A Rua das Cerejeiras está bastante movimentada, pessoas vêm e vão tão distraídos, pensando em suas próprias vidas que nem notam uma pequena mancha branca vindo da escuridão do beco, que vai se revelando Shinta e Shi. Os dois estão sentados no chão, Shi está em direção da rua olhando para fora do beco e Shinta está abraçado com ela, por trás, olhando para direção da rua também. Shinta parece estar calmo, está até fazendo carinho no cabelo de Shi, mas seu rosto está cheio de marcas de choro.

- Por que você é assim? Por que você faz essas coisas?

- Eu não tenho motivos. Eu sou simples mente obrigada a fazer isso.

- Como assim? Por quê?

- Chega de por quês! Contarei a minha história, acho que vai entender.

Como uma cena de um filme que você lembra quando alguém conta essa cena. Junto às palavras, uma imagem vem na cabeça de Shinta, como se fosse uma memória, mas não a dele, e Shi conta sua vida. Pulando para o interessante, ela era filha de ricos, mas não nobres, morava com o irmão e os pais, e era consideravelmente feliz. Ela amava mais Hideki, seu irmão, porque ele passava mais tempo com ela, principalmente quando ela tinha seus constantes problemas de saúde. Seus pais amavam os dois, mas passavam mais tempo trabalhando ou “sendo ricos” do que com os filhos.

Mas no primeiro dia de aula, quando já estava saindo para a escola, ela se lembra que estava esquecendo um lápis. Estava tudo pronto, mas só faltava um maldito lápis. Então ela entrou de volta em casa, deixando Hideki esperando ela buscar o lápis para levá-la à escola. Seus pais estavam em casa, com uma visita, fazendo negócios, quando a Kaori entra na sala onde se encontravam, e com a doce voz que tem, pede um lápis para seu pai, agarrando no braço dele. Seu pai sorri de pega um de sua mesa, então passa a mão na cabeça dela fazendo carinho e sorri. A visita também sorri e diz “que bela menina nós temos aqui, hm?”. Kaori abre um grande sorriso, com uma risadinha meiga, agradece e sai correndo. Ela desce as escadarias de sua casa correndo toda feliz, então, no fim da escada, ela tropeça em sua saia e cai em cima de um pedestal, onde havia uma vela e um retrato de sua avó nela, derrubando-os no chão.

A casa era toda de madeira e boa parte de troncos de cerejeiras da região. A vela caiu em um pequeno tapete, que estava perto da escada e começou a pegar fogo. Então o fogo do tapete, rapidamente também fez com que a escada virasse uma cachoeira em chamas, mesmo que fosse impossível, pois toda a casa era revestida com um material quem não permitia a madeira queimar, que foi utilizado justamente para não acontecer.

Em questão de minutos, a grande casa onde vivia a pequena Kaori se transformou em uma enorme labareda, seus pais não puderam escapar, pois perceberam o fogo muito tarde e quando tentaram sair já não dava mais. Mas Hideki entrou na casa em chamas para tentar procurar sua família. Logo que ele entrou, viu Kaori sentada no chão chorando e dizendo “Eu destruí tudo que papai e mamãe sofreram para conseguir”, então Hideki corre para pegar ela e levar ela para fora. Mas quando ele a pega no colo, uma das vigas principais da casa se rompe e cai em cima deles. Para não machucar Kaori, ele se joga no chão, colocando ela para frente, então a viga cai nas costas dele, deitado no chão com a Kaori em seus braços ainda.

- Não! HIDEKI! NÃO! – Kaori grita, mas Hideki sorri e abre um dos olhos, cheio de lágrimas.

- Kaori... Por favor. Fuja, busque socorro.

- Não! Não vou deixar você aqui, eu vou te tirar daqui!

- Não adianta! Por favor, apenas corre e busque socorro. Eu prometo ser forte e ficar bem até você chegar, se você me prometer que vai ser forte e vai trazer socorro.

- Tá! – Kaori engole o choro e levanta. Ela olha mais uma vez para seu irmão, então sai correndo, mas quando ela está quase na porta, parte do chão se quebra, afundando uma de suas pernas junto.

- KAORI! – Hideki respira fundo, fecha os olhos e começa a rezar – Kami-sama! Eu imploro, salve a Kaori, por favor, salve ela, eu farei qualquer coisa que o senhor me ordenar, mas SALVE ELA!

Quando termina de gritar, a casa desmorona, transformando tudo em cinzas e carvão. Pessoas chegam logo depois e tentam ajudar, mas encontram apenas três corpos mortos, que por causa do fogo, foi impossível de identificar. Foi confirmado então que todos morreram durante o incêndio e foram construídos memoriais dignos para a falecida família Tatsuya, porém seus nomes não foram gravados em suas lápides, em pouco tempo, histórias sobre uma grande família Tatsuya começou rondar a cidade, mas ninguém sabia seus nomes ou seus rostos. Depois de algumas décadas, uma pessoa disse que a garota filha da família Tatsuya encarnou o demônio e ateou fogo em toda a casa. No ano atual ninguém se lembra do incidente, mas conhece uma história de uma grande família chamada Tatsuya, na qual a morte veio buscar suas vidas pessoalmente na aparência de uma menina.

- CALMA AÍ! Vo... Você está morta? Isso é impossível! O que você é?

- Meu irmão, meu irmão implorou que eu sobrevivesse. Naquele momento nós fomos levados ao Abismo e lá foi decidido que eu seria a quarta criança que seria encarregada buscar a alma das pessoas que morressem e que meu irmão seria encarregado de tirar minha vida novamente se um dia eu deixasse que meus sentimentos atrapalhassem meu trabalho, e quando esse dia chegasse, se nós fizéssemos tudo correto, nós iríamos diretamente para o Grande Palácio dos Campos Elíseos.

- Espere um minuto. Seu irmão é aquele que te chamou de Kaori? Ele veio te buscar?

- Sim! O dia chegou. Quando eu matei sua irmã, a hora dela não havia chegado ainda. Por isso Hideki apareceu.

- POR QUÊ? Por que você fez isso? Você não quer mais viver? – Shinta fica um pouco quieto antes de completar – Levar a vida das pessoas é tão ruim afinal?

- NÃO! Não é isso! Eu... Eu quero viver mais do que nunca agora!

- Mas, hein?

- Eu não posso ser a morte se meus sentimentos atrapalharem meus serviços. Hideki viria de qualquer jeito! E ele virá novamente, pois eu não o matei.

- Por que você tem que passar por tudo isso? Você só tem 12 anos!

- Não. Eu tenho 104 anos, e eu morri com 14, mas obrigada pelos 12 anos.

- Desculpe, eu queria poder ajudar, mas eu não sei nada!

- Você não poderia ajudar mesmo se soubesse. O fim está perto. Mas eu quero muito dizer uma coisa. Que venho escondendo há um tempo.

- E o que é?

- No dia em que eu vi você, você simplesmente me chamou a atenção, você é idêntico ao Hideki quando ele tinha a sua idade.

- Não estou entendo. Você está dizendo que eu sou parecido com ele? EI! Espere! Porque você está se aproximando tanto?

- EU! Eu... Eu te amo.