Shikihime
6 V - A pele de Cordeiro
Denhaar
A garota caminhava pelo enorme castelo observando com cuidado cada centímetro que percorria. Em seu trajeto, Yuna não podia se furtar a observar o aspecto daquele lugar enorme. Parecia realmente com aqueles castelos dos filmes que costumava assistir, que imaginava nos livros que já havia lido. Já havia corrido e caminhado por corredores e salões que pareciam labirintos, sentia-se andando em círculos. Ainda por cima tinha de aguentar os olhares dos criados e guardas sobre ela como se ela fosse algum tipo de alienígena. Eles é que eram os alienígenas! Toda aquela gente estranha que se vestia e se comportava como se aquele lugar tivesse parado no tempo. Mas não importava, tudo o que queria era encontrar a saída.
Em sua caminhada, chegara a um corredor bem iluminado pela luz do sol que entrava através das enormes janelas presentes. Nas paredes, imensos quadros que retratavam figuras de grande imponência, em sua maioria homens, mas algumas também eram de mulheres, e notou que todos os retratos traziam ao redor da cabeça uma coroa dourada. Ela olhava admirada a imponência daquele lugar. Seriam as imagens de reis? Os reis que já viveram naquele castelo? Havia lido uma cena semelhante em algum lugar uma vez. Mas em sua distração ela não percebeu que de longe alguém a observava.
-Ei! – A voz a chamou fazendo-a virar-se assustada. Ao olhar quem era, viu a figura do misterioso rapaz em quem esbarrara mais cedo, o mesmo que se recordara nas lembranças que tinha de como, possivelmente, havia ido parar ali, o mesmo a quem ela sentia já conhecer de algum lugar. O susto inicial logo passou e ela franziu o cenho, olhando-o com raiva e caminhando até ele em passos pesados. Ele por sua vez a olhava sem entender.
-Foi você! Você que me trouxe pra cá, não foi? – Ela apontou-lhe o dedo falando num tom que não agradou Heero nem um pouco.
-E se tiver sido? – Ele respondeu no mesmo tom nada amigável, olhando-a.
-Quero que me leve pra casa agora mesmo! – Ordenou, fazendo o outro soltar uma risada sarcástica, cruzando os braços.
-Hah, pode acreditar, no que dependesse de mim, você sequer estaria aqui. – Tal resposta fez Yuna surpreender-se, mas então se lembrou de que estava com raiva e novamente fechou a expressão.
-Então por que me trouxe?
-Porque, infelizmente nesse caso, minha lealdade é mais forte que minhas ideologias. Lune confiava em mim, precisava de mim, Eu não podia desapontá-lo. – Ele respondeu simplesmente, desviando o olhar sério por um momento. Yuna o olhou intrigada. De certa forma em uma única frase ele falou de valores que ela não estava acostumada a perceber em seu cotidiano, e falou com tamanha naturalidade. Por um instante ela própria realmente se sentiu como um alienígena. O silêncio imperou por alguns segundos até Heero olhá-la, percebendo que ela o observava com curiosidade. Suspirou. –O fato é que, independente de aprovar ou não a sua vinda... Eu não sei como fazer para leva-la de volta. Ninguém sabe.
Ela estranhamente sentiu uma enorme confiança nas palavras dele, ele falava olhando-a nos olhos o tempo todo e notara a sinceridade dele em cada palavra. A garota desviou o olhar ao chão, pensativa. Por mais louca que pudesse ser a ideia de que estava presa num mundo paralelo ao seu, começava a aceitar a possibilidade de que fosse verdade. Logo imaginou por quantos dias acabaria tendo que ficar confinada naquele lugar sem poder voltar pra casa e sentiu uma enorme tristeza. Os olhos encheram-se de lágrimas e ela abaixou-se, sentando no chão encostada à parede, sob os olhos surpresos de Heero.
