She Lives With Demons
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Sophia estava no carro, a caminho da festa de dezesseis anos de sua melhor amiga. As luzes da bela New York cintilavam ao lado de fora de sua janela, mas ela não tinha tempo para isso, estava ocupada demais retocando a maquiagem com o mini-espelho de seu estojo de sombras.
Dizem que a vaidade é algo bom, mas a de Sophia ultrapassava os limites. Coisas da idade, qualquer um diria, mas sobre ela, rondava uma extrema insegurança. Em seu coração, algo dizia que ela precisava sempre ser notada. Sempre.
É claro, confesso que a mesma era uma menina muito bonita, porém não valorizava tal beleza e acabava deixando-se levar por essa visão distorcida de si mesma e essa extrema vaidade.
- Que trânsito dos infernos! – comentou com seu primo, quem estava dirigindo – Por que esses malditos turistas não ficam em suas malditas casas?
- E eles devem se perguntar porque você mora em New York, Sophia, relaxa, tem tempo ainda, são só nove horas. – Nicholas, primo de Sophia, era um garoto calmo e oposto a ela. Era incrível que compartilhassem do mesmo sangue, afinal, eram tão diferentes.
Ela apenas bufou, como sempre, estressada.
Nesse momento, soltei um risinho baixo, do meu lugar, no banco traseiro. Eles, é claro, não poderiam me ouvir, mas é fato que eu estava achando a situação muito engraçada. Eu sempre achava as bobagens que estressavam Sophia engraçadas, ela era a garota mais estressada que eu havia visto em minhas centenas de anos; mas por dentro, eu sabia, ela era uma garota fantástica, bondosa e muito meiga. Era só deixar a armadura cair.
O único problema é que a armadura nunca caía e Sophia continuava fazendo besteira atrás de besteira e por isso, eu estava seguindo-a novamente naquela noite. Ao entrar na festa, ela logo se deparou com a aniversariante e, sabe aquelas cenas de filmes de garotinhas mimadas que se encontram e fazem muito “fiasco”? Então, isso aconteceu.
Nada fora do normal, mas nada cheirava bem naquela festa. Talvez fossem as bebidas caras que os pais de Vanessa, a tal melhor amiga, desaprovavam, mas não deixaram de comprar para impressionar os amigos da filha, ou a mistura de tantos perfumes vindos de pessoas super arrumadas. Mas algo deixava meu olfato irritado.
E isso nunca é um bom sinal.
Porém, não dei importância alguma a isso, de início, teria tempo para resolver qualquer possível confusão em que Sophia pudesse se meter; ou achava que teria.
Corpos suados, pessoas dançando e casais se agarrando. Eu fiquei sentada, em uma cadeira cinza e sem graça, no canto do salão. Volta e meia, quando eu era vista, alguém me oferecia uma bebida, mas eu apenas recusava e continuava ali, sentada e quieta.
Mas minha mente se focalizava em muitos dos corpos suados e dançantes, dentre esses, dois possuíam a face embaçada e expressões perturbadoras. Eram pessoas más; um garoto e uma garota, capazes de arruinar tudo. Esses eram aqueles com os melhores perfumes, que mais atraía a qualquer um que entrasse em seu “radar”.
- Lena! – A voz fina da Sophia me encontrou, — aí está você! – exclamou e tocou em meu braço, o que gerou um calafrio. Sophia estava em perigo, eu simplesmente sabia.
- Cá estou eu – dei um sorriso tímido, daqueles que não são forçados, mas também não são lá muita agradáveis aos outros.
- Você não vem dançar? – Ela já enrolava a língua depois de vários drinques. Aos dezesseis anos, ela nem poderia beber legalmente, mas nas exceções em que escapava da mira dos pais, Sophia exagerava.
Apenas balancei a cabeça.
- Ah, vem! – Ela tocou em meu braço de novo, outro calafrio.
- Não, Sophia, estou bem, aqui. – Fui seca.
- Ui, grossa, tudo bem então – ela saiu cambaleando e praguejando contra mim, não pude evitar um riso, nervoso, porém divertido.
Essa fora a última conversa que eu tive, com qualquer pessoa, antes que a festa começasse a acalmar. Aos poucos noventa por cento dos convidados haviam passado pelo belo hall de entrada, em direção à saída; nessa hora, já se passavam das seis horas da manhã.
Por fim, destino ou não, sobraram cinco jovens, sete, se contarmos a aniversariante e eu. Sophia, Nicholas, Vanessa, Luke, Jeremy, Amanda e eu.
Nicholas tentava convencer Sophia de que estava na hora de ir, ele, apesar de mais velho, não havia bebido tanto quanto ela e conseguia pensar um pouco mais claramente; por mais que todos no recinto, exceto eu, estivessem quase que cambaleando pelos efeitos da bebida.
Eu queria gritar, “vamos, Sophia, Nicholas, temos que sair daqui!”; mas sabia que no momento que o fizesse, Sophia começaria a rir e todos zoariam a mim. Estavam todos “possuídos” pelo perfume de Luke e Amanda; os garotos do rosto embaçado.
Enquanto estávamos todos lá, enrolando para sair, comecei a ouvir trovões; o que me deixou muito impaciente. Sophia não parava de beber e dar em cima de Jeremy, Amanda e Luke apenas riam, Vanessa nem mais conseguia assimilar as ideias de forma correta e Nicholas estava tão impaciente quanto eu.
- Vamos, Sophia – falei, depois de tomar coragem.
- Ah, Lena! Deixa de ser chata! – Ela riu – não temos presa, a noite é uma criança.
- Sophia, já é manhã. – Fui seca, muito seca.
- E daí? Você tem compromisso? – Foi irônica – NÃO – aumentou a voz para fazer essa negação. – Então, por que a pressa?
- Se você for embora, no carro eu explico – prometi, afinal, não poderia contar o pressentimento sobre os garotos do rosto embaçado, ali, bem na frente deles. Na verdade, não poderia nem contar isso à ela, teria de inventar uma mentira... uma mentira muito bem bolada.
- Então não é tão urgente assim – ela sorriu e me puxou pelo braço, com força. Abaixando a voz, sussurrou com raiva em meu ouvido: — Eu estou quase conseguindo o garoto, para com isso, sua lerda.
Tudo bem, Sophia definitivamente não era uma garota meiga e coisa e tal, muito menos depois que o álcool lhe subia a cabeça. Mas mesmo assim, estava na cara que nem Jeremy a agüentava naquele estado. Não respondi, deixei que ela continuasse iludindo-se com um garoto que a trataria feito lixo. Depois disso, senti que era hora de ir para o meu canto e ficar lá, apenas observando.
Fale com o autor