Sheikah
16 Tão inalcançavelmente perto
Um dia antes da Calamidade
POV Impa
— Me ajuda a repassar mais uma vez, Impa — Zelda pede com a voz trêmula.
Amanhã ela partirá para a Fonte da Sabedoria em Lanayru — a única das três fontes que ela ainda não visitou em sua busca por despertar seus poderes. Ao contrário das outras, apenas pessoas que já tenham atingido a maturidade podem entrar em suas águas.
Não que 18 anos seja equivalente à “maturidade”, na minha opinião. Hylia sabe o quanto eu me arrependo das decisões que tomei com essa idade.
— Você já se preparou o suficiente, querida. O processo não vai ser diferente das outras — no máximo, a água será mais gelada.
— É a última fonte, Impa — Zelda esfrega as mãos uma na outra, agitada. — E se não der certo?
— Então nós continuaremos tentando de outras formas, Zelda — afirmo.
— Já faz mais de uma década, Impa… eu já visitei as fontes inúmeras vezes, cheguei a desmaiar em suas águas em mais de uma ocasião. Nós tentamos todas as meditações, orações, mantras e gestos que encontramos nas pesquisas. E… nada. Talvez tenha algo de errado comigo… talvez eu não tenha herdado o poder da minha mãe. Talvez estejamos todos condenados — seus olhos estão marejados.
Sem saber o que dizer, apenas me adianto para abraçá-la. Ela retribui, fechando seus braços ao meu redor e soltando um suspiro resignado.
— Não importa o quanto esteja doendo… seus abraços sempre me ajudam a me sentir pelo menos um pouquinho melhor. Obrigada, Impa — diz Zelda antes de se afastar. — Você não pode mesmo ir conosco?
— Infelizmente não, Zelda. Seu pai agendou uma reunião estratégica amanhã.
— É claro. Ele não se cansa de achar maneiras para me punir.
Zelda e o rei não se falam já há algumas semanas, desde que ele a proibiu de continuar ajudando as equipes de pesquisa. A energia de Ganon se tornou tão densa que até mesmo pessoas pouco sensíveis estão conseguindo senti-la. Entre as más-línguas começaram a correr o boato de que Zelda era a herdeira de um trono de nada. Então, ele exigiu que ela voltasse a treinar o dia inteiro para despertar os poderes.
Porque sabemos que essa estratégia funcionou muito bem no passado, obviamente.
Depois do ataque inicial dos Yiga, as infantarias Sheikah ficaram seriamente desfalcadas. Muitos dos líderes se juntaram à organização e desertaram a Cidade do Castelo.
Portanto, eu, que estou há quase sete anos no exército, acabei sendo uma das pessoas com mais experiência dentre os que sobraram entre nós. Então, por falta de outras opções, fui condecorada como Capitã dos grupos de estratégia e combate.
Quando tudo aconteceu, quase um ano atrás, por pouco todos os Sheikah não foram banidos novamente. Quem evitou que isso acontecesse… fui eu. Mais ou menos.
Eu nunca vou entender como meia dúzia de lendas e registros decrépitos fizeram com que o rei confiasse tanto em mim. Até àquela altura, eu nunca tinha feito nada que justificasse sua convicção em meus valores.
Depois do ataque, eu fui a única Sheikah com quem ele aceitou falar.
Foi ele quem me convocou, na verdade.
Eu tinha certeza que ele ia me executar em praça pública por traição. Com exceção de Zelda que, por estar tão focada em seus próprios problemas, nunca percebeu que eu estive com Deen por mais de meia década, todo mundo na Cidade sabia de nosso relacionamento.
Os dias que precederam a fatídica reunião com o rei foram escuros. Todos os treinos foram suspensos e os Sheikah foram colocados em toque de recolher, impedidos de sair de casa. Não que eu quisesse sair de casa: minha depressão estava tão profunda que eu mal saia da cama. Minha devoção por Zelda oscilava com impulsos suicidas, quando a dor era grande demais para que eu conseguisse sequer respirar.
Então, quando um grupo de soldados Hylians bateu à minha porta para me escoltar ao Castelo, eu fiquei aliviada: pelo menos não seria eu a tirar minha própria vida.
Fui deixada na sala onde participei de tantas reuniões com o rei. Pouco tempo depois, ele entrou. E, surpreendendo a todas as minhas expectativas, sua primeira pergunta foi:
— Como você está? — e em sua voz havia apenas preocupação, pura e genuína.
Eu não esperava por isso.
Eu não soube lidar com isso.
