço estavam mais pronunciadas que antes, o que o deixou meio hesitante em aparecer à vista de todos.

Não fechara seus sapatos direito e não se dera ao trabalho de abotoar o macacão, amarrando a parte superior na cintura. Porém não se preocupava com isso. Pensava mais no que faria agora. Será que dava continuidade aos projetos que já tinha ou voltava toda sua atenção para a situação atual? Mas não fazia ideia de qual seria o plano de seus superiores. Será que valeria a pena tomar alguma decisão por si só?

Entrou na oficina, mas parou na porta. Olhou em volta — para o gerador de energia que estava sendo empacotado por uma de suas máquinas, para o tanque que provavelmente ficaria ali parado por pelo menos mais um ano, e seus olhos se fixaram em uma arma em especial, sobre sua mesa. Era a arma que projetara para Janna, que ela se esquecera de ir pegar. Será que se tivesse lembrado, poderia ter se salvado?

Eli balançou a cabeça, afastando os pensamentos. O mundo não girava em torno de si. Tinha sua parcela de culpa, mas não fora o causador de tudo.

Foi até sua caixa de ferramentas e automaticamente começou a recolher as ferramentas que sempre pegava. As colocou nos bolsos. A situação não mudaria, ficasse parado ou trabalhando. Decidiu trabalhar. Pelo menos ocuparia a cabeça com alguma coisa.

Tinha várias coisas que precisava fazer: muitas coisas que realmente tinham um prazo de entrega. Mas não queria fazer nenhuma delas. Naquele momento em que uma fina camada de tensão cobria toda a base militar, não se sentia no humor para fazer algo importante. Queria trabalhar em algo que lhe animasse. Quem sabe quando seus superiores aparecerem com um plano estaria mais determinado a executá-lo.

Se bem que, naquele momento, nada lhe empolgava tanto assim. Todos os projetos que tinha, todos já meio caminho andado, perderam um pouco do brilho que tinham quando os iniciara. Não que Eli desprezasse coisas antigas — gostava tanto delas quanto das novas. Tanto que tinha o rádio de mais de cem anos no canto de sua oficina para provar. Mas gostava da excitação de iniciar algo novo, diferente. E naquele momento precisava daquilo.

Pegara as ferramentas para nada, mas estava com preguiça de devolvê-las a caixa.

Sentou-se em sua escrivaninha (não tão limpa quanto gostaria, mas não tão suja a ponto de incomodá-lo) e empurrou para o canto tudo que pudesse atrapalhá-lo. Abriu em sua superfície a tela que usava para rabiscar, pegou sua caneta digital de ponta achatada e começou a pensar.

Queria fazer algo sem noção. Algo que ou irritasse profundamente seus superiores ou os divertisse, dependendo de quem fosse — mas que fosse útil o suficiente a ponto de eles precisarem utilizar o que quer que fosse, não importando o quão ridículo.

Depois de alguns momentos ponderando entre algo grande ou pequeno, simples ou elaborado, chegou a uma conclusão. Coelhos.

Apenas os muito, muito ricos tinham coelhos de animais de estimação. Assim como cachorros, gatos, hamsters ou qualquer animal de estimação com exceção de peixes. Sem falar que, na opinião do Capitão, eles eram muito pequenos e frágeis e facilmente destruídos.

Por que, então, não fazer um coelho gigante? Isso! Um coelho gigante, como um mecha, só que sem pessoas dentro (seria muito complicado achar um modo para a cabine não sacudir loucamente quando a máquina se locomovesse). Algo que pulasse como coelhos se moveria muito rápido mesmo. Talvez pudesse colocar sensores nas orelhas, que já que seriam longas, teriam um alcance incrível. O focinho talvez possa reconhecer gases venenosos ou materiais em decomposição. E armas! Olhos que atirariam como uma metralhadora.

Eli riu alto ao imaginar o produto final. Seria realmente ridículo um confronto militar onde um coelho estaria na linha de frente. Mas seria um coelho de trinta metros de altura, peludo (Eli fazia questão que fosse muito, muito peludo, só para irritar o Capitão, que teria que limpar o sangue depois), com quase quinze toneladas e que pode se movimentar a mais de 3000 km/h e pular 60 metros. E os olhos que cuspiriam centenas de balas por segundo. Qualquer um se borraria de medo.

Eli faria soldados grandes e fortes correrem com o rabo entre as pernas de um coelho.

Um coelho altamente destrutivo, mas um coelho.

