Shin - O Auge da guerra
1 Prológo
Notas iniciais
Kyuki se encontrava numa pequena sala escura, com apenas algumas iluminações fracas, amarrado a uma cadeira com correntes muito fortes, sentiu o metal moldado forçar seu corpo para trás, esmagando seus pulmões e dificultando sua respiração. Tudo parecia preencher-se com água jorrando de pequenos furos na parede.
Usava suas vestes comuns: Botas militares, calça jeans e uma blusa preta, junto a seu casaco vermelho. Sentia a respiração falhar com as correntes cada vez mais apertando seu corpo. Começou a se debater desesperadamente procurando se livrar das correntes que esmagavam seus pulmões dificultando sua respiração ofegante. Atrapalhou-se ao tentar escapar e caiu contra o solo batendo sua cabeça com força, tossindo secamente ao atingir o chão encharcado. Observando a água ir aumentando cada vez mais cobrindo com velocidade toda a sala, o peso das correntes somado ao de seu corpo e da cadeira o impediu de flutuar. O jovem de cabelos brancos cedia aos poucos à falta de ar, até que...
Com um berro, Kyuki acordava, o despertador estava tocando e seus batimentos cardíacos estavam acelerados. Piscou, e entendeu que aquilo era um dos seus pesadelos agonizantes. Convenceu-se em murmúrios que aquilo não passada de uma peça que sua mente planejava em sua cabeça, um mero truque que ele tornava a cair.
Ainda desestabilizado, pôs seus pés sobre o chão e coçou os cabelos emaranhados. Sentiu a visão tontear brevemente até recompor-se completamente e estar completamente acordado.
-Emi? – Falou suficientemente alto para sua voz ser ouvida do lado de fora do quarto. Lembrava-se aos poucos dos seus compromissos diários enquanto enrolava uma das suas mechas de cabelo com o indicador esquerdo.
-Posso? – Respondeu-lhe a mulher de voz para ele familiar. Emi, uma pessoa em que ele realmente podia confiar. Confiou-lhe humildemente a tarefa de ser sua conselheira, o que ela executava com uma precisão inigualável.
-Um instante, por favor – Kyuki levantou-se lentamente, indo até o guarda-roupa e selecionando uma das várias camisetas básicas tingida em preto que vestia constantemente. Quando a vestiu, encaminhou-se até a porta e a abriu. A imagem da mulher parecia um ponto brilhante em meio à escuridão de seus pesadelos.
-Vossa graça – ela começou, limpando a garganta, inflando os pulmões de ar e erguendo o painel de anotações, uma forma eletrônica e mais sofisticada de uma simples prancheta – Pediu-me anteriormente que seria necessário marcar o horário e data da reunião do parlamento, sim?
-Certo. Tem tudo para a viagem? – Kyuki coçou a cabeça, encarando Emi que organizava alguns dados relacionados a compromissos no painel. – Partiremos em exatos 15 minutos.
Em resposta, a conselheira assentiu positivamente com a cabeça. Deu as costas e fez os últimos preparativos, levando as malas para o térreo da casa, mais precisamente o hall de entrada. Checou variadas vezes até se convencer que tudo estava ali em perfeita ordem, como sempre havia planejado. Trocou suas roupas e se arrumou como sempre fazia em viagens de importâncias políticas.
Quando desceu até o hall, Kyuki deparou-se com Emi e as malas que ele insistiu em carregar para ela. Mesmo que a conselheira não aprovasse esses atos de “cavalheirismo”, ela não protestava.
-Estamos prontos, sim?
-Sim, Vossa Graça.
Emi abriu a porta e esperou que Kyuki passasse. Depois que trancou a porta frontal, a mulher simplesmente tomou uma das malas do rei de Shin, o que fez com que ele soltasse um riso quase silencioso e também, fez com que Emi expressasse feições de impaciência. Prosseguiram em uma caminhada curta até o aeroporto, cujo a distância não era muita. No caminho, Kyuki ressaltou:
-Emi, vamos revisar mais uma vez os termos que vamos exigir.
Ela concordou.
-Para começar vamos logo exigir o cessar fogo entre Shin e Khona. Isso tem que acabar de uma vez por todas. Depois, deixaremos bem claro que vamos prosseguir nossas negociações habituais apenas quando outros termos forem debatidos e concordados. Estou correto?
-Sim, Vossa graça.
