Shell Hudson

1 Três pastores alemães resolvem me almoçar


EU SEMPRE FUI ESTRANHA, as pessoas falaram isso para mim a minha vida inteira, mas eu me acostumei, eu sei que é verdade.

Pensando bem, acho que minha mãe sofre mais com isso do que eu.

Nos meus aniversários era sempre a mesma conversa:

“ Então querida, quem mais você vai chamar este ano? ”

E eu sempre respondi:

“ Mais ninguém vem, mamãe. ”, mas eu acho que ela só não consegue aceitar a realidade.

Ela também sempre perguntava, quando via minhas fotos de classe:

“ Qual desses garotos é o seu namorado? ”

E, de novo, a resposta era sempre igual:

“ Eu não tenho namorado, mãe! ”

Claro, eu podia entende-la, não que eu me ache muito bonita – como eu disse, me acho estranha -, mas eu acho que, uma das razões pelas quais as pessoas tem medo de mim, é que com os meus cabelos castanhos escuros, meus olhos verdes, que adoram mudar de tom, e minha pele clara, eu parecia uma daquelas videntes malvadas dos filmes. Mesmo se algumas pessoas dizem que eu sou bonita, ou pelo menos elas pensam isso, no começo.

Apesar de tudo, eu tive um melhor amigo, o meu único amigo na minha vida inteira – o que é muito pouco se você considerar que eu tenho 15 anos de idade, quase 16 -.

Seu nome era John. Ele era como eu: americano que morava na Inglaterra. Eu tinha ido para lá quando tinha 2 anos, mas o John só foi aos 12. Ele era um ano mais velho que eu, e quando nos conhecemos ele se proclamou meu guarda-costas pessoal.

O negócio de ser americano não era nosso único ponto em comum, o John também era estranho, como eu. Acho que ele já tinha tido algumas “Confusões” – como nós chamávamos todas as coisas bizarras que aconteciam com a gente – nos Estados Unidos, e o pai dele se mudou para a Inglaterra achando que talvez conseguisse paz. Infelizmente não foi bem assim.

John chegou na escola no meio do ano letivo, todas as pessoas me conheciam como “Shell, a aberração” ou “A garota com olhos de bruxa”, eu só tinha 11 anos e, no recreio, a diversão da outras crianças era implicar comigo. No dia em que John veio, haviam três garotos, mais velhos que eu, me seguindo pela escola antes da aula começar, me chamando de tudo quanto é coisa que eles encontravam. Eu tinha raiva deles, mas, mais do que tudo, eu tinha medo, então me impedia de devolver os insultos pensando: “Shell Hudson você não quer esses caras te seguindo depois da aula, prontos para bater em você, quer?”.

Em certo momento, os três meninos conseguiram me encurralar num canto do pátio, eu tinha certeza que ia terminar na diretoria – pois era o que sempre acontecia -, quando o John apareceu.

Ele tinha a mesma idade que os garotos na minha frente, embora ele fosse mais alto. John parou na minha frente, as costas viradas para mim, e disse para os meninos em uma voz extremamente confiante, como se lidasse com situações como aquela todos os dias – o que devia ser o caso — :

“Hey, caras, porque vocês enchem tanto o saco dela?”

Um dos três respondeu:

“Você é novo aqui, né?” John assentiu e o garoto continuou “Mano, olha só para ela! Ela é estranha, já viu os olhos dela?”

Meu protetor se virou ligeiramente para traz e deu uma olhada em mim, então me ocorreu que quando ele visse meus olhos, eu teria quatro garotos me incomodando, e não só três.

Surpreendentemente, isso não aconteceu. Quando ele me olhou, eu pude ver seu rosto também e ele me deu uma piscadinha cúmplice, como se dissesse “Eu dou um jeito nesses idiotas.”. E tem mais! Os olhos dele eram rosa, e viraram vermelhos e depois passaram para roxo. Isso tudo durante o segundo que ele me olhou.

