Shi No Kage
4 Tukushime Sentaro
Notas iniciais
Yoru gargalhou e sorriu forçadamente. Seus dentes eram afiados, mas não tanto quanto seria caso ela fosse algo como um vampiro ou outra criatura ficcional semelhante.
– Estou brincando com você... Você me permite? — Yoru pôs os dedos longos no pescoço da menor e os arrastou até o queixo, para alcançar a boca. Miyuki não os permitiu. Apertou os seus dedos até sua mão sangrar devido às unhas afiadas da mulher.
– Não ouse "brincar" comigo. Entendeu? — Um sarcasmo saltou da boca da mais jovem.
Yoru deu uns passos ao redor da moça.
– ...O que acha que estou fazendo aqui? — Yoru a olhou nos olhos. Desta vez estava sendo minimamente franca.
– Apodrecendo. — Miyuki respondera em poucas palavras. — Está apodrecendo como um rato nos escombros.
– Você não me conhece ainda.
– E não pretendo. — A garota refutara rapidamente sem arrepender-se do que ali havia dito.
Yoru a encarou mais uma vez e exclamou sinceridade.
– Você ainda tem muito o que conhecer. Muito e muitos... Não sabe de nada, ainda.
– Então me explique porque está dizendo isso, se queres que confie em você. Se é que você está falando algo importante... Quero dizer... Se você presta. — Miyuki desviou o olhar.
Yoru sorriu e acariciou os cabelos da garota.
– Você é inteligente. Não precisa que eu te diga muito... — Yoru cerrou os olhos. — Você é uma mutante.
– Eu não sou uma mutante.
– Então me explique porque tornou-se um demônio ao lado do "Kirã".
– Kirã? Está falando do Kirane? ... Como você sabe o que houve quando estive com ele?
– Eu sei de muitas coisas... E sei também o que se passa na cabeça dele. Sei o que ele está pensando nesse exato momento. Já disse, eu controlo parte das pessoas que me admiram, entendeu?
Miyuki riu e sorriu. Achou tudo aquilo uma besteira.
– Pf.. Então no que ele está pensando agora?.. Ha.. Ele está pensando em você, sua amada? — Miyuki não aguentou as palavras de deboche.
– Está pensando em você.
Miyuki soou frio. De repente passou pela sua cabeça a possibilidade de a mulher estar sendo verdadeira, finalmente. E ela estava. Mas não foi o bastante.
– Você não respondeu a minha pergunta. — Miyuki retornou. — Yoru... Ele não te ama.
– E quem você acha que é para me dizer algo?
Os olhos de Miyuki trocaram de cor mais uma vez, agora estavam sangrando. Yoru havia envolvido-a num sufocamento sem fim, como se a garoto estivesse pronta para morrer.
– Ele era meu homem... — Yoru sussurrara nos ouvidos da pequena "vampira".
– ...Era? — Miyuki movimentara os lábios sem propagar sua voz, curvando os olhos para cima.
Um estrondo é ouvido por todos, quase tão alto como se uma explosão tivesse acontecido na prisão. Yoru e Miyuki tiraram suas atenções recíprocas. Os policiais começaram a correr ligeiramente por todos os lados, com pensamentos numa possível fuga de um prisioneiro. Mas não era nas celas. Era no refeitório. Infelizmente estava na hora de os policiais liberá-los para comer a comida imunda que era servida aos monstros.
– O que foi isso!? — Um policial gritara do refeitório.
– Libere-os para o jantar. — Do corredor das celas, o delegado exclamou com a voz suave.
– Sim, senhor. — Um policial bateu algum tipo de reverência.
As celas se abriram, todas ao mesmo tempo, exceto a número 666. Esta sempre demora um pouco mais que as outras.
– Você vai morrer aqui. — Yoru falou num tom baixo para a jovem antes que as celas se abrissem para que pudessem ir ao refeitório.
Após a abertura deles, todos já estavam lá, quando o som de duas vozes graves e ecoavam nas paredes, cada vez mais intensas a cada passo que as duas andavam na direção da refeição. Chegaram lá e estavam dois homens numa discussão que partira para a violência.
– Eu vou te matar, seu desgraçado de merda! — Era o maldito Kirane, que havia dado umas portadas num adolescentezinho qualquer. Na verdade nem era tão jovem. E estava rindo enquanto estava sendo surrado.