-Meu pai deve estar tão preocupado comigo... Todos devem estar loucos atrás de mim por que eu não voltei pra casa. – Ela dizia em voz baixa, apoiando a cabeça sobre os joelhos dobrados diante do corpo enquanto fitava um ponto qualquer no corredor com os olhos marejados. Heero engoliu em seco e pareceu só então se dar conta de que ela era uma garota como outra qualquer e que, aparentemente, tinha uma vida normal como a de qualquer outra em seu mundo. Vê-la daquele jeito lhe partiu o coração, mas ele nada disse, simplesmente não sabia o que poderia dizer ou fazer para confortá-la naquela situação uma vez que no fim das contas, era ele o causador de sua tristeza. Simplesmente desviou o olhar, não conseguia encará-la tamanho seu desconforto.
-Me perdoe. – Ele disse em voz baixa, quase inaudível, antes de caminhar pelo corredor até a saída, sendo observado atentamente pela garota em seu trajeto.
...
Sozinho, Lune caminhava pensativo em passos lentos na direção da saída do salão de jantar. Tão distante estava em suas divagações que mal percebera quando Heero aproximou-se dele com um olhar nada satisfeito. O sacerdote o olhou e pensou em falar-lhe alguma coisa, mas não teve tempo.
-É melhor mesmo que ela seja a Shikihime, Lune. – O mais velho sentiu um tom severo que o surpreendeu na voz do rapaz, era a primeira vez que o via com aquele aspecto tão transtornado.
-Heero...
-Nunca... Nunca alguém me fez sentir tão... Errado. – O rapaz cerrou os punhos e olhou para o chão, estava irritado consigo mesmo por sentir-se impotente diante daquela situação, tinha afetado negativamente a vida de alguém inocente e não podia fazer nada para mudar isso. Lune olhava resignado o rapaz. Por um lado sentia orgulho de ver que além de um guerreiro habilidoso e certo de seus próprios valores, Heero também tinha um coração justo e piedoso, que sentia necessidade de proteger quem precisasse dele. Por outro, sentia culpa por ter causado tamanha situação. Ergueu a mão e segurou-lhe o ombro num gesto afetivo.
-Me perdoe, Heero... Eu me deixei cegar por aquilo que acreditava e acabei cometendo um erro. Mas agora, ao menos uma vez na vida, deixe-me compartilhar com você a minha fé. Acredite comigo que tudo vai dar certo e que uma grande bem poderá provir deste equívoco. – O rapaz o olhou e nada respondeu. Lune fora seu mentor e devia a ele boa parte do que havia se tornado. Lhe era fiel por muito mais que a simples gratidão por tê-lo criado, mas por ver em Lune um homem justo e honrado, digno de sua confiança acima de qualquer outra pessoa. Suspirou e o olhou como um filho olha ao pai, deixando um leve sorriso lhe desenhar o rosto, repetindo o gesto dele e segurando-o da mesma forma. O sacerdote lhe devolveu o sorriso e entreolharam-se. Havia um laço ali que nada seria capaz de quebrar.
-Senhor Lune! – Um soldado adentrara o salão chamando pelo homem que o olhou rapidamente. –Os príncipes Ehren e Serge acabaram de retornar e os comandantes estão se reunindo. O rei exige a sua presença imediatamente!
-Vá na frente, eu o seguirei. – O sacerdote ordenou, sendo respondido com uma reverência antes do soldado se retirar com pressa. – Bom... É melhor que eu me vá, muitas notícias devem vir por aí. – Disse antes de dar as costas ao rapaz diante de si.
-Me deixe ir com você! – Heero pediu entusiasmado, fazendo o outro virar-se para ele com um sorriso irônico.
-Perdoe-me, Heero, é uma reunião confidencial. Quem sabe se você se juntasse ao exército... – Sugeriu sarcástico, fazendo o rapaz bufar cruzando os braços, bastante contrariado. O sacerdote não conteve a gargalhada e se retirou a passos rápidos.
...
