Shielded by Chaos (ou Blindados pelo Caos)

2 Capítulo 2 — Não Bate na Cliente💥


Ele cruzou os braços.

— Certo. Feliz aniversário pra pessoa mais agressiva de Nova York.

— Obrigada. Você continua irritante.

Sofia sorriu discretamente tentando esconder a diversão.

Traidora.

— Claro, Sofia… — falei cheia de deboche enquanto caminhava até a porta. — Bora, Benson. Vou te apresentar o Chedder.

Freddie pegou o restante das sacolas das minhas mãos sem nem perguntar.

Ergui uma sobrancelha.

— Uis… ficou fortinho depois de uns anos.

Ele me olhou de lado.

— Algumas pessoas amadurecem.

— Algumas pessoas ficam chatas.

Freddie apenas suspirou enquanto me seguia pelo corredor.

— Você deu nome pro carro?

Parei dramaticamente no meio do corredor.

— “Você deu nome pro carro?” Você fala isso como se fosse estranho.

— Porque é estranho.

— Ele tem personalidade. E Chedder é um nome perfeito.

— É um veículo… e pelo menos é amarelo?

— E você continua sem coração. E não, não é, porém dirigir ele é tão bom que o nome acabou ficando.

Freddie balançou a cabeça tentando não rir.

Tentando.

Entramos no elevador.

O silêncio durou exatamente três segundos.

— Então… — ele começou. — você realmente trabalha aqui faz um ano?

Cruzei os braços, encostando na parede espelhada.

— Surpreso por eu conseguir manter um emprego?

— Honestamente? Sim.

— Que gentil da sua parte, Benson.

— Você já foi demitida de uma loja de tacos porque tentou fritar um peixe no micro-ondas.

— Ainda acho que eles exageraram.

Freddie soltou uma risada baixa.

E meu cérebro demorou meio segundo demais percebendo que eu ainda gostava daquele som.

Isso era preocupante.

— Para de pensar nisso, Samantha Puckette.

O elevador desceu com um leve solavanco e, por algum motivo, aquilo pareceu marcar o fim do “território seguro” da implicância.

Freddie ajeitou as sacolas de novo, como se aquilo fosse mais fácil do que lidar comigo.

— Você sempre fala sozinha assim ou é só quando tá nervosa? — ele perguntou, olhando pelo canto do olho.

Sussurrei sem perceber, droga, parabéns Puckettt!

Limpei a garganta e me fingir de sonsa

— Eu não tô nervosa.

— Você literalmente acabou de mandar você mesma parar de pensar em você mesma.

Revirei os olhos.

— Isso é só organização mental. Você não entenderia.

O elevador apitou e as portas se abriram.

— Depois de você, majestade da confusão organizada — ele disse, fazendo um gesto exagerado com a mão.

Passei por ele com um sorriso torto.

— Finalmente aprendeu boas maneiras.

Saímos para a rua e o ar de Nova York bateu diferente. Vivo. Barulhento. Caótico do jeito certo.

E lá estava ele.

Chedder.

A limusine da empresa estacionada como se fosse uma estrela de cinema cansada de ser reconhecida.

Eu tinha autorização de uso pessoal liberada pela Sofia Carson, então, na prática, ele era meu pequeno privilégio oficial no meio do caos.

Freddie parou ao lado dele.

— Ok… — ele olhou de cima a baixo. — ele realmente tem nome.

— Eu te avisei.

— E personalidade.

— Obrigada por reconhecer.

Ele passou a mão pela lateral do veículo, analisando como se fosse um experimento complicado demais.

— Você cuida dele?

— Claro. Eu e ele temos uma relação emocional estável. Diferente de algumas pessoas que eu conheço.

Ele me olhou.

— Isso foi pra mim?

— Se a carapuça servir…

Freddie soltou uma risada curta, negando com a cabeça.

— Você não mudou nada.

Nem você.

— Entra no carro que eu vou explicar tudo e como deve fazer.

Entrei primeiro e comecei a mostrar tudo: botões, comandos, detalhes… até onde eu guardava meu “bolo reserva” no porta-luvas.

E só duas pessoas sabiam disso.

Sofia… e ele.

E agora ele também sabia.

