Em algum lugar no Japão...


“Onde eu estou?” perguntava-se a jovem oriental de longos cabelos negros enquanto abria lentamente os olhos e observava a sala escura e vazia em que se encontrava. Ergueu-se lentamente e um arrepio de medo correu sua espinha. Olhou ao redor, não havia nada nem ninguém, apenas uma porta num canto do pequeno recinto. A única abertura no by Savings Sidekick\">ambiente eram duas pequenas janelas próximas ao teto pelas quais a luz do sol entrava iluminando parcamente o local. Levantou-se com pressa e correu até a porta tentando abri-la, mas estava trancada.


–Alguém me tira daqui! – Gritava batendo fortemente na porta, em desespero. – Tem alguém aí? Por favor...!! – E afastou-se da mesma ao perceber que ela não ia se abrir. Sentou-se encolhida na parede, assustada sem entender o que acontecia.

Seu temor era potencializado pela sucessão de acontecimentos estranhos que estava vivendo nos últimos dias. Dois dias antes, acordara num hospital com resquícios de um sonho longo e estranho na cabeça, conseguia lembrar-se apenas de alguns flashes; alguns rostos distorcidos, vozes, lugares que jamais conhecera, um jovem rapaz de armadura cujo rosto ela não conseguia formar em sua memória. Nada que fizesse muito sentido. Disseram-lhe que esteve desaparecida por dias e foi encontrada desmaiada à sombra de uma árvore na qual adorava encostar-se para descansar em tardes frescas. Mas simplesmente não conseguia lembrar-se de nada a respeito desse desaparecimento, como ou onde aconteceu, tudo o que se lembrava era estar saindo da escola no horário normal e visitar a árvore que tanto gostava como sempre costumava fazer. E agora lá estava ela de novo, acordando sozinha num lugar completamente estranho sem a menor ideia de como havia ido parar lá. Não entendia por que, mas era como se já tivesse tido essa sensação antes.


De repente, ouviu um barulho na tranca da porta e a olhou com pressa, esperançosa de que alguém a tivesse vindo libertar. Quando ela abriu-se, viu a figura de dois homens trajados em negro com capuzes que lhes cobria o rosto adentrando o lugar e puxando-a pelos braços mesmo contra seus protestos.


–Quem são vocês?! O que vão fazer comigo? – Perguntava-se em pânico, debatendo-se enquanto os dois praticamente a arrastavam para fora aos gritos.

Após atravessarem um longo corredor chegaram então a uma sala branca na qual havia somente uma mesa ao centro e um loiro de meia idade sentado a ela. A garota o olhou completamente confusa, sem entender nada do que acontecia. Os homens então a fizeram sentar-se na cadeira do outro lado da mesa e colocaram-se na porta do recinto. Ela estava tão apavorada que não sabia se deveria tentar algo ou apenas esperar para ver o que iria acontecer. Ao reparar no homem diante de si, viu a figura de cabelos perfeitamente cortados cujo um dos olhos era coberto por um tapa-olho com um símbolo estranho.


–Então... Seu nome é Akihiri Yuna, certo? – Ele começou a falar em sua voz grave, num japonês difícil de entender. Ela assentiu levemente com a cabeça enquanto o olhava assustada. – Por acaso tem alguma ideia de quem ou sou ou de onde está, senhorita Akihiri? – Yuna balançou a cabeça negativamente, trêmula. – O meu nome é Robert Strauss. Perdoe falar tão mal o seu idioma, mas não creio que a senhorita entenda alemão, muito embora um ancestral seu seja meu compatriota. – E ao dizer isso, a jovem franziu o cenho. Ele sorriu levemente, tomando de alguns papeis que estavam diante de si e olhando-os rapidamente enquanto falava. – Pelo visto não conhece muito sobre seus ancestrais.


–Do que você tá falando? Por favor, me deixa ir embora! – Ela pediu desesperada, quase ignorando tudo o que estava ouvindo tamanho seu temor.


– Você, senhorita Akihiri, é uma descendente direta de Hans Biedermann, nascido em 1878, em Berlin. É seu tataravô, pra ser mais exato, ele foi um cientista não muito famoso na época. Por ironias do destino, seu bisavô, Michael Biedermann, ecologista, é que veio para o Japão, aqui ele conheceu sua bisavó e estabeleceu a sua família, e é por isso que estamos aqui hoje. Quem diria? – Ele explicava sorrindo num tom assustadoramente natural enquanto olhava os papeis, antes de olhar para a perplexa garota diante de si. Quem era aquele homem afinal e por que ele conhecia tão bem a sua família? – Também por ironia do destino, sua mãe e sua avó, que são as descendentes dessa linhagem, foram filhas únicas e ambas já faleceram. Dessa forma, como você também não tem irmãos e o seu bisavô e o irmão dele também já estão mortos, que Deus os tenha, isso torna você a última descendente direta de Hans Biedermann que ainda está viva. Pelo menos nesse mundo! – E ao dizer isso, riu um tanto quanto sádico.