Yuna permanecia encolhida na parede daquele corredor em que estava quando percebeu o som bem baixo de várias vozes alteradas vindas de algum lugar por aqueles corredores. Levantou-se e, movida pela curiosidade, pôs-se a averiguar de onde elas vinham, caminhando em direção ao corredor perpendicular ao que estava. Enquanto seguia por ele à procura do som ela percebeu que aos poucos ele se tornava mais escuro e menos ornamentado. Não fazia ideia de onde estava mas com certeza não era um dos pontos principais do castelo. Ao virar à esquerda, notou que as vozes se tornaram mais altas e encontrou, no fim daquele corredor parcamente iluminado, um buraco feito pela falta de alguns tijolos que perfuravam a grossa parede. Olhou intrigada, mas aproximou-se mesmo assim — era de lá que as vozes vinham.
Abaixando-se totalmente para poder olhar através da abertura ela percebeu que tinha a vista de cima de um enorme salão na qual vários homens estavam reunidos conversando e discutindo alguma coisa sobre uma batalha. Ela notou a presença de um trono no canto, diante do qual todos estavam em frente e próximo a ele, de costas para ela, a figura que parecia ser a do tal sacerdote que conhecera mais cedo. Não demorou mais que alguns segundos para que ela sentisse alguém atrás de si lhe tampar a boca, assustando-a, mas ao virar-se deu de cara com Niccolai, com um dedo indicador sobre a boca.
-Psiu! Tenha calma, sou eu! – A garota sussurrou-lhe fazendo Yuna suspirar aliviada, mas olhá-la aborrecida.
-Você me assustou! – Sussurrou de volta.
-Ora, do jeito como está enfiando a cabeça pela abertura todos vão vê-la lá de baixo! – A sacerdotisa disse-lhe como se falasse com uma criança. Yuna a olhou surpresa ao vê-la abaixar-se e, com cuidado, olhar a movimentação lá embaixo.
-Espera aí, foi você quem fez esse buraco?!
-Bom... Sim. Nunca me deixam participar das reuniões, então eu dei o meu próprio jeito de assistir. – Falou com um semblante convencido.
-Bisbilhoteira. – Yuna disse-lhe, fazendo a loira olhá-la indignada pela ofensa.
-Não sou bisbilhoteira! Sou uma princesa que quer está bem informada do que acontece em seu país. – Ela desculpou-se fazendo a outra olhá-la novamente surpreendida.
-Espera aí, você é uma princesa? Achei que tinha dito que era uma sacerdotisa!
-Eu sou as duas coisas – E sorriu docemente – Mais princesa do que sacerdotisa na verdade, ainda não concluí o meu treinamento, o mestre Lune é exigente demais! – Niccolai reclamou com seu jeito infantil, mas então se lembrou do por que estavam ali – Mas agora chega de conversa, vamos ouvir o que está acontecendo!
Por um momento Yuna esqueceu-se dos problemas e entregou-se à aventura daquele momento como se fosse uma criança fazendo arte. Embora mal conhecesse Niccolai, o jeito meigo da garota a fazia se sentir à vontade como se já fosse sua amiga desde a infância. As duas concentraram-se em observar o que acontecia.
Lá embaixo, o clima parecia tenso entre a discussão daqueles homens. Todos eles trajavam armaduras e uniformes, em sua maioria eram velhos de barbas brancas e cicatrizes que denotavam sua enorme experiência em batalhas. Mas dentre eles, dois mais jovens, ambos trajando longas capas sobre as armaduras que usavam, aproximaram-se até o centro do salão, colocando-se diante do trono e uniram os punhos cerrados em reverência.
-Meu pai. – Um deles saudou antes de se erguerem. Este era um homem bastante bonito sem dúvidas, tinha cabelos curtos num tom castanho igual ao de seus olhos fortes. O sorriso que se desenhou no meio da leve barba que ele ostentava revelou uma cicatriz no canto de sua boca. No centro da testa, trazia um símbolo que parecia representar um sol com cinco raios triangulares. O outro aparentava ser mais jovem, embora fosse como uma cópia do primeiro. A única diferença notável era provavelmente seu cabelo um pouco maior revelando ondas que lhe cobriam as orelhas. Usava uma faixa azul marinho no meio da testa que lhe conferia o aspecto daqueles guerreiros da Grécia antiga. – Que bom finalmente estar em casa.
