Shayuuh: Amor Impossível
1 Toda a fé que se precisa para seguir em frente!
Notas iniciais
Os pés em terra firme. Juuh acaba de chegar a São Paulo. Foi uma viagem de avião curta do Rio de Janeiro até São Paulo, fora um vôo tranquilo. Embora, para Juuh, as horas dentro do avião foram devastadoras, seu corpo rejeitava aquela cidade, não queria chegar nela de jeito nenhum. Estava trêmula, com medo, angustiada, se sentia enjoada, mas cheia de coragem e determinada para seguir adiante. Para poder lutar pelo amor de Shay, precisava falar com seus pais sobre o rumo da sua vida, os ocorridos do ultimo mês, sua questão sexual, compartilhar suas ambições. Juuh estava convicta que nada iria pará-la até conquistar seu objetivo: Shay!
Aquela era a rua, aquele era o prédio, aquele era o andar, aquele era o apartamento e aqueles sentados em sua frente eram seus pais em uma sala pequena, na qual só cabiam aqueles dois sofás, um de frente para o outro, e o móvel, onde ficava a tv e os dvds. Os pais perguntavam por coisas triviais e tentavam não chegar no assunto, o qual era para ser falado. Juuh tentava sempre tocar no assunto, porém a mãe ou o pai desviavam o rumo da conversa. Não aguentando mais a enrolação, Juuh toma a atitude e vai direto ao ponto.
– Devido aos últimos acontecimentos na minha vida, me mudarei para Curitiba.
– Vai se mudar? Mas você gosta tanto do Rio... – o pai sabia o “por que”, no entanto queria desviar do assunto, novamente.
– É filha... O Rio é tão bonito, tem belas paisagens, tem praias maravilhosas e pontos turísticos bem interessantes. E logo agora que nós iríamos te visitar... – a mãe continuava com que o pai começou.
– Mentira! Moro lá a 5 anos! Apenas nos primeiros meses me visitaram! Não iam me visitar. Aliás, vocês sabem que minha casa foi queimada! Vocês sabem de tudo! Sou gay! A mulher que eu amo reside em Curitiba, e não vai fazer questão de se mudar para o Rio!
– Se ela fosse realmente a sua alma gêmea, sacrificaria a vida em Curitiba por você. – disse a mãe.
– Ela não pode! E este sacrifício, esta prova de amor, quem tem que fazer sou eu! Eu tenho que ir atrás dela!
– Por que? Eu aceito sua decisão, mas por que você é quem que terá que fazer o sacrifício. – o pai estava confuso, sabia dos relacionamentos de Juuh, sua orientação sexual e tudo mais. Porém não sabia de detalhes, por exemplo, que a Shay vai se casar no próximo mês, ou melhor, que ainda era apaixonada pelo seu noivo.
– Na verdade... Tenho muitas coisas para contar, muitas histórias das quais vocês desconhecem, no entanto, só contarei se não questionarem nada enquanto eu falo. – Juuh olhou para o pai que acenou um sim com a cabeça, a mãe revirou os olhos e concordou. – Não é destes tempos que me interesso mais por mulheres do que por homens...
– Sempre soube, o modo de se vestir, o seu jeito de andar. Sempre! Nunca achei que você me traria orgulho para casa, sabia que nunca me daria neto, não sendo uma ‘sapatão’. – a mãe interrompeu Juuh, esta revirou os olhos e se segurou para não dar uma resposta feia a mãe.
– Pelo amor de Deus Leticia! Não é hora para seus papos ofensivos, não com a nossa filha, não neste momento, ou melhor, em momento nenhum você deveria agir assim! – o pai aumentou o tom de voz.
Quando a mãe foi abrir a boca para sua réplica, Juuh limpou a garganta e perguntou se poderia continuar.
– Como eu ia dizendo, e como mamãe sempre soube, sou gay há tempos. Nunca fui corajosa de encarar o mundo, de encarar vocês. Mas não sei o que houve naquele ônibus, só sei que naquela noite, eu quis me libertar. E a Dy foi minha chave para tal.