Com uma risadinha e uma empolgação renovada, Eli se pôs a trabalhar. Segurou a caneta da maneira mais confortável que encontrou, tirou os sapatos e os apoiou em seu encosto (que na verdade era uma máquina de café que deu errado e agora servia de apoio). Ajeitou melhor a regata nos ombros e começou a fazer anotações.

As contas que fizera em sua cabeça momentos atrás foram rabiscadas no canto da mesa. Começou um rascunho do que a máquina pareceria.

Eli era um pouco obcecado com coelhos. Nunca tivera um, mas eles eram uma das coisinhas mais fofas que já tinha visto. Tinha uma porção de vídeos e imagens salvos. Portanto, sabia como desenhar um.

Em pouco tempo fez o coelho mais fofo que conseguiu, sem deixar de lado os olhos grandes e pidões e o rabinho pompom que na verdade era completamente desnecessário, mas ficaria bonitinho. Nessa altura seu pescoço e suas costas estavam um pouco doloridos, então só terminou de fazer uma lista do que pretendia instalar na máquina e soltou a caneta. Salvou o projeto em seus arquivos pessoais, para o caso de fechá-lo sem querer, e se espreguiçou.

Levantou-se para pegar um pouco de café da máquina que funcionava. Da forma como gostava, colocou caramelo e creme em sua caneca — um pequeno capricho ao qual podia satisfazer — e aproveitou para pegar uma bolachinha açucarada também. Sentou-se no chão dessa vez, apoiando o copo em uma plataforma redonda vazia ao seu lado.

Enquanto mastigava a bolachinha lhe passou pela cabeça que precisava conversar com alguém. Não importava o quanto se distraísse, precisava de mais alguém para ajudá-lo. E sabia quem poderia.

Levantou o braço e cegamente tateou o painel a que estava recostado. Encontrou, no canto direito, o que achava que podia ser — não tinha certeza, era tudo igualmente liso como vidro — e pressionou levemente. Um sorrisinho se abriu quando um apito soou.

— Ligue para Nehe — disse, tomando um gole do café em seguida.

Alguns momentos e um holograma retangular de uma tela escura com um coelho no meio, que era o plano de fundo de Eli, apareceu. Ele bebeu mais café enquanto esperava. Logo a tela de espera se abriu em um rosto conhecido, que parecia ligeiramente surpreso, mas ainda feliz em ver o amigo.

— Eli! — Nehe exclamou com voz abafada, a boca cheia de pão. — Dois dias seguidos de conversa? Mas está bom aí, né? Bastante tempo livre, estou vendo.

— Na verdade, — Eli começou com uma risadinha — teve uns problemas aqui e sei lá… acho que eu estou precisando de companhia além de um monte de máquinas o dia todo.

O sorriso de Nehe não amarelou, apenas se tornou mais compreensivo. Engoliu a comida que tinha na boca.

— O que houve? — ela perguntou, o tom de voz gentil, olhando em volta para ver se não havia mais ninguém por perto.

E Eli contou. Tudo que presenciara, o que os outros estavam falando sobre a situação. Mencionou também os machucados que tinha, mas não lhes deu muita importância. Citou rapidamente os nomes dos que haviam sido capturados.

Ao fim de seu monólogo Nehe tinha uma expressão séria. Ela não encarava Eli nos rosto, pensativa, ao invés disso fixando seu olhar nos próprios pés. Disse:

— Alguma das pessoas desaparecidas teve algum tipo de comportamento estranho antes do ataque? Alguém fez algo meio fora do comum até alguns dias antes da invasão de Bayston?

Eli vasculhou a sua mente por alguns momentos.

— Acho… Talvez — respondeu. — Mais ou menos uma semana antes Janna fez uma coisa estranha no café da manhã. Ela parecia escutar alguma coisa do aparelho de comunicação dela. Ela tinha me pedido para conectá-la a algumas redes de informações, já que não gosta de não saber o que está acontecendo, então suponho que estivesse escutando a algo do tipo. Daí ela ficou bem chocada por alguma coisa e derrubou um monte de comida no chão. Só que ela nunca comentou sobre o que era.

Nehe assentiu. Nos segundos de silêncio que se seguiram Eli se sentiu apreensivo. Ajeitou-se meio nervosamente onde estava sentado, esperando que ela dissesse algo. Por fim ela apenas sorriu e começou a contar sobre seu dia. Sobre como uma de suas secretárias tentou esconder o filho dentro dos escritórios e ele acabou quebrando dois computadores.

Eli sabia o que aquilo significava. Deixe para lá.

E foi isso que ele fez.

