Shikihime
2 I - Previsão de Temporal
Nagoya, 2012 – 7 dias antes.
De longe se via a silhueta feminina sentada no chão, encostada a uma árvore não muito alta, de copa larga e folhas verdes que sacudiam ao vento exalando um perfume singular. A brisa levemente fria dava uma temperatura agradável ao local e fazia os cabelos negros de Yuna esvoaçarem enquanto ela, perdida em devaneios, relaxava à sombra daquele que era o seu local preferido. Era ali que conversava consigo mesma, deixava seus pensamentos flutuarem e entregava-se a uma paz que não conseguia sentir em nenhum outro lugar. Era como se pudesse enfim entender e conhecer a si mesma por completo, não havia tristeza nem confusão de sentimento, apenas uma enorme plenitude do ser. Tinha algo de especial naquela árvore, uma força que a atraia, quando perto dela uma sensação inexplicavelmente boa tomava conta de si. Ela acreditava haver algo de espiritual e especial a respeito daquele lugar, que visitava quase todos os dias.
Os olhos azuis de um raro tom escuro passeavam perdidos pelo céu de poucas nuvens às vezes fechando-se rapidamente, e depois mais lentamente, e mais, até não se abrirem mais.
“-Hey... Acorde... Precisam de você... Precisam de você, Yuna... Acorde... Yuna, acorde... Shikihime...!”
–Yuna!! – Chamou novamente a garota de cabelos castanhos quando finalmente a amiga despertou, abrindo os olhos rapidamente e de maneira confusa voltava à realidade, olhando ao redor como se procurasse algo. –Yuna... Finalmente acordou! Sabia que ia acabar te encontrando aqui – disse em um sorriso maroto.
–Então era você, Hiromi...? – Perguntou Yuna, suspirando e sorrindo levemente, cruzando as pernas apertadas nas meias três quartos que usava com o uniforme colegial.
–Ora, claro! Temos que ir pra casa, já está ficando tarde. – Disse-lhe a agitada mocinha puxando-a pelo braço e então começaram a caminhar lentamente rumo a casa. Yuna mantinha a cabeça baixa, pensativa, mal prestava atenção por onde andava, reparara que quase sempre que estava perto da árvore que tanto gostava sentia como se alguém chamasse por ela, mas nunca havia passado de uma impressão longínqua. Dessa vez em forma de sonho, a sensação pareceu muito mais nítida.
–x-
O quão grandioso poderá ser esse universo em que vivemos? Quantos de nós, aqui em nossa realidade atordoada de informação e facilidades, alguma vez pararam para refletir além daquilo que nos é jogado desde o berço até o dia em que partimos? Quantos já questionaram além dessa verdade absoluta do mundo que nos é imposta pelo padrão de vida que se segue quase sem perceber? Talvez a grande verdade do mundo seja algo a se descobrir dentro de nós mesmos, as sutis ligações que, como uma infinita teia, conectam o nosso destino ao de todos os outros.
Quando foi que nós, seres humanos, perdemos a capacidade de compreender que cada ato cometido hoje refletirá numa consequência amanhã? A era da informação fez os homens se prenderem ainda mais no mundo particular que gira em torno de seu próprio ego, esquecendo-se que estamos todos direta ou indiretamente interligados, e que talvez não estejamos sós aqui nesse tão imenso universo.
Mithera, ano 3102, verão.
O sol reinava no céu azul do dia que seguia, das montanhas verdes do norte o vento trazia um aroma doce de grama fresca. A estação logo se despediria e a proximidade do outono já fazia com que a temperatura se tornasse mais amena, aliviando o calor e tornando a vegetação mais resistente e saudável. Seguia-se uma natureza exuberante, formada por grandes campos e bosques, alguns com árvores imensas, centenárias, preservados naqueles que eram verdadeiros santuários naturais. Animais vagueavam pela terra, ao redor dos grandes rios e cachoeiras de águas limpas. Era a apresentação da vida como um todo em harmonia.
Aos poucos também era possível ver pequenos vilarejos e grandiosas cidades-estados nas quais os homens viviam em comunidade numa tranquilidade aparente. Mas a presença de grandes muros fortemente guardados circundando esses territórios lembrava uma imensa prisão auto imposta da qual as pessoas tinham medo de sair, e mais ainda, que alguém indesejado entrasse. Assim acontecia em todos os territórios, desde as terras geladas do sul até os países litorais do oeste, todos haviam se tornado fortalezas protegidas dia após dia por soldados bem armados e exércitos prontos para batalhar a qualquer momento.