–Onde eu estou? Quem são vocês? Por que sabem tanto sobre a minha família? – Ela perguntou num misto de medo e intriga.


–Calma, meu bem, uma pergunta de cada vez. Primeiro é você quem vai me responder algumas perguntas. – Yuna o olhou sem entender. – Nós vigiamos você de perto desde o dia em que você nasceu, e assim tem sido com os seus ancestrais da linhagem Biedermann desde o seu tataravô. E nós sabemos que você desapareceu misteriosamente por 5 dias, sem deixar vestígios nem notícias, e que acordou há exatamente dois dias atrás num hospital sem lembrar-se de nada do que aconteceu. Mas nós temos motivos pra acreditar que você fez algum tipo de viagem dimensional e passou este tempo num lugar chamado “Mithera”.


–... Que? Do que você tá falando?!


–Não precisa mentir pra mim, eu não acho que você é louca! – Ele disse colocando as mãos sobre a mesa e inclinando-se, aproximando o rosto do dela que o olhou num misto de raiva e confusão. – Pode me contar tudo o que viu lá!


–Você é que é o louco aqui, eu não faço ideia do que está falando! Me deixa ir embora!


–Onde você esteve nesses 5 dias que ficou desaparecida? – Ele perguntou quase atropelando as palavras dela, deixando-a mais nervosa.


–Eu não sei! Eu não me lembro! – Ela respondeu em voz alta sentindo lágrimas brotarem em seus olhos.


–Você tem que se lembrar de alguma coisa! – O homem falou em voz alta num tom ríspido, enrijecendo as feições e dando uma tapa sobre a mesa, o que assustou a jovem, fazendo-a cair no choro. Ele levantou-se e caminhou ao redor dela. –Tente se lembrar de algo, qualquer coisa, você tem que lembrar, se concentre! Um lugar, uma pessoa, me diga tudo o que vier a sua cabeça.


Yuna chorava, estava com medo, nervosa, aquele homem que nem conhecia a estava pressionando demais com toda essa história maluca de viagem por dimensões. Mas de fato, em seu nervosismo, novamente ela tinha flashes, via lugares estranhos, muitas árvores e grama, a luz do sol, alguns vultos de pessoas que riam e falavam-lhe coisas desconexas. Mas ao mesmo tempo, por cima disso tudo, começou a lembrar também de luta, gritos, guerra, sangue. As imagens todas começaram a se misturar em sua mente fazendo-a apertar a cabeça num gemido, sentindo leves pontadas. Era como se aqueles pensamentos quisessem penetrar sua mente como agulhas, todos de uma só vez, sendo bloqueados por alguma barreira intransponível.

–Eu não sei, eu não sei...! Eu só vejo rostos e florestas e pessoas morrendo...! – Ela dizia entre soluços segurando a cabeça baixa entre as mãos.


–Isso, isso, fale-me mais! Quem são essas pessoas? Fale-me da árvore sagrada, a árvore da vida! E dos espíritos e poderes mágicos! – Ele dizia-lhe quase que enlouquecidamente enquanto segurava com força os delicados pulsos, mas só a fazia desesperar-se ainda mais.


–Por favor, eu não sei de mais nada...! Me deixem ir embora, por favor! – Ela implorava chorando. Robert franziu o cenho em raiva.


–Levem-na de volta, tranquem-na na sala, quem sabe assim lhe refresque a memória. E que ela fique lá até que se lembre de algo útil. – Ele ordenou aos dois encapuzados em meio aos protestos chorosos da garota, antes de novamente olhá-la nos olhos com frieza. – E para o seu bem é melhor que se lembre, ou se não, não terá mais serventia pra mim! – E dizendo isso, largou-a e se retirou. Os homens a pegaram novamente e levaram-na de volta à mesma sala escura em que estava antes, jogando-a lá e trancando a porta. Ela batia e gritava por socorro, mas nenhuma viva alma estava ali para escutá-la ao longo daquele corredor sombrio.



C.O.N.T.I.N.U.A...