“ Foi ao me deitar com ela, pela primeira vez, que me senti completa. Estar com uma mulher, me deitar com uma mulher, beijar uma mulher, me fez se sentir tão bem. Naquele momento eu refleti todas as sensações que já havia sentido e nenhuma se comparava àquela. Quando eu me permiti ser quem eu realmente era, percebi um novo mundo. Com esta nova descoberta, meu corpo ansiava loucamente por ‘A Mulher’, aquela que eu vi ao abrir a porta da casa de Ray. Shay, minha mente e meus desejos enlouqueciam ao vê-la. Com isto, meus pensamentos não saiam dela, chegava a sentir prazeres só tendo ela em minhas lembranças, molhava minha calça com tão pouco, imaginava como seria quando realmente a tivesse ao meu lado fisicamente. O pior de tudo, ver ela pegando qualquer homem me matava por dentro, e a Dy percebia isto e ficava irada.”
“O mais engraçado de tudo, cheguei a invocar o nome dela em uma transa com a garota que me libertou, sei que foi -estupidamente- patético. Mas eu estava realmente enlouquecendo, admito, e as próximas coisas que aconteceram foram causadas pelo meu distúrbio. Dy agora se sentia traída, e sabia o alvo. Nós terminamos, mas o pior estava por vir.”
“No dia, que resolvemos sair no aquecimento para o carnaval, Dy enfurecida partiu para violência e agressão física contra a Shay, óbvio que ajudei a Shay! Mesmo assim Dy saiu dali com um sorriso de vitória, não sabia o por que. Logo descobri,a vadia tinha posto fogo em minha casa, e ainda subornara a policia, não sei como, a dar o laudo de que a culpa da incineração foi do fornecimento errado de luz. O lado bom foi que eu ganhei indenização das coisas perdidas, mesmo perdendo coisas valiosas dentro da casa, de valores sentimentais. E é esta loucura que está me dando a oportunidade de mudar, desapegar e seguir em frente.”
“A partir daí foi mais doloroso. Sem lugar para ficar, comecei a compartilhar a casa da prima dela e uma das minhas melhores amigas, a Ray. Conversar com ela era algo magnífico, poder ver ela ir dormir e acordar era mais lindo ainda. No entanto ela contava suas histórias, dos homens que ela pegou e tudo mais, experiências que eu nunca teria com ela. De modo que eu não tive mesmo.”
“Foi então, que nossa relação começou a mudar. Shay e eu nos tornamos mais intimas, era um sonho se tornando real. Foram, de longe, os melhores dias da minha vida. A cada beijo e a cada abraço, eu morria. Meu corpo entrava em êxtase. Porém nunca chegamos de fato a fazer sexo, ela sempre pulava fora na ‘hora H’, no momento que meu corpo já estava em erupção. Ela em seguida, fez algo que me feriu muito,ficou com outra ao mesmo tempo que tinha algo entre nós, com o intuito de nos afastar, lógico que apenas compreendi isto depois de passada toda a situação.”
“Nunca me passou pela cabeça, que aquela mulher, a minha Shay, meu grande amor, estaria noiva com casamento marcado pro mês que vem. Vocês acreditam? Tudo aquilo era uma despedida de solteiro/ teste de fidelidade. Ela disse na minha cara, que todos os homens que tinha ficado naquelas férias, e inclusive eu, ninguém substituiu o amor que ela sentia pelo noivo e ninguém foi capaz de fazer Shay tirar ele da cabeça.”
“Talvez por isto que ela nunca, de fato chegou a transar com ninguém, eu deduzi que se ela chegasse ao “finalmente” com alguém naquelas férias, aquela pessoa, teria feito ela esquecer o noivo e poderia tê-la em suas mãos. E a pessoa que chegou mais perto disso fui eu! Shay, realmente, ficou em duvida nas vezes em que ficou comigo, eu reparei nos seus olhares duvidosos e distantes, a incerteza, se eu seria ‘a pessoa’, por isto tenho que ir para Curitiba. Shay tem que me ter por lá para poder se decidir, por quem ela nutre o amor verdadeiro. Eu ou o seu noivo? É por este motivo que devo me sacrificar. Por estas razões me mudarei para Curitiba.”