Virando-se de volta para os meninos, John zombou:

“Acham os olhos dela estranhos? Olhem os meus!” O segundo garoto arregalou os olhos.

“Você é tão maluco quanto ela...” Isso fez com que John risse.

“É. E você não quer mexer com um maluco, não é mesmo?”

Tudo o que consegui ver por traz das costas dele, foram as caretas que eles fizeram enquanto se afastavam.

Lembro disso como se fosse hoje, e agora quatro anos já se passaram. Infelizmente, à um ano atrás, o pai de John entendeu que Londres não era mais segura que Washington e resolveu tentar a sorte em Roma, por isso eu fiquei sem o John.

No começo, nós nos falávamos toda semana, por cartas – sim, eu sei, meio antigo, mas nossos pais sempre diziam que e-mail era perigoso demais e que celular era só para urgências -. Mas um dia, mais ou menos à um mês, a minha carta semanal não chegou, e no lugar recebi uma mensagem no celular que dizia simplesmente: “Não me procure”.

Primeiro achei que ele estivesse brincando, só que desde então, eu não recebo nenhuma resposta, nem das cartas, nem das mensagem que enviei, e comecei à me preocupar.

Depois disso, minha mãe resolveu que ela também queria se mudar, nós voltamos para Nova York e moramos no 16º andar de um apartamento no Upper East Side, Manhattan, com vista para o Central Park, onde eu posso ir apenas atravessando a rua.

Nós chegamos à apenas três dias. A viagem durou mais tempo, porque ao invés de vir de avião, mamãe quis vir de barco, e a travessia do Atlântico demorou seis dias. Eu não estou reclamando, adoro o mar, e vi umas coisas super... diferentes do barco.

As escolas da cidade ainda estão em aula, só que eu já terminei o meu ano, então, dês de que chegamos, eu fico em casa, sozinha – porque minha mãe está no trabalho -, terminando de arrumar a mudança.

Hoje era o ultimo dia de aula das escolas, e eu acho que o entusiasmo das crianças lá fora me afetou, porque, lá pelas duas da tarde, eu resolvi sair dar um passeio no Central Park.

Estava calor, então eu só vesti uns shorts jeans escuros e uma camisa azul que tinha escrito “O sotaque britânico é o mais sexy” na frente, com letras bem grandes – minha mãe tinha me dado ela à algum tempo, quando reclamei que o meu estilo “britânico” de falar só faria com que as pessoas implicassem mais comigo aqui -.

Eu não tive que andar muito para achar um lugar legal para ficar, à uns cem metros da entrada do parque que fica na frente do meu prédio tinha um lugar, entornado de arvores, o que o fazia ficar meio escondido.

No meio do circulo formado pelas arvores, ficava uma fonte, onde a estatua de um cara com um rosto convencido e um arco e flecha nas mãos. Ele atirava água pela ponta da flecha.

A estatua me deixava desconfortável, mas o lugar era calmo e fresco, então eu me deitei na borda da bacia da fonte e deixei minha mão escorregar para dentro d’água, o que normalmente seria bem anti-higiênico, mas, de alguma forma, eu sabia que aquela água era limpa.

Fiquei deitada ali pelo o que poderiam ter sido duas horas, ou apenas trinta minutos, observando o movimento das arvores, e ouvindo o som da água da fonte caindo, misturada com a poluição sonora quotidiana de Manhattan, quando ouvi um barulho diferente, passos, se aproximando da minha clareira – sim, porque eu já decidi que aquele lugar é meu -.

Me sentei, alerta, no momento em que dois adolescentes entravam pelo meio das arvores.

Um deles era alto e magro, cabelos escuros encaracolados e bagunçados, ele parecia ter a minha idade, talvez um pouco mais velho. O outro garoto era mais baixo, embora ele fosse mais velho. Um gorro rastafári cobria seus cabelos, também encaracolados e uma barbicha nascia em seu queixo. Ele andava mancando, o que me fez pensar que ele tivesse um problema na perna, e ele franzia o cenho enquanto conversava com o menino mais alto, como se estivesse preocupado com alguma coisa.

