Shikai
3 Crer. Conhecer. Realizar!
Notas iniciais
No carro o silêncio foi quebrado no meio do caminho pela minha mãe, que já estava se sentindo bem melhor:
– Você tem certeza que está bem, Tori?
– Tenho mãe.
– Tudo bem. Você não precisa mais ir ao banco, ou pegar ônibus eu...
– Nada disso, coisas como essas acontecem. Só foi uma fatalidade. Não precisa me prender. – Disse a interrompendo.
– Eu tenho medo que algo aconteça com você...
– Nada vai acontecer mãe... Relaxa. – Tentei falar aquilo de forma suave para que ela se acalmasse. Depois dali o silêncio retornou, Guiu ficava flutuando entre o banco direito e o esquerdo da frente do carro onde minha mãe dirigia e eu observava a janela.
Ao chegarmos a casa, que na verdade era um apartamento, espaçoso, mas ainda estranho. Localizado no 11º andar no meio do grande centro de São Paulo onde se podia ver de longe a treze de março da janela do meu quarto.
– Grande e barulhento esse lugar não é? – Perguntou Guiu.
– Sim...
Estava sentindo medo, pois não sabia o que me esperava. Era tudo muito louco e surpreendente, quem diria que a vida tinha ainda mais mistérios do que sua própria existência? Não sei se fiz alguma expressão errada, mas, parecia que Guiu podia ler meus sentimentos.
– Há algo acontecendo de errado com você Tori? Está com medo?
– Como sabe? – Perguntei a ele.
– O EN altera conforme o que você está sentindo, quando a pessoa está tranquila o EN é estável e simplesmente contorna o corpo. Quando triste ela fica ondulando que nem está acontecendo deste exato momento.
– Como eu posso ver você e não posso ver esse ‘’EN’’? – Pergunto a ele enquanto encaro minhas mãos na tentativa de conseguir ver.
– Somente Shikais super habilidosos conseguem ver o EN.
– Sabe, Guiu. Você disse que existe mundos reversos e que um outro EU está causando essas divergências nos mundos, como assim um outro ‘’eu’’?
– As pessoas possuem mais de uma forma, Tori. O universo paralelo existe para que haja equilíbrio com este. O seu Eu, nem Tori se chama, de parecido com você ele só possui a aparência. Normalmente de acordo com a lei da existência um reverso sempre vai existir para poder manter o equilíbrio do seu outro reverso, entende? É como luz e trevas. Só que independente da forma que você age aqui não tem nada ver com a forma que ele age do outro lado. Garoto eu soube de pouca coisa, mas, eu sei que a sua jornada é longa. E perigosa.
– O que eles querem de mim exatamente... Eu não entendo? Porque exatamente eu?
– Disso não sei, mas, vamos descobrir mais cedo ou mais tarde.
Aquilo que Guiu falou era verdade. Mas, eu tinha de me preparar. Pela primeira vez, viver estava se tornando algo interessante. Dirigi-me até o guarda roupa e coloquei a minha blusa favorita, usada pelo meu pai quando saiu com a minha mãe quando ele ainda era vivo. Sempre usava para sair com uma garota, a chamava de blusa social da sorte. Ela era de um preto fosco com detalhes modernos.
– Aonde você vai? – Perguntou minha mãe ao me deparar no espelho, olhei para o reflexo e ela trazia o lanche da tarde. Na minha caneca do Death Vader que ganhei na páscoa deste mês.
– Vou pegar um ar... – Me aproximei dela e a beijei no rosto peguei o pão de forma com presunto, queijo e alface e mordisquei. Hmmm!! Tinha requeijão e opa era peito de peru e não presunto. – Bem... Fui! Vamos Guiu!
– Guiu? – Perguntou ela. Ops...
Ri, para disfarçar.
– Eu disse vamos Guiu? Quis dizer ‘’ E lá vamos nós!!’’.
Ela curvou uma das sobrancelhas e levantou a outra demonstrando estar confusa. Corri até a porta e sai. Subi as escadas em direção à laje do prédio. Quando cheguei era fim de tarde o céu se ponha lá trás deixando uma mista de laranja e azul no céu.
– Que vista bonita! – Disse enquanto o vento acariciava meu rosto. – Sinto como se fosse capaz de tudo. De fazer qualquer coisa...
– Você pretende fazer o que?
– Treinar. Desenvolver minhas habilidades.
– Aqui? Tem certeza? – Disse Guiu indo até a extremidade do prédio e vendo a altura. É meio alto...
– É... Mas nada que eu não possa encarar. Aliás, agora sou um Shikai. Certo. Estou animado. – E estava mesmo – Me ensina como funciona esse negócio de Crer. Conhecer. Realizar.
– Olha treinar o EN, é algo difícil...
– ME ENSINA LOGO!
– Okay... – Disse ele na falha de tentar me dizer algo. Uma curiosidade, você é macho ou fêmea?
– Depende... Que pergunta desde quando você está tão desprovido de timidez?
– Quando eu fico animado bem... Eu mudo um pouco de postura. – Digo dando risada. – E então? Quando vamos começar?
– Agora. E para você saber, Shikais não possuem sexo, somos espíritos livres. Não nos reproduzimos. Somos uma força natural assim como sua alma.
– Okay... E ai?
– O que pretende querer fazer?
– Eu posso fazer qualquer coisa? – Legal... Talvez eu possa fazer bolas de fogo, invocar meteoros ou ter uma espécie de manopla do destino que nem o Thanos da Marvel!
