Notas iniciais
os três primeiros capítulos são introdutórios e aconteceram antes da história própriamente dita. decidi separá-los em capítulos porque achei que ficaria mais interessante! espero que vocês gostem :)

~ Destruição: Substantivo. Ação ou efeito de destruir, ruína completa. ~

Tudo era destruição. Ela estava ali, por toda parte. Deixava não só rastros como dor, desespero e medo. Deixava sangue e o cheiro ocre, deixava cadáveres e marcas e lágrimas e tudo fora do lugar. Deixava a devastação e o receio de que nada pudesse ser o mesmo, que nada nunca fosse ser o mesmo, de que tudo estava perdido para sempre. De que nós estávamos perdidos para sempre num abismo sem fim – que nunca pararíamos de cair.
A mão firme do meu pai segurava o ombro de minha mãe, a sua mão livre permanecia no cajado – algumas coisas nunca iriam mudar. Minha mãe tinha o braço envolto em minha cintura, como se eu fosse um bebê que necessitasse de apoio para os primeiros passos, e talvez – só talvez, ela não estivesse de todo errada. Eu precisava de apoio naquele momento. Meu corpo parecia tremer involuntariamente, e eu sentia frio e uma vontade enorme de me encolher debaixo de um edredom grosso e quente e me fazer acreditar que nada daquilo fora real. Meus joelhos batiam um contra o outro e estavam quase cedendo, minhas mãos estavam postas nos bolsos e eu apertava os nós dos dedos.
Todas as pessoas se sentiriam seguras no retorno à casa, mas não eu. Não havia segurança ali, não havia calor humano ou sequer um abraço de que ficaria tudo bem – um, porque não éramos deste feitio, de adularmos uns aos outros e agirmos como uma família, o que de fato somente éramos pelo vínculo sanguíneo; dois, porque nunca houve segurança ou braços acolhedores em meu pai ou mesmo em minha mãe e finalmente em terceiro, porque a minha casa era o símbolo da destruição. Minha casa fora o álibi e o quartel general de tamanha desordem, atrito e infelicidade – havia um fantasma pairando em nossas cabeças, um fantasma doloroso e pesado que, eu sabia, provavelmente não sairia dos nossos ombros tão cedo.
Como a família impune, antiga e tradicional que supostamente fomos, seguimos juntos, os três, em um mesmo ritmo e passo, a diante, pelo caminho de pedras de mármore branco, não nos atendo aos corpos jogados pelos jardins ou mesmo pelo cheiro de podre no ar. Meu pai foi à frente, passando pelos corpos da escadaria, sem direcionar seu olhar acinzentado de uma tempestade forte nos corpos jogados nas laterais, guiando minha mãe que se deixava notar horrorizada, levando sua mão ao rosto, completamente chocada ao notar tamanho estrago.
Desta forma subimos a escadaria, e entramos em nossa casa – que fora até então palco para toda aquela carnificina, e tudo ao ponto de que? Com que intuito? Com qual razão? E tudo a troco de que? Vendemos nossa alma, nossa família, nossa sanidade e todas as nossas crenças em troca de poder? De um poder que nunca de fato nos pertenceria? A um suposto sangue limpo?
Parecia tão injusta que minha vida houvesse sido tão abandonada e esquecida, e que meus anseios mais infantis não foram respeitados por uma razão imbecil que nos levaria à decadência, e quem diria que um dia meu quarto não me pareceria mais um lugar tão saudável e satisfeito como eu planejei que fosse, em meu ultimo ano. Não poderia ficar pior poderia? A morte daquele que não se deve ser nomeado além de ter um significado diferente, significava um pouco mais para mim – significava a liberdade. A liberdade da minha família de uma servidão doentia e sem sentido, por um status há muito não existente.
Significava que eu finalmente teria o direito de viver, e que se ser puro sangue, um Malfoy e ter todo o status me custaria isso, então eu finalmente iria fazer a minha primeira escolha.
Eu formaria a minha própria família, eu iria para algum lugar calmo, sossegado – provavelmente Godric’s Hollow – me casar, ter meu emprego e me virar por minha conta, eu queria ser valorizado, ter algo para sentir orgulho de mim mesmo, algo que pudesse aliviar o peso que eu carregava nos ombros. E se eu pensava em família, o rosto dela me vinha automaticamente à mente.
Seus cabelos nos ombros, despontados, repicados com uma franja caída nos miúdos olhos verdes – tão verdes quanto os do Potter. Ela era baixa, bem baixa e tão magra quanto uma garota pudesse ser sem parecer doente – não devia alcançar sequer a altura do meu peito, e abraçá-la era imensamente bom porque eu sentia que eu podia protegê-la, eu a cobria por inteira. Eu a cobria com meu corpo, e com um sentimento o qual nunca fui homem de assumir. Eu o faria agora, pegaria suas mãos pequenas e macias com unhas roídas e diria o quanto tê-la ao meu lado seria importante para mim. Depois de tudo aquilo, tornou tão fácil descartar a outra, tudo o que era meramente superficial já não fazia mais a minha cabeça, e o arrependimento por todas as escolhas erradas – por melhores que houvessem sido durante o dado momento – começava a pairar acima da minha cabeça.
A outra era diferente. Ela também era baixa, porém não era esguia, tinha curvas – belíssimas curvas, para sua pouca idade. Seus cabelos eram enormes e lhe caiam pelas costas como ondas de cachos delicados e negros, sua pele alva tinha algo que curiosamente chamara a minha atenção: sardas. Claras e de um tom de laranja quase amarelado, eram pequenas – quase invisíveis, e finas. Salpicavam toda a região de suas maçãs do rosto, logo abaixo dos olhos – que eram intensamente azuis. Eu havia visto pouca coisa intensa em minha vida, mas aqueles olhos azuis eram algo que eu me lembraria até o ultimo dia de vida. Eles falavam por ela, faziam e demonstravam por ela, e a entregavam quando ela mentia. Seus olhos eram ligeiramente traiçoeiros, e, a meu ver, ela era toda feita de pecado, era a tentação caminhando em duas pernas grossas quase em uma dança te chamando para a sua treva e o seu fim, que jazia ali, com seu corpo pressionado em cima do dela.
Era ridículo como eu suava só de me lembrar, e mais ridículo ainda que eu estivesse trazendo à mente memórias tão sórdidas após tanto sofrimento, especialmente quando a idéia de me casar com a que eu escolhera ter para o final dos meus dias pairava em todos os lugares à minha frente.
A destruição não era de todo ruim, no final, ela trazia a esperança de recomeçar, melhor e de uma forma mais bem feita.