Shimmerleaf- Desejo das Trevas

1 Capítulo 1- Os Dois Irmãos


"Pegue-no!" era possível ouvir aos montes, em meio aos gritos e passos de corrida no meio de uma pequena feira. Vendedores puxavam suas barracas para trás da via principal e recolhiam suas frutas, enquanto um garoto encapuzado e uma série de guardas com armaduras pesadas de metal e lanças corriam distantemente atrás, procurando-o e caçando-o. Alguns no local até contavam suas frutas, procurando algum indicio de que foram furtados pelo mesmo garoto que por ali passou a pouco, e outros pegavam as que cairam no chão com a correria e agitação que os guardas causavam em plena luz do dia.
O garoto em questão, após passar por toda a feira e entrar em um beco, via-se encurralado por aparentemente seis guardas. A luz que ia contra as costas do garoto e a sombra que o muro fazia sobre ele deixava difícil a identificação do rosto do garoto, apenas era possível ver sua boca. Os guardas se aproximavam e comandavam para que ele se rendesse e devolvesse o dinheiro, que estava na mão do garoto. O mesmo sorriu e largou a pequena bolsa com moedas e uma maçã cair no chão, que saira rolando em direção aos guardas, que olharam para o chão. Após um breve momento de hesitação dos guardas, o guarda mais a frente percebe uma sombra sobre eles na viela, e imediatamente olha para cima, aonde ve outro garoto encapuzado também sorrindo com uma adaga média vigiando-os.
Quando pegava sua lança para empunhar e intimidar o garoto de cima, uma série de pedras caem sobre suas costas, tampando a passagem do beco, provavelmente desmoronaram do arco que ali estava sobre o começo do beco. Em seguida, uma bomba de fumaça roxa explode no pequeno local fechado, e um por um, os guardas caem no chão, sem reação alguma. Não estavam mortos, apenas desmaiados, porém com grandes ferimentos. Os garotos pegam o dinheiro e a maçã, escalam e saem daquele beco, rindo um para o outro.

-Essa foi fácil, Niko.
-Guardas aspirantes, Titor. Desse jeito, qualquer mero aspirante de ladrão também é capaz de fugir.
-Mas então, quantas moedas conseguimos com esse roubo?
-Algo em torno de 2000 Sonnes.
-Uau! — Exclamou tirando o capuz o garoto mais baixo, sentado sobre um telhado, revelando sua pele levemente bronzeada, cabelos castanhos claros e olhos castanhos — Da para comprar um pão para cada um amanhã!
-Com certeza, mas precisamos de mais para pagarmos um jantar também. — Disse o garoto mais velho e alto tirando o capuz também, e colocando a amostra sua pele branquela, cabelos negros e olhos azuis. — Vamos andando, ainda podemos pegar mais alguma coisa antes de voltarmos para casa.
-Eu fico com um pouco de pena de mentirmos para a mamãe. Não era suposto estarmos trabalhando?
-Que trabalho nós, garotos de 16 e 12 anos podemos conseguir nessa desgraça de terra? Nós nascemos pobres e morreremos pobres.
-Não fale assim, não é tão ruim nossa vida. Além da mamãe, temos o papai, nossa irmãzinha Sally, nossos amigos...
-Você não entende ainda, Titor. A vida pode ser muito maior que isso.

Os garotos arrumavam suas mochilas e começavam a pular de telhado em telhado, procurando um novo alvo pra saquear, como de costume aparente. Algumas horas se passaram, até o por do sol, quando os dois voltavam para casa, contentes com o lucro que conseguiram por aquele dia. Tirando o manto que cobriam seu corpo inteiro, revelaram suas pobres vestimentas: roupas simples de couro e algodão, com apenas uma ombreira de ferro cada. Chegaram em casa e despejaram o dinheiro e a comida sobre a mesa, de forma tão comum e rotineira: 5 maçãs, algumas várias moedas de ouro e 5 pequenos pães. As únicas luzes que entravam na casa eram a do por do sol passando por algumas frestas pelas paredes e o caldeirão que ali se cozinhava uma sopa.
Trocando de roupa os garotos, a mãe perguntava para os garotos:

-Como foi o dia de trabalho de vocês?
-Foi bem mãe, como pode ver. — Disse Niko enquanto tirava as botas rasgadas.
-Uhum! — Concordou Titor, colocando uma camisa de algodão no local do couro e da ombreira.
-Que bom. — Disse sutilmente a mãe, com um sentimento de culpa em cima.
-Como está o papai? — Perguntou gentilmente Niko, colocando a mão no ombro da mãe, aonde os cabelos longos e castanhos tocavam sua pele suja.
-Ele não melhorou muito... — Respondeu enquanto uma lágrima escorria por seu rosto — Mas creio que ele vai melhorar, se rezarmos bastante e cuidarmos bem dele.
-Compreendo. E Sally?
-Foi dormir a pouco, ela não estava muito bem também.

"Eu odeio essa situação." pensava repetitivamente Niko, enquanto caminhava pela casa. "Eu sou um inútil."
A cerca de três anos, o pai dos garotos adoecia de uma terrível doença do coração. Não puderas mais trabalhar ou esforçar-se como ferreiro, deixando a família em péssimas situações economicas. A mãe teve que começar a trabalhar como artesã para tentar sustentar a família, porém não era o suficiente, então Niko e Titor ajudavam as dispesas da casa supostamente trabalhando também. A família, que nunca foi rica ou teve boas condições de vida, viu sua vida afundando cada vez mais na miséria. Sally, a irmã mais nova de 8 anos que antes tanto brincava e falava com todos, ficava cada vez mais quieta e solitária, passando todos os dias sozinha em casa, brincando sozinha.
"Não é minha culpa que eu não possa brincar com ela." pensou Niko enquanto olhava para seu rosto pálido, e ao mesmo tempo sujo, seus olhos castanhos e seu cabelo castanho escuro, dormindo na pobre cama. "Eu me esforço demais, não tenho tempo para isso, ela deve entender". Apesar disso, Niko sabia no fundo que isso era uma mentira, e que simplesmente fugia da situação. Olhou para fora pela pequena janela, aonde via de longe o grandioso castelo de um dos três filhos do terror, na região de Obsidian. "Talvez seja hora de fazer alguma coisa quanto a isso."

Niko apunhou alguns pedaços de papel na mochila, uma tinta e pena roubadas, conferiu se todos estavam dormindo e começou a escrever seu plano: O plano gentil para conseguir livrar sua família da miséria, que acabaria por trazer mais miséria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.