She's a riot
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Lauren Jauregui
Quando entrei da Academia de Polícia de Miami eu já imaginava que sofreria mais do que os outros. Eu passei por poucas e boas e sou muito grata aos meus pais por terem me ensinado muitas coisas durante a vida, dessa forma eu fui capaz de lidar com todas as tribulações de ser uma das únicas mulheres em um ramo predominantemente masculino. Aos 19 anos fiz a primeira aplicação do teste para a academia e passei logo, para a alegria do meu pai. Fiz um bom resultado e deixei familiares e amigos próximos orgulhosos de mim, eu mal conseguia parar de sorrir – pois, eu batalhei muito para estar ali, mas, infelizmente, a pessoa que eu mais queria que me visse hoje não estava comigo.
Minha mãe foi vítima de um tiroteio quando eu tinha doze anos, deixando-a tetraplégica. Foi a pior coisa que aconteceu em nossas vidas, pois ela era a luz da casa. Nunca vi meu pai tão destruído quanto no dia em que deram a notícia de sua nova condição, e meus irmãos, que ainda eram muito jovens na época, ficaram desolados. No começo era tudo mais complicado. Queríamos nos comunicar com a mamãe por um método simples, piscar duas vezes para sim; uma vez para não, mas ela parecia não querer.
Quando estávamos a sós, mamãe e eu, ela sempre chorava. Eu enxugava suas lágrimas e sofria junto. Eu me sentia miserável por não poder fazer nada ao vê-la infeliz daquela forma… Até que um dia, depois de muito tempo de adaptação com um computador onde ela podia escrever as coisas só com o movimento dos olhos, ela revelou o que realmente sentia. “Eu quero morrer”, escreveu, “por favor, me deixe ir”.
Chamei meu pai e ele não pôde acreditar. Ele relutou muito até finalmente acatar a vontade de minha mãe, após perceber que ela nunca seria feliz se continuasse daquele jeito. Chamamos psicólogos e os médicos responsáveis para ver o que era possível fazer. Teve todo um trâmite judicial para permitir o suicídio assistido e, depois de muita dificuldade, conseguimos a autorização. Naquele dia eu fui a única que ficou no quarto com ela, nem meu pai suportou e meus irmãos pequenos ficaram com ele em outro cômodo quando a injeção foi aplicada. Seu último pedido foi me ouvir cantar “Everything gonna be alright” de Big Mama Thorntown. Nos últimos momentos, eu não me aguentei. Ela foi fechando os olhos e minha voz se extinguia com sua vida.
Eu tinha dezesseis anos quando ela faleceu, desde então tem sido apenas papai, meus irmãos e eu. Todos seguimos em frente, mas fui a primeira a parar de chorar pelos cantos. Eu me sentia mal por ficar irritada com a melancolia de Michael mesmo após tanto tempo. Era hora de seguir em frente, mamãe ficaria contente se apenas deixássemos sua morte para trás. Hoje faz 9 anos que ela se foi.
— Vamos ficar do outro lado – eu disse, ajeitando os óculos escuros. A luz do sol acertava em cheio meu rosto, impedindo que eu visualizasse melhor o túmulo de minha mãe no cemitério municipal de Miami, em Biscayne.
Michael, Chris e eu estávamos no cemitério há poucos minutos. Taylor não foi conosco alegando estar se sentindo muito doente. Ele sempre dizia a mesma coisa para poder fugir de encontros em família, por mais que fosse por uma ocasião como aquela, para lembrar nossa mãe. Embora eu a visitasse com meu pai sem questionar, eu já não gostava mais da ideia de fazer isso todos os anos. “Deixem os mortos descansarem”, eu dizia ao meu pai. Soava insensível, mas ele simplesmente não quer aceitar que já passou da hora de seguir em frente. Chris parecia ser imparcial. Talvez por sua mente fértil o levar a outros lugares que não aquele parque verde repleto de túmulos antigos.
— Quantas rosas você trouxe hoje? – Mike perguntou, olhando para o pequeno buquê que eu tinha em mãos, soltando a fumaça do cigarro enquanto falava.
— Não são rosas. São tulipas – expliquei, tirando um papel fino que envolvia o buquê, revelando as pétalas azuis. — Resolvi fazer algo diferente esse ano. Chris?
