Shell Hudson
17 Um passeio de trem meio fora dos trilhos.
Notas iniciais
12 HORAS. Foi o tempo que eu dormi.
Mas eu não fui a única.
Annabeth já estava acordada – pelo menos era o que sua cama vazia indicava -, mas Leo ainda dormia, e eu sabia disso por causa dos roncos.
Me vesti rapidamente e entrei, na ponta dos pés, no quarto de hóspedes.
Ele estava de barriga para baixo, sua perna e seu braço direito para fora do colchão e a boca aberta. Quando cheguei mais perto da cama, me abaixei até que minha cabeça estivesse bem a altura da sua, e me transformei em umidade.
Estiquei minha mão – que não era nada mais do que neblina – e passei-a pelo rosto de Leo deixando para trás pequenas gotinhas, como orvalho. Ele franziu o cenho, e eu repeti a ação. Seus olhos se abriram, eu reagi como um raio.
– BUU! – Gritei, voltando a minha forma normal.
Ele soltou um grito e se debateu, rolando e caindo no chão. Eu fui rápida o suficiente para me afastar antes que ele me levasse junto.
Esperei que ele se acalmasse antes de ir me sentar ao seu lado.
– Acordou? – Perguntei casualmente. – Ou precisa de um banho?
– Não preciso de um banho, mas adoraria um cafuné. – Ele olhou para mim, esperançoso.
– Claro! – Eu disse. – Peça para a Annabeth… — Ri, saindo do quarto.
O som de conversa vinha da sala, então fui até lá.
Minha mãe e Annabeth estavam sentadas no sofá, cada uma de cada lado de uma mulher.
Não havia necessidade de perguntar quem era, eu podia perceber na hora. Sally Jackson emitia a mesma aura de coragem que seu filho. Qualquer um que conhecesse Percy adivinharia que aquela era sua mãe. Não pela aparência física, mas pela postura, o sorriso também era o mesmo, assim como o brilho dos olhos – mesmo que os dela fossem castanhos e os dele verdes -.
A boca de Sally se abriu em surpresa quando ela me viu. Ela caminhou até estar bem a minha frente e começou a me examinar, o que, você pode apostar, me deixou bem desconfortável.
– Hum... Oi. – Eu disse meio hesitante.
– Oh, olá! Sinto muito Shell, estou agindo como uma louca. – Ela se virou para a minha mãe. – Mas eles são tão parecidos!
– São, não é mesmo? – Mamãe concordou. – Querida, o que foi essa gritaria que eu escutei ainda a pouco?
– Ah! Isso? Eu estava acordando o Leo. – Respondi, sem conseguir esconder um sorriso. – Ele já está vindo.
Minha resposta fez com que Annabeth e Paul rissem, minha mãe e Sally tentaram – sem sucesso – esconder seus sorrisos.
– Está bem. Quando ele chegar farei alguma coisa para vocês comerem. Enquanto isso, querida, esta é Sally e este é Paul.
Eu assenti e sorri para os dois.
– Percy nos mandou uma mensagem ontem a noite e nos pediu para virmos aqui, mas não sabíamos que encontraríamos vocês.
– Foi meio que uma decisão de última hora. – Explicou Annabeth. Seu olhar se voltou para algo atrás de mim e ela continuou. – Boa noite, Leo.
– Tomara que seja mesmo. – Ele resmungou, me lançando um olhar feio. – Quer dizer, tomara que melhore. Já me recusaram um cafuné.
– Será que um pouco de comida pode te animar? – Perguntou mamãe.
– Comida? Com toda certeza. – E pra demonstrar que falava serio, ele esboçou um sorriso animado demais para quem havia acabado de acordar.
***
Sally e minha mãe fizeram muita comida — o suficiente para alimentar uma dezena de pessoas – e não ficaram satisfeitas enquanto nós não repetimos pelo menos duas vezes – na verdade, não foi um grande sacrifício, porque estava muito bom -. Mas assim que a lua começou a aparecer no horizonte, nós tivemos que partir.
Mamãe nos deu uma boa quantidade de dinheiro e comprou passagens de trem que nos levaria até a Pensilvânia e Paul nos deu uma carona até a Penn Station.
A despedida foi delicada. As duas mulheres não paravam de preguntar se tínhamos pego tudo o que precisávamos e de verificar se estávamos bem vestidos e alimentados.