País de Denhaar
Os golpes de sua espada cortavam o ar. Seus movimentos eram perfeitos e eram notáveis suas habilidades de luta. O vento fazia seus curtos e rebeldes cabelos castanhos balançarem levemente, juntamente com a camisa folgada e surrada que usava por baixo das ombreiras e protetores de couro grosso. Vestia também uma calça marrom de tecido pesado e botas escuras. Trazia na altura do quadril um cinto de couro com a bainha de sua inseparável espada. A pele levemente bronzeada exibia cicatrizes visíveis nos braços fortes do rapaz, marcas das duras batalhas que já havia enfrentado embora tão jovem. Os olhos castanhos bem claros tinham um brilho forte que emanava tamanha energia, e bem no meio da testa uma leve tatuagem marcava dois pequenos triângulos, um dentro do outro.
De longe, era observado por outro homem, este já de meia-idade, cabelos longos e lisos num tom loiro quase branco que caiam pelos ombros. Apesar do aspecto sério, agora sorria de leve enquanto olhava o treinamento do rapaz. Vestia-se com uma túnica branca ricamente trabalhada e trazia pendurado ao pescoço algo que se assemelhava a um rosário; um colar de contas segmentado de diferentes cores que trazia na ponta um pingente: uma cruz dourada com hastes de mesmo tamanho e um aro que lhe circundava ligando as extremidades, adornada por uma pedra preciosa vermelha ao centro. Na testa, também era possível notar um pequeno pingente vermelho que lhe parecia encravado à carne, talvez como representação de algum tipo de posição social.
–Heero... A cada dia você se torna um guerreiro mais hábil!
O jovem virou-se, reconhecendo a voz que lhe falara e sorriu um tanto despreocupado antes de guardar a espada na bainha.
–Mestre Lune... – Cumprimentou rapidamente o homem diante de si, juntando os dois punhos cerrados um contra o outro e curvando-se levemente — esse gesto mostrou que tinha nas costas das mãos a mesma marca que trazia na testa.
Segurando com a mão esquerda a bainha presa a seu corpo, desviou o olhar para o precipício. Encontravam-se sobre um morro de onde podiam ver lá embaixo, em meio à natureza verde e vasta, um pequeno amontoado de casas que ia aumentando à medida que, mais ao longe, podia ser visto um grandioso castelo.
–Desculpe-me se o atrapalho, Heero, mas precisava lhe falar. — Falou-lhe simplesmente, fazendo o rapaz virar-se para ele, olhando-o com um sorriso de canto bastante irônico.
–O que houve? Quebrou uma das estatuetas do seu templo? – Disse sarcástico e cruzou os braços, olhando-o ainda da mesma maneira. O mais velho o encarou nada satisfeito.
–Ignorarei a piada de péssimo gosto por que tenho assuntos bem mais sérios a tratar com você. – Heero o fitou agora com certa surpresa. – Há algum tempo eu já o havia lhe avisado que o momento dessa missão chegaria e ele finalmente se aproxima.
–Missão...? Não vá me dizer que se trata daquilo? – Perguntou-lhe com certo receio.
–Sei que não é um trabalho fácil e que vai contra as suas ideologias, mas você firmou um compromisso. Sabe a gravidade da situação, por isso espero de você o máximo de discrição e cuidado. – Lune falava calmamente, embora em tom de aviso, deixando o rapaz ainda mais aturdido. –Chegou a hora de manda-lo para o mundo oculto. Eu treinei você para saber como agir e o que fazer quando chegar lá, o momento veio antes do que eu esperava...
O jovem guerreiro arregalou levemente os olhos. Por mais que tivesse ciência há tempo que estava encarregado dessa missão, não pode deixar de ficar surpreso. O mundo oculto era o mundo das lendas e histórias transmitidas pelos sacerdotes e pelo povo, habitado por seres de intenções desconhecidas. A maioria temia a menção de tal lugar por acreditar estar envolto por uma terrível maldição. Heero também cresceu ouvindo essas histórias e embora não fosse de dar atenção a esse tipo de boato, não podia deixar de sentir um leve frio na espinha com a ideia.
