She's a riot
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem, do fundo do meu coração. Trabalhei com carinho na fanfic.
Beijos!
Capítulo 1
Camila Cabello
— Está bom por hoje. – disse Alejandro, massageando o punho depois de me socar. Caí no chão, o peito subindo e descendo desesperadamente. O mundo parecia pequeno agora. Bem menor. Meus olhos inchados não me deixavam contemplar o teto velho da academia. — Você foi mal hoje. Vai treinar sozinha essa semana.
Meu pai sempre dizia: o ontem não pode nos trazer mais nada, a não ser a lição que aprendemos. Não parecia funcionar bem em sua vida regada a vícios e lutas em ringues, muitas vezes quase o levando a ruína. Não que sua vida já não fosse um completo bueiro de merda, porém ele conseguia fazer a vida parecer mais difícil do que realmente era e, com isso, nos ensinou que tudo poderia ficar pior – por isso devíamos estar preparados para qualquer coisa. Ele era dono de uma academia em Montecarlo onde os traficantes costumavam se exercitar e fazer negócios. Meu pai, aproveitando-se da “generosidade” dos traficantes, fez bons acordos com os maiores figurões da região – envolvendo-se até mesmo com o perigoso Cartel de Juárez. Além disso, sua longa e fortíssima amizade com Javier Cuervo, um magnata do narcotráfico, era uma grande soma a sua influência no bairro. Eles se conheciam desde a adolescência por intermédio do pai de Javier. Eram como irmãos e tinham muito daquilo de honra entre macho ou sei lá que sentimento é esse que envolve a maioria dos homens desse país. Alejandro Cabello era um boxeador, wrestler, um luchador cheio de problemas morais. Meu pai fez seu nome em um dos maiores combates de lucha libre quando era mais jovem. El Grand Toro, como era conhecido, era um dos mais famosos integrantes e também capitão dos Los Grandes Jefes de Juárez, um grupo de lucha libre patrocinado pelo narcotráfico de Javier Cuervo Pai, que eu nunca conheci. Fazia tempo que ele não participava das grandes competições, trabalhava apenas como treinador e ocasionalmente destruía alguns rostos para Javier Cuervo Filho, seu grande amigo e meu padrinho. Papai decidiu; o que muito desagradou minha mãe que detestava estar envolvida diretamente com os negócios escusos do marido e de seu amigo.
— Meu deus, Alejandro, o que diabos você fez no rosto dessa menina?! – perguntou minha mãe, largando a faca a qual usava para depenar um frango. Tirei as bandagens imundas da mão, enrolando-as cuidadosamente enquanto minha mãe tocava em meu rosto, vendo as feridas da vez. — Você vai matar essa menina, hombre.
— Não. Ela não é uma boneca, não vai quebrar se levar umas porradas. Se quebrasse, eu diria que você transou com o dono da taverna e não comigo. Aquele bonequinho de porcelana não aguenta o próprio peso. – comentou meu pai, pegando uma maçã no cesto de frutas em cima da mesa. Então ele arremessou rapidamente. A maçã passou direto pela porta da cozinha, traçou uma reta direto para o meu olho já inchado quando a mão de Sinu impediu que chegasse em mim.
— Alejandro, seu puto, já chega de maltratar minha menina. – ordenou minha mãe, enquanto meu pai dava uma risada. Ele veio até mim e beijou minha cabeça.
— Ela ia conseguir pegar.
— Como sabia?
— Eu treinei ela, mulher, ela tem os melhores reflexos de Juárez.
Sim, eu podia ter pegado sem a ajuda de minha mãe. Mas, ela foi bem mais rápida.
— Eu quero ver se você vai ter bons reflexos quando eu acabar com essa sua cara de touro gordo.