Eu desabei. Ali, diante da última pessoa para quem eu deveria demonstrar fraqueza. Aquele que eu desprezei durante tantos anos por suas escolhas e valores, por tudo o que ele representa.
Talvez tenha sido justamente porque eu tinha sua opinião em tão baixa conta.
Talvez tenha sido porque eu não me importava mais com minha dignidade ou orgulho.
Talvez tenha sido por culpa.
Ele se sentou no sofá que havia diante da poltrona onde eu estava. Aguardou até que eu me acalmasse. E então me contou sobre a sua jornada com o luto, depois que a rainha morreu.
Não que Deen estivesse realmente morto. Mas sim, era exatamente como eu me sentia. Como se não só ele, mas tudo o que acreditávamos, tudo o que sonhávamos, todos os planos que fizemos… tudo estivesse morto, transformado em poeira frente aos meus olhos; e eu não pude fazer nada além de assistir ao massacre.
Eu me senti burra, usada, traída, cega.
Quando o rei terminou de falar, eu não me senti vista: sua dor fora muito diferente da minha. A morte da rainha foi uma fatalidade, sim; mas foi apenas o destino jogando seus jogos cruéis. Não houve uma quebra de confiança, a maculação de todo o seu passado juntos.
Mas eu me senti amparada.
Ele sobreviveu; eu também sobreviveria.
Sem realmente me preocupar com etiquetas e estratégias, perguntei a ele o porquê ele ainda não tinha ordenado a minha morte, dado meu envolvimento com os Yiga.
O rei sorriu, dando de ombros.
— Eu realmente deveria, não? — ele disse, rindo baixinho. — É irracional, Impa; eu sei disso. Mas eu te reconheço. De todas as outras vidas. Assim como eu reconheci Link, tantos anos atrás. E em toda a história recordada, vocês nunca deixaram de cumprir seu destino; não vejo o porquê dessa vez seria diferente.
“E eu entendo que assim como Zelda precisa se esforçar para acessar seus poderes, ou Link precisa treinar todos os dias para conseguir portar a Master Sword, você também precisa amadurecer para construir toda a sabedoria que as Impas anteriores carregaram. Eu não tenho motivos para confiar em você hoje. Mas suas iterações prévias nunca deixaram Hyrule desamparada — então eu decidi confiar no destino, nas deusas, na história. Eu escolhi acreditar que, eventualmente, você vai chegar lá também.”
E Zelda? Por que você não dispensa essa confiança cega a ela também?, perguntei-me. Mas me faltou coragem para verbalizar o pensamento. Então, ficamos em silêncio.
— O que você sabe sobre os Yiga? — ele me perguntou após alguns minutos.
E eu contei. Tudo. Desde o início. Como o movimento surgiu, como eu sugeri as reuniões iniciais. Falei sobre o que acreditávamos, nossas indignações, o que queríamos reivindicar. Tudo o que eu aprendi sobre a história dos Sheikah e como isso nos afetava até hoje. Sobre as tensões que eu notava entre nós e os Hylians, os conflitos velados, os olhares de desprezo.
O rei ouviu tudo em silêncio, pensativo.
— Desde menino eu sempre devorei todos os livros sobre a história de Hyrule e os povos que habitaram nela ao longo dos milênios. Eu nunca concordei com as decisões que foram tomadas 10.000 anos atrás — disse ele, quando terminei de falar. — Sempre tive o desejo de reconstruir a ponte entre os Sheikah e a realeza. Mas o povo nunca aceitaria: tenho ciência de que existe um ódio latente entre os grupos. Então, quando a Calamidade foi prenunciada tantos anos atrás, me pareceu a oportunidade perfeita.
“Meu desejo era o de abrir os portões completamente para vocês. Mas, apesar de ser rei, eu não tomo minhas decisões sozinho. O Conselho discordou veementemente — eles não queriam nenhum tipo de conexão com vocês. O exército e a regra dos 18 anos foram um meio-termo conquistado depois de muito debate, tentando chegar em um acordo que fosse causar o mínimo de comoção possível entre os Hylians.”
Aceno, compreendendo.
Decisões burras.
Mas quem sou eu para julgar alguém?
— E agora? — questiono, sem esperanças. — Seremos banidos novamente?
— Não vou mentir para você e dizer que não considerei essa opção, Impa. Mas eu não quero repetir os erros do passado. E agora com a distinção clara entre Sheikah e Yiga… talvez seja mais fácil “limpar” a reputação de vocês. O único ponto é… em quem poderemos confiar?