Meu irmão não reagiu. Estava com as mãos juntas na frente do corpo. Atrás dos óculos escuros, seus olhos estavam vermelhos. Mas, não eram por causa das lágrimas.
— Chris – chamou meu pai – O que trouxe para sua mãe?
Ele acordou do transe. Balançou a cabeça e se desculpou. Então tirou do bolso largo vários origamis em papéis coloridos. Meu irmão se agachou diante do túmulo e deixou os pequenos cisnes e barcos perto da vela derretida do ano passado. Meu pai se aproximou, arrancou os restos da cera antiga e colocou uma nova vela. Acendeu com o cigarro. Meu celular começou a tocar. Mike soltou um pigarro.
— Um minuto.
Já estou há seis anos na corporativa e trabalho em período integral nas ruas de Miami, fazendo rondas constantes com meu parceiro, Oscar Munn, um policial experiente que eu admirava muito. Éramos amigos, mas ele era duro comigo quando eu fazia algo de estúpido nas abordagens, algo que tinha se tornado raro porque aprendia muito rápido com meus erros. Era ele quem me ligava naquele momento oportuno. Rezei para que ele me tirasse dali.
— Lauren, como vai?— começou. Ao fundo eu ouvia pessoas falando e telefones tocando. Ele estava na delegacia. — Já saiu do cemitério?
— Não, mas, pode falar. Já vamos sair, – menti – o que houve?
— Lembra quando eu disse que não estaria mais na linha de fogo?
Eu já imaginava. Oscar seria promovido a agente especial e substituído por um oficial de outra jurisdição foi como um tiro. Tentei parecer surpresa.
— Sim! Está ligando para me dizer que conseguiu? – ouvi alguém o parabenizar e ele falando um “obrigado” abafado, então aproximou novamente o celular.
— É, garota! Venha para a delegacia, vamos sair para comer e beber alguma coisa.
Ao me despedir, respirei fundo e fui até meu pai que se preparava para começar um discurso. Segurei seu cotovelo de leve e disse a ele que precisava sair, pois havia recebido um chamado urgente na delegacia. Outra mentira inofensiva. Mas, Mike podia ser temperamental demais.
— Você não tinha tirado folga?
— É urgente.
Seus olhos foscos encontraram os meus. Como quem procura mentiras, ele estudou cada detalhe do meu rosto. Então deu de ombros, visivelmente chateado. Vi Chris olhar desesperado para mim e eu lancei a ele um olhar significativo. Ele deve ficar.
Oscar havia se tornado a figura paterna que Michael deixou de ser quando minha mãe morreu. Porém, apesar de estarmos sempre juntos, não compartilhávamos nossas vidas como amigos normais. Para isso eu tinha Lucía, ou Lucy como ela preferia, amiga de infância que passou por todos os momentos bons e ruins ao meu lado. Ela trabalhava em uma galeria de artes em Wynwood chamada Primary e depois de suas exposições, eu a buscava para ir comer no Blackberry Bistro onde serviam o melhor panino de Miami. Era um ritual mensal que tínhamos e raramente desmarcávamos esses encontros.
Ao chegar na delegacia, parabenizei calorosamente o meu amigo, que estava só sorrisos. Fomos para Puerto Saga, um restaurante cubano bem próximo a praia. Outros colegas nos acompanharam, apenas os que estavam conosco desde o começo. Tivemos uma tarde agradável e eu fiquei extremamente feliz por ter tirado aquele dia de folga. Tenho certeza que, onde quer que ela esteja, minha mãe entenderia meus motivos para preferir me divertir do que me prender a uma parte triste do passado.
Minha rotina era bem organizada, dificilmente as coisas não saíam como planejado e isso, de certa forma, era aliviante. Com dois irmãos mais jovens e encrenqueiros e um pai amargurado, ficar livre deles por meio do trabalho era a melhor maneira de se manter sã. Eu não queria que fosse assim, mas as coisas só tem ficado mais chatas principalmente entre Michael e eu. Suas cobranças para eu entrar nas forças especiais contra o narcotráfico só aumentavam desde que eu entrei oficialmente na polícia de Miami. Não sei como será a partir de agora que fui colocada com um novo parceiro, um cara transferido de Tallahassee chamado Jesse Irwinton, como Oscar me informou aquela tarde. Espero que ele seja o tipo de cara com quem eu teria uma convivência agradável.