Eu estava mais confiante – e também não queria parecer uma criancinha na frente dos outros – e não chorei desta vez.
Finalmente, quando conseguimos nos acomodar no trem, pudemos conversar sobre o que aconteceria em seguida.
– Então, tem algum endereço aí no cartão? – Perguntou Leo.
– Sim. Fica perto de Pittsburgh, 298 Hartge Rd. – Annabeth leu.
Eu suspirei.
– A viagem até Pittsburgh vai demorar umas quarto horas. Muito tempo sem fazer nada. – Reclamei.
– Nós tivemos sorte. Sua mãe comprou passagens no trem que vai direto. Se fossemos no trem normal, teríamos que ficar aqui durante nove horas. – Ela me lembrou.
– Humf... – Resmunguei. – O melhor que tem pra fazer é dormir.
– Fiquem a vontade, eu monto guarda. – Comecei a discutir, mas ela me interrompeu. – Eu não estou cansada e acho que seria bom termos um plano quando chegarmos lá.
Leo já tinha se acomodado na poltrona ao meu lado, as pernas apoiadas na mesinha à nossa frente, e as mãos mexendo no que quer que ele estivesse trabalhando. Annabeth tirou seu computador da mochila e começou a teclar furiosamente, sem desviar os olhos da tela.
Virei para a janela com um suspiro e encolhi as pernas na poltrona. A paisagem não passava de um borrão azul, verde, marrom, amarelo, cinza, vermelho, azul, verde, marrom, amarelo, cinza, vermelho, azul, ...
Não sei quanto tempo levou, mas eu acabei adormecendo. E, é claro, o passeio de trem não impediu os sonhos de me atingirem.
No começo, foi como se eu ainda estivesse olhando pela janela. A paisagem continuava correndo, e então, a cena mudou. Como se alguém tivesse mudado o canal de uma televisão.
Eu estava em uma sala de estar, pela janela podia ver a quadra de vôlei do acampamento meio sangue vazia e iluminada pela luz da lua, o que só podia significar que aquela era a sala de estar da casa grande.
Quíron estava em uma cadeira de rodas, seu corpo de cavalo escondido por magica, e Percy, Piper e Grover estavam sentados no sofá.
“ Nós temos que avisar os outros. Percy falou.
Os outros?
“ Eu falei com Jason hoje. “ Piper avisou. “ Ele pediu para avisar se houvesse novidades. ”
Ah, os outros semideuses romanos, do Acampamento Júpiter.
“ Annabeth mandou alguma mensagem? “ Perguntou Grover.
Percy suspirou.
“ Não. Mas minha mãe ligou faz pouco tempo. Eles estavam em Nova York, aparentemente não tinha ninguém na loja de Nova Jersey. Mas eles descobriram que tem outras duas lojas, estão em um trem, indo para a Pensilvânia agora.
“ Então eles estão bem? ”
“ Sim, sim. “ Respondeu Quíron. “ Esperemos que continuem assim até o final da missão. “
De repente vieram gritos lá de fora. Travis Stoll entrou correndo pela porta. Tentando esconder um sorriso.
“ O que aconteceu? “ Quíron perguntou, mas dava pra perceber que pelo o tom da sua voz que o que ele queria dizer era : O que você fez agora?
“ Foi no chalé de Afrodite. Acho que alguma coisa aconteceu, eles estão desesperados. “
Piper se levantou e saiu correndo da casa, eu fui atrás dela junto com os outros.
Travis estava certo, o pessoal do chalé de Afrodite estava desesperado, o chalé estava virado do avesso. Meninas e meninos correndo de um lado para o outro.
Piper tentou falar com eles e acalma-los, mas não funcionou até ela gritar usando o seu dom.
Quando eles pararam eu pude vê-los melhor – e vi o que Travis tinha achado tão engraçado -.
As meninas estavam com a maquiagem acabada, os olhos borrados e batom mal colocado, todos eles – os meninos também – tinham o cabelo mas embaraçado que um ninho de ratos. Algumas das garotas estavam chorando, os meninos discutiam uns com os outros.
“ O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? ” Piper gritou.
“ Eu não consigo mais me maquiar! ” Choramingou uma das meninas.
“ Piper, eu estou horrível! “ Reclamou outra.
“ Como isso é possível? O que quer dizer? “ Percy perguntou.