Diante deles, um velho homem ergueu-se com certa dificuldade do trono em que estava sentado. A simples menção de levantar-se fez com que todos os presentes se ajoelhassem, com exceção dos dois rapazes citados anteriormente, embora tenham se curvado. Ele vestia-se ricamente e trazia na testa a coroa que simbolizava sua posição máxima naquela sociedade. Por entre as feições enrugadas era possível ver que tinha uma expressão e olhar extremamente fortes. Usava uma barba branca não muito cheia, mas que mesmo assim quase escondeu o sorriso alegre que ele abriu ao ver diante de si a figura dos filhos. Caminhou até eles e tocou-lhes o ombro, fazendo-os se erguer para olhá-lo.
-Ehren... – Ele falou ao mais velho antes de abraça-lo longamente e depois se dirigiu ao segundo, repetindo o gesto. –Serge. Graças aos deuses estão de volta depois de quatro longos meses em missão pelo mundo. Muito temi por sua segurança.
-É muito bom voltar pra casa, estávamos com saudades. – Serge, o mais novo, disse sorridente.
-Mas infelizmente não chegamos com notícias muito boas. – Ehren disse, fazendo com que todos lhe dessem atenção. – Bom, a mais recente e que não sei se já chegou aos seus ouvidos... Horen, rei de Uhr, rompeu o acordo que tinha com os Kornerianos e atacou Oran ontem à noite. Pelo que eu ouvi, foi um massacre. – Ao dizer isso um grande falatório se iniciou entre os presentes.
-Então é verdade mesmo? – Lune o inquiriu um tanto perplexo. – Eu ouvi os boatos, mas não podia imaginar que tivesse sido algo tão sério.
-Infelizmente é verdade, nossos mensageiros nos confirmaram pela manhã. Foi um ataque surpresa massivo ao por do sol de ontem, em menos de três horas tudo já havia sido tomado. Há rumores que receberam ajuda do exército de Virn. Milhares de soldados foram mortos, o castelo penetrado. O rei Haphir foi morto em combate... – Ehren disse com desgosto, notando que uma enorme tristeza invadiu os olhos de seu velho pai. O rei retornou com dificuldade ao seu trono e quedou-se pensativo sobre o que tinha acabado de ouvir. Apesar da comoção e pesar que havia tomado conta dos presentes, nenhum parecia tão consternado quanto o soberano.
-Sinto muito, majestade. – Lune disse-lhe em voz baixa, pesarosa. Tinha ciência de que seu rei Frid e Haphir de Oran outrora foram amigos, muitos anos atrás, quando a coroa ainda não lhes pesava a fronte. Apesar do tempo e das responsabilidades nesses tempos de guerra terem afastado o contato entre os dois velhos amigos, havia ainda um intenso respeito e admiração mútuo.
-Haphir tinha uma filha... Uma jovem pouco mais velha que Niccolai. O que houve com ela? – O velho perguntou e olhou seus filhos com interesse.
-Parece que está sendo feita prisioneira e vai ser levada para Uhr. – O mais novo respondeu sério. –A pobre coitada deve estar sofrendo nas mãos daquele louco Horen, ele provavelmente vai escraviza-la. – E ao ouvir tais palavras, Frid arregalou levemente os pequenos olhos.
-Oh, Haphir... Morto, e agora sua filha prisioneira de um homem tão vil... – Disse a si mesmo com enorme pesar, no fundo sentia culpa por não ter podido ajudar. O soberano então voltou seu olhar a dois outros homens que, mais ao fundo, observavam toda a discussão. – Vocês dois. São vocês os enviados de Ciphur que meus filhos trouxeram, não são? – E quando as atenções voltaram-se a eles, os dois aproximaram-se e curvaram-se longamente ao monarca diante de si.