Eu confiava em Deen e sabemos exatamente como isso terminou.
— Sei lá — respondo, e o rei gargalha com minha honestidade bruta.
— Tudo bem. Foi uma pergunta retórica; isso é um problema meu. Obrigado pelo seu tempo, Impa. Espero que você se recupere bem. Pode se retirar.
A voz de Zelda me retira dos meus devaneios.
— Você não costumava dissociar tanto… antes — diz ela, incerta.
Balanço a cabeça, voltando para o presente.
— Andou lendo sobre psicologia? — questiono, rindo.
— Eu leio qualquer coisa que for colocada na minha frente — ela sorri, sem graça.
— E Link? — dou um sorriso travesso, mudando de assunto. — Alguma novidade?
Zelda fica ruborizada instantaneamente.
Alguns meses atrás, ela sofreu uma emboscada pelos Yiga durante uma viagem em Gerudo. Link evitou que ela fosse morta ou sequestrada, matando um dos soldados no processo.
Ela voltou para o Castelo diferente. Toda a antipatia e as reclamações a respeito do garoto silencioso desapareceram. Com um sorriso, recordei das palavras de Purah quando ela suspeitou que eu estava com Deen tantos anos antes: “Há semanas você não reclama dele”.
Na ocasião, notei que ela ainda estava muito confusa com todos os sentimentos e emoções que a invadiram depois do incidente. Lembrei-me de minha própria experiência. Então respeitei seu espaço e não fiz comentários.
Mas se ela vai começar a questionar meus traumas com psicologia barata, eu não vou perder a oportunidade de provocá-la de volta.
— No… novidade? — ela gagueja, seus olhos arregalados, em pânico. — Que novidade teria? Ele continua cumprindo seu papel como meu guarda-costas, conforme o esperado.
— Só isso? — estreito meus olhos.
— O que mais haveria, Impa? — ela se irrita em meio ao nervosismo.
Dou de ombros, como quem não quer nada.
— Consigo pensar em pelo menos uma dúzia de coisas — provoco.
Zelda está completamente desconcertada, e algo em sua pele me faz franzir o cenho. Sua mão direita abre e fecha, enquanto ela tenta pensar em alguma resposta sagaz para me rebater, e eu noto uma luz dourada bem suave, quase ínfima, reluzindo a partir de seus dedos.
Dura meio segundo antes de desaparecer, e eu me questiono se estou imaginando coisas.
Decido não fazer nenhum comentário sobre, para evitar criar expectativas infundadas nela. Mas o alívio que irrompe em meu peito é tão intenso que até ela percebe a mudança em minha postura.
— O que foi? — ela questiona, curiosa, esquecendo sua irritação.
— Estou com um bom pressentimento — afirmo, feliz. — Acho que as coisas vão mudar em breve.
. . .
A reunião entre os líderes e o rei termina logo antes do almoço. Todos saem da sala, discutindo as decisões que foram tomadas e os próximos passos na nossa preparação contra a Calamidade.
— Impa — o rei me chama quando estou a meio caminho da porta. — Pode aguardar um minuto, por gentileza?
Aceno, e fecho a porta depois que todos saíram. Me sento na poltrona, e ele no sofá de frente a mim, recriando o ambiente da conversa que tivemos há tantos meses.
— Zelda já partiu para Lanayru? — ele questiona.
— Sim. Ontem à noite; é uma longa jornada e ela queria chegar lá ainda hoje, o mais cedo possível.
— Como… ela está? — sua voz está cheia de dor.
— Preocupada, tensa, exausta, desolada, carregando o peso do mundo nas costas — enumero os itens com as sobrancelhas erguidas.
— Eu queria ter falado com ela antes de partir. Mas ela tem me evitado desde que a proibi de continuar nas equipes de pesquisa.
— Você pode culpá-la por não querer te ver?
Ele suspira.
— Sei que não. Ainda assim… gostaria de me desculpar com ela. Tomei a decisão num ímpeto de raiva… tinha acabado de ouvir os comentários mordazes de alguns soldados. E então a vi, distraída com os Guardiões. Não consegui conter minha fúria e descontei nela.
— Você vai ter oportunidade quando ela retornar — digo, conciliatória.
— Será que ela vai conseguir acessar os poderes nesta última fonte?
Por que todo mundo fica me questionando isso?
— Não sei se vai ser na fonte — hesito.
O rei franze o cenho ao notar minha entonação.
— O que você quer dizer com essa ênfase em “na fonte”?