“ Quer dizer que é melhor eles se apressarem, porque Afrodite está perdendo os poderes... ”
Eu abri os olhos e endireitei a postura. Annabeth levantou os olhos do computador e – acho que eu não estava com uma cara nada boa – perguntou:
– Qual foi o sonho?
– Problemas no chalé de Afrodite. – Expliquei e contei tudo o que tinha visto.
Ela riu um pouco quando descrevi a cena no chalé, mas logo ficou séria de novo.
– Quando chegarmos mandaremos uma mensagem de Íris. Pode voltar a dormir agora se quiser, mas não vai demorar muito para chegarmos.
– Não, estou bem. Acho que só vou no vagão restaurante, eles devem ter alguma revista para vender. — Falei me levantando.
– Ei! Já que você vai até lá, compre um mapa do país para mim. Eu tenho um aqui, – Ela indicou o computador. – Mas um de papel seria bem útil também.
Concordei, passei espremida pelo Leo – que dormia esparramado, ocupando mais espaço do que deveria – e segui pelo corredor estreito do vagão. Tive que atravessar mais dois deles – os vagões – até alcançar aquele onde era situado o restaurante.
Eu não era a única que tinha ido comprar algo para passar o tempo. O vagão restaurante estava com pessoas demais, mesas lotadas e pessoas em pé. Felizmente, a fila para pagar não estava muito grande, somente três pessoas estavam na minha frente.
Esperei, impacientemente até minha vez chegar, meus dedos batucavam o balcão enquanto eu olhava em volta. Um grupo de cinco garotas entrou pela porta oposto à que eu tinha entrado, os saltos emitindo um toc-toc ritmado no chão.
Meus dedos imediatamente pararam de batucar enquanto eu as observava. Uma delas me viu olhando, eu me virei rapidamente e voltei a batucar, a mulher grávida que estava atrás de mim, soltou um suspiro frustrado e me fez uma cara de poucos amigos. Eu parei.
Não sei o que era, mas eu estava ficando irritada. Acho que talvez pelo fato de que toda vez que eu fazia algo, alguém achava ruim. Ou talvez porque eu estava nervosa mesmo. Tanto faz.
Antes que meu mau humor me forçasse a fazer alguma coisa da qual eu me arrependeria mais tarde, o cara na minha frente terminou de pagar e o atendente se virou para mim.
– O que vai querer?
– Uma daquelas revistas ali, — Apontei para uma pilha de revistas de fofoca. – Um mapa do país e uma garrafa de água.
O funcionário se virou para buscar as coisas que eu tinha pedido e eu voltei a olhar em volta. As meninas de salto estavam mais perto, e estavam conversando. Era estranho, elas não estavam falando baixo, mas algo na sua maneira de pronunciar as palavras fazia parecer que ela sussurravam.
– Vocêsss acham que vamosss encontra-lossss? A Garota Estranha 1 perguntou.
– Masss é claro que sssim, sssua idiota! Esstamosss em um trem, não tem como elesss ssse esssconderem. – Zombou a outra – Garota Estranha 2 -.
Elas estavam passando do meu lado agora.
– Eu essstou ssentindo, o cheiro essstá perto!
Cheiro?
Ah! Não pode ser... Estava tudo muito bom pra ser verdade.
Eu me encolhi perto do balcão – como se aquilo de alguma maneira fosse impedi-las de sentir meu cheiro –, tirei dez dólares do bolço — era mais do que o necessário, mas eu estava com pressa – e praticamente joguei-os na mão do moço enquanto agarrava o que tinha comprado e saía o mais casualmente possível do vagão.
Minha calma exterior durou até a porta se fechar atrás de mim. Aí eu comecei a correr. Pessoas me olhavam como sempre tinham feito, como se eu fosse louca. Não me importei.
Entrei no vagão já gritando para Annabeth guardar as coisas, ela não me fez perguntas, só obedeceu. Sacudi Leo e peguei minha própria mochila.
– Temos que sair daqui. Agora!
– Porque? O que você viu? – Ele perguntou, colocando sua sacola nas costas.
– Umas garotas. Monstros, com certeza, só não sei quais. Estão procurando por nós, sentiram nosso cheiro, sabem que estamos no trem.
– Quantas são?
A porta do vagão se abriu antes que eu pudesse responder, a Garota Estranha 2 entrou, seguida de perto por suas amigas.
– São cinco. – Eu murmurei. – E acho que elas já nos acharam.