– Não inventa. Você não pode realizar coisas tão impossíveis assim. Pelo menos não no seu estado atual. O que você pode fazer é criar habilidades das quais você já tem conhecimento. Curiosidade e vontade sobre elas.
– Exemplo? – Isso me desanimou um pouco.
– Existiu um Shikai, há muito tempo atrás que desde pequeno sonhava em se tornar animais para proteger sua floresta e sua tribo.
– Ele era um índio?
– Sim... Seu nome era Toc, ele era da amazônia. Ele sonhava em se tornar qualquer tipo de animal. Ele vivia estudando o que cada animal fazia. Ele se encantava com os jacarés, com as mulas das fazendas dos homens brancos. Com as grandes serpentes que percorriam os lagos. As pessoas tendem a não gostar do folclore brasileiro, mas, a maioria desses seres eram Shikais.
Pelo que sei, Toc que sonhava em ser um protetor da sua tribo era super habilidoso na caça, mas na maioria das vezes sempre poupava os animais feridos, filhotes e em fase de gestação. O mesmo também admirava o fogo, mas, teve uma vez que os homens brancos da fazenda ao lado atacaram a sua tribo na busca de dominar suas terras. E lá o pequeno foi torturado e seus pés foram distorcidos para trás e sua cabeça ateada ao fogo enquanto estava vivo. Seu corpo foi jogado junto aos outros índios rebeldes, as mulheres e outras crianças foram feitas de escravos. Mas, ele não havia morrido. Pelo contrário naquela noite arrasadora foi onde libertou seu SHIKAI. E pode ver além do além, desenvolveu suas habilidades e acreditou que com que o fogo que havia queimado sua cabeça seria uma forma de mostrar intimidação a quem o encontrasse e também seria uma forma de mostrar que a chama da justiça ainda queimava. O jovem garoto do cabelo de fogo então estudou o fogo e os animais, reaprendeu a andar com seus pés distorcidos. E criou uma lança da árvore mais velha da floresta, Estudou como cada animal funcionava e acreditou que poderia se transformar em qualquer animal já visto e assim ele se tornava a fera que ele queria. Sim, ele é conhecido como...
– Eu não acredito... – Não podia ser possível.
– O Curupira. É... A mais coisas entre o céu e a terra do que podemos imaginar.
– Caracas, Eu achava o folclore uma bosta... Mas se todas as histórias forem assim...
– A maioria é. Assim como as outras mitologias.
– Você está me dizendo que Deuses existem?
– Tudo naquilo que o ser vivo acredita ganha vida e forma, Tori. E quando essas crenças são esquecidas logo ela morre também.
– Isso... – Era algo que fazia sentido. Mas, cara. Que confuso!
– E então... Vamos? O que você quer fazer?
– Eu já decidi, quero controlar o vento a minha vontade. E ter uma espada de vento. E também quero voar.
– Não sabia que gostava de vento, para mim você só gostava de pássaros porque eles cantam e voam.
– Basicamente é isso, mas meus dois elementos favoritos são o Ar e a eletricidade.
– Certo. E você crê que isso é capaz de ser feito? Você compreende como o Ar, voar a eletricidade que percorre o mundo funciona? Será que você tem vontade suficiente para isso?
– Tenho.
– Então vamos, tente.
Não sabia como realmente funcionava, porém voar deveria ser fácil. Se era só acreditar era só começar a pular até não sentir mais o chão sob os meus pés. Então fechei os olhos e comecei a pular na tentativa de não sentir mais meus pés tocarem o chão.
– O que você pensa que está fazendo?
– Estou tentando voar, o que mais seria?
– Você está esquecendo-se de uma fase importante dessa habilidade, Tori.
Parei de pular e o encarei.
– E qual é?
– Compreender...
– Compreender... Compreender. Certo. – O que eu sabia sobre como os seres vivos desse planeta voavam... – Bem, primeiro que pássaros voam por que tem ossos leves e possui penugem que regulariza seu voo, eles precisam constantemente achar equilíbrio no ar batendo suas asas para não perder o ritmo – Comecei a bater os braços, correr e pular. O Shikai não demonstrava expressão, mas eu sabia que ele estava me achando ridículo. Aliás, o que não era ridículo nisso?
– Ainda não... Falta muito. – Disse o shinigami, parei e me joguei no chão, fiquei ali olhando para o teto pensando mais sobre isso.
– O que impede nós de voarmos é o nosso peso, e a gravidade que nos mantém regulados a ela. Nas animações voar é só se tiver asas ou usar a sua habilidade psíquica para isso.
– Está melhorando...
– Mas, e se eu acreditar que o vento é o que me da impulso para flutuar?
– Você compreende como o vento funciona?
– Sim, é quando uma massa de ar com alta pressão atmosférica ou baixa temperatura se move em direção a uma região. Dê um modo resumido é isso.
– Certo, acho que isso já é suficiente agora simplesmente acredite. E voe!
– Tudo bem... – Me levantei e fui até a ponta do prédio. Olhei para a casa mais alta ela estava a uns 8 metros a 1 km de distância. Eu vou conseguir. Fui para trás na busca de pegar maior impulso e corri ao chegar à ponta pulei desesperadamente. Esse foi o meu erro. Desesperei-me, não tinha confiança eu estava caindo. Eu iria morrer.
SOCORRO.
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