Shiver
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não sei explicar porque as pessoas sentem tanta necessidade em fazer coisas junto de outras pessoas. Acho que não são apenas as pessoas, mas a maioria dos seres vivos. Deus ou os átomos que originaram a vida decidiram assim.
É fato que passamos em média dezessete anos de nossa vida sem ter esse compartilhamento, mas sempre na expectativa. Quando finalmente encontramos alguém que aceite nossa "mídia a ser compartilhada", ou quando religiosamente atingimos a idade correta para isso, nossas funções cognitivas e imunológicas não permite que voltemos ao estado emocionalmente estático de antes. Precisamos de alguém.
"Foi no verão de algum ano do passado", eu poderia dizer, como todos dizem. Mas foi em um outono. O sol dourado no pico da tarde passava pelo vidro empoeirado do ônibus que eu nunca peguei, repousava sobre suas bochechas sem sardas e aquecia o sorriso que você trocava com a bela moça sentada ao seu lado. E eu não vi isso acontecer porque estava preocupa em segurar a saia que eu não vestia e que nem era esvoaçante, porque fingir segurar uma saia, que na realidade não passava de uma calça, era mais interessante que o assunto que meus amigos falavam.
Foi assim que eu não o conheci. Mas foi ainda naquela estação que você me encontrou. Já estava bem frio e eu aceitei os cupons de sorvete que alguém desconhecido tinha me oferecido. A sua ajuda veio no dia seguinte, na fila do cinema, quando eu não parava de espirrar. Aquele acontecimento reafirmou minha teoria de que ir sozinha ao cinema pode ser muito produtivo.
Eu tinha acabado de sair do colegial e estava esperando um sinal divino me impedir de ir para a universidade, enquanto você entrava para o terceiro ano de alguma engenharia. E eu ainda insisto em usar termos técnicos para te descrever. O que há comigo?
Lembro-me que nossas piores piadas eram sobre minha impossibilidade de comprar bebidas alcoólicas e sobre como você dirigia mal. Isso nunca nos impediu de nos embebedar de vinho no meio de qualquer estrada vazia. Não aconselharia ninguém a seguir esse exemplo. Lembro-me que nossas melhores carícias também eram naquelas noites. Eram em todas as noites.
Desde que o deixei ir, não consigo mais contar as estrelas durante toda a madrugada, o que era nosso programa na maior parte das sextas-feiras. Não sinto o saber dos lábios que me degustam e todos os dias são monocromáticos como os meus olhos. As cores estão sem vida, contar as horas já não me parece lógico e esperar por alguém não é uma possibilidade.
Me desculpe.
Nos dias em que eu acordo com alguma esperança é porque me esqueço que você não é mais meu. Mas sempre serei sua garota porque não consigo deixar de ser. Antes eu não me apegava a ninguém e agora, olhe só onde estou. Não sei para onde olhar para ver como está.
Muitas vezes eu sonho com o toque quente das suas mãos contra meu corpo. Sonho em como elas deslizavam facilmente de um lugar comum para outro totalmente impróprio, em qualquer ocasião que nos parecessem propícia. Ou então me ponho a recordar como era bonito ver o suor percorrer do seu rosto até seu peito, encharcando fios de cabelo, quando você se colocava a concertar coisas no lugar que chamávamos de lar.
Me desculpe.
Não tive as palavras certas ou a quantidade apropriada para dizer tudo o que deveria ser dito. E era eu que pensava que jamais seríamos capaz de discutir sobre coisas que não envolvessem o universo em sua imensidão. Eu é que estou à deriva.
Já me perguntei o que faria se me fosse dado mais um dia ao seu lado. Mesmo que você estivesse parcialmente consciente, eu diria todos os "eu te amo" que protelei tanto para declarar. Daria todos os beijos que não tive tempo de te destinar. E antes de tudo, te protegeria em meu abraço pelo resto de horas.
É difícil pensar que algum dia eu poderia proteger alguém além de mim mesma, mas eu teria tentado. Se alguém tivesse me avisado, eu teria tentado. Mas daí me pergunto como poderiam nos avisar. Eu viajaria entre mundos para poder me avisar sobre aquele dia. Eu viajaria entre mundos para te impedir naquele dia. Eu viajaria para o inferno por isso.
Ainda não descobri o que eu poderia ter feito para evitar tudo que foi acontecendo. Talvez caminhoneiros não devessem tomar tanta cafeína. Talvez aquele motorista não devesse dirigir tão rápido. Talvez eu devesse ter dirigido e você não devesse ter bebido. Talvez nunca devêssemos ter inciado aquele jogo. Talvez se você não tivesse levado a clássica toalha xadrez no nosso primeiro piquenique. Talvez se você não tivesse se sentado ao meu lado no cinema para assistir clássicos em preto e branco. Talvez se você nem tivesse me dado o seu lenço de bolso. Talvez se eu não tivesse ido usar os cupons de sorvete. Talvez se eu não tivesse segurado a "saia". Talvez se você não tivesse pego o ônibus.
Talvez se eu nunca tivesse me apaixonado.
Talvez você ainda estivesse aqui, longe de mim, não contando essa história. Mas estivesse aqui.
Me desculpe.
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