A Garota Estranha 2 correu seu olhar pelos passageiros, até que ele caiu em nós. Um sorriso se abriu em seu rosto e, de repente, sua aparência não era mais tão normal. Sua pele se tornou esverdeada e escamosa, suas pernas sumiram para dar lugar a duas caudas de serpente.
Uma língua bifurcada saiu de sua boca quando ela falou:
– Não dissssse? Voilà, nosssso jantar. – E se lançou em nossa direção.
Annabeth foi quem abriu a marcha, ela correu para a porta mais perto dos nossos assentos – que, ainda bem, era na extremidade oposta à que as... Coisas tinham estavam -. Leo me empurrou em sua frente e nos deu cobertura, tirando ferramentas de seu cinto magico e jogando-as nas mulheres monstros enquanto gritava provocações idiotas.
– Vamosss lá suasss monsstrengassss! Venham nosss pegar! Ssssabem, acho que possssso entende-lasss, nem a mãe de vocêsss deve aguentar tanta feiura! Vocêssss devem ssse sssentir tão mal, asssssim, perto de um cara lindo como eu!
As vezes eu me encantava com os métodos dele. Se a situação não fosse tão ruim, eu provavelmente já teria caído na gargalhada.
Tirei Furacão do dedo e subi em uma das poltronas, deixando ele passar por mim e ir atrás da Annabeth, que já estava atravessando o próximo vagão. Nesse ponto, os mortais já tinham percebido que tinha algo errado, mas ao menos eles não tinham entrado em pânico, ainda.
O anel se transformou na minha mão, o que proporcionou uma certa surpresa nas mulheres-cobras e me deu uma vantagem – ainda que mínima -, e tempo o suficiente para seguir atrás dos meus amigos.
O trem não era enorme, mas era grande o bastante para me causar uma boa aflição enquanto cruzamos os vagões correndo, volta e meia dando alguns golpes e jogando algumas coisas na direção das criaturas.
Não foi fácil.
Apesar das pernas de cauda, elas se moviam rapidamente. E nós tínhamos que lutar para não sermos alcançados – o fato de tentar não machucar os mortais em nosso caminho não nos ajudava já que elas não pareciam se importar com isso -.
Conseguimos chegar no último vagão, sem muitos machucados – o que já era uma conquista em si -, só que a porta que nos levaria para fora sãos e salvos – bem, mais ou menos – estava trancada e só poderia ser aberta se o alarme de emergência fosse acionado – o que não era uma opção, já que chamaria a atenção para nós e provavelmente estaria ligado ao corpo de bombeiros ou à policia, o que nos traria mais problemas -.
Annabeth olhou para trás.
– Leo, sua especialidade.
Enquanto ele trabalhava na porta, nós duas nos viramos para enfrentar as cinco monstrengas que vinham atrás de nós.
Elas tinham armas, lanças enormes e pesadas que seguravam sem nenhuma dificuldade. E se jogaram em cima de nós sem hesitar.
Gostaria de dizer que foi fácil derrotar aquelas mulheres cobras. Gostaria de me gabar e falar que fizemos isso em questão de segundos, mas não fizemos. Elas eram ótimas guerreiras e estavam em vantagem numérica.
Eu cortei, chutei e furei diversas vezes antes que Leo nos anunciasse que tinha conseguido, a porta estava aberta. Assim que ouviu isso Annabeth deu um último golpe mortal na mulher com quem lutava e correu em até a abertura.
Uma das mulheres ainda estava lá, lutando comigo. Eu não iria pular daquele trem e deixa-la viva e livre para atacar os mortais a bordo. Por isso, ignorei o chamado dos meus dois colegas e continuei a ataca-la.
A maneira mais rápida de terminar aquilo seria fura-la de uma vez. Mas ela sabia se defender e eu não conseguia nenhuma falha em sua proteção, precisei bolar outra ideia.
Deixei com que ela me fizesse recuar até a parede do trem, bem ao lado da porta. Quando ela avançou com a lança apontada para o meu estomago, girei para o lado, deixando que a lamina da minha espada atravessasse seu corpo, cortando-o ao meio. Ela estava morta, ou melhor no Tártaro – porque monstros não morrem mesmo -.
O único ponto negativo, foi que eu perdi o equilíbrio girando e tropecei para cima de Leo e Annabeth, que se encontravam na beirada da porta – na verdade, minha luta com a última mulher não tinha durado mais do que alguns segundos -.
E foi assim que nós caímos do trem.
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