Se ele seguir a linha de Oscar, creio que minha vida continuará calma, embora não tão diferente das coisas que eu via nos noticiários sobre os constantes atentados às vidas dos negros em Los Angeles e outras cidades. Miami era uma cidade cheia de latinos, negros e asiáticos, uma mistura sem fim, um cenário paradisíaco para os ricos e o inferno para os imigrantes. Uma das cidades mais pobres e miseráveis dos Estados Unidos, era o que era essa cidade – e ser policial nesses tempos difíceis tem sido ainda pior do que eu imaginava.
Fazia um dia ensolarado, como não podia ser diferente àquela época do ano. Jesse retornou para nossa viatura em Downtown Miami, onde jogou o quepe no banco de trás e se sentou, entregando-me o shake de baunilha do Pinecrest Wayside Market.
— Puta merda – disse Jesse, ao passar a mão direita na testa, sorvendo um gole generoso do seu shake de manga com a outra mão. — Hoje está infernal, não acha? – perguntou.
— Demais. – respondi, dando um gole no meu shake de baunilha com creme. — Ainda não recebemos um chamado, isso é muito estranho.
— Nada da central?
— Um assalto à mão armada na Overtown. Cole estava por perto e cuidou disso, não pediu reforços.
— Deve ter sido mais um trombadinha colorido. Nessa temporada de Julho, os towners ficam loucos com os turistas indo para lá.
— Desculpe, como disse?
— Towners.
— Antes disso – falei. — Colorido.
— Ué, não são o que são? Os latinos e negros, eu quero dizer, não chamam coloridos aqui? – perguntou, olhando-me com a sobrancelha erguida, aqueles olhos extremamente azuis estudando cada milímetro do meu rosto. — Ficou ofendida com o termo?
— Só achei inapropriado o jeito que falou.
— Ora, Lauren, vamos! – disse, enxugando a mão úmida na farda. — Não me leve a mal, sabe que não sou assim.
— Não sei – falei. — Não sei mesmo.
Ao criar entre nós um clima tenso, não trocamos mais outras palavras até recebermos um chamado na NW 4th Ave. A Central disse que houve um tiroteio em um lava jato e que os suspeitos fugiram de carro pela North River Dr, onde colidiram em um muro Flager St. Estávamos há vinte minutos de distância do local, o que me fez pensar onde diabos os outros policiais haviam se metido. Jesse ligou o carro, terminou seu shake e jogou o recipiente no banco de trás. Fiz o mesmo e apertei o cinto de segurança.
Nunca sabemos o que esperar de situações como aquela. Só preparávamos nossos corações e seguíamos para onde a Central nos mandava. Meu coração batia forte, era sempre o momento de se perguntar se eu realmente havia feito a escolha certa ao entrar para a corporação. Tocar o aço frio da arma presa a minha cintura acalmava meus medos ao mesmo tempo que os inflava quando pensava em um possível confronto. Eu já havia estado em outros tiroteios antes, mas preferia evitá-los. Nunca se sabe quando uma bala vai pegar em você e nem mesmo Oscar, meu antigo parceiro, havia se acostumado com a ação após vinte anos como policial. Para Jesse, a ação era tranquila, ele parecia até mesmo gostar de fazer aquilo e isso, de certa forma, me incomodava. Eu indiquei a ele os melhores atalhos por Miami e ele seguiu às minhas instruções.
Chegando no local, não demorou muito para identificarmos onde o carro estava. Era um Mercedes Sport 75 preto com figuras no capô que identifiquei como símbolos de gangues. Os vidros estavam danificados não só pela batida como por perfurações a bala. Havia sangue em abundância no para-brisa dianteiro, logo presumi a bala havia partido de trás. Saímos do carro com as armas em mãos. A porta do passageiro do Mercedes estava aberta e havia uma trilha de sangue em direção ao cais próximo dali. Jesse me olhou e fez um sinal para eu conferir a pista e ele ficou para investigar a área.