– Eu não sinto dor, velhote. Pode me dar quantos socos você quiser... — E depois voltara a rir, deitado no chão enquanto levava vários golpes do homem mais velho. Depois, fora levantado pelo pescoço e acurralado na parede.
Yoru, com raiva, correra até os dois e entrara na frente da briga.
– Parem de brigar! — Yoru exclamou com uma voz grossa.
– Sai da frente, maninha. — O garoto exclamou rapidamente. — Eu vou matar esse babaca.
– Você está levando uma surra. — Yoru falara. — Seu idiota.
Kirane parara. Nem queria discutir com a mulher com quem um dia se deitou. E andou um pouco para longe.
– Você não vai escapar de mim, eu vou esmagar a sua cabeça até seus olhos saltarem para fora. Moleque. — Kirane reclamou e olhou nos olhos do garoto e depois para a mulher. De longe avistara Miyuki, no caminho que Yoru seguira para alcançá-los.
– Se fizerem algo a ela... Mato os dois. — Kirane exclamara com seu sangue fervendo, quase o bastante para transformar-se na fera. E saiu para sua cela.
– Sentaro... O que você fez, seu merda? — Yoru perguntara furiosa.
– Nada... — Um riso saltou da boca do homem. Devia ter uns 20 anos, apenas. — Eu fui atacado, maninha. — Ele a olhou nos olhos friamente e foi embora.
– Venha, novata. Vamos pegar o almoço. — Yoru acenou para Miyuki. — Qual o seu nome, mesmo?
– Você sabe o meu nome, e ainda não me disse como.
– Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim.
– Digo o mesmo. — Miyuki a olhos nos olhos. — Pare de fugir ao assunto!
– Venha. Vamos pegar as bandejas. Vamos comer alguma coisa.
– ... Você não vai me responder?
– ...Não, garota. E se perguntar de novo, eu corto a sua língua com as minhas unhas. — Yoru as caminhou no rosto de Miyuki para que sangrasse.
– Você vai me responder um dia.
– Pode contar com isso, se quiser.
As garotas estavam na fila imensa de encarcerados, bem próximas ao final. Tinha uns 10 homens atrás delas, e mais 100 a frente. Estavam todos segurando bandejas, esperando por um alimento que de qualidade não tinha nada. Era chegada a vez delas.
– ...Que merda de comida é essa!? — Miyuki a encarara.
– Ah... Uma porcaria qualquer. — Yoru estava cansada da conversa.
– Não vou comer isso. — Miyuki olhara para o senhor que estava a servindo, um mero trabalhador qualquer da prisão.
E ela estava certa em recusar a refeição. O alimento parecia um bolo de fungos.
– Nem sei o que é isso. — Miyuki o encarou.
– É comida de animal, que é o que vocês são. — O homem respondera sem medo.
Miyuki não se conteve e pôs as garras no pescoço do homem. Mais uma briga, mais um alvoroço começou ali mesmo, mas não durou muito. Logo Yoru a conhecera de que era uma má ideia tentar matá-lo. Miyuki sentiu-se exausta como jamais sentira.
– ...EU ODEIO ESSE LUGAR. — Miyuki berrara pouco antes de jogar a porcaria de comida longe.
E saiu correndo para os portões de onde saíram policiais, matando um ou dois rapidamente. Infelizmente não durou muito para que os outros percebessem de longe e a ouvissem gritar. Veio um batalhão de homens fardados, buscá-la para levá-la a uma solitária. No caminho, um homem alto e forte a abordara em meio a uma multidão de policiais.
– Soltem-na. — Ele falara.
– Seu... — Miyuki resmungava.
Levou o primeiro soco no peito. E depois nas costelas, seguido de chutes e mais socos e enquanto o homem gritava a morte de seus homens.
– Vocês...! São...! Uns...! Lixos...! — O homem forte gritara enquanto a esmurrava sem intervalos.
Deu uma parada. Escutou um pequeno riso de Miyuki, mas uma lágrima saiu de seus olhos. Pôs-se a chorar, de dor, corporal e principalmente mental.
– Não... — Miyuki falou baixo. — Eu não sou um lixo... Nenhum de nós. — Miyuki aceitara o fato de ser da sua espécie.