Os dois continuaram conversando por muito tempo. Eli contava suas histórias com gestos exagerados e onomatopéias inventadas, rindo alto das próprias piadas. Nehe era mais discreta nesse ponto, mas seu olhar divertido incentivava o amigo a continuar falando. Ela falava mais baixo, cuidadosa para não ser ouvida por suas secretárias e seus tesoureiros e tudo mais que podia ser enfiado em um governo.

Eli perdeu a noção do tempo, até que sentiu seu estômago roncando. Finalmente parou para olhar em volta. O sol refletia nas janelas do ambulatório direto em sua oficina — o que significava que já devia ser perto das três, ou quatro da tarde. Ficou surpreso por alguns momentos. Nehe percebeu.

— Você não comeu ainda, né? — ela perguntou, um sorriso leve em seu rosto. — Você quase sempre esquece. Eu preciso ir também. Tenho uma reunião daqui a pouquinho.

Eli assentiu, levando a caneca de café a boca — estava frio.

— Eu falo com você depois então — disse. Foi bom ver um rosto amigo.

— Até mais.

O mecânico levantou a mão para terminar a ligação.

— Boa sorte — disse Nehe com o polegar levantado.

E desligou.

… …

Eli conseguiu roubar um sanduíche da cozinha. Não sabia de quem era e na verdade não queria saber. Apenas entrou, viu o sanduíche e levou. Estava faminto, nada iria pará-lo.

Quando entrou em sua oficina de novo já terminara de comer e estava pronto para continuar seu plano para incomodar o Capitão. Com uma renovada disposição acomodou-se em sua cadeira novamente. Começaria agora a trabalhar no projeto em 3D, tentando dar o máximo possível de detalhes a sua máquina assassina. Mal começara a apeluciar as orelhas compridas e alguém entrou na oficina.

Era o mesmo soldado loiro do dia anterior — ele se chamava Isaac, Eli descobrira. O mecânico não se sentiu tão bravo por ser interrompido, então decidiu o receber amigavelmente. Virou a cabeça para a porta, que ficava a sua esquerda.

— Yo — cumprimentou, tomando o cuidado de manter um certo tom impessoal apesar da informalidade.

E esperou o outro dizer qualquer coisa.

Isaac demorou um pouco para falar, como se tivesse esquecido. Encarou Eli por alguns momentos, ao que este estralou os dedos para chamar a atenção do outro, e por fim disse:

— O Capitão quer falar com você. Parece urgente.

— É? Tem que ser agora?

Isaac assentiu. Eli grunhiu e se levantou.

Ao chegarem à sala do Capitão — apenas dois corredores de distância — Isaac lançou um olhar na direção de Eli que o fez hesitar, mas girou a maçaneta e entrou. A primeira pessoa que encontrou foi uma moça de cabelos compridos e vestindo um uniforme completamente sem amassados. O resto do cômodo era bem arrumado, com cadeiras próximas às escrivaninhas e mapas presos às paredes e todas as canetas organizadas por cor sobre a mesa. Era bem diferente do ambiente de trabalho a que Eli estava acostumado.

A moça levantou os olhos de uma prancheta que tinha nas mãos. Seus olhos analisaram Eli de cima a baixo antes de virar as costas e pressionar um botão no painel de sua escrivaninha.

Eli estava apreensivo. Aquilo tinha alguma coisa a ver com o sequestro. Será que eles declarariam guerra contra Bayston?

Não teve tempo de pensar mais. A porta atrás da escrivaninha se abriu e o Capitão estava ali. Eli abriu a boca para cumprimentá-lo, mas o olhar grave em seu rosto o fez continuar quieto. Apenas entrou. Dentro da outra sala — muito maior que a anterior, com estantes cheias de livros e uma grande mesa redonda no centro — havia algumas pessoas já. O segundo tenente, um soldado com quem Eli nunca conversara mas reconhecia como o filho do Capitão e a subtenente.

Esse é o nosso mecânico? — perguntou o segundo tenente.

Eli levantou a sobrancelha ao tom desdenhoso. Sentiu uma ponta de raiva em seu peito. O segundo tenente pareceu não perceber e prosseguiu:

— Parece até um daqueles meninos bonitos que a gente vê na cidade. Aqueles cantores que são parte do pão e circo da população.

Eli cerrou o punho. Estava prontinho para dar um soco naquele oficial metido. Eli era ótimo em seu serviço, extremamente competente. Odiava quando alguém duvidava de suas habilidades, principalmente quando o próprio segundo tenente tinha uma das armas que Eli projetara presa ao seu cinto. Hipócrita inútil.

— Tem certeza que ele faz o trabalho direito?