Sinuhe Cabello casou com meu pai por interesse da família quando ele ainda era um jovem em ascensão. Isso ela sempre fazia questão de deixar claro nas discussões violentas, pois, quase todas as noites Alejandro chegava porre destruindo as coisas. Ele nos acordava de propósito, às vezes, quando se batia contra as paredes e ria sozinho ou maldizia a própria situação de merda. Já perdi as contas de quantas vezes ele já não me acordou de noite para treinar depois de sua bebedeira falando que futuramente eu carregaria o peso daquela academia e dizia também que eu era muito boa lutadora e que poderia fazer uma grana com isso. Minha mãe odiava quando ele agia daquela forma devido aos diversos hematomas que eu ganhava após treinar até o amanhecer, quando ele parava para eu me arrumar para a escola. Ele não fazia por maldade nem por, como mais tarde aprendi, misoginia. Ele só era assim.
— É minha menina também. Não é você que fala que garotas podem ser tão fortes quanto homens? Então, mulher, Camila será meu luchador.— disse orgulhoso, massageando meu ombro. Não consegui evitar dar um sorriso feliz, o que fez minha mãe revirar os olhos. “Igualzinha a seu pai”, ela deve ter pensado.
— Está mais para o seu saco de pancada humano. – redarguiu ela, apontando para os roxos em meu rosto. — O que devem pensar na escola dela quando ela chega toda destruída assim, hombre?
— Todo mundo sabe de quem ela filha e o que eu faço com ela. Camila, você acha ruim seu pai treinar você como ele treina todos os caras fodas da academia?
Neguei.
Neguei não só por concordar com ele, mas também por temer contrariá-lo, mesmo sabendo que ele não bateria em mim por esse motivo, pois ele só o fazia com o propósito de me treinar. Ele não batia em mulher por nada.
Com exceção de uma vez, quando eu tinha uns oito anos, depois de um desentendimento após duas garrafas de tequila, Alejandro empurrou minha mãe contra a mesa de vidro. Situação que ele se envergonhou por muitos anos, o que também foi um dos motivos para ele ter diminuído a compulsão alcoólica. Sinuhe não deixou barato, ameaçou matá-lo com o caco de vidro que havia entrado em seu braço, disse que levaria minha irmã e eu para casa da tia Olga em Miami e ele nunca mais iria nos ver. Alejandro ficou desesperado com a ideia e tratou de consertar suas besteiras. Minha mãe era uma mulher de pulso firme, dava umas boas sovas em meu pai, um homem bem maior que ela – e, mesmo podendo deixá-lo, ela nunca o fez, não pela obrigação do matrimônio, pois ela não era mulher de se deixar governar por dogmas, mas, por ter aprendido a amar o homem que haviam colocado em sua vida.
— Vá se arrumar para a escola, Karla. – disse, então olhou para Alejandro que estava comendo banana. — E você, seu paspalho, vá se trocar também. Os Cuervo vão aparecer aí a qualquer momento. Vou levar Sofia para a casa de Cecília e depois vou à feira.
— Que feira, mulher, você já não foi a feira ontem?
— Vai me impedir de ir? – perguntou ela, altiva, erguendo a sobrancelha. Meu pai encarou-a por alguns segundos antes de dar de ombros e se dirigir para o banheiro. Minha mãe viu que eu ainda estava ali e me lançou um olhar ríspido. Era sua maneira de me fazer obedecer quando ela já havia dado a ordem.
Amar meu pai não a impedia de ter relacionamentos com outros homens, assim como meu pai se envolvia com outras moças. Sempre condenei esse comportamento dele ao preferir garotas mais jovens. Numa dessas aventuras extraconjugais e, devo admitir que era nojento, efebófilas, ele conseguiu engravidar minha babá, Maritza, – que devia ter uns 17 anos – e ela foi bater à nossa porta. Quem a recebeu foi minha mãe e ela, ao ver a raiva e o medo nos olhos da pobre garota, recebeu-a como uma filha e cuidou dela até a chegada do meu pai. Quando ele viu as duas ali, juntas, eu lembro bem, quase desmoronou de tanto chorar aos pés de minha mãe, enquanto suplicava seu perdão, ignorando totalmente a presença da moça. Ao final de tudo, minha mãe aconselhou Maritza a voltar para casa e contar aos pais da gravidez – mas, se ela achasse que não tinha condições de criar a criança, ela deveria dá-lo a adoção. A garota queria obrigar meu pai a pagar um preço pelo que fez, porém, vendo ela a nossa situação igualmente pobre, ela começou a ponderar a colocar a criança no sistema. Alguns meses depois, veio a triste notícia: ela havia pegado uma enfermidade que assolava a região na época e faleceu, levando o bebê junto. Lembro que meu pai e minha mãe ficaram arrasados. Eu tinha dez anos quando isso aconteceu.
