Shiver
1 Shiver (one-shot)
Notas iniciais
Um último estrondo se fez ouvir.
A construção magna de concreto rangeu alto com o tremor, e todas as celas tiveram as suas portas abertas. O poder espiritual maligno se intensificou. E antes que olhos humanos pudessem se aperceber, abriu-se uma enorme fenda na parede que cedeu, cuspindo no interior do edifício um corpo que se chocou contra três pilares espessos, até que acabasse soterrado nos escombros.
Da abertura forçada pelo cero, a besta de estatura humana entrou usando um sonido, revelando o seu olhar ambâr desalmado. Ele se aproximava da vítima como um felino emboscando sua presa, fazendo ecoar sussurros incompreensiveis com a voz gutural, expressando no escuro do corredor da penitenciária a sua ânsia por derramar o sangue de mais um shinigami.
Os grossos blocos de pedra se moveram, e Hinamori finalmente conseguiu alcançar a superfície em um arfar doloroso. Seus ossos doíam como nunca. O tendão de Aquiles de uma das pernas havia se rompido, além dos arranhões na sua pele e o corte na testa que sangrava. A reiatsu estava totalmente ausente do corpo trêmulo: ela atingira o limite shinigami. E mesmo querendo defender-se contra o cero que se formava na boca do Vasto Lord, o corpo não respondia aos apelos do seu cêrebro. Não teria como evitar; seu fim estava próximo.
Nisto, apenas fechou os olhos, preparando-se para receber o golpe de misericródia.
"Está tudo acabado"; pensou derrotada.
O zunido da esfera negra aumentava. Hinamori sentia-se cada vez mais subjugada pelo poder monstruoso daquele ser, que, junto a um grupo de seis Vasto Lords, havia transposto a Sereitei, criando a maior guerra do mundo das almas, mil anos após o confronto com o ex-capiãto do quinto esquadrão. E antes que o calor do poder das trevas a consumisse por inteiro, ela vislumbrou na sua mente, a imagem do homem que sempre carregou no peito. Mesmo este provando não ser digno do lugar que lhe reservava seu coração, foi ao Aizen que Hinamori dedicou, secretamente, o seu último suspiro...
— Salpique os ossos da besta! Torre afiada, cristal vermelho, circulo de aço. Mova-se e faça o vento. Pare e traga a tranquilidade. O som das lanças hostis preenche o castelo vazio: Hadou #63: Raikoho! — e da palma da mão enfaixada, as faíscas amarelas gritaram impetuosas.
Outra reiatsu emergiu chocando com a primeira, até absorvê-la toda numa grande explosão. Com os braços protegendo o rosto, os olhos da shinigami assistiram com terrível espanto a batalha dada em breves segundos, quando a besta, decapitada pela parede amarela de poder condensado, se esvaia diante do homem ainda em posição de ataque.
O rosto baixo, escondido pelas mechas castanhas do cabelo, agora mais comprido, dispensou a apreciação daquele desfecho simplório. E diante das cinjas que o vento varria nas suas costas, ele olhou demoradamente para as mãos, abrindo-as e fechando-as continuamente, como se fizesse uma leitura minuciosa nelas. A testa franzida, denunciava desapontamento, apesar dele ter demostrado um poder indubitavelmente superior ao do hollow.
Porém, no silêncio, seus olhares se cruzaram... E ainda de perfil, o homem girou nos calcanhares, dando as costas, fazendo com que as ataduras negras balançassem com o seu andar imponente, confundindo-as no escuro do corredor que o engolia.
— O que... — a shinigami murmurou atônita, acordando do transe.
As informações processavam lentas em sua mente confusa. Depois de tantos anos, somente vê-lo naquela fracção de segundos, fez com que as emoções sepultadas no abismo do seu coração voltassem a despertar. Elas latejavam forte no peito apertado: seu passado estava de volta, atormentando-a como uma assombração avassaladora.
A custo, levantou-se do monte de concreto, arrastando os passos pela passagem escura, ao som do gotejo do seu sangue. Estava sem forças. Suas pernas mal aguentavam o peso do corpo ferido. Mas a dor que continha no peito cujas cicatrizes se rasgavam, falava mais alto, lhe incentivando a alcança-lo.
Precisava alcança-lo. Esta era a sua chance de ter as repostas que a trucidavam horas sem fim, por todos esses anos. Existiam tantos por quês... e um deles, era o que aconteceu instantes atrás. Afinal, por duas vezes ele quase a matou. Por que lhe defendera agora?
Entretanto, quando ia dar mais um passo, o haori que usava ficou com a ponta presa numa viga de metal, acordando-a para sua atual realidade. Tinha uma posição por velar e pessoas para proteger. Não havia espaço para sentimentalismo. Havia prometido a si mesma nunca mais vacilar como shinigami, quando aceitou o cargo de capitã. E haveria de honrar suas palavras. Nem que para isso tivesse que encarar o homem que um dia carregou o título de capitão do esquadrão que agora liderava.
