She'd Fly
9 Capítulo 08 — Corredores.
Notas iniciais
Novembro de 2012.
Bella.
Eu estava grata que pudesse dormir até tarde em uma plena sexta-feira. Finalmente um dia em que eu não teria de me levantar cedo para trabalhar ou ter que revisar pilhas e mais pilhas de textos para o dia seguinte. Eu tinha um dia livre! Será que alguém a não ser eu podia perceber o quão milagroso aquilo era? Não importava. Não importava — o pensamento foi quase cantarolado em minha mente.
Eu estava feliz e bem. Eu estava mais que feliz. Não me interessava se o motivo da minha felicidade era efêmero, o que importava era que eu estava feliz como nunca mais estive em toda a minha vida. É aquela felicidade boba, depois de uma tempestade que parecia infindável. Mas era justamente pela tempestade infindável que a felicidade que eu sentia era tão boa! Eu pensava que ela nunca iria me atingir novamente. E aqui estava ela! De novo.
Desde que Edward foi embora, eu fiquei com a minha mãe. Ela parecia mais deprimida que nunca — ou talvez sempre estivesse piorando gradativamente, eu apenas não prestava atenção o suficiente para notar isso — e passava o dia todo dentro de seu quarto sempre escuro. Tudo pareceu desabar a partir de quando Edward disse que estava indo para a Califórnia fazer o que sempre quis: Salvar vidas. Sendo um policial. Ele era a pilastra que segurava tudo… e tinha ido.
De qualquer jeito, eu tentei tomar o seu lugar. Eu poderia ser a pilastra da minha própria vida, eu estava decidida. Mas uma pilastra não era de nada quando tudo já estava desabando. Tentei não desanimar, no entanto.
Fui dormir tarde naquela noite, logo após de ter forçado Renée a jantar um pouco da macarronada que eu havia feito justamente porque aquela comida era a sua preferida outrora. Ela recusou. Mas algo em meu rosto a fez suspirar e assentir leve e fracamente. Minha mãe comeu metade de um prato até se dar por satisfeita.
Renée estava magra até demais, seus cabelos ruivos estavam quebradiços e o seu rosto quase esquelético. Não era mais a mulher forte e sorridente que fora quando Charlie estava vivo. Eu não era suficiente para tomar o seu lugar e fazê-la ficar melhor, nem mesmo que tentasse com forças sobrenaturais. Eu não me conformava. Não poderia. Tentei dia após dia suprir a sua necessidade. Falhando todas elas.
Prendi meu cabelo escuro — com exceção de poucas mechas rosa que Edward adorava antes — em uma trança e me deitei, suspirando de prazer ao deitar-me em minha cama. Eu poderia ir dormir sem ter de colocar o despertador para tocar, a percepção era extremamente boa.
Eu tinha acumulado cansaço demais para uma pessoa só, então meu sono costumava ser bem pesado. Naquele dia ficou mil vezes mais pesado, por algum motivo que eu nunca fui capaz de compreender. Talvez a vida… simplesmente quis que eu me sentisse mais culpada pelo que aconteceu a seguir, talvez tudo fosse uma peça orquestrada para que eu me sentisse um lixo.
Eu não me sentia um lixo, eu o era.
Ainda não havia sequer amanhecido quando eu me acordei, abruptamente. Eu não precisei de muita coisa para saber que o grito alto e agudo que eu escutara era de Renée. Ela tinha pesadelos de noite por causa de sua Depressão Aguda — segundo o que a sua Psicóloga e Psiquiatra havia me dito. Aquele pesadelo era diferente porque eu estava nele, eu vivia ele.
Tínhamos luz natural: O fogo. A névoa de dióxido de carbono chegava até o segundo andar — que era onde ficava o meu quarto — e eu deduzi, em um surto de adrenalina, que era um incêndio. A primeira coisa que eu pensei foi que eu iria até onde minha mãe estava não importava como! Ela continuava gritando e, apesar de não me chamar, eu sabia que era de mim que ela precisava.