— Mãe, eu acho que nunca mais vou ser bonita. – disse a ela enquanto olhava meu rosto inchado e multicolorido. Verde, roxo, amarelo e vermelho eram as cores principais da tela. Meu pai era o pintor. Quando eu me livrava de uma das cores, outras apareciam e assim iam. Quatro cortes em meus lábios e uma sobrancelha rachada complementavam a obra. Mas ninguém se importava, ninguém comentava. Sabiam que se ficassem olhando para o meu rosto por muito tempo, eles também ganhariam a mesma pintura Não tão sofisticado como os Andy Warhol que meu pai pintava em minha face, mas o color field de Rothko.
— Não fale besteira, menina. – Sinu me repreendeu, dando uma olhada para a protuberância abaixo do olho esquerdo. — Passe um gelo nisso.
— Camila parece um balão – Sofia surgiu de repente entre as pernas de minha mãe.
Meses depois da morte de minha babá, minha mãe engravidou de uma linda bebê que chamou de Sofia, o nome escolhido por Maritza caso seu neném fosse uma menina. Sinu jamais culpou a jovem por ter caído na lábia do predador que era meu pai, ela sempre protegia as mulheres por mais culpadas que parecessem em uma situação mal explicada. Ela sabia que, se tratando de um desentendimento onde haviam homens envolvidos, a mulher sempre seria oprimida. E ela lutava contra isso como a maioria das mulheres de nossa família. Cubana, foi levada para o México depois de um conflito armado em seu país de origem. Acho graça dessa mudança, porque ela simplesmente saiu de um lugar ruim para outro pior. Isso teve um impacto enorme na pessoa que ela é hoje, tenho certeza, mas eu não sabia muito de minha mãe. Sua aura era sempre anuviada, difícil de ler, então eu só podia tirar algo dela por seus atos.
— É verdade, Sofi – respondi. Tentei dar um sorriso, mas minha bochecha estava dolorida demais para isso. Minha irmã riu e ajeitou a mochilinha nas costas, saindo dali.
— Já vou levar Sofia para Cecília. – disse Sinu. A campainha tocou demoradamente e senti meu estômago embrulhar. — Javier já chegou, apresse-se. – falou, fechando a porta do banheiro para eu me arrumar.
Não lembro bem quando fiquei amiga de Olivia Cuervo, creio que éramos apenas bebês. Mas me recordo de nossas peripécias quando mais crescidinhas: Perdíamos horas caminhando por entre os bosques imundos de Juárez a procura de aventuras. Tínhamos aquela cumplicidade infantil que só crianças conseguem ter. Éramos atentadas, fugíamos dos deveres para fazer uma visita à feira municipal para roubar tangerinas suculentas que devorávamos escondidas em becos. Éramos inalcançáveis. Formamos nossa primeira “gangue” aos dez anos depois que assistimos escondidas o longa americano “The Warrior” em uma fita que peguei escondida do guarda-roupa do meu pai quando pensávamos que era coisa pior, como pornografia, mas veio a ser um filme que mudaria nossas vidas.
Suor, poeira, álcool, o gosto de borracha do tatame, sangue, cocaína, pólvora e tangerina. O último item que compunha minha infância me levava a mais tenra memória a qual eu cultivava com certa dor vez ou outra em meus devaneios. Meu amor por Olivia era idílico, por ter sido um período curto de tempo envolto aos mais belos sentimentos que eu jamais sentira por alguém na meninice, como um pequeno e terno poema, mas cheio de controvérsias.