-Majestade. – Um deles principiou a falar. Este tinha rebeldes cabelos curtos num tom loiro escuro que contrastava com a capa preta que trazia sobre suas vestes. –Sou o General Frey, primeiro comandante do exército da Korneria. Este é meu companheiro, Comandante Dankell. Nosso rei Ciphur nos enviou para pedir humildemente sua resposta sobre a proposta do tratado de aliança oferecido. – Ele disse. Nesse momento, Lune, que se postava à direita do trono e observava a conversa, não deixou de lançar um olhar bastante desconfiado e sério ao companheiro de Frey. O olhar daquele homem não lhe passara a mínima confiança. Dankell devia ter cerca de trinta anos, cabelos negros não muito alinhados e olhos verdes que transmitiam extrema frieza. Ao notar que era observado pelo sacerdote, ele não pôde deixar de retribuir o olhar, exibindo um leve e irônico sorriso.
-Vocês estão longe de casa, mas certamente sabem a posição de seu senhor perante essa traição. – Frid inquiriu.
-Não há como lhe dar total certeza, Majestade. Mas eu duvido que meu rei vá perdoar tamanha barbaridade como a que aconteceu em Oran. – Frey explicava. – Ciphur é um senhor pacífico. Assim como sua majestade, ele optou por manter-se o mais afastado possível da guerra, sem falar que há gerações Oran e Korneria são aliadas. Graças às fronteiras praticamente unidas sempre houve grande interação entre o povo e uma série de troca de favores e negociações mercantis. Quando nos aliamos à Uhr, foi firmado um acordo que não permitia hostilidade entre as nações dessa tríplice, mas agora Horen descumpriu sua parte. Eu não creio que essa aliança estará de pé quando o sol nascer amanhã.
Frid ponderou sobre as palavras que ouvira. Ciphur era um senhor digno e pacífico, um homem que conhecia e respeitava por seu senso de justiça e sabedoria, mesmo que fosse bastante jovem para ser rei. Denhaar, Oran, Korneria e Uhr eram geograficamente unidos, seus territórios se limitavam entre si, o que facilitava a troca de comércio e informações. Entretanto, apesar dos acordos pacíficos, Frid preferia não se colocar em alianças de ajuda mútua uma vez que os demais estavam mais constantemente envolvidos em ofensivas, ele não queria arriscar a segurança de sua terra e seus soldados envolvendo-se em batalhas que não lhe diziam respeito. Mas agora talvez fosse o momento para mudar de estratégia já que Uhr parecia potencialmente perigoso. Além do mais, estava movido pela vontade de acalentar a alma de seu falecido amigo e ao mesmo tempo redimir a sua por não ter podido fazer nada para ajuda-lo — o ataque de Uhr foi sorrateiro, feito à surdina, e ainda assim devastador.
-Considerem o tratado firmado, senhores. – O soberano decidiu e os presentes não puderam deixar de se surpreender, mas a maioria aprovou a decisão, especialmente Frey que abriu um sorriso satisfeito. Lune suspirou, não era capaz de dizer se aquilo traria consequências boas ou ruins, mas quem sabe fosse o mais correto a ser feito no momento. As duas observadoras secretas lá em cima também se entreolharam; Yuna estava apenas confusa, quase alheia ao que acontecia, mas Niccolai tentava entender o que aquela decisão poderia significar para Denhaar. – Como medida inicial de nosso acordo, gostaria que nos ajudassem nas negociações pela libertação da princesa, farei qualquer esforço necessário para isso.
-Perdoe-me, meu pai. – O príncipe mais jovem fez-se presente. – Mas será que a diplomacia seria suficiente nesse caso? Até onde eu sei o ataque foi motivado por razões pessoais de Horen para com o povo de Oran. Um grande clamor foi gerado por toda aquela história de Haphir ter recusado dar assistência ofensiva a Uhr, e só piorou quando a princesa recusou a mão dele. Foi vingança, e não creio que ele abrirá mão de seu troféu assim tão facilmente. – As palavras do príncipe novamente geraram comentários, de fato ele tinha razão.
-Infelizmente não temos outra opção, Serge. – O irmão mais velho concluiu, mas quando pensou em desviar sua atenção, eis que o rapaz propõe algo que faz os olhares de todos se voltarem a ele.
-Temos sim! Podemos enviar uma emboscada ao exército de Uhr enquanto eles marcham de volta pra casa!
-Você ficou louco? – Ehren o fitou incrédulo ao ouvir tal ideia.
