She Wolf - Entre Deusas e Lobas
1 Roda Viva
Notas iniciais
Roda Viva
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Vidas se vão, novas almas nascem. Gritos de dor se misturam com gemidos de prazer, a vida vai caminhado tímida, mas nunca parando, do seu lado está sua irmã morte, certificado-se que nada tome para si o infinito. Tudo vai acontecendo e a Roda Viva não para de girar.
Guerras são terminadas, tratados de paz quebrados, irmãos se voltam contra eles mesmos, a grande mãe chora, mas não pode intervir pelos seus pequenos filhos, e uma pequena parte dela morre por causa disso. A Roda vê tudo, ela é tudo, e continua girando e girando.
Não se sabem quem surgiu primeiro, a Roda moldada pelo caos e o silêncio da paz ou a deusa mãe, aquela que nunca mostra a face, mas seu sopro refresca todos.
Reinos nascem e declinam e a Roda somente gira. E Arianrhod junto com o seu livro está lá sentada, não como se fosse a dona do destino, mas, uma serva simples. Cabe a ela impedir que a Roda pare de girar, para assim o mundo não cair em ruína.
~~*~~
A mulher de pequena estrutura e fortes traços rodopiava pela floresta com o seu livro de couro ao tiracolo. Estava indo para a Tábua Rósea, era a segunda lua cheia do ano, tempo muito bom para previsões. Dava passos pequenos e tranquilos, eram tempos de paz, a Roda estava calma, as tribos viviam tranquilas no território céltico, parecia que todos depois de centenas de anos, tinham encontrados seus lugares.
Não tardou para Sulis chegar no Rochedo de Duas Pontas, a viajem tinha sido longa, mas compensava por toda beleza avistada em seu caminho. Pensou em banhar-se em uma das fontes termais, entretendo as fênix já desciam do céu, sinal que já vinha o anoitecer, foi logo em direção a grande tábua.
A passagem era verde e o terreno vasto, olhando para aquela clareira, olhava-se para o infinito, a grama, as árvores robustas, os seres ao redor, o vento alisando o rosto com uma ternura fraternal. Não era para todos aquele cenário. A deusa mais do que todo mundo sabia disso, então caminhou até o seu destino.
Cumprimentou Hij, o chefe dos faunos, e foi colocando suas mãos na grande pedra em formato de mesa com os mais diversos escritos. Sulis é a dividade da profecia, não se lembrava como era sua vida antes de ser uma deusa, se é que ela teve uma. As visões acompanhavam seu dia a dia, faziam parte do que ela era. Usualmente eram pequenas e rápidas, sobre coisas banais. Então, uma vez por ano, na segunda lua cheia, acontecia sempre uma grande profecia, a esgotava tanto que se via obrigada a ir para Tábua Rósea, o lugar protegido pelos faunos, onde se guardava o futuro.
Fechou os olhos, seu corpo foi tomado por uma sensação tão bem conhecida. Quando abriu suas pálpebras, estava em um lugar diferente, demorou muito para perceber que estava no Santuário de Stonehenge, mas precisamente de frente ao templo da deusa mãe, Dana. Demorou mais do que deveria para se situar, já que tudo ao seu redor se encontrava em ruínas recentes. Via corpos mutilados no chão, as mais diversas criaturas e humanos decepados. Mas na frente avistou o fogo e junto um cheiro de carne queimada adentou suas narinas, uma ânsia de vômito apoderou-se do seu corpo. O que tinha acontecido na terra protegida?
Procurou algum lugar para sentar-se, porém toda grama estava pintada de vermelho. Pensou que estava tendo mais uma visão sobre a grande Guerra Escarlate. Onde os nascidos romanos quebrarão o tratado de Cardem, e acabarão com o povo de Dana. Então começou a reparar nos rostos dos mortos e dos feridos, reconhecia queles rostos, eram licantropas, fadas, elfos, até alguns humanos, mas nenhuma alma romana, eram irmãos lutando contra irmãos. Já tinha previsto centenas de finais assim, e nunca se acostumava com o cheiro do campo de batalha.
Andando mais para frente, tropeçou em uma loba sem vida. Sua queda foi amortecida por algo frio, algo gélido. Abriu os olhos e se viu com a garganta cortada e uma poça de sangue ao seu redor. Um grito de horror fugiu da sua boca, era a primeira vez que tinha previsto sua morte e esperava que fosse a última. Ainda tonta, se recuperando do choque, vagou tentando encontrar a causa do caos.