– ...deve estar por aqui. — Ele estava dizendo.

– Tem certeza, Grover? Eu não estou vendo ninguém. — O outro perguntou.

– Certeza absoluta, Leo! O cheiro vem daqui. — O cara baixinho, Grover, respondeu.

– Bem, pode ter alguém nas árvo... — Leo parou, ele tinha me visto. — Olha! Aquela ali não é uma Náiade? Podemos perguntar para ela! — Ele exclamou e apontou para mim.

Eu me irritei. Aqueles caras estavam acabando com a minha paz e ainda me chamaram de Náiade, não que eu saiba o que isso seja.

– Eu não sou uma Náiade! — Disse, minha voz saindo mais contrariada do que eu pretendia. — E perguntar o que, para mim? — Continuei, acalmando um pouco o tom.

– Ups! Foi mal, engano. — Leo se desculpou, arregalando os olhos. — Eu te disse! Vamos procurar em outro lugar. — Ele sussurrou para seu amigo, achando que eu não ouviria.

– Não, Leo, não foi engano! É ela. — Grover contestou, mas eu acho que saiu mais alto do que ele queria, porque, depois, ele olhou envolta, como se esperasse que alguém fosse chegar para atacar.

– Ela? — Perguntou Leo, incrédulo, então seu sorriso voltou, ele deu de ombros e veio em minha direção. — Olá, meu nome é Leo, e eu estou orgulhoso de te anunciar, que agora você é uma de nós.

– O que você quer dizer por “uma de nós”? — Eu quis saber, desconfiada. Quando pessoas estranhas eram legais comigo, elas tentavam me matar mais tarde.

– Eu quero dizer uma semideusa. — Ele disse, me estendendo a mão para eu apertar.

– O que é uma semideusa? Você também me chamou de Náiade, o que é uma Náiade? — Eu perguntei, balançando a mão de Leo, mas olhando para Grover, que parecia saber mais.

– Ah! Sim, desculpe por isso. — Leo respondeu corando. — Uma Náiade é um espírito do rio, e...

– Sem tempo, Leo! Eles estão chegando, precisamos ir andando. — Grover interrompeu nervoso, ele ficava olhando para as arvores e murmurando “cheiro ruim” ou algo parecido, ou pelo menos, parecia menos afobado.

– Certo... Você mora longe daqui? — Leo se apressou.

– Não, eu moro do outro lado da rua. — Mas a ultima pare soou mais como “Oto lahd dua”, porque lá das arvores, onde o Grover estava olhando, saíram três pastores alemães pretos do tamanho de elefantes.

Claro, já tinha visto um desses antes – ele tinha me atacado no jardim de casa lá em Londres à alguns anos -, mas nunca três de uma vez.

– Foi mal eu não entendi... — o garoto começou, só que então ele se virou e viu os três monstros vindo em nossa direção. — Saquei, você disse: “Você é lindo, mas a gente vai morrer”.

Eu o encarei.

– O que?! NÃO, eu disse que...

– Não se preocupe, eu te entendo. — Ele disse, e tirou três coisas de bronze de seu cinto de mecânico – que, até então, eu não tinha percebido que estava lá -, segurou duas delas em uma mão e me passou a outra. — Tente não morrer, boneca. Quando puder te ajudarei. — E pela primeira vez, seu rosto estava sério.

Depois desta linda frase de encorajamento, o Leo simplesmente ajeitou suas armas — que agora eu via, eram dois martelos enormes – nas mãos e correu para encontrar com um dos cachorros. Grover o seguiu, botando na boca o que parecia ser uma flauta de bambu, me deixando sozinha com o ultimo cachorro.

Notas finais
Espero que tenham gostado :) Essa aqui é a roupa da Shell : http://www.polyvore.com/cgi/set?id=95986930&.locale=fr