Por que eu falei isso?

Bom. Não importa agora.

— Sai do carro, Benson.

Ele desceu e eu abri o porta-malas.

— Essas são minhas “filhas” — falei, passando a mão com cuidado pelo compartimento. — cuidado com elas. Aqui tem algumas coisas importantes, tudo organizado… e você não precisa mexer sem necessidade.

Ele assentiu, sério demais pra alguém que já foi um desastre ambulante na minha vida.

Fui mostrando tudo, explicando cada detalhe, cada espaço escondido, cada ajuste que ele precisava saber.

E o mais estranho…

Ele estava realmente prestando atenção.

Sem piada. Sem interrupção. Só ouvindo.

Quando terminei, fiquei em silêncio por um segundo.

Levantei o olhar.

E ele também me olhava.

Por um instante, o barulho da rua pareceu distante demais.

— Sam… obrigado. Vou fazer um bom trabalho — ele disse, sincero.

Engoli seco.

— Espero mesmo, Benson.

Silêncio.

— Feliz aniversário — ele falou quando eu já ia me afastar.

Parei.

Voltei meio passo.

— Obrigada.

Respirei fundo, como se aquilo pesasse mais do que deveria.

Ficou um segundo em silêncio.

Então ele falou:

— Eu senti sua falta… depois que eu e a Carly tentamos refazer o programa e não deu certo. Sem você… faltou você.

A frase saiu mais baixa do que eu queria.

E talvez perigosa.

Engoli seco.

— Tentaram de novo, né? Ficou bom… não sei por que não deu alcance.

Desviei o olhar por um instante.

— Mas talvez… se eu estivesse lá, você e a Carly nem tivessem tentado de novo aquela relação de vocês dois.

Balancei a cabeça, já virando.

E fechei a porta.

Freddie ficou parado por um segundo dentro do carro, como se tivesse engolido algo que não sabia nomear.

E isso era novo.

Porque Freddie Benson sempre tinha resposta.

Sempre.

Mas dessa vez ele só ficou olhando.

E lá fora, eu fingi que meu coração não tinha feito um pequeno erro de ritmo.

Ele saiu do carro logo depois de mim e deu a volta até o banco do motorista.

Poucos segundos depois, Sofia apareceu.

Estressada.

Ou melhor… tentando MUITO fingir que não estava estressada.

Mas falhando miseravelmente.

E eu conhecia aquela garota fazia tempo demais pra não perceber.

Atrás dela vinha Nicholas, com aquela postura séria de segurança que parecia que tinha nascido julgando pessoas silenciosamente.

Decidi não comentar nada.

Deixei Sofia no tempo dela.

— Bom, tenho um compromisso. Vamos ver como nosso motorista se sai hoje — ela falou enquanto vinha na direção do carro.

Antes mesmo que ela abrisse a porta, Nicholas abriu para ela… e depois pra mim.

Eu e Sofia trocamos um olhar rápido.

Nenhuma das duas estava acostumada com tanto cavalheirismo assim.

Entrei no carro segurando a vontade de rir.

— Obrigada, xuxu — falei só pra irritar Nicholas.

O segurança olhou pra mim com a mesma expressão séria de sempre.

O que, honestamente, só deixava tudo mais engraçado.

Ele entrou logo depois e olhou diretamente para Freddie.

— Antes de irmos, me passa sua habilitação e suas recomendações.

Foi aí que percebi.

Freddie ainda estava quieto demais depois da conversa lá fora.

Quieto num nível preocupante.

Mesmo assim, ele apenas assentiu e entregou os documentos sem discutir.

Nicholas começou a analisar tudo com aquela cara de quem provavelmente checava até a alma de gente suspeita.

Freddie ergueu os olhos para o espelho central.

— Senhorita, aonde vamos?

Sofia explicou rapidamente o endereço e alguns detalhes da agenda.

Ele concordou com a cabeça e começou a dirigir.

Devagar.

Muito devagar.

Cruzei os braços no banco de trás.

— Benson… pode ir mais rápido?

Ele olhou rapidamente pelo retrovisor.

— Estou dentro do limite.

— A Chedder nunca chegou atrasado comigo.