— Bom dia – cumprimentei primeiro a Javier, tomando-lhe a benção. Ele me ofereceu um sorriso amigável e beijou minha cabeça, então falou com minha mãe que tinha Sofia no colo. Sinuhe cumprimentou Javier, mas saiu rapidamente dali, deixando a porta aberta. Olhei para a traseira da caminhonete e vi Olivia. Ela acenou para eu ir até ela.
— Não se assuste – eu disse ao subir.
— Com o quê? – ela então examinou meu rosto – Ah. Novos machucados.
— Sim.
— Está doendo muito? – perguntou, passando a ponta dos dedos sobre o inchaço. Soltei um gemido e ela afastou a mão rapidamente. — Acho que sim.
— Estou bem. Essa foi a última semana de treinos assim, ele dá um tempo para eu me curar. Aí fico treinando sozinha ou com os sacos.
— Eu queria lutar também, – desabafou. — Mas, meu pai disse que eu não preciso ser como vocês.
— Como nós? – arqueei a sobrancelha.
— É, peões. – disse, voltando o olhar para meu pai que saía de casa e dava um abraço em seu amigo.
— Peões. – repeti, meus olhos acompanharam os homens até entrarem no carro. Segurei-me na barra da caminhonete e deram partida.
Olhei para Javier e Alejandro que conversavam energicamente dentro da caminhonete. Então, era isso que éramos para os Cuervo, peões. Isso não era de todo ruim, pelo menos significava que tínhamos mais força. Eu acho. Talvez Olivia tenha se expressado mal, porque meu pai não era para Javier apenas um simples peão. Meu pai era todas as peças, deixando a função de Rei/Rainha para Cuervo. Alejandro era para seu amigo o que Genco Abbandando era para Don Corleone. Um consiglièri.
— Eu posso ensinar você a lutar sem seu pai saber.
— Acho que eu só preciso evitar machucar o rosto.
— Eu não conseguiria bater em você. – disse, convicta. Os lábios de Olivia separaram-se em um sorriso delicado, fazendo meu peito amornecer.
— O que quer fazer hoje? – perguntou.
Nessa hora ouvimos alguém bater no vidro. Era meu pai gesticulando para segurarmos firme na barra. Estávamos vacilando. Obedecemos e ele voltou a posição normal.
— Quero ir no Tazzo's. Chegou um fliperama novo.
— Ah… Eu queria ir ao lago.
— Fliperama é melhor. – Olivia olhou séria para mim por uns segundos, os cabelos dourados voando dramaticamente contra o vento — Por favor, Ollie. – então sua expressão suavizou.
— Está bem, como quiser. Só porque sua cara está engraçada. – disse, dando uma risada divertida.
Eu gostava dela por ser tão complacente com minhas vontades quando eu, obviamente, não sabia o que fazia. Porém, depois dos meus pais, ela era a única que conseguia me repreender de modo que eu não fizesse a mesma besteira duas vezes.
Eu me derretia quando seus grandes olhos castanhos fixavam em mim enquanto conversávamos. Eu desejava ser objeto de sua contemplação. Quando eu a ouvia gritar por mim nas lutas mirins na academia do meu pai, eu sentia o amor crescente invadir meu coração acelerado – o amor mais inocente e breve da minha vida.
No dia anterior ao meu aniversário de 14 anos, deu merda em Juárez. De madrugada, meu pai apareceu de repente em casa, suado e nervoso, falou para arrumarmos as malas. Minha mãe quis saber o que houve, mas Alejandro não conseguia responder de tão nervoso que estava.
— Deu merda, Sinu, deu muita merda. Os putos estão vindo para cá para o bairro, Javier fodeu tudo. Fique pronta, mulher! Pegue todo o dinheiro no cofre e algumas roupas – ordenou, praticamente cuspindo as palavras, então olhou para mim e segurou meus ombros — Arrume sua irmã! Vocês vão fazer uma viagem.
— Quem está vindo, Alejandro, pelo amor de Deus? – insistiu minha mãe, aterrorizada.
— Importa mesmo saber quem de fato está vindo se estão vindo para nos matar, mulher?! Apresse as coisas, vamos! Já falei com Hector, ele já está vindo, vai levar vocês para o Texas.– Meu pai falava enquanto entrava nos quartos para pegar as malas. Minha mãe o seguiu. Ele não parava um segundo.