Mordo a língua. Será uma invasão de privacidade descomunal eu expor ao rei os sentimentos que percebi em sua filha.
Mas ele arregala os olhos e sorri, aliviado.
— Ela está se apaixonando por Link? FINALMENTE!
— Oi?! — questiono, completamente atônita.
O rei tem a decência de parecer envergonhado.
— Nas lendas…
— DE NOVO, RHOAM? — exclamo, exasperada, sem sequer me preocupar com títulos.
— Me escuta, Impa. Nas histórias, muitas vezes as Zeldas acabam se relacionando com o portador da Master Sword… e isso parece amplificar ainda mais seus poderes. Eu coloquei os dois lado a lado na esperança de que talvez eles acabassem se aproximando, e ela conseguisse despertar os poderes. Mas ela o desprezava… e eu acabei me frustrando com a situação. Você não negou minha suposição; então imagino que… estou certo?
Reviro os olhos, irritada.
— Ela não me disse nada. Mas eu acho que tem alguma coisa acontecendo, sim — admito.
O rei se curva para frente, completamente atropelado pela esperança que volta a preenchê-lo. O ar realmente vibra com uma estática diferente, e eu também me sinto feliz.
— Estamos salvos — ele sussurra para o nada. — Obrigado, Hylia.
Dou risada, divertindo-me com a situação.
— Preciso ir — aviso. — Vou almoçar com minha irmã.
O rei apenas aquiesce, sem prestar atenção em mim, perdido na própria felicidade.
Saio da sala e caminho pelos corredores, distraída pelos bons presságios. Me sinto feliz por Zelda, pelo reino, pelo futuro. Durante o último ano, o rei redobrou os esforços para que os Sheikah que não se aliciaram aos Yiga fossem recompensados. Precisamos jurar lealdade a Hyrule e Hylia, mas tudo o que pensávamos em reivindicar foi acatado e implementado de alguma maneira nos últimos meses.
A maior parte dos Sheikah me responsabiliza pela mudança, sabendo da minha conexão com o rei. Eu passei a ser respeitada entre os nossos, que sempre acenam em agradecimento quando me veem.
Eu não acho a exposição algo confortável. Minha vontade é a de me esconder até que se esqueçam do meu envolvimento nisso tudo. No entanto, meu novo cargo e meus deveres na batalha contra a Calamidade me mantêm sempre no centro das discussões, então eu apenas engulo a ansiedade e o desespero e sigo em frente.
Estou perdida nestas ruminações quando algo pesado bate na minha nuca e eu desabo no chão, perdendo a consciência poucos segundos depois.
. . .
— Que péssimo dia para Zelda estar fora — ouço uma voz desconhecida resmungando.
Desperto com uma dor de cabeça lancinante; o local onde fui atingida pulsa, dolorido. Estou deitada na terra. Minhas mãos estão amarradas atrás das minhas costas e, quando abro os olhos, percebo que estou vendada.
— Essa outra vai servir tão bem quanto ela — outra voz estranha, feminina dessa vez, responde.
Não me movo, fingindo que ainda estou desmaiada, para que eles não parem de falar ao meu redor.
— A gente não poderia fazer isso amanhã? A princesa já estaria de volta. Você tem certeza que vai funcionar com ela?
— Os escritos estavam claros: precisa ser algum dos que sempre reencarnam no ciclo das maldições. Poderia ser o moleque da espada também — mas esse aí eu duvido que alguém conseguiria pegar. Ela foi a melhor opção, a princesa tem muita segurança ao seu redor. A opção ideal, na verdade, seria aquele comerciante que, por algum motivo, também sempre renasce. Mas parece que ele não reencarnou dessa vez… então vai ter que ser ela mesmo. E não pode ser outro dia — hoje é lua cheia. Não conseguiríamos invocar a lua de sangue amanhã — teria que ser no mês que vem. E Zelda deve estar quase despertando os poderes, não dá mais pra esperar.
A outra pessoa bufa.
— Espero que você esteja certa. Não dá pra acontecer o mesmo fiasco de dez mil anos atrás.
Meu coração está batendo violentamente e eu estou suando, em pânico. Movo meus braços sutilmente, testando a resistência das cordas. Mas são cordas finas e quem me amarrou deu muitas voltas — apertadas, ainda por cima.
— Ainda se o sangue não tivesse que ser fresco pro ritual… — a outra murmura.
Sou transportada de volta ao dia em que Purah e eu entreouvimos Sooga na ala restrita da biblioteca.
”Tem que ser fresco?”, ele perguntara na ocasião.
