Ruki\'s P.O.V.

Estava jogado sobre Akira, vendo TV com o mesmo embora eu não prestasse a mínima atenção. Havia conseguido falar com Nakayume, que queria me dar a mesma notícia que os meus pais tinham dado. Eu não sabia o que fazer, e nem ela tinha um conselho pra me dar enquanto eu ficava tentando arrumar coragem sabe-se lá de onde pra conversar sobre isso com Akira. De certa forma, eu tinha medo da reação de Akira, ou que ele pudesse interpretar de forma errada a minha dúvida.

- Você ta tão quieto hoje... – ele comentou, remexendo nos meus cabelos e me dando certa sonolência.

Suspirei, sentando-me no sofá. Uma hora eu iria ter que falar sobre isso com ele, então quanto antes melhor.

- Meus pais me ligaram. Vão vir pra formatura.

- Ah. – ele me olhou preocupado, esperando que eu dissesse mais alguma coisa sobre o assunto.

- E... eles me fizeram uma proposta.

- Que tipo de proposta?

- Eles querem bancar meus estudos em música.

- Oh. Milagres acontecem sempre quando menos se espera.

- Na Finlândia.

Alguns segundos de silêncio se seguiram, e eles pareceram durar horas. Não conseguia olhar nos olhos dele, por mais que quisesse; simplesmente tinha medo do que eu iria encontrar lá. E talvez por isso eu não tenha conseguido interpretar o abraço apertado que se seguiu. Não sabia dizer se ele queria que eu ficasse ou se achava melhor que eu partisse.

Reita\'s P.O.V.



Confesso que eu havia ficado perdido. Não, foi mais que isso; tinha perdido o chão. Porque durante esse tempo todo de encontros às escondidas, fugas durante a madrugada, olhares discretos durantes as aulas... ele havia se tornado parte da minha vida. E agora ele poderia ir embora. O pior é que, mesmo que não quiséssemos, acabamos ficando mais afastados nas semanas que se seguiram.

Claro, também houveram outros motivos; como professor, estava encarregado a ajudar com a formatura. E foi até bom, eu podia me distrair fazendo planilha de preços de buffet, decoração e músicos. Também tinha que me esquivar de algumas investidas de uma das professoras idosas solteirona. Era assustador aquela senhora que parecia a minha avó me olhando com aquela cara.

Assim, os dias foram se passando sem que nós nos falássemos direito. Sabia que era algo errado, mas também não sabia o que ia dizer a ele. Notei que sua casa parecia mais vazia conforme se aproximava o dia da formatura, e eu deduzi que era por causa dos seus pais.

Isso era outra coisa que me preocupava: os pais dele. Me desesperava só de pensar que eles pudessem desconfiar de algo. E eu já não sabia o que era mais desesperador, eles descobrirem que eu tinha um caso com o filho mais novo deles ou eles levarem Taka pra Finlândia.

Suspirei, contando as últimas cadeiras antes que os pais chegassem para a cerimônia de formatura. A gravata quase me enforcava, eu queria sumir e mesmo assim tinha que me fingir de feliz e receber os pais dos alunos com extrema alegria e felicidade. Vida injusta.

- Está muito bonito, Suzuki-sensei. Deveria usar terno mais vezes.

Num primeiro momento achei que eu teria que sair correndo da professora idosa, mas passado o susto reconheci a voz, me acalmando. Nakayume tinha um sorriso mínimo no rosto, um vestido até bonito.

- Me assustou. Estou fugindo de uma das professoras.

- De qual?

- Daquela senhora idosa ali sentada com o diretor.

- Que horror. – ela fez uma careta de nojo. – Meus pais estão aqui.

- É, Taka tinha me dito que eles viriam.

Alguns segundos de silêncio se seguiram até Taka surgir, indo em direção a Nakayume. Estava lindo em seu terno, o cabelo descolorido ligeiramente bagunçado de propósito e uma maquiagem leve e quase imperceptível no rosto. Fiquei olhando-o até ganhar um soco no braço.

- Ai! – olhei para Nakayume, bravo.

- Menos bandeira, Suzuki. – resmungou ela de volta, entredentes.

Taka riu, negando com a cabeça. Tomou fôlego para tentar falar, mas ainda não conseguiu, rindo mais um pouco.

- Naka-chan... Lugar pra eles...

A moça acenou afirmativamente com a cabeça, afastando-se até onde se encontrava um casal extremamente elegante. Ergui as duas sobrancelhas, virando-me para Taka.

- Seus pais são bem...

- Extravagantes?

- Eu ia dizer elegantes.

-...

-...

-...

- Você... já se decidiu? Se vai ou não.

Taka abriu a boca para responder, mesmo que sua expressão fosse hesitante, mas fui impedido de ouvir sua resposta pela chegada de duas alunas escandalosas da sala de Taka. Lógico, a minha vontade era de gritar que elas calassem a boca e saíssem dali o mais rápido que podiam com aqueles saltos. Ou fazê-las engolir aquele salto. Mas eu não podia fazer isso, tinha que ser simpático. E quando elas se afastaram, Taka já tinha ido se sentar. Respirei fundo, olhando-o ao longe. Com certeza a melhor hora pra conversarmos não seria ali na formatura.

Ouvi o chamado do diretor, pedindo para que os professores não se dispersassem muito. Ainda recebi mais alguns pais, indicando onde haveria lugar livre, até pouco antes do começo da cerimônia. Ouvi um certo burburinho, e não me agradou em nada ver um grupinho de meninas comentando entre risinhos sobre Takanori. Eu realmente deveria tê-las feito engolir o salto.

Fui até a mesa reservada para os professores dos formandos, olhando de relance para onde o menor estava sentado, ao lado da irmã e com os pais do lado de Nakayume. E a sensação de que eu iria enfartar se não falasse com ele me corroendo. Mas eu tinha medo do que ele poderia me dizer.

Continua...