— Charlie! — Minha mãe gritou.
A névoa e as enxurradas de lágrimas me impediam de enxergar direito, por isso saí tateando até chegar à ponta da escada. Estava tudo tomado pelo fogo. Balancei meu rosto de um lado para o outro, dando um passo para trás. Eu estava tentando acordar do pesadelo.
Não é real. Não é real.
— Charlie! — Ela gritou.
— Mãe! — Eu a chamei, gritando o mais alto que consegui. — Onde você está?
Minha mãe gostava de acabamentos em madeiras, gostava de móveis rústicos, fazia-lhe lembrar de sua terra natal. Talvez aquele tenha sido o maior motivo que fez o fogo se espalhar tão rapidamente. Eu não estava preocupada com aquilo. Não estava preocupada com droga nenhuma. Eu queria chegar logo até onde minha mãe estava, dizer a ela que estava lá. Que estava tudo bem. Tudo ficaria bem.
Eu não conseguia. Eu nunca conseguia.
A escada estava até a metade consumida pelo fogo. Tudo estava. Cheguei até a pensar que eu tinha morrido de alguma forma e estava no inferno, mas logo descartei a ideia. Minha mãe merecia o paraíso.
Eu tossi, minha garganta e o meu peito se apertando em desespero.
— Por aqui, Srta. Swan. — Escutei uma voz masculina e em seguida uma mão firme me puxando pelo braço.
— Mas minha mãe…
— Ela já está sendo resgatada. — Garantiu-me.
Acreditei, afinal, seus gritos desesperados haviam parado.
— Eu tenho que ir pegar o Dean. — Falei, limpando com a palma de minha mão livre o meu rosto molhado.
— Também já foi resgatado, se acalme. — Ele mandou.
— Como vocês sabiam onde ele estava? — Perguntei, franzindo meu cenho. — Ele mal consegue andar e…
— Tudo vai ser esclarecido quando descermos, Senhorita Swan, por favor, colabore. — O bombeiro pediu, pegando no meu braço e me guiando para o quarto de minha mãe, onde tinha uma janela que dava para o jardim.
Dean era o cachorro de Edward que ele deixara comigo por dizer que ele não aguentaria uma viagem tão grande para a Califórnia e Alice não tinha paciência para ficar com ele. Eu apenas assenti quando ele me pediu, prensando meus lábios numa linha reta para tentar reprimir as lágrimas que insistiam em deslizar por meus olhos. Ele me pediu desculpas por aquilo, mas me disse que eu sempre soubera, ele sempre havia me deixado preparada para aquela situação.
Mas que mentira horrível!
Só depois de estar do lado de fora, sentindo o frio de Seattle congelar meus pés descalços na calçada, percebi que minha mãe e Dean haviam sido, sim, resgatados. Mas eu sempre me perguntei em meus devaneios se aquilo havia sido mesmo um resgate. Resgate de corpos. Sem vida. Sem nada. Corpos queimados e deformados.
Eu corri até a maca da minha mãe, o rosto cheio de lágrimas que se renovavam a cada segundo, os lábios emitindo um grito silencioso de horror. Eu tentei me agarrar ao corpo dela, no entanto um bombeiro — o mesmo que havia me resgatado da casa que ainda ardia em chamas — me segurou antes que eu pudesse chegar até lá. Entorpecida e incrédula — eu ainda esperava que fosse um pesadelo —, debati-me nos braços dele.
— Me solta, inferno! — Gritei para ele. Eu estava rouca quando continuei, falhamente: — Mãe! Mãe, levante-se. — Choraminguei. — Por favor. Por favor. Me solta. — Eu sussurrei para o bombeiro.
— Eu não posso, Senhorita Swan. — Seus olhos e sua voz pediam desculpas.
— Por favor. — Implorei. — Por favor.