-Por quê? Nós temos toda a vantagem! O exército dele está exausto depois da batalha de ontem à noite, sem falar nos feridos que serão levados de volta, tudo isso atrasará em dias sua viagem. Se comandarmos um exército até lá o mais rápido possível, podemos pegá-los de surpresa e a vitória com certeza seria nossa.
-Uma manobra imprudente dessas seria como declarar guerra a Uhr abertamente! – O príncipe mais velho disse-lhe alterado.
-Mas o povo de Oran está sofrendo, a princesa ser mantida prisioneira significa o fim da esperança de todo um país! Não podemos deixar todo um povo sucumbir por causa de uma vingança fútil de Horen! – Serge argumentava com tamanho fervor que demonstrava toda a sinceridade de sua indignação para com a brutalidade que havia acontecido.
-Meu filho... – Frid foi até ele em seus passos cansados e o olhou com tamanha ternura, antes de tocar seu ombro com a mão direita e segurá-lo com firmeza. – Há infinita bravura e bondade em seu coração jovem, mas não deixe que seu entusiasmo cegue sua razão. Um homem sábio é aquele que pondera sobre todas as consequências de seus atos antes de toma-los, e para isso é preciso algo que ainda lhe falta: Paciência. – Tais palavras fizeram o príncipe suspirar resignado, embora bastante insatisfeito. O rei então voltou sua atenção aos demais presentes. – Por favor, senhores, vamos encerrar a nossa reunião por agora. Esse velho rei está exausto e precisa descansar... – Disse em um leve tom de brincadeira apesar da sinceridade e sorriu levemente. Seus filhos o ajudaram e Frid sentou-se, suspirando pelo cansaço. Sentia muitas dores, seus ossos estavam fracos e já não aguentava muito tempo de pé.
O velho monarca, embora forte em sua personalidade e caráter, sentia o peso da idade recair sobre o seu corpo a cada dia que passava. Estava doente e já não saía do castelo, era até difícil vê-lo fora do quarto uma vez que a grandiosidade da morada tornava o percurso difícil e ele sempre precisava de ajuda para se locomover. Tamanha dependência feria o orgulho do velho rei que já treinava seu primogênito para substituí-lo no dia que finalmente deixasse este mundo. Ehren era um homem bom e justo que seguia à risca o exemplo e ensinamentos de seu pai para qualquer atitude que fosse tomar. Muito além da figura paterna, o príncipe herdeiro via em Frid um homem que galgou o amor e respeito de todo um reino e também de outras partes do mundo graças à sua sabedoria e ao seu inabalável senso de justiça. Ansiava poder ser um soberano tão bom e digno quanto seu amado pai, mas mesmo assim esperava que o dia de sua ascensão ainda tardasse muito a vir, pois esse dia viria de mãos dadas com a perda.
Enquanto isso, lá em cima, Niccolai afastou o rosto do buraco na parede e fez Yuna olhá-la curiosa quanto a expressão de preocupação que viu se formar no rosto da princesa.
- O que foi? – Perguntou.
-Eu não sei... – A princesinha sentou-se no chão pensativa, enquanto Yuna voltou a abaixar-se e olhar pela parede.
Findada a reunião, os comandantes se retiraram e apenas Lune, os dois príncipes e os dois convidados estrangeiros permaneceram no local. Todos se aproximaram do rei para ouvi-lo falar.
-Frey, Dankell, estavam em missão com meus filhos, sei o quanto deviam estar ansiosos por voltar para casa e mesmo assim vieram até aqui humildemente para cumprir o tratado de aliança. Devem estar exaustos depois de tanto tempo, então lhes ofereço meu castelo para descansarem esta noite, caso sua ansiedade de retornar não seja tão fervorosa. – Falou com um sorriso amigável aos visitantes. Frey sorriu e reverenciou respeitosamente o soberano.
-Agradecemos a tentadora proposta, majestade, mas precisamos voltar à Korneria o quanto antes, as coisas devem estar fervendo por lá e não seria bom me ausentar nem mais um dia sequer. Além do mais, minha família me espera há quatro meses, estou com saudades. – Concluiu com franqueza. Dankell ao seu lado, de braços cruzados, permanecia calado, assim como ficou durante todo o encontro. Lune não pode deixar de ter notar que ele estava extremamente atento a tudo o que ouvia e tal pensamento o intrigou.
