Elizabeth olhou para o médico, sem falar nada. Ethan sentou-se na cadeira de frente à garota, mexendo no papel.

— Bom, ainda não tive tempo para ler sua ficha, farei mais tarde. — Olhou nos olhos azuis dela — Apenas vi que hoje é o seu aniversário. Meus parabéns!

Silêncio. Elizabeth olhou para ele e pensou em sorrir, mas achou melhor não. Parabéns porquê? Completar vinte e três anos em uma clínica sem chances de sair? Se esse for o motivo, parabéns Elizabeth!

— Você não vai falar nada? — Ethan perguntou e Elizabeth desviou o olhar.

Olhou para o retrato de sua mãe pela segunda vez no dia. Aquele vestido vermelho que a garota conseguiu recuperar depois de parar em casa sem que seu pai soubesse, os cabelos loiros e lisos, os serenos olhos azuis... Sem dúvidas elas eram bastante parecidas.

— Posso ficar aqui falando, mas, para que a terapia do paciente seja realmente do paciente, você precisa falar algo. — Ethan insistia — Você não quer sair daqui?

A frustração era evidente no rosto do médico. Seus olhos castanhos estavam adquirindo um ar mais nervoso. A maioria de gente daqui gostaria de sair o mais rápido possível, falando o tempo inteiro. Mas ela não. Para ela, parecia não houver a mínima diferença entre ficar no Mayden e sair dele. A garota sentia-se mal por ignorar o médico. Mas ara algo totalmente novo abrir-se para alguém, era totalmente diferente para ela. Nem Byron, que a acompanhou durante os cinco anos sabe da vida dela.

Elizabeth suspirou, conseguindo a atenção de Ethan. Sentiu seus olhos enchendo de água, mas não iria chorar. Apenas desviou o olhar para a janela novamente e olhou o céu.

Ethan sentia-se cada vez mais intrigado pela mulher, que reagia como se ele não estivesse no local, fazendo perguntas para ela. Olhou para o relógio e viu que tinham mais dez minutos. Mais dez minutos de silêncio, onde Elizabeth não faria nada, não contaria nada.

— Olha, senhorita Parker. — Ele falou suavemente — Eu não sei o que aconteceu com você para você estar aqui. De verdade. E, pelo visto, ninguém sabe. Avaliarei sua ficha com paciência em minha casa, para, quem sabe, conseguir fazer com que você expresse.

A garota olhou para ele. Não era um olhar de desprezo, como dava para as outras médicas. Era um olhar de curiosidade, como se algo nela estivesse querendo que o médico contasse mais.

— Minha mãe vivia me dizendo quando eu era pequeno para que eu contasse todos os meus pesadelos. Mal sabia eu que isso funcionaria para as frustrações e enrascadas da vida. — Olhou levemente para baixo — Quando eu contava tudo de ruim que aconteceu em minha vida, tive momentos de vulnerabilidade, claro. Porém, depois da vulnerabilidade, veio uma sensação de tentar mudar, de tentar fazer diferente, a vontade de superar todo o passado e não fazer o mesmo erro no futuro.

Elizabeth, em um impulso, segurou a mão direita dele, que estava parada no joelho do médico, que sorriu em troca do gesto. Como em um gesto de apoio e agradecimento, colocou sua mão esquerda sobre a mão da garota, fazendo uma espécie de carinho na palma da mão da mesma.

— Não vou te obrigar a falar, também não contava tudo para quem pensava em me ajudar. — Ele levantou a cabeça, fixando seu olhar no dela novamente — Mas não saberei como te ajudar se você não falar.

O relógio completou dez horas.

— Tenho que ir agora Elizabeth. — Levantou-se com delicadeza e Elizabeth acompanhou-o com o olhar até a saída — Até amanhã.

— Obrigada. — Após pensar seriamente se falava ou não, foi vencida pelo sim, se arrependendo logo em seguida.

— Estou aqui para te ajudar. — Ele respondeu e fechou a porta.

Ela sentia-se estranha após a consulta. Ficou durante cinco anos prometendo para si mesma que não iria desabar novamente, mas pela primeira vez em cinco anos sentiu esperança e firmeza de seguir em frente.

Deu um suspiro longo e abriu o guarda roupa. No fundo dele havia uma mala e, no fundo dessa mala, havia uma carta, que fora lida e relida inúmeras vezes, mas aquele não era o momento para ler a carta inteira novamente. Apenas concentrou-se em uma frase.

"Espero que você entenda que é para o seu bem Elizabeth. Nós dois te amamos muito. E sempre vamos querer o seu melhor".

Como estava se culpando por ter falado apenas um "obrigado", ouvir os tios falando não seria má ideia.

Saiu do seu quarto descalça, com a roupa do hospital, já que havia recusado a proposta de Byron para "vestir algo legal". Era a primeira vez em meses que saía do quarto, a primeira vez que sentiu que poderia ter controle sobre suas ações. A sensação de seus pés tocando no chão de madeira e suas mãos tocando na parece branca e lisa era estranhamente magnífica.

Caminhou pelo corredor, observando o céu lá fora. O sol brilhava como se não houvesse amanhã. Sorriu, pensando que meia hora atrás não teria nenhum motivo para sair do seu quarto ou falar "obrigada" para seu médico.

Ao chegar no balcão de assistência geral, tocou a sineta e esperou uma atendente qualquer.