O motivo do incêndio havia sido um vazamento de gás. Enquanto eu fazia a macarronada, eu provavelmente havia me esquecido de desligar o gás e a boca do fogão. A culpa do incêndio foi minha uma vez que Renée não teria se levantado no meio da noite para cozinhar. Eu, por minha negligência, tinha matado minha mãe e Dean, a única lembrança viva que eu tinha de Edward.
Eu não conseguiria viver com aquilo.
Maio de 2006.
Bella.
Caminhei raivosamente até o refeitório, deixando um Edward incrédulo para trás. Eu não conseguia acreditar no quanto ele era estúpido! Ontem, ele havia ido para mais uma de suas malditas rachas. Escondido de sua mãe e de mim — não que isso importasse muito uma vez que ele não tinha de prestar contas de nada que fazia a mim, mas ainda assim…
Havia machucado as costas de novo. Eu sabia disso porque quando o abracei, ele se encolheu de dor. Era só juntar um mais um e saber para onde ele havia ido noite passada quando eu cheguei a sua casa e ele não estava, deixando-me em uma conversa agradável com a sua irmã adotiva que, com toda a certeza, sabia para onde ele havia ido.
Sabe, eu gostava de Edward. Gostava mais do que se gosta de um amigo normal, mas às vezes, eu chegava a odiá-lo por ser tão estúpido. E ele ainda achava que estava certo! O seu “Você não é minha mãe, Bella” foi demais para a minha paciência já fragilizada. Foi naquela hora que eu o olhei raivosamente e saí de perto antes que minha raiva atingisse níveis maiores do que aqueles.
— Bella! Espere. — Ele falou, atrás de mim.
Continuei a andar, trincando meu maxilar e os punhos retraindo-se com força, implorando para serem lançados contra o rosto imaculado de Edward Cullen.
O problema dele era que ele sequer dava tempo para a pessoa ficar com raiva, logo estava puxando-me pelo pulso para que eu parasse de andar para a cantina e o ignorasse. Como sempre que fazia merda, Edward tinha um sorriso torto no rosto ao me puxar para o seu peito, passando um braço ao meu redor em um abraço que pedia desculpas.
— Me solte, Edward. — Eu demandei.
Alguns alunos, curiosos, que passavam, olhavam com o cenho franzido para a cena. Eu olharia desse mesmo jeito se eu não estivesse a vivenciando. Afinal, estávamos parados no meio de um caminho que levava para a cantina. E, apesar de as pessoas estarem esfomeadas, eles ainda tinham um tempo para olhar com curiosidade para a cena.
— Não enquanto você não me escutar. — Seu rosto estava tão próximo do meu que apenas por um momento tive medo que ele me beijasse.
— Pare, Edward, você está sendo ridículo! — Minhas bochechas quentes confirmavam isso. — Me solte e então podemos conversar. Melhor, vamos conversar enquanto andamos para a cantina. Eu estou morrendo de fome. — A cantina me abrigava melhor do que esse corredor cheio de gente.
Ele suspirou. Mas Edward teve que manter sua mão em minha cintura — eu estava consciente até demais ela na base de minhas costas, impulsionando-me para frente e pronta para me puxar caso eu decidisse sair correndo para me livrar dele.
O caso era: Eu me preocupava até demais com Edward e o odiava por ser tão inconsequente a ponto de insistir em ir para rachas. Ele parecia não perceber isso, só queria viver como se não houvesse amanhã e uma mãe que ficaria louca caso algo acontecesse com ele. E, bem, também tinha eu. Eu ficaria arrasada se algo acontecesse com ele, eu não estava aguentando perder mais ninguém.
Não nos falamos enquanto pedíamos nossos almoços e caminhávamos para a mesa que nos sentávamos costumeiramente.
— Bella. — Ele me chamou quando se sentou à minha frente, seus olhos verdes procurando os meus.
— Eu deveria ficar por mil anos com raiva de você.
— Deveria. — Edward concordou e quando eu o olhei, ele estava sorrindo levemente.