– Eu não mandei você abrir a boca. — O homem a dera um soco no rosto.
Miyuki nem se importara mais, pois deu conta, por um instante, de quem era seus verdadeiros inimigos no momento.
– Mandem-na para a solitária. — O homem, de cabelos curtos e negros, alterou o tom ao referir-se a Miyuki novamente. — Se você matar mais alguém aqui... Eu a mando para a cadeira elétrica.
– Se esse é o caso, por que não disse isso ao Kirane? Ele ameaçou um outro mutante de morte. — Miyuki refutou confusa e irônica.
Os homens começaram a cochichar, sussurram e alguns risos discretos puderam ser percebidos.
– Eu estou falando de gente, não de animais. — O homem a respondeu e virou as costas ao passo que ia para sua sala. "Tomava conta" daquele lugar.
– ...Por quanto tempo eu vou ficar presa? — Miyuki perguntara esperando uma resposta do sujeito, mas ele a ignorou como se ela fosse um animal zumbindo, e continuara andando na direção contrária. — Você é covarde?
Sua paciência alcançara seu limite.
– Amarrem os pés dela, os braços e coloquem uma corda na boca dela. Mandem-na para a solitária hoje, e amanhã para a cadeira. Ninguém fará falta.
Miyuki suou, abriu bem seus olhos e tentou lutar contra os homens que estrangulavam seus braços e pernas. Tentou até mesmo acordar a mutante que havia dentro de si, mas não entendia como ela era, muito menos como controlá-la. Fora "embrulhada" por cordas e materiais extremamente densos, para que pudessem garantir de que a garota não fugisse das amarras, e logo em seguida fora jogada numa cela estreita, escura e silenciosa. Era possível até mesmo ouvir as gotas de umidade no teto.
Alguns minutos se passaram na agonia. Miyuki ainda não tinha desistido, não morreria ali, nem no dia seguinte. Mas algo assustou ela.
– É triste, né? Como o mundo é cruel.
Uma voz de um homem jovem escorreu pelas paredes até seus ouvidos.
– Você trabalha tanto pra que tudo dê certo... Mas é impedido pelo que você é e não pode negar. A natureza é injusta, você não acha?
– Quem está aí!? — Miyuki sentiu-se perturbada, invadida.
Um rapaz surgiu da escuridão.
– Você já me conhece, devo supor... Minha irmã já me introduziu, provavelmente. — Ele a respondeu. — Me chamo Sentaro. O cara que mais cedo estava no refeitório com aquele careca grande.
– Você é irmão da Yoru?
– Sim. Ou costumávamos ser... Mas tudo mudou pra gente, desde que entramos aqui. Estamos tão distantes... — Ele expôs um pouco de raiva.
– Por que você está aqui?... Como entrou aqui? — Miyuki estava desnorteada.
Ele era um moço muito bonito, atraente. Tinha olhos claríssimos, reluzentes quase como um diamante. Miyuki desconfiara do fato que serem irmãos. Ele era aparentemente bem mais jovem. Tinha olhos que mudavam de cor de acordo com as direções que olhava, parecia azul, verde, um turquesa. Um turquesa bem claro. Além disso seus cabelos eram um pouco mais grossos.
– Não faz sentido. — Miyuki dissera.
– Eu já estava aqui, você só não me notou. Estava preocupada com a umidade, e estava com medo. Ainda está com medo... O que aconteceu com o seu pai?
Miyuki sentiu-se invadida. A Yoru, e agora o irmão dela...? Como ele saberia sobre a história de alguém que não faz a menor diferença?
– Ele morreu. — Evitou demonstrar-se preocupada. Tentou negar a raiva e a pergunta que repetia em sua mente.
"...Ele também sabe sobre meu pai? Como?"
– Eu não sei, apenas perguntei, por curiosidade. Mas de qual deles você está falando?
– ...Você lê mentes?
– Pode-se dizer que sim. Mais ou menos. — Estava rindo em seus pensamentos, e esbouçou um sorriso nos lábios. — Na verdade, não. Eu só leio sentimentos. Vejo coisas, histórias. E vejo que você é triste. Solitária.
– .Todo mundo é.
Ele riu por uns dois segundos. E respondera com sinceridade.
– É verdade.
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