Shinigami War - O eclipse
56 Capítulo 47
Em meio aos imensos blocos e montanhas de gelo, um chamou atenção do garoto. Sorriu satisfeito, saltou com tamanha velocidade e chegou ao bloco mais alto. O gelo azul claro quase transparente permitia que uma visão um tanto nebulosa de um corpo dentro do gelo pudesse ser visto.
Estendeu sua mão até sentir o toque gelado do imenso bloco de gelo sólido. Sibilou algumas palavras e um sorriso largo tomou conta de seu rosto. Um imenso selo negro surgiu sobre a superfície lisa e gélida.
O selo se repetiu diversas vezes até infiltrar-se por completo dentro da grande barreira azul que protegia aquele corpo que permanecera inativo por anos. Goru pendeu a cabeça pra frente e se apoiou na prisão de gelo, seu corpo não abrigava mais a alma do rei Akuma.
Desequilibrou-se e tombou para trás, seria uma queda mortal se não tivesse sido salvo se Arashi não o tivesse prendido entre seus dentes, é claro que fora um pedido de Nitsumi. Não que a misteriosa garota se importasse, longe disso. Não queria ver sangue sujar aquele belo lugar.
O gelo que a tanto tempo servira de abrigo para aquele corpo, agora começava a despedaçar-se. Ranhuras e rachaduras tomavam conta daquela pequena e particular fortaleza de gelo. O gelo se partiu e um corpo masculino revelou-se sentado de pernas cruzadas, parecia estar meditando. Vestia um terno totalmente fechado com botões prateados, sobre seu peito o desenho de um bichinho bordado em dourado brilhava este era o mesmo presente no moletom favorito de Alessa.
- Aquele é o papai? — Sussurrou Nami olhando para o alto e cerrando levemente seus olhos.
- Acho que chegamos tarde demais...- Sussurrou Nitsumi colocando-se em posição de batalha.
Podiam sentir a presença de diversos demônios rodeando-os, o vento frio lhes causava arrepios que percorriam todo o corpo. O homem no alto da geleira levantou-se e ficou de pé, lançou seu olhar para o grupo lá embaixo e sorriu irônico. Seu único olho visível percorreu cada um dos rostos curiosos que o fitavam do chão.
Sibilos eram escutados de todos os lados, as crianças começavam a se agrupar e a olhar para todos os lados. Logo viram-se serem cercados por um interminável mar de demônios.
Chilli sentia-se inútil, sentia vontade de chorar e de correr dali. Uma única lágrima escorreu pelo rosto do ruivo, não poderia vingar a alma de sua amada Isis. Por que nunca tivera coragem de declarar seu amor por ela? Por que era tão fraco? Sentiu um ardor em seu peito, este era diferente dos outros que sentia quando ficava irritado, sentiu a ardência percorrer por toda a extensão de seu corpo.
Sawada tremia apavorado, nunca vira tantos demônios juntos. Pareciam que todos estavam mortos e enviados ao inferno. Olhou para o rosto de Nami, esta empunhava sua espada sem demonstrar fraqueza, encarava de frente seu destino. A coragem da menina pareceu o envolver, chamou Hibari junto de Nurse. Fundiu os três porquinhos transformando-os em um imenso machado, o mesmo que usara contra Leona.
Os demônios os encaravam e mantinham uma distância incerta de alguns metros, sua saliva negra escorria de suas bocas e caía empossando sobre seus pés. Alessa não tirava os olhos de Goru que estava deitado dentro do círculo de amigos, ele estava machucado e ela queria muito cuidar dele. Em momento algum pensara em Shiro, sentia seu coração apertar só de imaginar o que seu querido e precioso Goru havia passado.
O homem do alto da geleira ainda sorria irônico. Uma franja de cabelos negros caía sobre seu olho direito, sobre sua cabeça um quepe de aviador repousava. Seu único olho visível era verde esmeralda, sua pele pouco bronzeada estava pálida. O homem parecia bastante com Nami, Gom e Alessa.
Levantou seu rosto e olhou para o céu, a noite quase eterna ainda reinava e a lua brilhava vermelho sangue. Cerrou as mãos envolvidas em ataduras brancas, um movimento deixou uma nuvem fria.
Um soco potente acertou o rosto de Gom que foi arremessado à multidão de demônios que agora estavam quietos. Garras fortes prenderam o corpo do maior que debatia-se na falsa esperança de liberdade.