-Então pelo menos almocem conosco e partam ao entardecer. – O rei novamente convidou, fazendo Frey sorrir um tanto desconsertado. De fato, estava faminto por uma boa comida depois de meses matando a fome com caça e comida improvisada.
-Bom... Se é assim, tudo bem. Agradecemos muito o convite tão gentil, majestade. – E novamente os dois reverenciaram.
-Fico muito feliz. – Frid disse sincero antes de levantar-se novamente, sendo ajudado por Ehren. – Agora irei me retirar para descansar um pouco, vejo-os no almoço. Lune os acompanhará caso precisem de algo. – E dizendo isso, o soberano retirou-se acompanhado por seu filho mais velho. Serge por sua vez afastou-se do grupo e caminhou até um enorme e belo vitral na parede que dava visão à boa parte de Denhaar lá fora. Estava bastante pensativo e ainda insatisfeito pelo que acontecera anteriormente. Quem percebeu suas feições foi Dankell que o observava se afastar. O visitante foi se afastando quase despercebidamente de Lune e Frey que conversavam e seguiu até o jovem rapaz.
-É frustrante quando nos privam de nossas ideias, não é mesmo? – Pela primeira vez a voz enrouquecida de Dankell podia ser ouvida naquela manhã. Serge o olhou enquanto se aproximava, antes de novamente desviar sua atenção à vista de fora. – É como se sentir jogado numa gaiola. Mas eu o entendo, jovem príncipe, eu entendo que tem um grande ideal então não deixe que lhe tirem a determinação de segui-lo. Lembre-se, um grande homem luta pelo que acredita independente da aprovação dos outros. – E ao ouvir tais palavras, Serge o fitou curioso. – É preciso seguir os instintos e fazer a justiça sob qualquer circunstância. Não deixe que tolham seu discernimento do que é certo e errado, não deixe que cortem as asas dos seus ideais. – Falou olhando-o diretamente nos olhos de forma instigadora. E quando terminou, deu as costas e afastou-se lentamente. O rapaz o olhava pensativo, tais palavras haviam tocado diretamente nos pontos fracos do príncipe guerreiro: Sua imaturidade e imprudência.
Lune só então notara que Dankell havia falado com Serge algo que ele não fora capaz de ouvir devido à distância. Via Dankell aproximar-se e lhe lançar um olhar irônico com seu sorriso levemente malicioso e só então se deu conta da expressão que Serge sustentava no rosto olhando o estrangeiro de longe. Um arrepio percorreu as espinha de Lune com um mal pressentimento. Agora mais do que antes sabia que não confiava de forma alguma naquele misterioso visitante. Dankell por sua vez caminhava a passos lentos até a saída sustentando uma expressão de certa satisfação. Mas alguma coisa o fez voltar a atenção para cima ao se sentir observado e qual não foi a sua surpresa ao ver um rosto que, no alto da parede, espionava através de um buraco. Franziu o cenho sem entender e viu quando a pessoa pareceu assustar-se e logo se escondeu.
-O que foi? – Niccolai perguntou ao ver Yuna levantar-se tão rapidamente com os olhos arregalados.
-Nada não! – Mentiu. Niccolai se zangaria se soubesse que ela provavelmente estragou o seu ponto secreto de espionagem.
-Bom, então melhor irmos, pelo visto teremos convidados hoje. E você poderá conhecer meu pai e meus irmãos! — Niccolai segurou a mão da garota e levantaram-se, seguindo pelo corredor. Enquanto isso, Yuna torcia em pensamentos para que, seja lá quem fosse, não desse atenção a um espião que olhava através de um buraco na parede uma reunião importante. Depois recriminara-se por sua ingenuidade em esperar isso, é claro que dariam atenção! Mas não sabia ela que era Dankell que a havia visto, e que ele de fato não ligava para a presença de um espião no castelo de Denhaar.
C.O.N.T.I.N.U.A...
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