Entendo que fui sequestrada pelos Yiga, e eles vão me sacrificar para algum tipo de ritual bizarro… provavelmente algo relacionado à Ganon e…
Não.
Meu corpo congela ao conectar os pontos e compreender qual a intenção do ritual.
A Calamidade.
— Koume conseguiu encontrar o corpo?
— Não exatamente. Mas descobriu que está aqui no Castelo, em alguma câmara subterrânea. Não tem importância, estamos perto o suficiente para que tenha efeito… então ele pode nos encontrar depois que for ressuscitado.
Um silêncio se faz por alguns instantes.
— Ele sabe que vamos seguir com essa daí mesmo?
— É óbvio que não. A gente planeja ter sucesso hoje, por que complicaríamos nossa própria vida?
— A gente não deveria esperar escurecer? Sabe, lua de sangue, noite…?
— A energia da lua já está forte o suficiente. Não sabemos se Zelda já está voltando, nem se ela conseguiu acessar os poderes. Vamos aguardar somente até o pôr-do-sol.
— Kotake? Já está tudo preparado — ouço a voz de Sooga ecoando no ambiente. — Mais alguns minutos e podemos começar.
Minha respiração está curta, desesperada, e eu não sei o que fazer. Não consigo fugir, não consigo me soltar, não consigo alcançar as facas em meu cinto — se é que restou alguma faca comigo.
Minha única esperança é que me soltem antes de me matarem — só assim poderei tentar revidar.
Alguém me pega no colo, me jogando facilmente sobre seu ombro, e me carrega.
Uma ideia passa por minha cabeça e meu estômago se contorce em asco e terror e ela.
Talvez funcione.
Não sei qual a habilidade do outro Yiga que está com a tal Kotake, nem se ela entende de combate. Sequer se existem outras pessoas presentes.
Mas eu preciso tentar alguma coisa. Eu não posso simplesmente desistir. E, se for para eu cair… que eu, no mínimo, leve um deles junto comigo.
Respiro fundo, reunindo o máximo de coragem que couber em mim. O plano me aterroriza, me enoja, mas eu não tenho outras armas nem outras opções. Eu estou sozinha. Uma lágrima escapa, mas é absorvida pela venda.
“Faremos o que for necessário para garantir a ordem e a estabilidade no reino”, repito em minha mente, pedindo pela mesma frieza e pragmatismo que os antigos Sheikah tinham. Minhas mãos estão tremendo.
É agora. Seja lá quem for que está me carregando me desliza por seu corpo para me colocar no chão. Quando minha cabeça está alinhada com seu pescoço, abro minha boca o máximo o possível e fecho meus dentes ali com toda a força que consigo reunir. Meu maxilar dói com o esforço de rasgar pele e músculo, e o gosto de sangue em minha língua faz com que eu tenha ânsias de vômito imediatamente. Mas eu me forço a continuar, até que a carne se solte em minha boca e a pessoa caia no chão — me derrubando no processo.
Cuspo a carne no chão e no segundo seguinte vomito tudo o que havia em meu estômago. O cheiro do sangue do estranho, colado em meu rosto, me deixa tonta, ameaçando roubar minha consciência mais uma vez. Mas eu não posso desmaiar de novo, então luto com unhas e dentes para ficar acordada.
Que eu tenha atingido alguma veia, que eu tenha atingido alguma veia, que eu tenha atingido alguma veia, peço, desesperadamente, à Hylia.
O estranho geme baixinho ao meu lado, um som gorgolejante e agourento.
Demora alguns segundos até que alguém note o que aconteceu.
Ninguém grita. Ninguém se desespera.
Sooga gargalha.
— Porra, Impa, você tem certeza que escolheu o lado certo nessa guerra? — ele se aproxima e puxa minha venda, e eu me assusto com seu rosto tão próximo do meu. Noto que estamos em uma pequena caverna, provavelmente próxima do castelo.
Ele segura meu queixo, apertando meu rosto, seus dedos fincados em minhas bochechas.
— Você o matou com uma mordida?! — ele sussurra, admirado. — Eu sempre soube que tinha muito ódio aí dentro… mas sadismo? Estou começando a entender o que Deen viu em você.
Ele tem razão: tem muito ódio aqui dentro.
Me recuso a responder com palavras. Mas aproveito sua proximidade e cuspo em sua cara, sujando-a com saliva e sangue.
Ele me solta apenas para desferir um tapa em meu rosto, com tanta força que lágrimas escapam dos meus olhos e meus ouvidos voltam a zumbir.
