Shell Hudson
4 Meu pai esqueceu de avisar que eu existo.
Notas iniciais
ACONTECE QUE, o Leo resolveu bater bem no ombro esquerdo, aquele que estava machucado.
Até então, eu não tinha prestado atenção na dor, ela era suportável. Agora doía tanto que eu comecei a ver manchas pretas na frente dos meus olhos.
Recuperado do choque, Leo perguntou:
– O que houve?
– Meu braço, está arranhado, você bateu nele! — Respondi ofegante.
– Me deixe ver. — Eu ia protestar, mas ele já tinha agarrado meu pulso e girado para poder ver o alto do meu braço, perto do ombro, onde estava ferido. — Shell! Foram os cachorros que fizeram isso? — Questionou ele, uma ruguinha de preocupação se formando entre as suas sobrancelhas.
– Sim, mas tudo bem. Jê está melhorando. — Menti.
Sendo sincera, estava doendo muito, mas eu não quero que eles cancelem a ida para o tal acampamento meio-sangue, ou me levem para o hospital por causa disso.
– Não está não! — Leo protestou. — Espera, eu tenho uma coisa que vai melhorar a dor. — Então ele tirou do cinto de mecânico dele um saquinho, com vários cubinhos dentro, eles pareciam ser comestíveis. Leo pegou um cubinho e me deu.
– O que é isso?
– Ambrosia, comida dos Deuses. Ele e o Néctar, a bebida dos Deuses, podem nos curar, mas se comermos demais podemos virar pó. — Ele explicou. — Vai, come!
Comi. Era a melhor coisa que eu já tinha provado na minha vida. Tinha gosto de brownie misturado com aquelas balinhas jellybears, as duas coisas que eu mais amo.
– Que gosto tem? — Seus olhos percorriam meu rosto.
– Brownies e jellybears. — Respondi. — Por quê?
– O gosto muda para cada um... — Leo não continuou a falar e eu tive a impressão de que ele não queria dizer o gosto que ele sentia, então não perguntei.
Ele voltou a examinar meu braço.
– Agora sim, vai melhorar. A dor passou? — Eu assenti, não sentia mais nada.
– Obrigada. Agora, eu vou precisar de biquíni? — Continuei, indicando uma gaveta cheia deles no meu armário.
Naquela hora, olhando para o sorriso travesso que tinha aparecido no rosto do Leo quando ele ouviu minha pergunta, eu entendi porque as mães dizem às suas filhas para elas não ficarem sozinhas em casa com um garoto.
– Com certeza! — Ele respondeu, sem perder o sorriso.
Eu lhe dei uma cotovelada nas costelas.
– Estou falando sério, engraçadinho!
– Eu também! — Ele disse massageando onde eu o tinha acertado. — O acampamento fica na costa de Long Island e, além do mar, nós temos um lago também.
– O acampamento fica perto da praia? — Eu pergunto animada.
– Uhum. — Ele afirmou.
Ótimo! Na Inglaterra eu quase nunca ia ao mar, agora eu vou poder ir todos os dias, enquanto estiver no acampamento. Peguei os meus três biquínis favoritos e enfiei na mochila.
As roupas e sapatos estavam separados, então comecei a andar pelo quarto, pegando algumas coisas que eu gostaria de ter comigo. Enquanto isso, Leo sentou-se em minha cama, mexendo em uma antiga caixinha de jóias que o John tinha me dado. Ela era azul e costumava ter um dois casais de bonequinhos que rodavam e tocavam musica, mas quebrou à alguns meses.
Nós ficamos em silêncio por um tempo, até que Leo falou:
– Ei, Shell. Quantos anos você tem?
– Vou fazer dezesseis em novembro, e você? — Respondi, parando e me virando para olhá-lo.
Ele ainda mexia na caixinha, só que ela estava desmontada agora. Ver todas aquelas pecinhas espalhadas me deixou com o coração partido. Eu queria tira-la de sua mão, guardá-la e gritar com ele por ter pegado uma das únicas coisas que me restavam de John, mas deixei este pensamento de lado.
– Dezesseis quase dezessete. Mas isso é estranho... — Ele franziu o cenho.
– O que?
– Era para você ter sido reconhecida aos 13 anos. — Ele explicou. — Está atrasada.