Empunhando a Glock com firmeza, segui o sangue derramado até um barco aparentemente vazio ancorado ali. As ondas provocavam um movimento de oscilação suave, fazendo o casco colidir contra a estrutura de madeira ensanguentada do cais. Havia uma lona azul cobrindo a popa e uma poça de sangue havia se formado debaixo dela. Ao tirar a lona de lá, um jovem latino apontou uma Magnum .357 para mim, sem forças. No mesmo instante, mirei em sua cabeça e ordenei que abaixasse a arma. Ele, teimoso, manteve o braço erguido, mas tremia. Ordenei mais uma vez, vendo seu dedo deslizar para o gatilho. Eu não ia atirar. Nem precisava. O garoto já está morrendo. Fique calma, Lauren.
— Eu não vou atirar. – disse. — Vou ajudar! – exclamei, ao tirar a mira do garoto, guardando a arma devagar. Ele tirou o dedo do gatilho, sem baixar o braço. Então tossiu forte e a arma escapuliu de sua mão, caindo na água. Ele levou a mão para a boca e quando a tirou, admirou o líquido vermelho que botou para fora. Então me olhou desesperado.
— Ayúdame— implorou, com a voz fraca. Sua camiseta ensopada não deixava dúvidas de que havia tomado um tiro no estômago. Segurei o rádio comunicador e fiz o chamado:
— Aqui é oficial Jauregui. Mandem uma ambulância para Flager Street. Há uma pessoa baleada aqui. Oficial Irwinton investigando o local. Mande uma ambulância agora!
Minutos depois, Jesse voltou e viu a situação em que eu me encontrava. Ele soltou um assobio longo, como quem fazia pouco da situação tentando parecer impressionado com aquilo.
— Caralho, foi um baita de um tiro que ele tomou. – falou. — Já chamou a ambulância?
— Claro que já. – respondi sem olhar para ele. — Onde esteve?
— Investigando a área, vendo se não havia inocentes baleados. Sorte que não.
— Tem alguém baleado agora!
— Bem, não é exatamente inocente.
Eu não sabia que ele podia ser tão detestável assim. Digo, ele parecia um cara legal, mas, depois dessa, eu realmente não fazia ideia de como continuaria com ele como parceiro. Não preciso de mais um homem como meu pai em minha vida, já bastava quase toda a corporação policial cagando para os direitos humanos. Eu não queria me transformar nos monstros que eram ao fazer pouco da vida dos outros, por mais culpados que sejam. Além do mais, era um rapaz tão jovem que estava ali…
O garoto agonizava com a mão no estômago. Subi no barco e coloquei minha mão em sua barriga, apertando. Tentei manter o rapaz acordado enquanto a ambulância não chegava. Perguntei seu nome, onde morava, o nome de sua mãe e se tinha irmãos. Joel Maria, Opa-locka, Maria de Lurdes, sete irmãos. Ele respondia às perguntas com a voz embargada, perdida. Após quase quinze minutos de espera – quinze minutos, porra!— a ambulância chegou apenas para levar seu corpo para a autópsia com o outro sujeito morto no carro.
A apuração desse caso foi rápida, bem como normalmente eram a maioria das investigações crimes de assassinato em regiões pobres de Miami, isso quando não eram simplesmente arquivados. Na versão oficial, uma dupla de delinquentes foi assaltar um lava-jato e aí levaram chumbo do dono. Simples assim. O trabalho de notificar a família sobre a morte de Joel foi dado a mim. “Você, como mulher, leva mais jeito para essas coisas”, disse o xerife Walter, “melhor fazer isso, depois de ter visto tanto sangue acho que pode ficar com a parte mais fácil”.
Lembro de suas palavras como quem lembra de um chute no saco. Não que eu saiba como é um chute no saco, mas, definitivamente, sei o que é ser diminuída por homens na frente de outros homens que acham que, apesar de ter sido considerada uma das melhores oficiais, não sirvo para o trabalho. Foi difícil dar a notícia a Maria de Lurdes. Conversamos um pouco ao telefone, ela me contou sobre a vida que Joel levava e temia pela vida de seus outros filhos. Ao final da conversa, ela agradeceu e desligou. Maria de Lurdes foi uma das mães mais compreensíveis com quem já conversei, pois dificilmente alguém agradece um policial.
Saí do prédio da delegacia me sentindo mais cansada que o normal. Fui ao vestiário tomar um bom banho para depois me encontrar com Lucy no Primary. Eram 18 horas quando meu telefone tocou e o rosto sorridente da minha amiga apareceu na tela.
— Ei garota. – disse, terminando de guardar minhas coisas na mochila. — Já estou de saída.