O silêncio se instalou na sala quando ela terminou a história.
– Tu é louca, não sei como pode ser minha filha! A menina te usa, e você ainda quer ir atrás da puta? Tinha que ser uma ‘sapatão nojenta’, querer sair lambendo mulher com casamento marcado, gente da sua raça não tem limites! – a mãe quebrou o silêncio, agredindo verbalmente a filha, e reprovando seu comportamento.
– LETICIA! Se fosse fácil para nossa filha, ela não viria até nós, seus pais, para pedir conselhos e instruções que possam guiá-la! SE FOSSE PARA SER OFENDIDA DO JEITO QUE ESTÁ SENDO, ELA FALARIA COM QUALQUER UM, NO ADMITIREI ISTO NA MINHA CASA!!! — o pai estava totalmente alterado e explosivo, gesticulando com os braços nervosamente.
– Tal pai, tal filha! Dois seres repugnantes! – a mãe os encarava com repulsa e nojo. Juuh não entendeu muito bem.
– AGORA JÁ CHEGA!!! – o pai se levantou com o berro e apontou os dedos na cara da mãe. – Eu que queria ter a metade da coragem da nossa filha! Assim eu largaria você e seria feliz!
Ao mesmo tempo que ele gritava apontando para a mãe, ela gritava do outro lado.
– Como sempre eu sou a culpada! Assuma os seu erros queridinho! E RETIRA ESTE DEDO DA MINHA CARA! – ela deu um tapa na mão dele. – Tu não é homem para assumir. Oops não podia falar isto na frente da sua filhinha querida. É tudo farinha do mesmo saco!!!
– Olha como você fala comigo!!! – ele berrava em cima dos berros dela. – EU QUERO QUE ME RESPEITE!!!
Os berros continuavam, Juuh assistia tudo apavorada, se questionou: “Foi certo em ter vindo aqui, antes de seguir em frente?”. Os berros e a gritaria cessaram. Todos trocavam olhares, mas não diziam nada. Juuh se levantou, agora os três em pé. A mãe tentando manter distância do pai, e ele o mesmo, naquela sala pequena era quase impossível manter distância. Juuh bem no meio, disse que partiria. Seu pai se aproximou e lhe deu um abraço, desejou sorte e força, e a beijou na testa. Juuh se virou e seu pai passou a mão pelos cabelos dela, a deixando partir. Ele não queria que a filha visse o caos que se tornou aquela casa, o lar em que Juuh cresceu. A menina não tinha noção, o relacionamento de seus pais tinha caminhado ao desastre. A mãe estava mais amarga e megera que antes, o pai, mais estressado e compreensivo do que era. Ela só pensava nas coisas ruins que ocorreram ali, naquele espaço, que acabara com todo amor dos dois. O inicio da sua mudança começou ruim. Ela gostaria muito que tudo aquilo tivesse sido diferente. Neste momento a garota encarava a mãe na saída.
– Sei que é loucura,não sou a filha ideal, mas preciso seguir atrás daquilo que acredito.
– Eu sei no que você acredita, é belo, amar é lindo. Mas só digo que isto lhe causará sua ruína. Você não pensou nas coisas direito minha criança. Será tarde quando perceber. – a mãe disse com voz chorosa. Se ela pudesse trancaria a porta e não deixaria a filha sair daquela casa. Era isto que a mãe pensava, a Juuh era o que unia ela e o marido, sem a Juuh nada fora tão harmonioso naquela casa. Podia não se orgulhar da filha que teve, mas sua filha foi quem salvou seu casamento por anos.
– Não concordo. Vou seguir meu sonho. Conquistarei meu amor! Ao lado dela serei eternamente feliz e nada me faltará! Só me deseje sorte. – Juuh defendeu seus ideais.
Apenas uma lágrimas escorreu dos olhos da mãe.
– Sorte é o que você mais precisa. – a mãe se lamentava pela a escolha da filha.
Juuh se virou, pegou suas malas, e a porta se fechou.
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