Shlimazl
5 mármore
Notas iniciais
— Eles parecem gostar de você — A voz grossa ecoa na minha cabeça como duas tampas de panela se chocando. Eu tinha tomado meu remédio de manhã? Levanto-me rápido demais causando uma vertigem de segundos. Wow. Okay, talvez o remédio não houvesse sido tirado da cartela naquela manhã.
Dou um sorriso porque ele é um musculoso bonito e a gente deve sempre ser gentil com musculosos translúcidos com camisa apertando os músculos como aquele na minha frente, não é? Olhos exóticos, legal. Laranjas? Legal. ELE encara-me surpreso demais pro meu gosto.
Os gatos miam querendo mais atenção e eu me despeço deles bem na hora certa e volto a olhar o grandão começando a ficar desconfortável com a situação de um estranho encarando-me igual quando a gente vê um fantasma. Ele me olhava de maneira surpresa demais. A gente se conhecia?! Ah, ele deveria ser mais um a conhecer Bela e me achar parecida e blá-blá-blá.
Acho que ele percebeu o quanto aquilo estava desconfortável/estranho e foi por, e apenas por isso, que os olhos dele ficaram doces e estendeu sua grande pata, quer dizer, mão na minha direção.
— Você é filha do Charlie, não é? — O toque dele era gelado causando-me arrepios. Que ele não tenha percebido isso, por favor. O aperto de mão formal foi mais rápido do que o normal ou eu estava paranoica? Minhas mãos estavam suados? E ele prossegue — Sou Emett, tio da Reneesme. Eu nem acreditei quando a Nessie disse que tinha encontrado a misteriosa tia dela...
E lá vamos nós com: ''Oh, você parece sua irmã.'', tento não revirar os olhos durante sua fala sobre algo que não ligo de como Nessie tinha dito a ele que havia me encontrado no sebo; me controlo para não transparecer minha total falta de interesse, na exata ocasião ouço o som do ônibus aproximando-se e percebo que tudo que quero é ficar longe da conversa mole do bonitão.
Viro o rosto depressa em direção ao ônibus e simultaneamente aperto a alça da minha sacola de livros, rezo pra Emett entender o recado mas finge não entender e apenas fala algo sobre carona.
Ai vem a parte estranha: de repente tudo ficou barulhento demais na minha cabeça e viro-me pra dar sinal ao transporte mas tenho meu braço segurado. Ele é forte. Uma piscada. Estou no carro de Emett com Nessie sentada ao meu lado nos bancos de trás.
Outro apagão, merda.
— Nessie ficou feliz com uma tia da idade dela. — O grandão diz nos olhando pelo...esqueci o nome, mas que diabos era aquilo? Aquelas falhas de memória eram uma droga e só consigo morder a ponta da minha língua. Carro gelado.
A ruiva, que estava ao meu lado do banco do carro,passa o braço em volta do meu pescoço como uma velha conhecida e só posso sentir cheiro do carro novo e tento retribuir o sorriso cúmplice. Sinto que ela me acha agradável e fico meio desnorteada pelas sensações que vem com a frase que é dita pela mesma:
— Tio Emett falou que se você fosse igual a mamãe, nunca teria aceitado nossa carona.
Mamãe? Titia? Que? Meu Deus! Como eu era burra. Ela era a sobrinha que minha mãe havia falado. Onde estava minha cabeça? O grandão olha pra mim novamente pelo...pelo espelho do carro. Minha aparência o incomoda tanto assim? Pare deolhar pra mim, imbecil. Eu havia penteado meu cabelo aquela manhã? Pareço tão doente assim? Tão em fase terminal? Um bolo na garganta e o carro fica em silêncio por minutos.
— Onde estamos indo? — Quebro o silêncio com a pergunta. O automóvel deslizava pelas ruas da cidade e o bolo na garganta vira um aflição no peito.
Eles se olham por um segundo e posso perceber que eles já haviam me dito quando eu estava no meu piloto automático. Eles me lançam um olhar que já conheço muito: preocupado e condoído. Odeio esses olhares e me mexo no banco do carro. Os livros pesam toneladas nas minhas coxas. A aflição subindo o peito.
