She Wolf - Entre Deusas e Lobas

3 O vento traz alguns segredos


Notas iniciais
Oi gente, demorei um pouco, porque esse capítulo apresenta muitos personagens importantes, as deusas, e para ser o mais historicamente preciso, estudei muito sobre elas. Enfim, espero que vocês gostem ♥

O livro de couro a encarava, esperando que escrevesse nele a mais nova profecia. Sulis acariciou a capa com desenho do nó celta em alto-relevo. Abriu-o e passou seus dedos finos pelas páginas amareladas até chegar em uma que ainda não tinha nada escrito. Não era costume do seu povo escrever, preferiam a oralidade, mas os livros sagrados eram uma exceção.

Pegou o pequeno pedaço de osso lapidado e uma mistura de corantes, os mesmos que usou para mandar o aviso de convocação para as outras deusas, e se pois a escrever tudo que tinha vivenciado horas antes.

— Está tarde, é melhor eu ir. — Arrumou de volta as coisas na mesa rústica de madeira. Amarrou com finos barbantes os bilhetes sobre a reunião em alguns corvos. Foi para o lado de fora e soltou as aves. Em silêncio pediu para Dana que todas chegassem no lugar certo. Retornou para o posto de guarda, e se deparou com o fauno lhe encarando.

— Não, não está tarde para você. Sulis, você é uma deusa, tem todo o tempo do mundo. — Hij aproximou-se dela, quebrando a distância que recentemente foi construída entre eles. — Porque você quer ir embora? — Suas palavras traziam muito mais do que eram. — Fique aqui até manhã. Não parece em condições de prosseguir em viagem.

— Eu não quero! — Sulis não esperava que as palavras saíssem da sua boca como um grito. Deixando os dois sem nenhuma reação a não ser se encararem.

O corpo de Hij se contraiu. Ficando em estado de defesa. — Não adianta descontar em mim. Eu não sou a razão disso.

— Por favor, não tem nada a ver com nós. Tudo está acontecendo tão rápido, tão confuso... Eu perdi duas das minhas melhores amigas, eu vi a minha morte. E você quer simplesmente que eu tenha um sorriso no meu rosto? Não faça isso sobre nós.

— Não. Isso também é sobre mim. Se acontecer outra batalha, eu vou ser convocado. Olhe para mim Sulis! — A deusa nunca tinha visto aquela expressão nos olhos dos outros, uma sensação de medo subiu pelo seu corpo.— Eu estou velho, cansado. Há anos só venho guardando a Tábua Rósea. Você acha que eu aguento mais uma guerra? Eu vou morrer se o plano de Biccer não funcionar. — Tenho essa certeza. Ao menos não deixo isso me dominar.

— Nisso você está certo. Vai morrer. Já nasceu sabendo disso. Sua existência toda gira ao redor desse fim. Mas eu não. Eu não morro. E o que conseguiu me matar, alguém que era para ser imortal, me assusta muito.

Não precisou continuar. Todos estavam sofrendo sua própria dor, trazer ela de volta para superfície, não seria nada inteligente. — Estamos com os ânimos fortes e se continuarmos nessa discussão, não faremos nada além de nos machucarmos. Nem eu, nem você queremos isso. Queria que você descansasse um pouco, mas, se você sentir que é melhor partir, eu não vou lhe impedir.

Trégua.

Ela enxergou novamente ternura na face do amigo, sorriu. Não demorou para se despedirem. O tempo que viajasse sozinha, iri acalmar sua mente.

~~*~~

Arduína estava sentada sobre um belo cervo de enormes galhadas, segurando um arco e flecha esperando que algum javali passasse. Seus cabelos vermelhos e cacheados queimavam sobre o vento. Em sua cabeça estava uma tiara com pequenos desenhos de lobos. A parte de cima da sua vestimenta era feita de um metal dourado, como uma armadura que moldava perfeitamente em seu corpo. O mesmo material também estava presente nos seus braceletes e no broche que prendia sua capa verde. Já na parte de baixo, usava uma confortável calça de linho. Tudo a sua volta parecia calmo, os passarinhos descansavam nos grandes carvalhos e os peixes nadavam livres no rio, então ouviu um bater de asas já conhecido.

— Eu não me recordo de nenhuma batalha nas minhas terras. Então, o que te traz aqui Badb? — Disse rispidamente guardando seu arco. Não gostava de nenhuma interrupção quando estava caçando e todos sabiam.