Uma mulher de cabelos negros e compridos, com uma pele morena chegou no balcão. Elizabeth olhou no crachá e leu "Dra. Valdez". Já ouvira falar de Isabelle Valdez. Noiva de Joshua Montez, a médica cuidou de sua última colega de quarto, que sempre falava o quão legal era. Como era um quarto para duas pessoas, os pacientes caminhavam até o consultório. Mas, com o passar do tempo, Isabelle foi promovida e agora parece ser como Ethan, que atende no quarto do paciente.

— Senhorita Parker? — A médica assustou ao ver a paciente, mas Elizabeth não levou para o lado pessoal — Você... Está precisando de algo?

Como nunca havia saído do quarto, não estranhou da médica falar de uma forma tão assustada.

— Eu... — Começou — Queria falar com os meus tios. Ligar para eles, só para ver se está tudo bem. Afinal, fazem cinco anos desde... Bom, você sabe.

— Vou ver aqui na agenda. — Falou — Teve sorte que o horário de ligações dos pacientes é de 10:00 até 11:00, nunca vi você por aqui.

Silêncio por parte da paciente. Claro que a médica estava tentando ser gentil e isso era estranho para Elizabeth. Em troca da gentileza, esboçou um sorriso.

— Está chamando, vou passar para você assim que atenderem — A médica sorriu e esperou a ligação ser completada, o que não aconteceu — Estranho, eles não atendem.

A garota não sabia se isso era bom ou ruim. Eles poderiam tanto ter se mudado quanto estarem a caminho da Mayden. Mas, conhecendo seus tios, desconsiderou a segunda hipótese.

— Eu posso tentar? — Arriscou — Não que eu não confie em você, é só que... Quero ter certeza.

— Não posso revelar o número, apenas discar e deixar que você fale logo após.

— Tanto faz.

Isabelle discou o número e passou o telefone para a paciente. Esperou segundos até dar a chamada da caixa postal. Normalmente iria cancelar a chamada, mas continuou. Mesmo que não houvesse garantia que seus tios iriam ouvir, queria pelo menos tentar.

"Você ligou para Margareth e Franklin Stone, por favor deixe seu recado após o sinal e retornaremos assim que possível".

— Tia Maggie... Tio Frankie... Sinto saudades de vocês. Cinco anos se passaram e... — Desligou, seus olhos foram tomados por lágrimas. Colocou o telefone no balcão acinzentado — Obrigada.

Correu para o seu quarto. A primeira reação ao chegar no lugar foi querer nunca mais sair da sua cama. Não conseguiu completar a ligação, queria apenas um sinal dos tios.

Ethan estava anotando incansavelmente tudo o que Daniel Green falava. Ao contrário de Elizabeth, o garoto falava sem parar.

— Eu entrei aqui mais para me sentir livre, no estilo "Vamos lá, você só vive uma vez", mas ai eu entrei e fiquei pensando "Esse lugar é chato pra caramba".

Daniel era um surfista de vinte e um anos, foi internado por causa de problemas com a maconha. Tinha cabelos loiros e curtos, usava uma blusa mais justa, uma bermuda e um chinelo e tinha pele era levemente bronzeada.

— Você é meu primeiro médico e, cara, que estilo massa. — Comentou — Não estilo de roupa, porque roupa de médico eu não usaria nem se me pagasse, mas sabe mano, se seu cabelo continuar dessa altura e você tiver um lado "woo-hoo", quem sabe eu te ensino a surfar?

— Irei cobrar isso Daniel. — Brincou — Mas me diga uma coisa, por...

— Por favor, pare de falar como um engomadinho que usa palavras difíceis para se mostrar. Manda a boa, bro! Não quero precisar de forçar o Google Tradutor dentro de mim!

Suspirou. Teria que usar uma linguagem praticamente desconhecida por ele. Se fosse um nerd, poderia até arriscar a linguagem dos elfos de O Senhor dos Anéis, mas um surfista era totalmente diferente.

— Então, colega. — Começou — Qual foi o motivo para você usar essa parada da maconha?

Pediu mentalmente para que não houvessem câmeras nos quartos e que ele entendesse.

— Poxa cara, a erva era a melhor. Lembro de dar uma tragada e me sentir tão zen que eu iria flutuar, sacou? Falando na ervinha, tem uma aí para dividir comigo?

— Infelizmente não parceiro, só que aqui a banda toca de outra forma. — Ethan estava se sentindo ridículo falando assim, mas como era a única forma do seu paciente entender, continuou arriscando — Aqui vamos fazer com que você veja que a "ervinha" não é uma parada legal.

— Mas "há males que vem para o bem", já diria... Já diria... Enfim, alguém falou essa frase doida para caramba.

— E há males que podem te destruir.

— Tipo "Ka-boom"?

— Sim, dessa maneira.

— E como eu faço para isso parar doutor bro?

— Vai ter que ficar aqui por um tempo, assim que você estiver zero bala, vai ir para casa. Fechado?

— Fechado doutor bro! — Sorriu — Nunca pensei que eu poderia me sentir bem sem a ervinha! Valeu mesmo!

— Não há de quê!

Olhou para o relógio e viu que haviam se passado as meia hora da consulta.

— Bom, meu tempo hoje se esgotou cara, mas tem amanhã, ok?

— Doutor bro, você falando assim me enche de orgulho!

— Bom... Obrigado Daniel.

Saiu do quarto do paciente firmando seu desejo de que não tenham câmeras nos quartos.