— O nome do carro continua estranho.

— E você continua lerdo.

Sofia soltou uma risada baixa ao meu lado enquanto mexia no celular.

Nicholas continuava analisando os documentos.

Então ele arqueou uma sobrancelha.

E eu vi.

Sem querer, junto das recomendações normais, Freddie tinha entregado outros papéis também.

Meu olhar desceu rápido.

Treinamento de segurança.

Tecnologia avançada.

Motorista de fuga.

Atirador profissional.

O quê?

Levantei os olhos devagar pro retrovisor.

Freddie continuava dirigindo como se não tivesse literalmente entregue um currículo de agente secreto no meio da manhã.

Ele percebeu?

Talvez não.

Ou talvez percebesse e agora estivesse fingindo naturalidade.

Então fiz a única coisa inteligente que consegui pensar.

Fingi que não fiquei impressionada.

Peguei rapidamente os papéis da mão de Nicholas antes que Sofia visse direito.

Procurei a recomendação “normal”.

Sorri de lado.

— Ótimas recomendações.

Freddie encontrou meu olhar pelo espelho por meio segundo.

E, pela primeira vez naquela manhã…

Pareceu nervoso.

Freddie continuava dirigindo com aquela calma irritante enquanto Nova York praticamente gritava do lado de fora da janela.

Sofia seguia respondendo mensagens.

Nicholas analisava documentos como se estivesse procurando antecedentes criminais secretos.

E eu estava a três segundos de perder a paciência.

— Benson, você dirige como um pai levando crianças pra escola.

— Isso se chama responsabilidade.

— Isso se chama tédio.

— Isso se chama não bater o carro da empresa.

— A Chedder nunca bateu comigo.

— Isso honestamente me impressiona.

Revirei os olhos dramaticamente.

Freddie virou a esquina—

E uma mulher surgiu praticamente do nada atravessando a rua enquanto olhava o celular.

— Benson! — gritei.

Freddie freou imediatamente.

O carro parou brusco o suficiente pra Sofia perder o equilíbrio no banco.

Antes mesmo que ela caísse pra frente, Nicholas segurou sua cintura rapidamente, protegendo ela no reflexo.

Sofia arregalou os olhos surpresa.

Nicholas continuava sério.

Como se não tivesse acabado de fazer uma cena digna de filme de ação.

Freddie virou imediatamente para trás, assustado.

— Sam, você tá bem?

Meu cérebro travou por meio segundo.

Não Sofia.

Não ele mesmo.

Eu.

Olhei pra Freddie ainda segurando no banco por causa da freada.

— Eu tô ótima, Benson. Obrigada por quase transformar meu aniversário em um acidente de trânsito.

Ele soltou o ar aliviado mesmo assim.

O que era estranho.

Muito estranho.

Porque Freddie Benson tinha acabado de entrar em pânico primeiro comigo.

A mulher parada na frente do carro parecia tão assustada quanto nós.

Freddie abriu a porta na mesma hora.

— Meu Deus, você tá bem?

Saí logo atrás dele.

— Você quase virou decoração de asfalto! — falei impulsivamente.

A mulher ergueu os olhos devagar.

Bonita.

Muito bonita.

Loira, elegante, óculos escuros enormes e claramente rica o suficiente pra processar alguém por respirar errado perto dela.

Ela tirou os óculos.

E Sofia arregalou os olhos atrás de mim.

— Espera… você é a Brie Larson? — Sofia perguntou.

Ok.

O quê?

Olhei de novo pra mulher.

…Era literalmente a Brie Larson.

Brie pareceu reconhecer Sofia imediatamente.

— Sofia Carson?

Sofia Carson

— Ah, ótimo — murmurei. — Claro. Pessoas famosas simplesmente aparecem na frente do meu carro agora.

Freddie passou a mão no rosto, claramente tentando manter o profissionalismo.

— Desculpa mesmo, eu—

— Não, a culpa foi minha — Brie interrompeu. — Eu tava olhando o celular.

Cruzei os braços.

— Finalmente alguém sensato nessa cidade.

Brie olhou pra mim divertida.

— Você é sempre assim?

— Infelizmente sim — Freddie respondeu antes que eu pudesse abrir a boca.

