Notas iniciais
A tradução do título é "Querido Professor".

Reita\'s P.O.V.

Coloquei a última caixa de papelão no chão, olhando para a pequena casa que agora era minha. Realmente não era grande; sala cozinha, quarto e banheiro. Ah sim, e um cubículo que servia de área de serviço. Levaria dias – pra não dizer semanas – até que tudo estivesse no lugar. Suspirei, minha mente inevitavelmente indo me lembrar do porquê eu ter me mudado tão subitamente.

Eu era casado. Era, no passado. Mas o que dizer? Acho que Arashi havia se cansado com um professor de colegial. Num dia ela estava lá, no outro havia sumido com todas as suas coisas, deixando apenas um bilhete onde dizia que sentia muito, mas estava confusa. E eu me pergunto como é que uma pessoa um ano para resolver que... está confusa.

Fui para a cozinha, tentando guardar algumas coisas e pensando no que preparar pra jantar. É... melhor sair e comer em alguma lanchonete por perto. Guardei as louças, resolvendo montar a cama e arrumá-la. Depois de muita briga e de ter deixado o estrado da cama cair no meu pé, entrei no banho, tentando relaxar. Fiquei lá por quase meia hora, antes de me trocar e ir pra lanchonete a três quarteirões da minha nova casa.

Entrei no local, imediatamente me sentindo velho. Não que vinte e seis anos fosse muito, mas os grupinhos ali na lanchonete deviam ter no mínimo dez anos a menos que eu. Tudo o que eu queria para coroar aquela semana maravilhosa. Pedi um lanche pra viagem, não querendo me deter muito ali, já me sentindo incomodado com o olhar que eu recebia das garotas dali.

Já estava saindo quando algo me chamou a atenção. Num pequeno palco ao fundo – que eu nem havia reparado -, uma moça, que me parecia familiar, subiu. Não aparentava mais de vinte anos, os cabelos negros caindo até a cintura. Ela parecia ser bem conhecida ali, sendo muito aplaudida quando apareceu. Ela sorriu de canto, fazendo sinal para pedir a palavra.

- Sei que vocês estão ansiosos... já estamos resolvendo o nosso probleminha técnico. Contem dois minutos e já estaremos no palco.

Ouviu-se o barulho de reprovação do pequeno público, e por um segundo, seu olhar cruzou com o meu. Ela franziu o cenho e depois sorriu, descendo do palco. Agora sim eu tinha a certeza de que a conhecia de algum lugar. Dei de ombros, saindo da lanchonete e indo pra casa, agradecendo que no dia seguinte seria domingo.

Ruki\'s P.O.V.

Estava exausto. Era só mais uma apresentação na lanchonete perto da minha casa, mas fazia questão de dar tudo de mim. Nakayume caminhava comigo até a minha casa, com sua guitarra nas costas. Apesar de ser apenas quatro anos mais velha que eu, era mais minha mãe do que a própria. Afinal, ela era minha irmã, e cuidava de mim desde... sempre.

Nossos pais não eram exatamente um exemplo a se seguir. Viajavam para todos os lados, quase nunca aparecendo em Tokyo. Mandavam apoio financeiro, mas nada mais que isso. Nem memso um telefonema para saber se estávamos vivos. Só ligavam quando resolviam \"dar uma passada\" em Tokyo. Suspirei, acendendo um cigarro, e por algum motivo, Nakayume começou a rir.

- Você não vai acreditar em quem eu vi lá na lanchonete, embora não tenha ficado pro show.

- Quem? – perguntei, entre uma tragada e outra. – Algum dos seus ex-namorados?

- Não. – ela fechou a cara – Na verdade, era um conhecido seu.

- Meu?

- É. – ela sorriu de canto – Seu professor de literatura, esqueci o nome dele...

Imediatamente engasguei com a fumaça do cigarro.

- Suzuki-san?

O sorriso dela se espalhou pelo seu rosto, completamente maroto.

- Isso, o Suzuki-san. Acho que ele não me reconheceu.

- Que estranho... nunca vi ele por essas bandas.

- Ah sim, tenho certeza que se ele estivesse por aqui, você teria visto, ne?

Amarrei a cara.

- Não enche. A mulher dele deveria estar com preguiça de cozinhar e aquela foi a primeira lanchonete aberta que ele encontrou.

Ela riu e eu tirei as minhas chaves do bolso, já na porta da minha casa.

- Sério, Taka... se fosse isso, ele teria levado dois lanches ao invés de só um.

Ergui uma sobrancelha, a chave já na fechadura.

- E como é que você sabe disso?

- Eu tenho os meus contatos, Taka-chan. E... não se mudou um rapaz aqui na casa em frente?

Ela apontou pra casa em frente à minha, que estava com as luzes apagadas. Sorri, negando com a cabeça.

- O destino não me ama tanto assim, Naka-chan.

- Será? É bom ter fé de vez em quando.

Ela piscou um olho e se virou, indo embora. Entrei em casa direto pro banheiro, me enfiando debaixo do chuveiro e de lá desabando na cama, tentando dormir. Mas as palavras de Nakayume ainda rondavam a minha cabeça, o que diabos Suzuki estava fazendo lá? Justo o meu professor mais bonito... e casado. Suspirei, me virando na cama. Pensaria naquilo depois.

Continua...