— Você perdeu a porra da noção, homem, deixar nossas vidas aqui e partir para os Estados Unidos?!
— Sinuhe, não está me ouvindo? Os Halcones estão vindo para trucidar Cuervo, descobriram umas paradas com que ele estava se metendo, roubando da área deles, negócio perigoso de se fazer, e você sabe que esses malditos só querem uma maldita desculpa para passar a navalha no pescocinho caro de Javier.
— E como você sabe disso, porra? – perguntou minha mãe, tentando acalmar Sofia que estava ficando vermelha, quase para chorar.
— Ele estava no Villa Del Mar quando uns motoqueiros passaram atirando, eu estava lá, merda, eu vi tudo acontecendo. Os filhos da puta mataram o José, dono do bar, não tinha nada com isso o pobre homem. Mataram um monte de caras do Cuervo! Ele conseguiu fugir em uma motocicleta com Guzmán, os caras foram atrás deles, mas me falaram que estão mandando gente dos Halcones para cá também, eles querem acabar com tudo que construímos, Sinu!
Fora da academia, ao longe, ouvimos carros passando velozmente pelas ruas sinuosas de Montecarlo. Então, um silêncio perturbador dominou o ambiente por vários segundos.
Subitamente, a primeira rajada de tiros preencheu o ar.
Tem uma coisa que falam em Juárez sobre tiroteios: se o inferno tem uma sinfonia, essa sinfonia era o de centenas de tiros perfurando paredes, destruindo vidros e estraçalhando corpos. Foi nesse momento que eu ouvi a verdadeira canção do mundo dos mortos e comecei a temer pela minha própria vida. Foi naquele instante que a doce inconsequência infantil foi levada de mim, pois agora tudo podia me atingir, principalmente uma bala de grosso calibre como as que estavam despejando em nossa rua. Eles atiravam indiscriminadamente, mas não éramos os alvos principais daquele bando de filhos da puta. Javier Cuervo era o homem que estava marcado para morrer, e todos que estivesse nas proximidades também – e isso me fez estremecer, pois Olivia provavelmente estava em casa naquela hora.
Meu pai se jogou sobre minha mãe, e esta havia se jogado sobre Sofia. Eu, como estava do outro lado da sala, corri para o minúsculo banheiro e me joguei dentro da banheira velha, encolhida feito caramujo assustado. Eu sentia as balas zunindo a um centímetro da minha cabeça, sem exagero. Eu não movi nenhum músculo por vários minutos, permanecendo naquela posição desconfortável até ser tirada de lá por meu pai quando ouvimos os carros se afastarem da rua. Ele nos levou por entre a academia adjunta a nossa casa e vi que estava tudo destruído. As vidraças, os sacos de pancada, até mesmo as luvas penduradas na parede estavam destroçadas. Ver a academia destruída me deu um aperto no peito tão grande que nem mesmo consegui chorar pelo susto do ataque. Pensei em minha amiga. Na minha mente, rodava o filme de Olivia escondida, sendo encontrada e assassinada violentamente. Comecei a suar frio. Meu pai massageou minhas costas para me acalmar, ou ao menos tive a impressão que ele o fez por esse motivo.
— Pai!
— Agora não, Camila – disse ele – Certo, venha, Sinu! Com cuidado.
Quando saímos da casa, o que vi foi a mesma cena que eu estava cansada de ver em noticiários do mundo inteiro – um verdadeiro campo de guerra. No asfalto quente e rasgado com marcas escuras de pneus, jaziam corpos de homens, mulheres e até mesmo crianças. Estavam destroçados, receberam muito mais tiros do que precisavam para morrer – era mais como uma mutilação proposital para envergonhar a existência deles naquele plano. Senti minhas tripas revirarem, coloquei as mãos na boca, empurrando o vômito de volta. Não podia ser fraca agora.