O corvo que tinha pousado em uma pedra a margem do rio, se transformou em uma mulher de longos cabelos negros presos em uma trança, deixando visível uma cicatriz que corria desde embaixo do seu olho esquerdo até seus lábios finos, estava pintada com linhas azuis típicas de uma batalha, nunca sabia quando precisava empunhar sua espada. Curiosamente não usava seu traje de guerra, mas sim um vestido longo e recobertos por penas tão escuras quanto o breu da noite. — E eu não me recordo de vossa senhoria ser tão mal educada. — O tom irônico era precipitável na voz da deusa guerreira da morte. — Sulis fez uma profecia grande há algumas noites e achou melhor reunir todas nós.

A deusa do bosque rangeu os dentes, mas antes que falasse algo, a própria Sulis apareceu, um pouco de paz.

— Por Dana! — A deusa da profecia tomou partido da briga. — Não seja rancorosa Ard, isso faz mal para o seu coração.

— Conte logo o motivo dessa maldita reunião. E não me chame de Ard, não somos mais crianças. — A caçadora não escondia a raiva por ter sido interrompidas pelas irmãs deusas.

— A roda viva. Esse motivo é bom o suficiente para você? — Arianrhod vinha montada em um cavalo majestoso, seus cabelos castanhos selvagens contrastavam com os traços simples do seu rosto. Em seu copo estava uma longa túnica branca sem mangas, acinturada apenas por um barbante de ouro. Seu pescoço era ornamentado por um colar de contas de vidro prateado. Logo atrás estava Andrasta acompanhada de Marte, seu marido, ambos trajando armaduras romanas, o que causou um desconforto nos presentes.

— Vocês não julgam os filhos pelos pais. Então não julguem o pai pelos filhos. — Andrasta não precisou que as outras comentassem sobre a presença do seu marido, sabia que o mesmo não era tão bem-vindo. E vocês não reclamaram antes.

— E olha o que aconteceu não é mesmo? Eu que o diga. — Badb revirou o passado. E lançou um olhar para Ardennes.

— Não me culpe, não foi uma decisão minha. — A outra comentou. — E Isso virou uma festa! — Deu uma risada sarcástica e desceu do cervo. — Agora me diga minhas irmãs, porque todas vocês estão aqui nessas terras. — Fez questão de não citar Marte, o ódio por ele ainda ardia em seu peito.

— Bem. — Sulis quis quebrar o clima denso que tinha se formado entre todos os seis. — Eu tive uma visão.

— Que poderá acarretar em uma batalha terrível. — Badb proferiu. — Temos certeza que o sangue de inocentes vai ser derramado, de uma maneira ou de outra.

— O equilíbrio da Roda Viva está em jogo. Nossa existência está em jogo! E precisamos da sua ajuda. Acha que isso não é motivo suficiente? Arianrhod não escondia seu medo, era guardiã do artefato desde do início das eras, não queria imaginar o que aconteceria com a quebra da roda, depois de tantos séculos, estava muito ligada aos seres terrenos.

— Preciso de sua permissão para treinar a futura escolhida, Targonne, Biccer explicou em uma carta destinada a Sulis, que ela vai ser a guardiã das herdeiras, mas temo que a menina precisa de muita ajuda para manusear uma espada. — Andrasta sorria para todos, principalmente para Marte. — Ela será minha protegida.

— Futura escolhida? Permissão? Vocês estão me enlouquecendo isso sim. — Arduina se sentou no chão forrado de folhas secas, não se incomodou com os galhos arranhando suas coxas, pelo visto tinha muito mais problemas do que isso. Por que não mandam logo alguém atrás de Cardem? Se ele matou Biccer, não deve estar muito longe.

— Cardem está mais inteligente, está mais forte do que qualquer outro homem conseguiu, ele usa os poderes nefastos da deusa além da floresta, as sombras o escondem, fica impossível de localizá-lo, só sabemos que está sempre a espreita.

— Mas não podemos pedir ajuda para Dana? Ela é a Deusa, mãe de tudo.

— Com muito pesar e dor no coração, disse que não faz as regras, não é nossa natureza interferir tão diretamente nas coisas, seria fácil demais.

— Além disso. — Arianrhod interrompeu. — Qualquer mínima ação nossa agora pode enfraquecer ainda mais a Roda. — Não escondeu as lágrimas que desciam tímidas dos seus olhos.

— Enfim — Andrasta continuou. — A única coisa que sabemos que ele está ligado a muito magia e ao submundo.