Olhei pra ele ofendida.

— Nossa, obrigada pelo apoio.

Brie acabou rindo.

E infelizmente…

A risada dela era genuinamente legal.

Sofia então piscou algumas vezes, ligando os pontos.

— Espera… você não era a cliente das onze?

Brie apontou pra ela.

— Eu literalmente estava indo pra reunião agora.

Silêncio.

Então olhei lentamente para Freddie.

Freddie olhou lentamente pra mim.

E eu sorri devagar.

Muito devagar.

— Benson…

— Não.

— Você quase atropelou a cliente.

— Ela apareceu do nada!

— Você tinha UMA função no primeiro dia!

Nicholas finalmente soltou Sofia devagar, percebendo só naquele momento que ainda segurava a cintura dela.

Ela limpou a garganta discretamente.

E pela primeira vez desde que conheci Nicholas…

O segurança pareceu minimamente sem graça.

O que sinceramente era mais assustador que a freada.

Após todo o caos…

Tudo deu certo.

Milagrosamente.

O vestido foi encomendado, a reunião não terminou em processo judicial e, por algum motivo, Brie Larson parecia ter gostado da gente.

O que dizia muito sobre o nível de insanidade dela.

A limusine estacionou suavemente em frente ao prédio da empresa.

Antes mesmo do motor desligar completamente, estendi a mão.

— Passa a chave, Benson. Vou embora.

Freddie virou lentamente no banco.

— Negativo.

Franzi a testa.

— Negativo?

— Sou o motorista. O carro fica comigo agora.

Eu ri dramaticamente.

— Impossível.

— Profissionalmente possível.

— Eu uso o Chedder com autorização da Sofia.

— E eu não posso deixar o carro com você. São regras da minha agência.

Cruzei os braços.

— Ok. Então o que eu faço? Fico dependendo de você agora?

— Sim.

A resposta veio rápida demais.

Sofia literalmente abafou uma risada do meu lado.

Olhei ofendida.

— Benson…

— Tá no contrato — ele continuou calmamente. — motorista em tempo integral da Sofia e da Samantha.

Pisquei algumas vezes.

— Aaah… então você sabia que eu estaria aqui.

— Não.

Ele tirou o cinto devagar.

— Fui ler o contrato depois que te vi. Pra descobrir exatamente como eu podia fugir de você.

Sofia começou a rir de verdade dessa vez.

Até Nicholas abaixou o olhar tentando esconder um sorriso.

Apontei pra Freddie indignada.

— Muito bom, Freduardo.

Ele suspirou.

— Você ainda me chama assim…

— E você ainda reclama.

Silêncio.

Então Freddie apoiou o braço na porta e falou:

— Mas vamos fazer assim…

Odeio quando ele usa voz racional.

Porque normalmente significa que ele já pensou em tudo.

— Amanhã você disse que tem compromissos fora da empresa, certo?

Assenti devagar.

— E se a Sofia precisar de você? — perguntei.

Freddie apontou discretamente pra trás.

— Já organizei a agenda com ela. Amanhã ela vai tirar um dia de descanso. O segurança dela dirige o carro particular enquanto eu fico responsável por você.

Olhei lentamente para Sofia.

Ela deu de ombros inocentemente.

— Ele realmente pensou em tudo.

Voltei o olhar para Freddie.

Nossa.

Ele realmente tinha pensado em tudo.

Isso era irritante.

E um pouco atraente.

O que era pior ainda.

Suspirei dramaticamente.

— Ok então, Benson…

Abri a porta da limusine, saí e fui andando até a parte da frente do carro.

Abri a porta do passageiro e sentei ao lado dele no banco da frente.

Freddie me olhou confuso.

— O que foi?

Coloquei o cinto.

— Cansei de falar com a sua nuca.

Sofia soltou uma risada no banco de trás.

Nicholas apenas observou em silêncio, como se já tivesse desistido de tentar entender qualquer dinâmica daquele carro.

Freddie balançou a cabeça segurando um sorriso antes de voltar a dirigir.

O clima dentro da limusine ficou estranhamente confortável depois disso.

Sofia e Nicholas começaram a conversar baixinho sobre a agenda do dia seguinte.