O bairro de Montecarlo estava irreconhecível. Alguns carros pegavam fogo e os muros foram pintados de vermelho vivo do sangue das vítimas. Havia uma picape preta atravessada no final da rua onde morava Javier Cuervo e sua família. Lá a situação estava bem mais preocupante. Estremeci. Eu também queria procurar por Olivia, na verdade, eu insisti para ele me deixar procurá-la. Ele, é claro, negou e me enfiou em um Chevette branco que estava na calçada com as portas abertas e um corpo estirado ao lado. Meu pai procurou as chaves no corpo ensanguentado e sentou-se no banco. O carro não dava partida, óbvio! O automóvel foi perfurado várias vezes por projéteis enormes, o máximo que ele conseguiria dali era uma explosão com toda a família Cabello dentro. Sem saber o que fazer, ele ficou sentado no banco do motorista, com a mão apoiada no volante, o rosto suado e cansado.
Os bombeiros nunca chegaram. Havia sobreviventes na rua, jogados no chão, desesperados enquanto abraçavam os corpos dilacerados dos entes queridos. Procurei entre aqueles rostos angustiados o de Olivia, perdida e sozinha. Não a vi em lugar algum, pedi novamente a meu pai que me deixasse procurar por minha amiga, mas ele simplesmente não deixava eu sair de perto. Ele estava preocupado e eu compreendia. Eu sei que não deveria deixá-los ali, no entanto Olivia era como membro de nossa família e nós não abandonávamos ninguém que fazia parte dela.
Foi quando surgiu de algum lugar um sujeito careca cheio de tatuagens urrando em plenos pulmões dizeres inteligíveis, mas quanto mais se aproximava, mais podíamos entender o que ele gritava:
— Nos entregaron a los putos Halcones de mierda!
— Onde está Javier, hombre?! – perguntou meu pai, exasperado.
— Chorando a morte de seus filhos! Os malditos os pegaram, Alejandro, eles acabaram com a família Cuervo, mas esqueceram-se dos aliados. Eles vão pagar, vão pagar! Vou chamar os outros, estamos indo logo pegar aqueles maricas – bradava o homem, ensandecido. — Fique pronto, Javier mandou chamar você, ele está escondido no Valle Alto na rua Pablo Tellez – ele se afastou de nós, deixando um Alejandro estarrecido no meio da rua. Ele então olhou lentamente para minha mãe.
— Sinu, eu preciso ajudá-lo. Miguel vai buscar os outros homens então eu ir-
— Ele vai se vingar agora, Alejandro?! – vociferou minha mãe. — É suicídio!
— É quando menos esperam um contra-ataque, mulher. – ele respondeu. — Isso é covardia, destruíram nossa vila – disse, a voz embargada de quem estava segurando o choro na garganta. — Mataram os Cuervo, e Javier é meu melhor amigo, devo ajudá-lo!
— Vai abandonar sua família?!
— Se não acabarmos com isso, seremos os próximos – redarguiu o velho, olhando para o final da rua e vendo um carro se aproximar. — Hector levará vocês para a fronteira. Chegando em Miami, fale com Olga.
— E você, seu tolo imbecil? – ela berrou, se aproximando dele com passos pesados. — Vai se juntar a essa causa perdida a troco de quê, hombre?! – perguntou ferozmente, cutucando o peito inflado de meu pai. — Da tua honra de macho pra macho? Te cria, cábron! Deixa disso e fica com sua família que é seu lugar.
— Eu dei a ele minha palavra antes mesmo de conhecer você, Sinu – falou ele, segurando as mãos trêmulas de minha pobre mãe. — É um dever que tenho com um irmão. Veja! Hector chegou.
Hector chegou em sua picape reforçada. Era um homem em seus quarenta e poucos anos, alto e magro, parecia como uma lagartixa gigante e era ainda mais bizarro com os poucos cabelos que tinha na cabeça.
— Melhor vocês irem entrando logo, moças, se vocês acham que as coisas estão ruins por aqui é porque não viram pela cidade. Estourou uma verdadeira guerra, esse lugar logo não vai ser mais que ruínas.
