Shining Sky

1 madeira entalhada


O céu estava claro, o sol queimava seus olhos através das pálpebras fechadas. Damián estava deitado em seus pés, a língua comprida a escorregar para fora da boca, o pêlo escuro brilhando tanto quanto o sol. Cansara-se de buscar a bola de feltro amarelo, que deixara sumir bosque adentro da última vez que fora arremessada.

A bengala do dono descansava apoiada no banco, pois suas mãos haviam buscado algo incomparavelmente mais valioso para segurar. Um velho porta-retrato dobrável, de madeira entalhada, já gasto pelos anos. O objeto em si tinha pouco valor, mas o que protegia – para aquele homem, era um de seus mais preciosos bens. Uma fotografia mal executada e, agora, amarelada e desgastada. Tanto quanto ele. Um amigo uma vez lhe comentara que parecia que aquele retrato marcava a época em que finalmente começara a envelhecer. Não rira na época e não riu agora, mas o sentimento que lhe engolira o riso era diferente do daqueles dias.

Um dedo longo e pálido riscou os rostos eternamente jovens no papel. A respiração estava difícil, e ele sabia que não eram seus pulmões doentes, mas seu peito que apertava inteiro. Doía há anos, anos que se arrastavam e eram tantos que já perdera a conta deles, anos que o feriram mais do que o curaram. Por vezes achara ter aceitado, finalmente capaz de descansar, capaz de baixar as pálpebras à noite e não se ver atormentado por seus pensamentos. Entretanto, bastava seus dedos tocarem os adornos cinzelados naquela madeira para que tudo retornasse. Suas orações pouco lhe confortavam, e seu deus nunca lhe mostrara o caminho para conciliação de seu espírito. Havia coisas em seu passado pelas quais jamais seria perdoado; e outras, pelas quais ele jamais pediria perdão.

A mão manchada cobriu os lábios finos e apertados, que se recusavam a deixar escapar qualquer som que sua garganta ousasse emitir. Quase não conseguia impedir seus olhos de se umedecerem debaixo de suas pálpebras tão fortemente cerradas.

“Morreste, vovô?”

A voz infantil o arrancou de dias antigos e o fez erguer a cabeça, e forçar um sorriso gentil enquanto fechava o porta-retratos.

“Ainda não, querida”

O som de sua própria voz o assustou por um momento. Nas memórias que revivia, não era rouca ou trêmula. O rosto pueril lembrou-lhe de tudo o que esquecera por um mísero instante, imerso em longínquas recordações, do tudo pelo qual daria sua sanidade para poder esquecer.

Damián abanava a cauda para Angela e tinha a bola de feltro entre os dentes.

“Mamãe te procura há bastante tempo. Vem , vovô”

Ele acariciou a cabeça de Damián, coçou-lhe atrás da orelha e fitou seus olhos. Tinham a mesma cor, um marrom escuro que sempre o fazia pensar em chocolate amargo. A neta o chamou outra vez, e ele tomou a bengala em mãos, usando-a para poder-se levantar. Seus ossos doíam, especialmente os de sua perna direita, mas ele não disse nada. Não seria posto em uma cadeira de rodas, para ficar à mercê de suas filhas e sobrinhas, enquanto pudesse suportar o corpo sobre as próprias pernas.

Ao certificar-se de ter o porta-retrato bem seguro no bolso interno de sua veste, algo na madeira do banco onde estivera sentado capturou sua atenção. Uma velha inscrição que nunca antes percebera, mas que sabia poder atribuir somente a uma pessoa, agora viva somente em suas recordações.

Ele sorriu, quase sem conseguir conter as lágrimas. Damián latia um pouco à sua frente, chamando-o.

Mal conseguia esperar para acompanhá-lo.

Notas finais
Revisada e editada em 21/01/2012.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!