— Oi! Está bem, venha logo. Hoje a exposição foi um sucesso!— falou animada. — Consegui vender dois quadros.
— Uau! – exclamei, abrindo um sorriso ainda mais largo. — Vamos pedir panino em dobro hoje – disse – o que acha?
— Acho maravilhoso, mas podemos sair para tomar uns drinques depois. Tem um lugar muito bom e… Ai, cara! Eu estou tão feliz, você não faz ideia— ouvi-a suspirar do outro lado. — Ai meu deus, me desculpe, eu nem percebi que estava só falando de mim. Parece cansada, teve um dia ruim?
— Bem, por aí – finalmente disse, bufando. — Duas pessoas morreram no meu turno. Um deles era só um garoto… Foi perto do bairro da sua galeria, aliás.
— Puta merda, Lauren — exclamou ela, arfando. — Meu deus, eu sinto muito.— disse — Você está bem?
— Acho que sim – respondi, passando a mão na nuca. — Eu preciso lidar com isso. Mas a verdade é que eu queria estar como Jesse, ele não dá a mínima.
— Jesse?— repetiu, confusa.
— Meu novo parceiro. – eu disse. — Eu falei sobre ele da última vez que conversamos.
— Oh! Eu havia me esquecido dele, desculpe.— falou ela. — É que eu estou tão acostumada com o Oscar…
— Nem me fale. Sinto falta dele, não era um idiota.
— Como?
Olhei para o relógio no pulso e aí suspirei. Joguei a mochila nas costas e tranquei meu armário. Então fui para fora da delegacia, deixando Lucy sem resposta.
— Alô?— chamou, impaciente. — Garota, cadê você?
— Oi, desculpe, estava saindo da delegacia. Eu vou pegar a moto agora, logo estarei aí e podemos conversar melhor. – disse — Fique atenta.
— Certo, estarei na frente da galeria. Até já.
Fui para o estacionamento da delegacia e subi em minha moto, não sem antes dar uma boa olhada em minha amada companheira. A Harley-Davidson 883 estava inclinada perto do poste, embaixo de uma área protegida. Eu a comprei por uma barganha há alguns anos e os únicos gastos que tive com ela foi com uma nova pintura. O antigo dono havia cuidado muito bem dela e me assegurou de que era a melhor aquisição que eu faria, “mesmo para uma mocinha”, disse ele quando viu o pagamento à vista.
Subi na moto, ajustei o capacete e dei partida, deixando o estacionamento em poucos segundos. Atravessei a Mac Arthur Causeway que parecia mais longa que o normal, e mais cheia de carros também. O sol estava se pondo majestosamente, modificando as sombras da paisagem e quando alcancei o outro lado, ele já havia desaparecido no mar.
Parei debaixo de uma árvore do outro lado da rua da galeria. Escondida nas sombras, vi Lucy conversar com um de seus amigos. Ela ria e os ombros se curvavam para frente, as mãos juntas, olhos apertados e boca aberta mostrando todos os dentes. Não pude deixar de soltar um riso frouxo com seu jeito de rir. Tirei o capacete e puxei o celular para discar o número de Lucy. Vi ela atender e pedir um segundo para os amigos.
— Gostei dessa camisa, – falei. — você vai me emprestar depois.
— Vai me deixar sem roupas, você pega todas as que tenho— ela riu – Onde você está?— perguntou ela, levantando a cabeça para me procurar. Quando seus olhos encontraram os meus, ela sorriu e acenou. — Já estou indo.
Ela então terminou a ligação e se despediu dos amigos. Atravessou a rua para me encontrar e nos cumprimentamos com um abraço apertado.
— Sobe aí – disse, entregando a ela o capacete reserva que eu levava no braço.
— Você até que chegou rápido. – falou ao subir na moto, abraçando minha cintura. — Pensei que ia ter mais tempo de conversar com o pessoal.
— Atrapalhei você? – perguntei ao girar a chave na ignição.
— Não, de jeito nenhum. Você normalmente enrola no trabalho depois que fala que está a caminho, pensei que não seria diferente hoje.
Saímos dali para o nosso bistrô favorito que ficava a uns dez minutos da Primary. O trânsito estava razoável aquela hora da noite, o que me deixou mais tranquila. Quando chegamos, fomos logo recebidas por Frank e seu irmão, Charles, que era o chef.