Alguma coisa estava diferente, o ar em volta estava sufocante, mais pesado, mais mágico?
Morte e magia, aquilo só poderia significar uma coisa, ou melhor, alguém.
Há alguns anos, Sulis previu que o mais novo general romano, Cecilius, partiria para o continente a dentro em busca de conquistar todas as tribos celtas e se tornar o homem mais poderoso do império. Sulis sabia que nem se todos os clãs se juntassem poderiam ser pários para os filhos de Marte treinados na cobiça e ódio. Pela primeira vez achou que tudo estava para acabar. Ela só não esperava por Cardem.
Cardem, o urso. O protegido de Scath, a deusa guerreira do submundo. O que defendeu junto com seu exército de exilados, seu povo da primeira grande invasão romana. O mesmo guerreiro que deixou o poder subir a sua cabeça. Cardem tinha virado um herói para seu povo, graças ao seu conhecimento militar, tinha ganhado diversas batalhas e, por fim, selado um acordo de paz. Mas a glória e o reconhecimento que viam com seu nome já não era bastante para ele. Cadem queria ser coroado rei de todos os povos, o que era ilógico, e a herdeira de Zynn foi a primeira a lhe dar um não. Como ele, um humano, queria ser o rei de todas as raças? Eles não tinham nenhum rei, porque nunca uma só pessoa ou criatura poderia entender a necessidade de todos. Eram filhos da mesma terra, mas com desejos diferentes. Eles viviam cada um com seu próprio líder a séculos, não existia motivo para mudar tal coisa.
Mas Cardem não se deu por vencido, queria poder e faria de tudo por ele, se não poderia fazer Biccer, a herdeira de Zynn, mudar de ideia, porque ela precisaria existir então? Quem não respeitaria o homem que desafiou o equilíbrio do universo e ganhou? Até os deuses o temeriam. Estava cego demais para perceber a consequência do seu plano.
Mas seus aliados não. Boa parte de seus homens tinham morrido no campo de batalha, e os soldados restantes só queriam voltar para os eu lares, e esquecer os horrores do campo de batalha. Fora que, ninguém em sã consciência desafiaria o equilíbrio de tudo e todos.
Cardem estava sozinho, desacreditado por todos não tinha mais sua influência. O conselho de todas as raças o julgou e mandou para o exílio. Parecia que todo aquele pesadelo tinha acabado. Ninguém ouviu falar dele por treze anos, mas, no fundo, não acreditavam que ele tinha morrido ou desistindo, muito menos Biccer. Nos últimos anos sentia que a magia estava diferente. Quando se faz um feitiço a magia apenas muda de forma, continua pertencendo ao universo. Percebia agora que a magia estava mais dispersa, como se uma parte dele estivesse separada das outras. A herdeira de Zynn sabia que estavam usando magia pura e transformando em impura, usando para um motivo egoísta. Cardem tinha se reunido ao povo das sombras, habitantes do outro mundo, e usaria isso para acabar com todos que se meteram no seu plano.
E ele conseguiria. Sulis teria que agir o quanto antes.
Saiu da profecia, estava muito fraca, se Hij não tivesse a segurado em seus braços, ela cairia no chão. Tudo ao seu redor estava girando, sentia que essa visão tinha sido a mais forte, e não queria outra como essa por muito tempo.
— Hij. — O som quase inaudível comprovava sua fraqueza.
— Por favor minha deusa sente-se, a senhora nunca passou tanto tempo lá como hoje, sabe como isso pode ser perigoso, muitos enlouquecem, eu sei que com deuses é diferente, mas não precisamos arriscar. — Ela deu um riso doce em resposta, mesmo depois de anos, Hij ainda se preocupava.
O dois foram até o posto de guarda, uma construção de pedras selvagens e um telhado de palha trançada, lá Sulis bebeu um pouco de água e recuperou seus sentidos. A sala era rústica, paredes de pedras e sem muitas decorações, porém a presença de Hij deixava tudo mais confortável.
— Os seus olhos ainda não estão calmos. — O fauno sentou do seu lado. — Me conte.
— Eu não tenho tempo agora, mas te explicarei ao decorrer do dia, preciso do seu corvo mais veloz. Mandarei uma carta para Biccer, Cardem conseguiu aliados, ele está voltando. — Sulis esperou que o fauno move-se, o que não aconteceu. — Hij? Não temos tempo. — O fauno teve sua expressão transformada, seu corpo tendeu para trás, passou a mão pela barba. Agora era a hora da verdade.
— Sulis, um corvo chegou essa manhã. Cardem a matou.
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