– Ser reconhecida? — Repeti. — Você quer dizer, descobrir quem é meu pai?
– Uhum... — De repente ele levantou a cabeça. — Shell, onde você estava antes de vir para cá?
– Claro, eu não te disse. — Lembrei-me. — Eu morava em Londres, na Inglaterra, dês dos dois anos. Minha mãe e eu só chegamos aqui à três dias.
– Ah! Isso explica boa parte das coisas.
– Que coisas?
– Seu sotaque, por exemplo. — Ele disse, imitando meu jeito de falar, o que me fez corar, e rir. — E o fato de você não ter sido encontrada, porque a Inglaterra faz parte das terras antigas, ninguém vai lá, é perigoso demais.
É verdade, eu encontrava monstros o tempo todo, quando morava lá.
– Você acha que só não me acharam antes porque eu estava do outro lado do Atlântico?
Era mais uma afirmação do que uma pergunta, mas Leo respondeu mesmo assim.
– Exatamente.
Ele me entregou a caixinha de jóias, que ele tinha remontado. Como eu disse, ela estava quebrada, mas algo me fez girar a pequena chave que a fazia funcionar. Os bonequinhos começaram imediatamente a mover, dançando enquanto a musica tocava. Tive que piscar algumas vezes para mandar as lagrimas embora. Levantei a cabeça e sorri para Leo.
– Esta é a terceira coisa que você fez para mim hoje.
– Terceira? — Ele perguntou pouco à vontade.
– Sim, a mochila, essa caixinha e o meu machucado. — Expliquei.
– É. Bem, eu sou uma pessoa muito bondosa. — Ele disse recobrando seu humor. — E você me ajudou com aquele cão infernal.
– Nah! — Eu abanei com a mão. — Eu teria feito aquilo por qualquer um.
Depois de ter guardado as ultimas coisas na mochila mágica e de ter fechado tudo, eu me sentei na cama ao lado de Leo. Ainda tinha algumas coisas que eu queria saber.
– Leo... — Eu chamei.
– Sim?
– O Acampamento Meio-Sangue é só durante o verão?
Ele se remexeu e se ajeitou ao meu lado, como se a pergunta o incomodasse. Então, ele me olhou. Ele tinha olhos castanhos profundos e brilhantes, suas orelhas eram pontudas, como as de um duende, eu percebi. E suas características eram latinas, do México, talvez.
– A maioria dos campistas só fica no verão e nos outros feriados. Mas alguns moram lá o ano inteiro.
Então eu posso escolher...
– E você?
– Eu? — Ele pareceu confuso, como se a resposta fosse obvia. — Eu moro lá.
Mora lá. O ano inteiro treinando para ser herói.
– Mas... — Eu hesitei. — E a sua família, sua mãe?
– Minha mãe morreu. — Ele disse, sério. — Quando eu tinha oito anos, o resto da família não quis ficar comigo.
Quando ele falou isso uma onda de raiva me atingiu. Leo só tinha oito anos, tinha perdido a mão e ainda por cima a família o rejeitou!
– Que babacas! — Eu exclamei.
Leo estava quieto demais, deve ser porque ele não costuma falar muito da mãe.
– Valeu. Mas eu tenho uma nova família agora, e você também vai ter. — Ele fingiu estar animado.
Decidi que tinha que fazê-lo voltar ao normal e falei a primeira coisa que me veio à cabeça.
– Você disse que tinha posto uns acessórios na mochila, quais são eles? — Leo piscou como se tivesse acabado de sair de um transe.
– Ah, certo... Ela muda de estampa, é só apertar esse botão e escolher a que você gosta mais. — Ele indica um botão minúsculo perto do zíper da mochila.
– Legal! — Exclamei, apertando o botão varias vezes até a mochila ficar roxa, minha cor favorita. — Também foi você que inventou?
– Foi. — Ele disse, meio sem graça. — Nem é tão complicado. Quando chegarmos ao acampamento eu posso te mostrar, se você quiser. — Leo ofereceu, olhando esperançoso para mim.
– Eu adoraria.
Pronto! Agora ele não estava mais pensando na mãe e eu não teria que ficar sozinha quando nós, finalmente, chegássemos ao acampamento.
Leo olhou para o relógio em seu pulso e falou:
– É melhor irmos andando. — Ele falou indo para fora do quarto.
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