Lune era o alto-sacerdote líder de toda a crença religiosa deste mundo. Era um homem bom, justo e honrado, embora bastante misterioso. Mesmo servindo a Denhaar por ser sua terra de nascença, ele era respeitado em todos os outros países e usava de sua influência para tentar promover a diplomacia e a paz naqueles tempos de guerra. Era alguém que havia alcançado a supremacia do espírito e tinha o poder de se comunicar com o mundo espiritual, graças a isso ele era capaz de profetizar certos acontecimentos e sua palavra era ouvida e respeitada por todos.
–O Mundo oculto... Bom, isso de fato vai além das minhas ideologias. Você sabe que só me comprometi a isso por lealdade a você, afinal você me criou desde criança... Mas por mais que soubesse que um dia teria de cumprir a missão que me encarregou, não imaginava e nem queria ter de fazê-lo agora – Heero comentou.
–Eu também... – Ele disse com certo pesar desviando o olhar. Heero percebeu em sua expressão um misto de preocupação e decepção. – Mas infelizmente nem sempre as coisas saem como esperamos. A situação entre os reinos está cada vez mais crítica e vejo que não posso adiar mais. Cada dia que passa significa mais batalhas, mais jovens morrendo, mais cidades destruídas. Depois de centenas de anos de guerra, agora finalmente temos uma esperança e devemos busca-la a todo custo.
E dizendo isso estreitou o olhar sobre o mais jovem que assentiu com a cabeça. Há algum tempo Lune estava preparando Heero para esse momento, uma vez que essa missão exigia mais do que boa habilidade de batalha. Ele deveria saber como agir para que não cometesse nenhum erro, pois qualquer deslize poderia ser fatal numa situação como aquela.
As escrituras antigas passadas através das gerações contavam toda a história de que se havia registro do povo de Mithera, incluindo suas divindades, que cultuavam através dos elementos da natureza; A lua, o sol e as florestas eram seus deuses, e os animais, seus patronos. Os homens tinham obrigação de zelar pela proteção dessas forças supremas e viver em harmonia, e por isso cultuavam a deusa onipotente e onisciente, a grande mãe de tudo o que é vivo, responsável por manter o equilíbrio entre suas criações. Mas com o passar dos anos, a ambição de alguns fez com que o equilíbrio se dissolvesse e se iniciasse uma luta pela supremacia. Os povos dividiram-se em clãs, esses clãs cresceram e formaram cidades e a partir daí grandes reinados espalhados pelo mundo, a luta pelo poder ficava cada vez mais violenta.
Centenas de anos se arrastaram em grandes batalhas e guerras sangrentas, não havia trégua e a diplomacia há muito já não detinha mais tanto poder. Era a espada quem falava pelos reinos e seus exércitos, soldados que bradavam no campo de batalha e morriam pela ambição de um governante que nem conheciam pessoalmente, ou para defender sua terra de invasores vorazes. O equilíbrio tinha de ser retomado para que a paz voltasse a reinar sobre Mithera, mas como? E quando o mundo parecia fadado a mergulhar no caos para sempre, Lune trazia uma esperança através de sua fé.
Escolhera Heero para ajuda-lo nesse momento crucial por que, embora tivesse uma série de guerreiros e cavaleiros valorosos e experientes a serviço do reino, sentia naquele garoto uma aura especial, uma bravura e valor que não enxergava igual mesmo ele ainda sendo tão jovem. Estava no caminho para se tornar um grande homem. Além de confiar em sua lealdade, também depositava todas as suas fichas nas habilidades de Heero como um guerreiro. Entretanto o rapaz sempre preferiu ser um soldado independente, servindo a si próprio, embora fosse leal ao reino de Denhaar e por vezes lutasse batalhas para defendê-lo. Mas detestava a ideia de ser obrigado a seguir as ordens de qualquer general convencido por aí.
–Vamos, Heero... Por que não se junta ao exército real? Seria um excelente guerreiro, um comandante de tropas. Suas habilidades são notáveis para um rapaz tão jovem! – Lune dizia-lhe com certo entusiasmo, tentando convencê-lo pela milésima vez a unir-se ao exército de Denhaar, um comandado. Heero abriu um sorriso de canto e olhou para Lune com ironia.
–Desculpe desapontá-lo, Lune... Mas as suas artimanhas não vão me fazer mudar de ideia. – Disse-lhe com sinceridade fazendo Lune rir levemente desviando o olhar para o mesmo local onde Heero olhava anteriormente.