— Olá, garotas! – cumprimentou o mais velho que vestia um dólmã de um branco cegante. — Bem-vindas mais uma vez.
— Vocês vão gostar da surpresa que temos hoje. – falou Frank. — Testamos uma nova receita de panino e como vocês são nossas clientes mais assíduas e queridas, permitiremos que provem antes dos outros.
— Uau! – exclamou Lucy, abrindo um largo sorriso. — É sério? Estou honrada – disse, botando a mão no peito.
— Nós estamos honradas com isso, ainda mais que hoje é um ótimo dia para Lucy. Ela vendeu dois quadros na exposição de hoje.
— Que maravilha! – Frank e Charles disseram em uníssono.
— Obrigada, os dois – disse Lucy. — Vamos entrar então? Estou morrendo de fome.
— Entrem, entrem. Os panini vão sair logo – disse Frank, dando um tapinha no braço de Charles que gesticulou alguma coisa e foi para a cozinha.
Sentamos no local de costume, perto das janelas, pedimos vinho e ficamos aproveitando o ambiente. Era muito agradável, sempre tocavam músicas diferentes. Naquele momento tocava “Tous les mêmes” de Stromae, um dos meus cantores franceses preferidos da atualidade. Eu tinha uma paixão inconcebível por música francesa, assim como minha mãe. Quando dei por mim, estava balançando os ombros de um lado para o outro.
— Você fica com um sorrisinho muito engraçado quando está escutando algo que gosta – comentou Lucy, olhando com deboche para mim. — Parece uma criança.
— Olha como fala. – disse. — Você também parece besta quando escuta algo que gosta.
— É, mas não fico dançando no meio do restaurante.
— Não estou dançando! – retruquei. — Mas, sério, escuta essa música. Tem uma batidinha boa.
Lucy ficou em silêncio por alguns segundos, então balançou a cabeça e suspirou, sua expressão mudou.
— Mudando radicalmente de assunto. O que houve no seu trabalho hoje?
— Muitas coisas. Parece que passei uma semana inteira em dez horas…
— Você disse que um garoto morreu.
— Sim, nos limites de Overtown. Na verdade, duas pessoas morreram, mas um deles conseguiu sobreviver por alguns minutos. A ambulância demorou demais e aí…
— Como imaginei. Não estão nem aí para os bairros pobres. Se fosse um branco engomadinho em Coconut Groove ou Coral Gables, até mesmo helicópteros apareceriam para salvá-lo. Caralho! – esbravejou Lucy.
— Eu ainda tive que ligar para a mãe do rapaz. Ela pareceu entender bem, mas sei que estava acabada, Lucy. Fiquei mal.
Minha amiga colocou a mão sobre a minha e acariciou o dorso com o polegar. Olhei para aquilo e suspirei. Ela então entrelaçou nossos dedos e eu olhei para ela.
— Tudo bem, eu sei que está cansada e triste. Mas, não pode deixar isso dominar você, ok? – disse. — Você é osso duro.
— Sabe que não sou. – falei. — Tenho um coração muito mole, pra falar a verdade – concluí, fazendo com que Lucy soltasse um riso rouco.
— É, mas tem que ser durona.
Os panini finalmente chegaram, fumegantes e cheirosos, acompanhados de um pote de molho. A garota que nos serviu pediu licença para colocar os pratos na mesa e olhei de relance para ela antes de ela voltar para onde saiu, sem olhar para trás. Seu perfume se misturou ao cheiro de pão fresco do panino e olhei confusa para Lucy.
— Eu vi isso, hein – falou Lucy, pegando os talheres. — Acho que é nova, nunca a vi por aqui antes.
— Ela é bem bonita. – comentei. — Até esqueci por um segundo que vim aqui para comer sanduíche…
— Ei, não exagera. – retrucou minha amiga. — Era bonitinha, mas não supera esse panino. Olha só que delícia, puta merda!
Voltei meus olhos para o prato a minha frente e cortei um pedaço. Quando o ciabatta se desmanchou em minha boca, fui arrebatada para outro mundo ao sentir o gosto daquela obra-prima gastronômica, fazendo com que eu esquecesse dos meus dias cheios de violência. Como algo tão bom pode existir em um mundo como esse? Era simplesmente inacreditável.
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