— Nessie deixou algo na casa do avô e gostaríamos de buscar. — Emett fala cuidadosamente agora com os olhos na cidade.
— É um casaco muito bonito. Azul. Você não o viu? — Ela me olha com aqueles olhos perturbáveis e os arregala de uma maneira que só garotas entendem: por favor, concorde.
— Um azul elegante? Ah, sim. Achei-o no meu armário.
E a conversa fluiu até a casa de Charlie indo das cores do arco-íris, namorado da Nessie, a tribo Quileute, a escola de Forks, Bela e bandas indies que Emett não conhecia.
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O grandão ficou esperando do lado de fora ainda dentro do que seu carro, que wow, era de um vermelho brilhante e mesmo não manjando de carros, sabia que aquele era um exemplar carro.
— Na verdade eu não esqueci nada. Só queria passar um tempo aqui pra amansar o ânimo do papai. Você se lembra de ter visto Jacob comigo, não foi? — A ruivinha fala de um vez só no momento que fecho a porta de casa e me encara de uma maneira que lembra-me muito bem a mim mesma quando era mais jovem e me achava sabichona do mundo. Ela prossegue em um tom que ainda não havia visto utilizar. — Jacob. Jacob é o nome dele. Eu estava, quer dizer, estou de castigo e não posso vê-lo mas desobedeci papai que mandou Emett me procurar na cidade, ai vi você e tive a ideia de vim pra cá.
Ela parecia calma demais pra estar metida numa encrenca com o pai. AH, esse vigor e petulância juvenil. A ruiva-não-ruiva mostrou-se não tão tola assim, uma garota esperta. Gostei daquilo e decidi que ela seria uma boa companhia na minha estadia na cidade.
— Fala de mim pra despistá-los. — Digo jogando a sacola de livros no sofá.
— Não quer dormir comigo hoje por lá? — Ela pergunta meio esperançosa na subida da escada. Ficar no meio do olho do furação? Já havia feito muito isso quando Mary me deixava de castigo e eu chamava minhas amigas de surpresa lá em casa. Por mais brava que minha mãe estivesse comigo, não me destratava na frente das minhas amigas. — Não?
— Vamos atrás do seu casaco azul, mocinha. — Mudo de assunto.
— Azul elegante — Ela troça e rimos ainda mais á caminho do meu quarto.
Nessie soltou um gritinho ao se jogar na minha cama e eu só pude rir indo em direção ao meu armário. Procuro alguma peça minha que fosse azul no meio das minhas roupas pretas e roxas. Azul é uma cor tão méh. Felizmente acabo achando uma peça velha que não me pertencia.
— Meu casaco! -Ela guincha ao meu lado fazendo-me pular de susto. Como eu não havia a percebido tão perto? Meu Deus. Minha cabeça tá uma merda mesmo. Preciso tomar a porra do meu remédio.
— Ele é bonito. — Entrego a peça e a olho ainda sorrindo. Era difícil não sorrir perto de uma garota bonita. Ela estava perto demais. Nunca fui boba com pessoas bonitas todavia Reneesme era bonita demais pra ser real. Meu Deus, que merda eu havia pensado? ''Bonita demais?!Por favor, Teresa. Você só tá desacostumada com pessoas bonitas''
— Fica. Digo que te dei de presente, que nos demos super bem e marcamos até de sair no sábado. Cineminha de amigas. — Ela entrega o casaco enquanto continua a falar com seu tom animado — Aproveito pra ficar com Jacob já que ele aparecerá de surpresa com um amigo bonito pra você.
Ok. Informações demais. Quis pegar meu pai naquele dia. Quis pegar minha sobrinha que eu não sabia que era minha sobrinha. Conheci o tio gostoso da minha sobrinha que não parou de me olhar. Agora um encontro duplo com um desconhecido? Ok. Ok. Tento dizer algo contra mas acabo apenas rindo por razões que não entendo: carência? tédio? curiosidade? aborrecimento pra se livrar logo da nova sobrinha?
— Te levo até lá fora.
— Ele tem amigos bonitos, prometo.
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Nessie beija minha bochecha timidamente e sussurra sobre o número dela no meu bolso da calça. Que? Ela vai-se e volto pro interior da minha casa com uma baita dor de cabeça.
Nos dois sentidos.
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