–Você tem sua habilidade e seu espírito de combate. Eu tenho minha fé e as minhas artimanhas. Tudo isso, quando usado para o bem, pode ser capaz de tornar um homem o melhor que se pode ser, capaz de coisas grandiosamente boas. Mas o contrário também é verdade, se usado para o mal. E olhando para você eu vejo que está para se tornar um homem capaz de coisas grandes. – Ele disse misterioso, fazendo o outro olhá-lo com certa surpresa e até um certo receio.
–Não sei se sou digno de tanta confiança... – Heero disse desviando o olhar. Era por isso que Lune gostava dele; qualquer um ao ouvir tais palavras elevaria seu ego, se sentiria orgulhoso e nada mais. Mas Heero era humilde para sentir o peso da responsabilidade de ser capaz de fazer coisas grandiosas, pois isso implicava tomar decisões que afetariam vários destinos além do dele. Era maduro além de sua idade, provavelmente a infância difícil e dramática o levaram a esse caminho, Lune pensava.
–Seu pai foi um grande guerreiro e deve sentir muito orgulho de você. Às vezes quando olho pra você, vejo a imagem dele. – Disse, fazendo o garoto desviar o olhar ao céu, pensativo. – Eu sinto a presença dele perto de você, Heero. Ele nunca vai abandoná-lo.
O mais jovem esboçou um leve, quase imperceptível sorriso enquanto fitava o céu azul acima de si. Ele não conseguia levar esse tipo de coisa tão a sério, mas sentia que de fato o pai ainda o acompanhava, mesmo depois de ter partido. Sentia sua força guiando-o sempre que precisava de ajuda.
–Eu vou me retirar por enquanto. Esteja aqui em duas horas e procederemos com a missão. – Lune disse antes de afastar-se, deixando o jovem guerreiro sozinho com seus pensamentos.
–x-
Nagoya, Japão
As duas jovens conversavam animadamente enquanto caminhavam pelas ruas movimentadas do entardecer. O céu ficava alaranjado àquela hora e o que mais se via nas ruas eram jovens diversamente uniformizados voltando pras suas casas depois de um longo dia de estudos. Mas naquele dia não estava igual a outro qualquer. Hiromi sentia uma sensação esquisita, um frio na barriga, um leve nervosismo que não sabia explicar o motivo. Nunca se sentia assim, era como se alguma coisa estivesse para acontecer. Mas caminhava e conversava tentando disfarçar essas sensações, mesmo que estivesse perdida em pensamentos longínquos e pouco prestasse atenção no que a amiga a seu lado falava.
–“Volte.” – Ela ouviu uma voz ecoar em sua cabeça e tremeu de leve. Era uma voz desconexa, entrecortada, tão baixa que mal se podia entender o que dizia, era como se falasse de quilômetros de distância.
–Ouviu isso, Hiromi? – Perguntou a amiga ao seu lado que a olhou sem entender.
–O que? – Perguntou a outra. Yuna ficou um pouco aturdida inicialmente, mas apesar do choque inicial, ignorou e continuaram seu caminho. Provavelmente era só um pensamento mais alto.
–Nada não. Mas o que você estava falando mesmo?
–“Volte ao jardim.” – Aquela voz novamente ordenou, fazendo a garota parar de andar por um momento olhando ao redor, na esperança de que encontrasse alguém que estivesse falando com ela, mas no fundo sabia que aquela voz não estava vindo de fora, ela estava dentro de sua mente.
–Yuna? – Hiromi encarou a amiga parada na calçada olhando para os lados como se procurasse algo. Ela não lhe respondeu.
–“Volte agora!” – E dessa vez a voz soou bem mais alta e nítida, como se alguém tivesse falado diretamente em seu ouvido. O tom de forte comando a assustou levemente e fez sua espinha se arrepiar, Yuna já não conseguia mais ignorar aquele estranho acontecimento. Olhou pra Hiromi e por um momento pensou em lhe dizer algo, mas ela certamente a acharia louca por estar ouvindo vozes estranhas lhe dando ordens.
–Ahm... Hiromi... Vá indo pra casa sem mim, eu tenho que voltar.
–Voltar por que?
–Eu... Esqueci uma coisa e preciso ir buscar. Amanhã nós nos vemos na escoa, tudo bem? – E dizendo isso rapidamente deu as costas à confusa amiga.
–Hey! Espere! Não quer que eu vá com você? – Perguntou vendo a outra indo embora.
–Não precisa! Tchau! – Yuna gritou enquanto, a passos largos e rápidos, se afastava de volta à árvore onde estava mais cedo.
–x-
C.O.N.T.I.N.U.A...
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