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2 Vela assoprada. Fim da chama.
Notas iniciais
Acordo e ela está ao meu lado, lembro que ontem simplesmente ficamos quietas e dormimos logo após os "eu te amos" mal calculados. Eu não queria dizer como melhor amiga...ela entendeu errado, queria que ela me enxergasse do mesmo modo como enxerga Davi. Dou um suspiro e a observo dormir, por um minuto fico com medo de que seus cabelos incendeiem a cama e me façam ferver de vontade de Angie. A camisola subiu e me permite ver as pernas brancas e lisas...tão linda...tão sensual...ficar na mesma cama que ela era perigoso como brincar com fogo...mas eu juro por Deus que amaria cada segundo em que seus cabelos me fizessem arder.
ela ri -Que foi?
Me assusto e quase pulo.
–Nada...vou levantar. -pulo da cama e vou rápido para o banheiro.
–Por que está fugindo?- ela senta na cama, põe uma mecha laranja atras da orelha e morde o lábio inferior.
–Não estou.- Viro de costas e entro no banheiro.
Não escuto seus passos até que é tarde demais, ela está com o rosto no meu pescoço e diz ao meu ouvido- Sim...você está.
Me arrepio, não é frio, é calor...estou na beirada de um vulcão. Me viro e pulo na lava. O abraço é forte e meu rosto está em seu cabelo, respiro fundo o ar quente de sol de verão. Ela retribui o abraço e eu juro que nunca saberei exatamente o quanto a amo...ela é minha irmã de alma, minha melhor amiga...a mulher que eu queria...nunca sei o quanto ela é para mim posto que a cada dia me apaixono de novo e de novo, posso sentir ela crescendo em mim, o calor do meu sangue é ela pulsando.
–Eu te amo irmã. — Ela diz e isso vai me sufocando como fumaça...irmã...isso dói...não consigo respirar.
Ela se afasta e olha nos meus olhos bem de perto, é como tentar encarar o sol...faz meus olhos doerem mas vale apena pois é como mágica, depois de um único olhar dela posso ver brilhos coloridos em tudo assim como acontece quando olhamos para a luz.
–Vai.
–Aonde?
–Pro banheiro...você inicialmente estava indo pra lá.
–Aé...hmm...-viro e vou.
Estou escovando os dentes quando vejo a luz avermelhada no canto do espelho. Parece o sol poente. Parece a luz dela, viro-me e ela está parada na porta me olhando. Derreto. Viro-me novamente, lavo a espuma doce da boca e volto-me para ela...não está mais lá. Saio e lá na penteadeira a encontro...está penteando seus cabelos em chama. Meu coração treme e me perco na luz que me cega em uma imensidão de Angie. Sou chamada a superfície...vou emergindo da lava e desço com Angie para o café da manhã.
–Bom dia Olívia...filha...-ele curva a cabeça em saudação e sai porta a fora. A mãe de Angie, dona Luna nos dá um beijo e sai para o trabalho de atendente na farmácia da cidade.
Tomamos café e Angie escolheu nosso vestidos. Eram ambos floridos e delicados. Descemos novamente e escutamos ao mesmo tempo quando a chuva começou. Sorrimos uma pra outra, desde pequenas gostávamos de correr descalças pelas ruas em dias chuvosos, tiramos os chinelos e corremos sob a chuva gelada...dançamos na poça d'água. E ela estava linda...tão linda que de repente eu quis ficar ali para sempre. Meu coração doeu e senti vontade de chorar. Foi como se a água a estivesse tentado apagar. Como se a água estivesse tentado extinguir sua chama. Como se aquela dança fosse a última. Eu vi lá atrás o carro negro se aproximar. Ele chegou e parou ao nosso lado. Não. Não. As portas de trás se abriram e homens de preto nos puxaram para dentro. Ela soltou um grito mudo e então eles nos calaram. Quando a claridade voltou estávamos no bosque que havia na parte pouco habitada de nossa cidadezinha. Ela estava ao meu lado, estávamos no chão molhado de chuva, nossos vestidos estavam levantados, e os homens estavam nos violando. Eu quis gritar, mas eu estava...eu estava sem voz. Olhei pra minha melhor amiga, ela chorava seco...sua faísca apagou e sei que a dor foi muita e ela não estava mais lá. Eles terminaram comigo e se foram, e a chuva continuava a cair, nunca senti tanto frio. Rolei pra ela e me abracei no seu corpo...frio, seu cabelo estava castanho de tão molhado e eu soube que meu sol havia se posto. Iria ser noite pra sempre. Chorei como um bebê, nunca foi tão frio. Eu gritei de dor. Meu coração chorou sangue até que eu dormisse em seu corpo frio.
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