Soya viu-se desmoronar em meio a seus prantos, Gom havia desaparecido em meio a multidão de criaturas que agora gritavam e ganiam. Nami sentiu seu poder aumentar e suas chamas a envolverem, sabia o que isso significava. Phoenix a chamava, fechou os olhos e sentiu uma brisa quente.
- Que bom que você aprender a me atender quando precisa de mim. — Disse o imenso pássaro encarando a menina. — Temos que ir direto ao assunto.
- Diga o que você quer! Meus amigos precisam de mim!
- Certo. — Disse a majestosa ave. — Entregue isso ao seu amigo ruivo, faça com que ele coloque isso na boca.
- Uma pérola laranja? Como isso vai nos ajudar!?
- Apenas faça!
Uma brisa quente soprou e Nami viu-se novamente em seu maior pesadelo, lutar contra seu próprio pai. O homem de antes estava ao lado da garota, sua mão repousava sobre seu ombro. A pequena virou-se bruscamente assustada, seus olhos encheram-se de lágrimas, estas que eram de alegria e medo. O homem fechou sua mão em um punho e preparou-se para atingir o corpo de Nami, Alessa não podia crer no que via.
Tantos anos se passaram. Ele estava ali, a pessoa em que ela depositara todo o seu amor, carinho e confiança. Uma vez foram tão... Íntimos e agora encontravam-se no campo de batalha, não como aliados e sim como inimigos declarados.
Não podia deixar que sua pequena Nami fosse atingida, a Nami que ela cuidara e protegia desde que era apenas um pequeno bebê. Sua irmã mais nova.
Alessa colocou-se entre o punho do homem e o corpo de sua irmã, o soco potente fez com que ela tossisse sangue. Caiu de joelhos dobrando-se no chão, seus olhos encheram-se de lágrimas. Naquele momento ela jurou nunca mais chorar por alguém, estava cansada de tudo, apenas queria deitar sua cabeça em seu travesseiro e adormecer pelo resto de sua vida.
Levantou-se determinada, sua marreta surgiu em suas mãos. Iria esmagar aquele maldito, não importava se era seu pai ou não. Sua marreta estava a alguns centímetros do rosto do homem quando foi parada em pleno ar com apenas uma mão, sentiu ser atingida por um potente chute em suas costelas. Caiu no chão e novamente lágrimas inundaram seus olhos, estas não eram filhas de sua dor. Lágrimas filhas de um amor incondicional que começava a desmoronar.
A morena caiu a alguns metros do homem. Secou as lágrimas de seus olhos em seu moletom preto e segurou firmemente sua marreta, o objeto em suas mãos iluminou-se em um brilho azul e começou a aumentar de tamanho até assumir uma forma monstruosa. Os detalhes dourados brilhavam forte e pulsavam no ritmo acelerado do coração da menina, um sorriso malicioso surgiu nos lábios da menina.
- Acho que esta na hora de vocês conhecerem a minha aliada... Ti, por favor, se revele. — Disse a morena sem deixar o sorriso morrer.
Sua marreta iluminou-se fazendo com que grande parte dos demônios tivessem seus olhos ofuscados. Um imenso tigre branco surgiu do brilho, em sua testa uma chama azul brilhava, usava uma armadura azul com detalhes dourados exatamente igual ao da marreta, esta que ainda encontrava-se nas mãos da garota.
- Quem é esse? — Perguntou Nitsumi enquanto afundava a cara de um demônio com um chute.
- Este é o Ti, o meu animal sagrado. O Tigre Siberiano, ele é o guardião das geleiras e a muito tempo estava selado na minha marreta.
- Por que nunca usou ele antes? — Perguntou Sawada emburrado.
-*gota* Ele é muito preguiçoso... — Respondeu Alessa sem graça. — Sem mais enrolações, vamos direto ao assunto!
A garota atingiu o solo com sua marreta, o impacto fora tanto que chegou a tremer o chão. Um imenso selo de magia surgiu e espinhos de gelo saíram do solo, estes que perfuravam grande parte dos demônios. O corpo de Charles não fora poupado dos espinhos, um atravessara seu abdômen na diagonal, o sangue escorreu pelo espinho serpenteando e chegou até chegar ao solo. Alessa tinha um brilho azul em seus olhos, não estava mais importando-se com o corpo de seu pai, finalmente havia percebido que o que importava naquele maldito eclipse era sobreviver e que até mesmo os familiares poderiam virar-se contra você.