Ou fingiam conversar sobre agenda.

Porque Nicholas ainda olhava pra ela daquele jeito discreto demais pra ser profissional.

E Sofia parecia calma demais pra alguém normalmente tão controlada.

Interessante.

Quando chegaram ao prédio dela, os dois saíram ainda conversando.

Nicholas abriu a porta pra Sofia automaticamente.

Ela agradeceu normalmente.

Normal até demais.

Observei os dois pela janela por alguns segundos antes da limusine voltar a andar.

Freddie dirigiu o resto do caminho em silêncio.

Mas não um silêncio ruim.

Só… diferente.

Mais leve.

Como se aquela conversa no estacionamento tivesse tirado alguma coisa das costas dele.

Ou colocado mais.

As luzes de Nova York passavam pelos vidros da limusine enquanto eu fingia estar prestando atenção na rua.

Falhando miseravelmente.

Porque, infelizmente, meu cérebro continuava voltando pra uma única coisa:

“Sem você… faltou você.”

Idiota.

Quando chegamos na frente da minha casa, Freddie estacionou suavemente.

Desligou o carro.

E virou um pouco na minha direção com aquele sorriso torto irritantemente familiar.

— Pronto, princesa Puckett.

Estávamos finalmente só nós dois no carro.

E ele parecia muito mais relaxado agora.

Talvez porque eu tivesse passado quase toda a viagem quieta depois da conversa mais cedo.

Ainda processando.

Virei lentamente pra ele.

— Você ainda me chama assim?

Acabei rindo sem querer.

Freddie apoiou o braço no volante.

— Sempre vou chamar.

Meu coração literalmente tropeçou nele mesmo.

Então ele completou:

— Você sempre vai ser a princesa Puckett.

Ok.

Calma.

Como assim “sempre”?

Meu cérebro entrou em pane por aproximadamente três segundos.

Freddie percebeu.

Claro que percebeu.

Porque imediatamente limpou a garganta e continuou rápido demais:

— Princesa Puckett causadora de confusão.

Ah.

Tá.

Claro.

Ele estava tentando consertar o clima.

O que só piorava tudo.

Nós dois acabamos rindo meio sem graça da situação.

Desviei o olhar rapidamente e abri a porta antes que meu cérebro resolvesse criar sentimentos demais.

Saí do carro rápido.

Muito rápido.

E ouvi a porta do motorista abrir logo depois.

Freddie veio atrás de mim enquanto eu subia os pequenos degraus da entrada.

Tirei a chave do bolso tentando parecer normal.

Falhando completamente.

Então ouvi a voz dele atrás de mim:

— Não vai me chamar pra entrar?

Parei com a chave no meio do movimento.

Virei devagar.

Freddie estava parado perto da entrada com as mãos nos bolsos, me olhando como se aquilo fosse a pergunta mais simples do mundo.

E honestamente?

Pra ele talvez fosse.

O problema era que meu coração tinha começado a agir como um adolescente sem supervisão.

Cruzei os braços tentando recuperar o controle da própria existência.

— Benson… são quase meia-noite.

— E?

— E pessoas normais vão embora nesse horário.

— Você acabou de me chamar de normal?

Ok.

Ponto pra ele.

Revirei os olhos tentando esconder o sorriso.

— Cinco minutos.

O sorriso torto dele aumentou discretamente.

— Nossa. Me sinto honrado.

— Não estraga o momento.

Abri a porta finalmente.

Freddie entrou atrás de mim e parou logo na entrada.

Os olhos dele analisavam tudo com curiosidade genuína.

Como se estivesse tentando entender como eu vivia agora.

O que era estranho.

Porque Freddie nunca tinha estado ali antes.

Nunca tinha visto minha casa.

Meu espaço.

Minha vida longe deles.

Ele parou perto da estante, observando algumas fotos e objetos aleatórios espalhados pela sala.

Depois finalmente se jogou no sofá.

Afundou nas almofadas e soltou um suspiro satisfeito.

— Ok… seu sofá é perigosamente confortável.

Acabei rindo enquanto desligava algumas luzes da cozinha.

— Eu tenho prioridades muito específicas na vida.

— Estou percebendo.