— Você é um idiota. — Murmurei.
Ele inclinou o rosto para o lado, sorrindo e ponderando. Ele parecia tão imaturo que me fazia ter vontade de pular ou atravessar a mesa para beijá-lo.
Tudo bem, eu e Edward tínhamos trocado uns beijos bastante íntimos nas últimas semanas, eu gostava dele mais do que um amigo, mas não… eu não queria namorar um cara popular e cheio de garotas atrás. Ele já tinha me pedido em namoro — ou tentado —, eu o interrompi assim que percebi até onde a sua frase nunca acabada iria dar. Edward sempre franzia o cenho, prestes a perguntar o porquê de eu sempre o interromper, mas eu sempre me inclinava nas pontas dos pés para beijá-lo de novo e dizer que precisava ir — mesmo que não precisasse, de fato.
— O que houve com você? — Eu perguntei, por fim.
Ele hesitou.
— Edward. — Insisti.
— Caí da moto.
— De novo. — Eu resmunguei.
— É, de novo.
— E o que mais você machucou?
— O meu ombro, mas… Bella, foram coisas bobas. Nada digno de preocupação, sim? Vamos falar sobre outra coisa. — Desconversou.
Eu suspirei, assentindo. Não sabia mais o que fazer para que Edward colocasse pelo menos um pingo de consequência em sua cabeça leve. Ele não me escutava e, provavelmente, não escutaria sua mãe se eu a falasse — e isso só serviria para que ele ficasse com mais raiva de mim por ter-lhe dedurado.
— Você vai me esperar depois do treino? — Ele perguntou quando o sinal para a aula tocou.
— Vou. — Suspirei.
— Sabe, se você tiver algo para fazer e não poder, eu entendo.
— Algo para fazer? — Eu ri, amargamente. — Até parece.
Minha mãe passava o dia todo dentro de um quarto malditamente escuro, havia dias que eu sequer era privilegiada com a sua presença sombria e silenciosa. Ela não se alimentava, não falava. Renée não fazia nada. Era o mesmo que morar sozinha: Eu fazia o meu alimento, eu reabastecia os armários, eu limpava a casa, recebia o dinheiro do meu pai. Fazia tudo que ela deveria fazer.
Eu sabia que meus pensamentos eram raivosos, mas era exatamente como eu me sentia! Raivosa por ser abandonada de dois modos. Eu só tinha catorze anos! Estava no começo da adolescência, não deveria estar abandonada completamente, deveria estar fazendo coisas que adolescentes faziam.
— Você sabe que pode contar comigo. — Edward disse, passando um braço por meus ombros.
— Posso mesmo? Ontem eu fui à sua casa e você não estava.
— Não vai se repetir, Bella. — Ele prometeu.
— Não quero que se prive de coisas por causa de mim. Eu me viro bem sozinha.
— Tem certeza? — Edward ergueu as sobrancelhas, sorrindo tortamente.
Eu queria ser como ele, ter um riso fácil e descontraído, fazer as pessoas gostarem de mim tão fácil quanto ele fazia.
— Tenho.
— Eu gosto de ficar com você, não é esforço nenhum. — Ele disse e eu o abracei com um dos meus braços enquanto andávamos pelo corredor que nos levaria a aula extremamente entediante de Francês.
Meus olhos marejaram, por isso os baixei e mordi meus lábios. Eram aqueles tipos de lágrimas que você tenta prender com tanto afinco que acaba chorando, mil anos depois, por motivos bobos e superficiais. Olhei para os meus pés e pisquei várias vezes, tentando parar o avanço da água em meus olhos. Eu não choraria na frente de Edward só porque ele havia me dito que gostava de ficar comigo. Que grande besteira.
Eu deixei de chorar quando notei que estava, praticamente, sozinha no mundo, deixei de chorar quando minha mãe se confinou a um quarto, deixei de chorar quando notei que, na minha formatura, ela provavelmente não iria. Deixei de chorar e estava querendo o fazer no meio de um corredor que estava atolado de adolescentes que falavam aos gritos.