Ok. Chega. "Espero que o nariz dele não faça falta", pensou Eli, seu peito borbulhando de raiva.

— Aaron — uma voz firme fez todos pararem.

O segundo tenente fechou a boca imediatamente, o ar convencido desaparecendo de seu rosto.

— Eli tem muitos anos a mais que você aqui — o Capitão olhou nos olhos de Aaron. — Portanto, apesar da situação, você deve tanto respeito a ele quanto ele deve a mim. Entendido?

Aaron apenas assentiu.

O Capitão, então, voltou-se para Eli, que respirava fundo para acalmar-se.

— Nós estávamos analisando as filmagens que foram coletadas.

Eli assentiu, perguntando-se o que tinha a ver com aquilo. O Capitão abriu uma tela de vídeo na grande mesa redonda e, com um movimento, passou-a para a parede.

Na filmagem podia-se ver o corredor pelo qual Eli sempre passava para chegar a sua oficina. Por alguns momentos ele estava completamente deserto, até que uma figura entrou, uma arma comprida levantada na altura do olho. Eli imediatamente reconheceu-o como o soldado que quase lhe estrangulara.

O capitão fez outro movimento e o vídeo mudou. Era um outro corredor — muito similar ao anterior, mas visivelmente diferente — por onde o soldado de Bayston estava saindo. "Provavelmente depois de ter chutado a minha bunda", Eli pensou. E esperou.

— Entre esses corredores, a única coisa que há é a sua oficina, não? — a subtenente perguntou.

Eli assentiu.

— E, pelo tempo que o soldado levou para chegar daquele corredor a este, supomos que ele passou pela sua oficina.

Eli confirmou novamente.

— Então por que você ainda está aqui?

Eli levou alguns segundos para reagir dessa vez.

— Desculpe? — disse.

— Eles estavam capturando pessoas. Qualquer um que encontrassem. Por que não te levaram também?

A boca do mecânico estava entreaberta, o cérebro trabalhando rápido para processar o que ela havia dito. Aquela era uma ótima pergunta, na verdade. Por quê? Então, antes que pudesse dar razão a ela, caiu a ficha do motivo do olhar duro da subtenente. O sangue esvaiu-se de seu rosto.

— Vocês não estão achando que eu tive alguma coisa a ver com isso, acham? — disse, a garganta seca.

— É exatamente o que achamos — respondeu o filho do Capitão. — O sistema de alarmes nunca falhou uma única vez no tempo todo em que você trabalhou aqui. Você pode muito bem ter desativado eles sem ninguém ter percebido. Tornaria a invasão imensamente mais fácil.

Eli não ousou se mover. De repente o ar na sala se tornara denso demais. Pelo canto do olho viu a expressão impassível de seu Capitão.

— E o que pretendem fazer agora? — Eli perguntou, drenando o máximo que conseguiu as emoções de sua voz.

Os olhares dos outros se voltaram para o Capitão e todos aguardaram.

— Agora, nada — ele disse. — Nossa prioridade continua sendo resgatar todos que foram capturados. Não podemos nos dar ao luxo de tirar a única pessoa que nos fornece armas. No entanto nós vamos cortar qualquer meio de comunicação vinculado a você. E vamos bloquear qualquer acesso a informações que não sejam estritamente necessárias aos pedidos que nós fizermos.

Um momento de silêncio seguiu-se.

— Sinto muito, mas não podemos nos arriscar.

Eli levantou a cabeça e olhou para o Capitão. Havia sinceridade em sua voz. Eli apenas concordou com um aceno mínimo de cabeça.

Não se deu ao trabalho de tentar desmentir suas acusações ou de protestar. Se eles chegaram a chamá-lo para comunicar as mudanças é porque já haviam decidido — não conseguiria os fazer mudar de ideia (mais tarde se perguntaria se estava mesmo certo em sua decisão de permanecer calado).

Fixou o olhar nos pés novamente e, sem dizer palavra, apressou-se a sair da sala. Sentia o rosto queimando em humilhação. Odiava aquilo, ter sua moral questionada. Era como se fosse um mero traidor mentiroso.

Não correu, mas encaminhou-se rapidamente até sua oficina. Ignorou Isaac o chamando quando passou por ele e não o dignificou com um olhar sequer.

Era a primeira vez em mais de dez anos que Eli sentia vontade de chorar.

Notas finais
Espero que tenham percebido que eu não sei porcaria nenhuma de cargos do exército. Tipo, nada mesmo. Eu só taquei aí no meio umas respostas do yahoo. Obrigada por lerem! Aceito críticas de qualquer tipo, desde que não sejam mal educadas.