Ele passou a mão pelo tecido do sofá como se estivesse genuinamente impressionado.

— Isso aqui abraça a pessoa.

— Finalmente alguém valorizando minhas escolhas adultas.

Joguei uma almofada nele antes que meu cérebro começasse a interpretar demais a situação.

— Pronto, já que tá tão confortável… quer ver um filme?

Ele segurou a almofada automaticamente e sorriu de lado.

— Quero.

A resposta veio rápida.

Sincera.

Então ele soltou uma risada pequena antes de completar:

— Faz tempo que eu não dou boas risadas.

A frase bateu diferente.

Porque ele falou leve.

Mas os olhos…

Os olhos dele não acompanharam.

E foi aí que percebi.

Freddie parecia o mesmo.

Mesmo sorriso.

Mesmo jeito calmo.

Mesmo humor idiota.

Mas tinha alguma coisa faltando.

Como se a vida tivesse arrancado energia dele aos poucos e ele simplesmente tivesse continuado funcionando no automático.

Trabalho.

Rotina.

Responsabilidade.

Ele parecia cansado.

De um jeito triste.

Me joguei no sofá ao lado dele pegando o controle da TV.

— E a Carly? Como tá o relacionamento de vocês dois? Bem?

Perguntei normalmente.

Ou pelo menos tentei parecer normal.

Freddie ficou quieto por um segundo.

Então virou o rosto devagar na minha direção.

Calmo demais.

— Você não soube?

Franzi a testa imediatamente.

— Não soube o quê?

Ele desviou os olhos pra TV desligada.

E respondeu baixo:

— Nós terminamos.

Meu cérebro simplesmente travou.

— O quê?

Ele soltou o ar devagar.

— Já faz um ano.

Sentei reta no sofá na mesma hora.

— Como assim UM ANO e eu não fiquei sabendo?!

Freddie arqueou uma sobrancelha.

— Sam… literalmente

todo mundo ficou sabendo.

— Eu não sabia!

— Você tava vivendo isolada do planeta Terra?

— Quase isso.

Ele soltou uma risada baixa.

Mas ainda triste.

Ainda cansada.

E aquilo começou a me irritar.

Cruzei os braços olhando diretamente pra ele.

— Para de mentir.

Freddie piscou confuso.

— Como assim?

— Como assim “foi tranquilo”? — repeti. — Freddie Benson, eu te conheço. Me conta tudo agora mesmo.

Ele desviou o olhar por um segundo.

— Você tava em Marte?

— Como assim?

Ele apoiou a cabeça no sofá.

— A gente anunciou o término junto com o fim do novo iCarly.

Meu coração apertou estranho.

— Tá… e?

Freddie ficou quieto.

Silêncio.

Perigoso.

Estreitei os olhos.

— Por que ela avisou sozinha?

Ele continuou quieto.

Ah.

Não.

Peguei o controle imediatamente.

— Freddie, se você não falar, eu vou pesquisar.

Nenhuma resposta.

Só aquele silêncio estranho.

Então liguei a TV rapidamente.

Pesquisei.

E apareceu.

Entrevistas.

Notícias.

Matérias.

Tudo.

Até em canais grandes.

Meu estômago afundou enquanto assistia.

Carly aparecia séria na live.

A voz baixa.

Cansada.

Ela dizia que tinha traído Freddie.

Sem detalhes.

Sem justificar.

Só pediu para que ninguém atacasse nenhum dos dois.

E confirmou que não existiria mais iCarly depois daquilo.

Meu choque foi instantâneo.

Virei lentamente pra Freddie.

Ele estava olhando pra frente.

Distante.

Mas tinha outra coisa ali também.

Alívio.

Como se finalmente não precisasse mais carregar aquilo sozinho.

Meu peito apertou forte.

Porque, de repente, várias peças começaram a fazer sentido.

O jeito cansado dele.

O vazio.

A forma como parecia desligado da própria vida.

Desliguei a TV devagar.

O silêncio ficou pesado.

Então Freddie virou um pouco o rosto na minha direção.

— Sam… quer saber tudo?

Olhei pra ele sem hesitar.

E assenti lentamente.

Então ele respirou fundo.

E começou a falar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.