She wolf
2 O monstro
Notas iniciais
Eu corria sob minhas quatro patas enquanto sentia a chuva molhar meu pêlo . Eu fugia enquanto sentia os últimos resquícios do sangue pertencente minha última vítima que morreu de um jeito impiedoso ,como sempre .
Eu não aguentava mais , havia me revirado toda a noite na cama , morrendo de fome. Eu me levantara da cama e saira pela rua procurando minha próxima vítima .
Corri por quase sete quilômetros até que encontrei o que eu queria , já era madrugada ,e o sol não havia nascido . Então eu o vi , era um caminhoneiro que esperava sua carga debaixo de um telhado observando a chuva .
Eu já estava toda molhada então me forcei a colocar uma feição assustada no rosto .
– O que uma gracinha dessas faz no meio da chuva ? — Ele perguntara com um sorriso no rosto soprando a fumaça do cigarro .
– Me ajuda ! — Supliquei .
Logo seu rosto assumiu um tom sério e seu corpo ficou ereto .
Eu sentia sua aura de longe , ele era um homem de dar nojo : batia na esposa e abusava de sua filha .
– O que houve ? — Perguntou preocupado .
– Minha irmã ! Ela ... está ... morrendo ! — Forcei alguns soluços.
Peguei sua mão e o puxei até um ponto da floresta no outro lado da rua . Quando já não aguentava mais correr ele parou e perguntou :
– Onde sua irmã está ? — Exclamou olhado para trás .
Olhei para trás com um sorriso malicioso nos lábios , havia chegado a hora.
– Que irmã ? — Perguntei num sussurro quase inaudível.
Mas ele ouviu , e sob a chuva eu via sua expressão de medo , parecia um rato pego pelo gato .Assumi minha forma de lobo e o ataquei , ele tentou gritar , mas eu já havia o matado.
Passei cerca de uma hora comendo a vítima e quando terminei tratei de limpar a área , o resto a natureza faria .
Corri de volta para "casa" e enquanto sentia a chuva me lembrei de Apollo , e o que ele acharia sobre o que eu me tornei. Mas eu sonho em um dia reencontrá-lo implorar por seu perdão , uma coisa que eu não teria direito .
Assumi a forma humana e entrei em casa , o sol já havia nascido mas a rua permanecia calma.
Tranquei a porta e me deitei no chão.
Naquele momento ali , nua , suja ,eu me sentia um lixo. Eu nunca chorei por uma presa , mas eu sentia.
Nunca era na hora ,era sempre depois de ter matado. Era estranha a sensação , eu não me arrependia mas estava triste , talvez por saber que minha família me achava um monstro .
* * *
A porta bateu num som estridente e mesmo sabendo quem era eu nunca me acostumava.
Eu já havia tomado banho e agora encarada o nada sentada no sofá .
– Rose! — Carl disse se sentando ao meu lado e tascando um beijo em meus lábios .
– Hm — Exclamei sem vontade de falar.
Carl é meu companheiro ( é assim que se fala?) , me ajudou quando cheguei aqui , achei que seria suspeito ter uma vizinha que mora sozinha e não mantém contato com ninguém.
Ele não sabe , eu nunca contaria isso a ninguém . Ele é a única pessoa que eu consigo ser simpática .Coloquei minha cabeça sobre seu colo , pego sua mão e coloco em cima de minha orelha fazendo movimentos circulares.
– Não me sinto bem . — Murmurei fechando os olhos .
– Tudo bem , eu tinha planos para hoje , mas ...
Suspirei e levanto minha cabeça, encarando-o .
Me aproximei e toquei seus lábios nos meus .
– Você me acha estranha ? — Perguntei depois de alguns segundos .
Ele riu.
– Você pergunta isso depois de me beijar ? — Ele acaricia minha bochecha .
Dei um sorriso de lado e voltei a me deitar no seu colo .
– Não — Respondeu depois de alguns minutos . — Você é diferente , exótica , mas não estranha .
Eu nunca machucaria o Carl , ele é diferente , especial . É diferente como o Apollo , mas ninguém nunca vai substituir o Apollo .
– Por que pergunta ?
– Não sei . — Respondi , acariciando sua coxa .
Mas eu sabia , não era porquê eu era um lobo ou coisa assim , é porque quando eu leio a aura das pessoas elas pensam coisas horríveis de mim , principalmente os homens .Eu só queria me ver livre disso tudo , de crueldade , de maldade . Mas acontece que falar é fácil , é diferente quando o assunto se torna sua vida . Eu já tentei mudar , mas quando passei de 9 dias sem comer carne humana eu fiquei fraca . Meus olhos estavam fundos e opacos , e as pupilas que já foram azuis estavam pretos , meu cabelo não tinha brilho e minha pele estava pálida , quando eu andava eu sentia que levava 50 quilos nos pés .Carl até tentou me levar ao médico mas eu insistia em dizer que ficaria bem , e fiquei . Depois de me alimentar .
– Além do mais você está linda . — Ele falou me tirado de meus devaneos .
Murmurei algo e me levantei indo até meu quarto . Eu não quero escutar que estou bonita ou que estou ótima , porquê toda essa beleza vem de uma coisa ruim por dentro , eu não aguento mais viver assim , eu não quero cuidar do monstro que eu criei . Monstro esse que se alimenta de minha tristeza e me deixa mais forte para que eu possa lembrar do motivo de eu estar em pé , para que eu possa lembrar que alguém teve que morrer para que eu ficasse assim. Eu não suporto me olhar no espelho e ver o que eu me transformei , eu não aguento mais encarar esse monstro que cresce contra minha vontade e que ri de minha vida medíocre , ri por eu ser fraca e não conseguir superar tudo isso. Esse monstro que está dentro de mim me destrói a cada segundo , pisa no meu corpo e me xinga. Eu só queria voltar ao normal , voltar para a matilha , para Apollo , minha família , minha vida calma e normal , mas encaremos o fato : isso nunca acontecerá . Eu colhi o que plantei , preciso aceitar que EU SOU UM MONSTRO .
Senti Carl me seguindo até o quarto e deitando na cama.
– Geralmente as pessoas agradecem quando recebem elogios . — Diz encostado na porta de meu quarto.
– Mudei de ideia , vamos sair ? — Disse.
Eu não queria ficar em casa nem mais um minuto .
* * *
Nós chegamos ao "Saint and Sinners" , um bar da cidade. Eu observava algumas mulheres com roupas incrivelmente curtas , homens caindo de bêbados , algumas prostitutas ( era o que mais havia nesses bares) e homens jogando na mesa de bilhar com bebidas nas mãos cigarro na boca .
Carl estava no balcão pegando algumas bebidas para ele já que não bebo. Eu não me atreveria a colocar uma gota sequer dessas coisas em meu corpo! Ele voltou com um sorriso no rosto e sentou-se na cadeira á frente .
– Está gostando ? — Perguntou .
– Ôh , se estou ! — Ironizei fingindo um sorriso .
– Vou jogar um pouco de bilhar , já volto .- Disse tascando um beijo em meus lábios e indo até a mesa .
Fiquei ali parada na mesa cerca de meia hora quando eu vi uma coisa que fez meu coração acelerar.
Ela estava ali ,sentada no balcão olhando para mim . Com aqueles olhos inpenetraveis iguais aos meus , o cabelo longo e vermelho assim como o meu .
Gelei na hora e balanço a cabeça , quando voltei a olhar para ela não havia mais ninguém lá . Por um segundo pensei que mataria a saudade de Mykah , minha irmã .
Levante do banco e corri assustada sem rumo .
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