Desta vez, não iria deixar-se dominar por sentimentos mal resolvidos. Sabia bem qual seria o seu ganho, caso viesse a sujeitar-se a ele novamente, e principalmente, o perigo que toda Soul Society corria, agora que aquele homem estava solto.
Entretanto, quando Hinamori pensou ter achado a rota de fuga do recluso, viu-se frente a uma cela de porta rompida. Aquele lugar, era o final do corredor.
No centro da vasta sala, uma poltrona de pedra era iluminada por finos feixes de luz. E lá estava ele, sentado nela, quieto, como se desfrutasse de um sossego somente merecido aos deuses. Jamais saberia decifrar aquele homem. Por mais que se esforasse.
Entrou silenciosa, encostando-se à parede junto a entrada, limitando-se a observá-lo, mantendo a guarda protegida.
Sentia-se ridícula. Mesmo agora, era como se continuasse a mesma menina ingênua que ficava num canto calada, admirando o seu capitão. Aquele homem tinha tudo a seu favor. Ele era poderoso em todos os sentidos imagináveis. Por isso, mesmo dentro daquela cela, ele ainda conseguia parecer mais livre, e este fato fez com que Hinamori sonorizasse um ruído de irritação.
— Sei o que você quer saber... — a voz serena e polida quebrou o silêncio. — Infelizmente, eu não sei lhe responder.
Hinamori pestanejou, sentindo um leve torpor se espalhar por todo o corpo ao ouvir a sua voz.
Por mais que o desprezasse, por mais que o odiasse, por mais que o quisesse fora da sua vida, aquele homem não deixava ser esquecido. Não lhe permitia ser sincera com os seus próprios sentimentos e nem lhe dava outra escolha, senão a perpétua rendição. E como a shinigami odiava isso; como ela se odiava por não ter forças suficientes para repelir os sentimentos que somente esse homem sabia aflorar... Seu egoísmo era imenso e não permitia substitutos: ele era e continuava sendo o único.
Depois de ter ensaiando várias vezes, finalmente a voz trêmula de Hinamori vazou, num retruco encolerizado.
— Nem sobre o que aconteceu agora a pouco? — ela inquiriu trincando os dentes de raiva. — Afinal, o que diabos você quer de mim?
— Companhia. — ele respondeu plácido, estendendo a pausa do diálogo. — Você poderia ficar comigo por um momento?... Faz tempo que eu estou sozinho.
Ele não se atrevia a olha-la diretamente. De onde estava, a respiração agitada da shinigami podia ser ouvida. E com os sentidos direcionados somente à ela, distinguiu entre as múltiplas gotas que pingavam o chão, o som melancólico de uma lágrima.
Em resposta ao desconforto, suas mãos apertaram forte os extremos dos braços da poltrona, lembrando-se do mal que causara a ela... Um mal tão grande, que nem mil anos conseguiram diminuir o doloroso peso.
Respirou fundo, sentindo o ar entrar como agulhas em seu corpo. Mas seria capaz de suportar isso e muito mais pelo resto dos anos de sua vida imortalizada, em troca do sofrimento dela. Sabia o quanto a usara. Ele mesmo não saberia dizer o número de vezes que a sua mente reproduziu os momentos em que, astuciosamente, tentara lhe tirar a vida. Mas até isso, era uma tentativa de fugir dela.
Será que ela compreendia? Será que Hinamori sabia o valor que ela tinha, a importância que representava em sua vida?
Provavelmente não. Ele havia manchando o sentimento mais puro que ela tinha. Provavelmente, entre eles, agora, apenas mágoas existiam.
— Não precisa dizer nada — ele continuou — apenas, me faça um pouco de companhia...
Pelo tom do silêncio, ele pôde entender a confusão que causava nela. Os papéis estavam totalmente invertidos. Mas isso não o importava. Ele a queria por perto. Ainda que por breves instantes. Logo, os reforos chegariam e ficaria sozinho, novamente.
Ele sentia realmente, a sua falta.
— Eu o odeio Aizen taichou — ela resmungou em resposta.
Entretanto, não o abandonou.
Pela primeira vez, em mil anos, um sorriso singelo brotou nos lábios de Aizen. O coração palpitava forte; estava feliz. Mesmo agora, os sentimentos dela continuavam os mesmos. Isso era o suficiente para ele suportar os restantes dezanove mil anos que permaneceria trancado naquela cela. E fechando os olhos, desejou que esse seu pequeno segredo lhe chegasse aos ouvidos, pelo sussurro do vento.
—... Eu sei, Hinamori-kun... Eu sei.
Fim!
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