— E você não pode fazer nada Badb? —A deusa da caça virou-se em direção a outra, buscando uma resposta.

— Arduína, até que milênio eu vou ter que repetir que não mato pessoas, apenas trago a mensagem que a hora está próxima. Eu não corto suas cabeças, só lhes acompanho na travessia ao outro mundo. Eu não lhes tiro o ar, apenas seguro em suas mãos, consolado-os. Eu sou o presságio. — Bad poderia ser temida como tal dom, mas não deixava em momento nenhum de ser sábia, e assim conquistava o respeito daqueles que andavam do seu lado. Embaixo de sua aparência austera e fria, escondia um coração poderoso. — Além disso, carrega em seu pescoço, um pequeno pote com uma poção de ambrosia, amarrado como se fosse um colar, o que aumenta sua expectativa de vida. Mas, ninguém me engana por muito tempo.

A caçadora suspirou. — Vocês confiam mesmo na escolha de Biccer?

— Biccer era sabia. — Sulis mencionou. — Tinha certeza de tudo que fazia. Aceitou sua morte, pois sabia que as consequências dela permanecer viva, iriam ser piores. Se ela disse que Targonne, é a pessoa certa para isso, não podemos pensar diferente.

— Para onde a licantropa vai levá-las?

— Stonehenge, estarão seguras lá. E depois a loba voltará para sua tribo sã e salva também.

— Eu espero. Não quero perder mais ninguém — Arduína não queria repetir o velho erro que assombrava todos os seis. — Mas ... Não é só isso que tem a dizer, não é Sulis?

— Sim. Eu conversei com Hij, tínhamos algumas desconfianças. E enquanto eu vinha para cá, os ventos traziam sussurros, o acontecimento pode ter sido uma emboscada para tirar a coroa de Frenhines, suas filhas só não tinham ido nessa caçada, porque resolveram ajudar com as crianças recém-nascidas. Hij não duvida que tem um traidor entre nós, e que a intenção dele era que toda a família dela morresse, deixando a coroa vaga.

Todos os seis se entreolharam, mas não tiveram coragem de mencionar nada. Arduína montou novamente no cervo e partiu floresta a dentro, não sem antes permitir, o destino de Targonne. Aqueles eram tempos difíceis,

~~*~~

Nalester, rainha das lobas, avistava o horizonte vasto e montanhoso do território que sua tribo habitava. Seus cabelos negros e grossos estavam soltos. Apesar de não ser muito mais velha do que vinte invernos, sua expressão era rígida, o que contrastava com a maioria das suas atitudes. Seus olhos amarelados se destacavam na sua pele oliva. Seu nariz anguloso tinha perfeita harmonia com o resto da sua face. Sempre fora linda, uma beleza selvagem. Era indomável, como uma loba deveria ser, por isso ninguém foi contra sua coroação. — Você pode ser uma deusa, mas, com certeza, não tem a sutileza de uma. — Ouviu de longe alguns galhos se quebrando. Sorriu e indicou um lugar ao seu lado para que Arduína sentasse.

— Não concordo, ainda sou a melhor caçadora, você que tem um ouvido muito bom. — Foi a vez das duas rirem.

— Preciso conversar com você.

A expressão da outra mudou, assumindo um aspecto de rigidez e preocupação. — Da última vez que veio conversar comigo, foi para dar a notícia que a minha mãe estava morta.

— Desculpe-me. Passou o braço pelos ombros da mais nova, puxando para um abraço fraternal e protetor, lhe beijou a testa. — Mas hoje também não são lá boas novas.

Explicou a ninfa tudo, desde a profecia, até a escolha de Targonne, e como a irmã mais nova teria a responsabilidade de salvar a todos.

— Parece muito, colocar toda uma nação nas costas de uma menina, mas eu preciso que vocês aceitem. Sua mãe compreenderia.

— A senhora confia em nós há anos para tomar conta dessas terras, agora não deve ser diferente.

— Tome cuidado — Não tinha coragem de comentar sobre a desconfiança, cada vez mais forte, que a morte da sua mãe, não tinha sido um simples incidente.

— Não se preocupe, eu já estou. — Acenou com sua cabeça e deixou a deusa sozinha no penhasco.

— Por favor, eu não quero perder você também. — Arduína sussurrou. Não poder fazer nada era o que mais doía.

Notas finais
Gente, o feedback de vocês é muito importante, o que estão achando?