— Preciso ir ao banheiro. — Disse para ele.
— Eu espero você.
Fugi de seus olhos e escapei de seus braços o mais rápido que pude. Minha garganta se fechou e eu arfei enquanto empurrava a porta do banheiro, as mãos tremendo de nervosismo fazendo-a parecer mais pesada do que, na verdade, era. Graças aos céus ou ao sinal da aula que já tocara fazia dez minutos, o banheiro estava quase vazio e as duas meninas que estavam nele pareciam alheias a minha entrada.
Abri a porta de uma cabine vazia e a tranquei antes de desabar contra a tampa da bacia fechada. Respirei pesadamente por alguns segundos, esperando que as lágrimas retrocedessem em meus olhos e não caíssem. Tudo em vão. Elas acabaram caindo, lentamente a principio, e depois livremente, sem nenhuma interrupção ou pretensão de parar.
Enfiei minhas mãos dentro de meu cabelo, apoiando minha testa em minhas mãos trêmulas e úmidas.
Não sabia bem pelo que eu estava chorando. Só sabia que… parecia que a pior parte do sofrimento havia sido liberada naquele instante em que eu precisava ir para a aula de Francês. Edward estava me esperando na porta do banheiro, eu não podia ficar chorando por tanto tempo quanto queria. Eu não precisava ficar chorando na escola, tinha o tempo todo que ficava em casa para fazer isso sem ter o risco de ser pega porque, oh, minha mãe não se lembrava da minha existência!
Respirei fundo, passando as mãos pelo meu rosto para limpar as lágrimas. Olhei-me no espelho antes de finalmente sair. Eu achava, tolamente, que meu rosto poderia passar batido por Edward, mas ele me conhecia. Conhecia bem até demais e franziu o cenho para mim quando me viu saindo do banheiro.
— Por que estava chorando? — Ele perguntou.
Se eu falasse, as lágrimas começariam a deslizar por meu rosto de novo. Então, apenas, balancei o rosto em um sinal que era para que ele deixasse para lá. Edward era persistente, não deixou. E, normalmente, aquela insistência teria me irritado, mas… eu precisava falar com alguém, estava cansada de guardar tudo para mim.
— Sabe, nós podemos matar essa aula. Só essa. — Edward propôs. — Eu te ensino Francês depois.
— Me parece ótimo. — Um esboço de sorriso apareceu em meu rosto.
Fomos para aquelas salas de antes e nos escondemos atrás de cadeiras e do birô que o eventual professor usaria para dar aula se aquele prédio não estivesse desativado. Assim que nos sentamos no chão, ele me aninhou ao seu peito como meu pai costumava fazer quando eu acordava assustada no meio da noite e ainda achava que estava presa ao pesadelo. Ele sempre dizia que estava tudo bem, que eu estava com ele e que, se fosse assim, tudo ficaria bem. E sempre ficava mesmo.
Agora eu compreendia que tudo só estava bem se ele estivesse.
Deixei-me ser acarinhada pelas mãos gentis de Edward em meu cabelo e em meu braço, esperando que ele não percebesse os arrepios constantes que me atingiam quando ele respirava em meu pescoço.
Eu não o falei nada, não me lamentei ou chorei desesperadamente em seus braços, mas eu me sentia muito mais leve do que estava antes. Talvez eu só precisasse de um pouco de… gentileza — e me era ridículo aceitar, mas eu podia admitir aquilo em minha própria mente — e de atenção. Talvez fossem apenas aquelas duas coisas que estivessem me faltando.
— Você já ouviu falar de James Worson? — Ele me perguntou.
Neguei com o rosto.
— Me conta. — Eu pedi.