Gom abriu os olhos e no meio da multidão de demônios que pareciam ignora-lo viu uma figura familiar encarando-o com raiva. Seu rosto já estava bastante deteriorado, apenas era capaz de reconhecê-lo pelas roupas que vestia e pelo taco de baseball em sua mão. Seu único olho mostrava o brilho de que um assassino carrega em seu olhar.
Caminhou cambaleante até o moreno e com o pouco de carne que restava em suas bochechas formou um sorriso, aquilo era repugnante de se olhar. O estômago de Gom revirava-se só de olhar para ele, aquela coisa não era nem a sombra do que seu tio Stark fora um dia. A criatura girou em suas mãos habilidosas seu taco de baseball e atingiu o moreno no rosto. Aquela fora a primeira das dezenas de outros golpes desferidos pelo Ghol, Gom deixava-se atingir inúmeras vezes. Merecia aquilo, fora ele que causara o destino trágico de seu tio.
O sangue do menor espirrou no chão coberto de gelo, um fio de sangue escorria por seu nariz, boca e ouvidos. Tossiu um pouco de sangue e encarou a criatura, desta vez sem mostrar repulsa ou desprezo, seus olhos foram invadidos por lágrimas enquanto ele tentava buscar palavras.
-Ti-t-tio... Eu espero que você possa me perdoar, eu sei que você guardou raiva de mim por tanto tempo. Eu sei que eu arruinei a sua vida, eu só queria que você deixasse as mágoas de lado e me desse o seu perdão. — O garoto caiu de joelhos perante a criatura.
Seus olhos negros encararam fundo o único olho que a coisa tinha, era possível ver lá dentro um fraco brilho, como uma vela em seu final que luta contra a escuridão. Uma lágrima conseguiu passar pelo canal lacrimal já deteriorado e rolou pela face incompleta de Stark.
- Me desculpe por isso, mas, eu preciso libertar a sua alma. — Disse o maior levantando-se.
Em suas mãos Aishiteru surgiu em forma de rifle. As lágrimas ainda rolavam pelo rosto do rapaz, ele disparou a arma. O corpo de Stark caiu no chão e se desfez em uma fumaça negra revelando um pequenino brilho esverdeado. A pequena luz foi ao encontro de Gom e tomou forma de seu tio, este vestia-se com seu uniforme.
- Muito bem, sobrinho. — Disse Stark apoiando sua mão sobre o ombro do moreno. — Tenho um presente pra você, porém, não vou lhe contar o que é. Isso você descobre sozinho.
- Obrigado tio. — Disse Gom sorrindo.
O brilho desapareceu deixando Gom sozinho junto dos demônios novamente. Agora as criaturas pareciam sentir sua presença, viravam-se para ele e passavam suas línguas finas e bifurcadas em seus dentes, sua baba escorria de suas bocas até socar o chão.
- Muito bem pessoal, eu acho que tá mais do que na hora de vocês... — Antes que o maior pudesse completar sua frase, espinhos de gelo perfuraram grande parte dos demônios a sua volta.
- Parece que é meu dia de sorte... — Sussurrou o maior.
Seus punhos acenderam em chamas, alguns demônios tentavam arrastavam-se na esperança de aproximar-se do garoto, este que apenas abaixou os punhos, aumentou suas chamas e fez com que estas o jogassem para o alto como um foguete. Um sorriso surgiu nos lábios do garoto ao sentir a brisa fria acariciar-lhe a face. Uma vez do alto, tinha uma visão ampla de tudo que acontecia, seu sorriso tornou-se maior, agora entendia tudo o que havia acontecido.
- Vou dar uma ajuda...- Sussurrou ele para si mesmo.
Virou-se para os demônios no chão, as chamas de sua mãos se apagaram. Em suas mãos Aishiteru surgiu novamente, um único disparo e todas as criaturas transformaram-se em fumaça negra. Gom estava exausto e começava a perder a consciência, o que não era uma coisa boa, uma vez que estava caindo em uma queda livre de 30 metros.
- Parece um jeito bom de se morrer, fui um herói... — Sussurrou ele antes que tudo se apagasse em escuridão.
Quando abriu os olhos estava nos braços de Soya, esta que corria velozmente carregando-o em seus braços. Lágrimas estava rolando por sua face e seu coração batia acelerado, sua respiração arfante. Colocou Gom deitado ao lado de Goru e voltou para a luta, estava mais em desvantagem do que nunca.
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