Minha mãe não conseguia dizer mais nada, ela sabia que ele iria dessa vez. Eu quis correr até meu velho para dar um abraço e, quem sabe, pedir a ele que me levasse junto. No fundo eu temia ver o corpo de Olivia jogado no chão sujo, eu temia chegar lá e o choque não ser o bastante para provar que o pesadelo era real. Antes de ir, ele entrou em casa e ficou lá um tempo antes de sair com uma escopeta e um cinto de balas vermelhas. Parou em minha frente e deu uma boa olhada em mim. Eu o fitei de volta, guardando cada detalhe daquele rosto enrugado e os olhos que brilhavam como quem havia acabado de descobrir o segredo do universo. Não dissemos nada um para o outro, mas sua energia vibrante fez com que eu entendesse seus sentimentos. Beijou minha testa e me envolveu em seus grandes braços. Senti vontade de chorar. Mas, se eu o fizesse, tenho certeza que ele brigaria comigo. Em Sofia, ele deu um longo beijo na cabeça da pequena. Sofia o abraçou com força, quase não o deixando ir. Quando chegou na vez de minha mãe, ela desferiu um tapa em seu rosto.
— Filho da puta – esbravejou minha mãe. — Covarde desgraçado, prefere a morte do que ficar com a família – ela estava inconsolável, mas não chorava. Claro que ela sentia muita agonia com aquela situação, vendo o lugar que ela morava queimar até os ossos e seu marido partir para uma vingança descabida em uma cidade perdida para a violência.
— Eu vou voltar, Sinu, quanto drama, só vou lutar! – disse ele. — Vou lavar a honra desse lugar. Esses Halcones vão pagar por todo o sofrimento que nos fizeram passar por aqui, aqueles animais.
— Somos iguais a eles por perpetuar esse comércio maldito – disse ela, entre grunhidos. — Não é porque ajudamos os pobres e não saímos destruindo bens alheios sem motivo algum que somos diferentes desses cretinos!
— Sinu, você ainda quer discutir isso… – meu pai puxou-a pela cintura e tomou seus lábios em um beijo apaixonado. Foi a cena mais romântica e triste que eu já tinha presenciado em toda minha breve vida.
O pensamento de perder meu pai e Olivia na mesma noite foi como um soco no estômago. Sem acreditar na merda que estava acontecendo, eu só conseguia me desesperar mais e mais. Homens surgiram acompanhados por Miguel, o careca tatuado de antes. Eles chamaram meu pai e meu velho foi em direção a eles, desaparecendo rua acima. Entrei no carro com Sofia em prantos e minha mãe consolando-a. Hector pisou fundo e pegou a Bulevar Morin em direção ao rio Grande, deixando para trás uma Juárez ensanguentada para ser lavada com fogo.
Sempre revivo esse momento em meus aniversários, nunca deixo essas memórias irem embora, por mais distantes que elas estejam a cada ano, pois faziam parte de quem sou agora. Aos vinte e três anos, eu tinha sonhos simples que eram possíveis de serem realizados, mas que se tornavam ainda mais difíceis quando se era ilegal em um país que só nos dava boas vindas quando precisavam de nossa força. Tivemos muitas dificuldades ao chegar no Texas, em vários momentos eu realmente achei que fosse ser assassinada pelos guardas da fronteira e arrastada para o fundo do Rio Grande. Mas, tudo correu relativamente bem. Hector havia preparado tudo para quando chegássemos do outro lado e ele nos deu uma boa quantia em dinheiro para nos virarmos até Miami. Quando tia Olga nos encontrou, ela rezou todas as preces que sabia para agradecer nossa chegada em segurança. Sofia estava desidratada, ficou dias de cama para se recuperar – já eu não tive chances de sequer descansar. Logo na primeira semana fui procurar trabalhos para não ter que gastar nada do pouco que Olga recebia como empregada em vários lugares. Consegui algo até mesmo como lutadora nos brutais ringues clandestinos, mas, uma série de fatores pessoais e também externos me levaram deixar o gosto por luta guardado em um lugar bem seguro. O sonho de meu pai que eu me tornasse lutadora não morreu com ele, na verdade, só atingiu novos patamares. Eu era uma lutadora sim, mas no ringue da vida.
Notas finais
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Até a próxima ~
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