— James Worson era um sapateiro do final do século dezenove, ele era daquele tipo de pessoa que gostava de contar vantagem e se dizia um ótimo corredor. — Sua mão subiu do meu antebraço até o meu braço mais uma vez, fazendo-me reprimir um suspiro. — Um dia, ele foi desafiado a correr cinquenta e quatro quilômetros a pé da cidade de Leamington até Conventri. Ele aceitou, é claro. Dois de seus amigos o acompanharam a cavalo, um deles tinha uma câmera fotográfica e ia tirando fotos de todo o percurso.
“Não se sabe como, mas seus amigos acabaram se distraindo e depois, eles só escutaram o grito de agonia de James”, ele hesitou, prendendo a respiração e prolongando o suspense. “Eles voltaram para ajudar ele, mas James havia sumido. Os seus amigos observaram que havia passos de uma caminhada normal e depois como se ele tivesse tropeçado. E depois, mais a frente, não tinha mais nada. Foi aberta uma grande investigação sobre o caso, mas nada nunca foi descoberto. E os cães farejadores tinham medo de se aproximar do local”.
Ergui as sobrancelhas, sorrindo brevemente.
— Você é um ótimo contador de histórias. — Elogiei.
Ele soltou o ar quente de um riso em meu pescoço.
— O que você acha que aconteceu?
— Hmm… — Franzi meu cenho. — Não é na Inglaterra que tem muitos lobos, florestas e lama, não é? Então, eu acho que uma matilha deve tê-lo pegado e a lama acabou encobrindo o sangue.
— E os ossos?
— Ah, sei lá! Lobos também podem gostar de ossos.
Ele soltou uma gargalhada.
— E o que você acha?
— Acho que ele foi assassinado e o assassino era muito inteligente, então ele enterrou o corpo. — Sua mão desceu novamente para o meu antebraço. — E os lobos locais assustavam os cachorros. Fim.
— É uma ótima teoria.
Edward assentiu e depositou um beijo em meu ombro coberto.
Confiante, ele ergueu o rosto para mim e pôs uma mão em minha bochecha, inclinando-se em minha direção e apanhando meus lábios entre os seus. Ele não hesitou ou sequer pareceu ter pensado duas vezes sobre se eu permitiria que ele me beijasse ou não, somente o fez. Eu gostei da sua falta de dúvida, gostei da impetuosidade que ele empregou ao me beijar e não demorei a lhe corresponder, entrelaçando meus dedos em seu cabelo macio e crescido.
Perguntei-me se ele beijava as outras garotas desse jeito que ele me beijava. Esperava que não. Esperava que aquela intensidade e aqueles sorrisos fossem exclusivos para mim. Queria que Edward fosse apenas meu.
Não tivemos nenhuma visita do diabo do High School, passamos toda a aula de Francês conversando sobre assuntos bobos, nos beijando — a maior parte do tempo porque ele estava sempre me tocando no maxilar ou no pescoço, sempre me convidando a beijá-lo de uma forma que eu não conseguia resistir.
Toda vez que ele sorria entre o beijo, eu pensava: Eu estou apaixonada pelo meu melhor amigo. Eu estou apaixonada pelo meu melhor amigo. Eu estou apaixonada por Edward Cullen.
Eu não queria parar de estar apaixonada por ele.
O dia, a partir daquela aula, passou correndo e estacionou quando Edward estava se despedindo de John depois do treino — aquele crápula ridículo — e ele o convidou para a racha imperdível que aconteceria naquela noite. Bem na minha frente. Eu sabia que havia sido de propósito. E Edward também.
— Eu não acredito que você vai. — Eu resmunguei quando parei de frente a minha casa.
— Bella…
— Você chega a ser extremamente legal e estúpido de vez em quando, Edward! — Eu exclamei.
Edward suspirou, franzindo o cenho. Não pude deixar de perceber o quão bonito ele ficava com os cabelos molhados do banho recente e os lábios prensados. Tão bonito e tão tolo ao mesmo tempo…
— Fique comigo e não vá. — Eu pedi, mordendo meu lábio em hesitação. — Por favor.
Eu sabia que ele ficaria.
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