— Vadia — ele diz, entredentes. — Vai ser ótimo te assistir morrer hoje.
— Sooga, chega de brincar com o sacrifício — uma idosa ralha com ele. — Traga-a até aqui, falta só o sangue dela para finalizarmos.
Sooga me pega pela nuca, me forçando a ficar em pé e me arrasta até o lugar onde duas senhoras decrépitas estão entoando alguma canção dissonante com palavras desconhecidas ao redor de um grande caldeirão de pedra, que ferve com uma mistura densa e malcheirosa.
— É só cortar o pescoço dela sobre o líquido e deixar o sangue verter no recipiente — uma delas pausa o rito apenas para explicar, e o retoma logo na sequência.
Eu tento chutá-lo, mas sua envergadura é muito maior que a minha e suas pernas estão distantes demais das minhas. Meu corpo se choca contra o caldeirão e ele me dobra pra frente, meu estômago pressionado contra a borda quente. Ele emaranha os dedos no meu cabelo e puxa, me forçando a olhar para cima e expondo meu pescoço.
Me debato, tentando me soltar, mas é em vão. Ele me prende ali com seu corpo e não tem mais nada que eu possa fazer. Ouço o tinido da adaga quando ele a pega e sinto o metal frio contra a minha garganta.
”Sinto muito, Zelda”, peço, mortificada pelo fracasso. Meus olhos queimam, mas eu me recuso a chorar.
Me preparo para o fim quando Sooga me solta subitamente, sua faca caindo dentro do caldeirão antes que pudesse me ferir. O movimento brusco faz com que eu caia para trás, sentada no chão.
Koume e Kotake, que estavam de olhos fechados e entoando a canção, ficam em silêncio imediatamente, olhando com fúria para algo atrás de mim.
Sooga está lutando com algum outro soldado Yiga que é apenas um pouco menor do que ele. Ele está trajando o uniforme vermelho da organização, e seu rosto está coberto pela máscara com o símbolo Sheikah invertido, mas eu reconheceria aquele corpo e aqueles movimentos em qualquer lugar.
— SAI DAQUI, IMPA — ouço a voz de Deen gritar enquanto ele tenta impedir que Sooga avance para mim novamente. — AGORA.
— Deen? — pergunto, aturdida, enquanto tento me levantar — o que se prova especialmente difícil com as mãos atadas.
— SAI DAQUI — ele repete, firme.
Balanço a cabeça, sem conseguir entender nada. Mas sigo sua ordem, me levanto o mais rápido que consigo e saio correndo sem olhar para trás.
— VOCÊ VAI SE FODER POR ISSO, DEEN — Sooga berra quando estou quase na saída da caverna. — KOTAKE, KOUME, PLANO B.
Plano B?
A curiosidade me faz parar e virar para assistir ao desenrolar da situação. Deen derrubou Sooga no chão e o mantém ali com o peso do corpo. Ele não pode impedir Koume e Kotake de seguirem com o tal plano B sem libertar Sooga — mesmo os poucos segundos que levaria para matá-lo seriam longos demais.
As duas já se curvaram sobre o caldeirão, sacrificando suas vidas ao rasgarem suas próprias gargantas e deixando seu sangue verter para finalizar o ritual.
Assim que a mistura está completa, uma fumaça densa, preta e carmesim, começa a se acumular na pequena caverna. O ar fica pesado e fétido, a fumaça invade todas as frestas do ambiente e escapa por todas as aberturas, me sufocando.
— O QUE VOCÊ AINDA ESTÁ FAZENDO AQUI, IMPA?! — a voz de Deen, em pânico, quebra meu estupor.
Sem conseguir pensar em nada, corro para a saída mais próxima e logo me vejo do lado de fora. Um tremor forte toma conta da terra, me derrubando contra uma pedra. Antes que a irritação me domine, noto que uma das quinas é afiada o suficiente para que eu consiga cortar as amarras em meus pulsos. Esfrego as cordas contra o fio enquanto assisto à fumaça ir rapidamente em direção ao castelo, envolvê-lo e se espalhar pelo céu, criando uma nuvem escura e uma tempestade de raios púrpuras.
Uma entidade em forma de javali, quase do tamanho do próprio Castelo, se eleva sobre ele, flutuando desmaterializada em um rastro de energia escura, e ruge, o som ecoando por toda Hyrule.
A Calamidade começou.
Por favor, Hylia, que Zelda tenha conseguido despertar seus poderes em Lanayru.
Mas ela não conseguiu.
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