Depois daquela breve recapitulação, ambos se calaram, deixando os sons das ruas movimentadas de Shin falarem por si só. Habitantes cumprimentavam Kyuki, o grande rei de Shin, os carros passavam, o movimento fluía. Tudo se organizava de uma maneira impecável. Foram vinte minutos de caminhada até a entrada do aeroporto que a arquitetura frontal chamava demasiada atenção, com arcos de concreto e metal cuidadosamente postos sobre uma base polida de mármore. Mas eles não tinham tempo necessário para ver aquelas regalias da arquitetura contemporânea.
-São 10:20. O encontro no parlamento inicia-se às 13:30 –Emi dizia, trocando rápidos olhares com o rei de Shin – Vamos nos apressar.
Kyuki teve quando mais jovem um treinamento militar rígido, por isso costumava sempre respeitar e seguir horários impostos para reuniões e encontros à risca.
Apressadamente, caminhavam para os interiores do aeroporto até serem autorizados quase que automaticamente a prosseguir para um dos hangares em que o avião estava. Guardas impostos em volta de todo o hangar aguardavam a presença de Kyuki e sua fiel conselheira. Subiram no avião e se aconchegaram nas poltronas demarcadas. Como seu compromisso exigia antecedência, era necessário chegar muito antes de todos os demais passageiros do vôo.
Quando se sentaram, o piloto veio próximo das duas célebres figuras e cumprimentaram-nos antes de sussurrar algo no ouvido de Emi, que fez seu rosto enrubescer de fúria. Quando sua boca abriu-se para gritar, Kyuki pousou sua mão em seu ombro e perguntou-lhe suavemente:
-O que houve?
-Vossa Graça, ele disse que o vôo será atrasado – Ela soltou um longo suspiro — Um grupo de radicais foi avistado armados vindo até aqui, o vôo deverá ser prorrogado mais uma hora – Ela voltou seu olhar ao piloto, agora cortante como uma espada.
Kyuki se levantou e a conselheira entendeu bem que era um momento do rei. Olhou o piloto com uma expressão duvidosa. Pousou os olhos no crachá dele, depois encarou-o brevemente.
-Escute-me bem Yan – disse, mantendo um timbre de voz tenebroso — a minha conselheira, Emi, fez um pedido direto para seu superior, no intuito de garantir que nenhum tipo de imprevisto acontecesse. E você é o responsável pelo avião que leva o Rei, eu, também presumo que tenha uma família para sustentar. E se você for demitido não irá por comida na mesa, estou correto?
O piloto engoliu seco as palavras. Apressou-se para sair do avião e enviar o comunicado à segurança do aeroporto que sem dúvida iria obedecer as ordens do rei da gloriosa Shin. Emi deu um leve sorriso. A conselheira não era muito expressiva, mas parecia que o modo em que seu rei resolvia contratempos era no mínimo irônico. Depois do leve sorriso que Kyuki não notara, ela retornou a sua feição fechada e disse:
-Mesmo Vossa graça ter ordenado a guarda do aeroporto, não sabemos quem é quem em meio à multidão. Será difícil identificar os rebeldes que o piloto mencionou.
-Nem sabemos ao certo o líder dos rebeldes, nem o que fazem aqui. Mas se a segurança dessa nação estiver falhando o suficiente para não identificar esses homens e mulheres, meu governo é fraco para invasões – Ele fez uma longa pausa, suspirando antes de continuar – Vá sozinha ao parlamento nesse vôo.
Emi de início tentou protestar, mas ele ergueu o braço em sinal de negação.
-Vá sozinha. Chegarei ao parlamento depois, quando eu finalmente resolver tudo isso – ele pousou suas mãos frias no ombro de Emi, que segurou a mesma expressão, encarando duramente Kyuki. O rei retirou do bolso de sua calça um colar azul produzido manualmente, com uma incrível precisão. Colocou no pescoço da conselheira, que suspirou, aliviada. Parecia que todo o fardo carregado em seus ombros havia surpreendentemente desaparecido – Confie em si, minha cara.
Ela assentiu e permaneceu na poltrona, enquanto via pela janela Kyuki descendo do avião e andando de modo impaciente para os interiores do aeroporto, acompanhado de incontáveis seguranças. Eram raros os momentos em que os dois se afastavam, o que a fez pensar o quanto tempo eles passavam juntos, discutindo apenas política e horários. Ela pensou que ele merecia mais além de uma vida repleta de deveras a cumprir.
Emi afastou aqueles pensamentos e ordenou para que o piloto se apressasse. Deu uma última olhada para Kyuki em uma distancia relativamente segura do avião. Estendendo seu braço gritou algo com total firmeza e Vex, apelidava assim sua espada, encaixou-se perfeitamente em sua mão, vinda do desconhecido rasgando as nuvens do céu. Estava pronto para a batalha.
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