Sei que a situação me pede paciência, não é um bom momento para me descontrolar. Mas o que devo fazer? O que se faz depois que se acha sua própria lápide? Isso significa que eu estou morta? Que eu morri durante minha visita à Ellich?

Só há uma maneira de descobrir.

O chão é duro, como se fosse de mármore. E não estou exagerando. Meus dedos tentam cavar incansavelmente a terra, mas nada parece mudar. Só presto atenção na dor quando vejo uma lágrima involuntária cair sob minha mão direita. E depois outra, outra, outra... Meus dedos estão vermelhos e alguns sangram, mas é ao olhar para minhas unhas que a dor se torna mais agudas. Três delas já se foram – perdidas em algum lugar pelo chão — e outras duas ameaçam cair, seguradas apenas por um pedaço de pele. Sangue e terra se juntam, fazendo-me sentir um pouco de náuseas. Se eu tivesse tido qualquer resultado, teria continuado, mas a única coisa que consegui foi arrancar um pouco da grama.

Deixo para trás o meu possível túmulo, correndo para o rio, mantendo as mãos à altura de meu peito. Quero lavar, mas não sei se isso vai aliviar ou aumentar a dor que sinto. Não demora para que eu perceba que nunca poderei achar o rio outra vez. Seja como funciona a troca de cenários, aquele já ficou para trás. Viro-me, esperando que o cemitério não suma de repente, já que deixei minha única arma.

Ele continua aqui. Respiro fundo. A mente domina a matéria, não é? A dor pode ser psicológica? Como num sonho? Eu poderia evitá-la se me convencesse de que ela não existe? Parece fácil, mas não é. Simplesmente não posso me convencer de que não há dor quando minha mão é uma mistura de vermelho, marrom e unhas caídas. Tenho um nó na garganta, preciso gritar.

Ao invés de um grito de dor, o que saiu de mim foi um suspiro de alívio. Consigo ver a lápide caída e minha ferramenta no chão perto da árvore. Após recuperar o pé-de-cabra sigo um caminho aleatório, apenas tentando não voltar na direção do rio. Não que eu fosse o encontrar, de qualquer maneira.

Tento ocupar minha cabeça com alguma coisa que não seja meu possível túmulo. Também não quero pensar nos trapos que são minhas mãos nesse momento. Ao tentar recuar esses pensamentos, minha cabeça é invadida por imagens de minha mãe, e as lágrimas que a pouco tinham cessado voltam à tona. Sei que não é saudável nesse momento, isso pode me levar ao descontrole outra vez. Mantenho o choro baixo, lágrimas silenciosas enquanto meus pensamentos viajam em hipóteses horrendas sobre seu paradeiro.

Nora precisa ser livre, ecoa nos meus pensamentos subitamente.

- É, sei que precisa – murmuro para mim mesma.

Ouço um ruído vindo de trás de mim. Viro, ficando alerta imediatamente, o pé-de-cabra em modo de defesa. Não há nada até onde minha vista alcança em todas as direções. Não vi nada vivo até agora. Achei ter escutado um urso antes, mas isso não muda nada. Não têm rastros. O que vi dentro de minha casa não pode ser considerado vivo. Ao virar para frente vejo um esboço de uma casa. Está muito longe, então é possível que eu simplesmente não tenha notado agora a pouco e não que simplesmente surgira do nada.

Caminho mais um pouco e a casa velha de madeira se torna bem evidente. É bem pequena, duas janelas na frente e a porta bem no meio. Não tenho dúvidas de que é para lá que devo ir. O lugar me parece familiar de alguma maneira, isso não faz com que eu me sinta segura.

A escada de madeira faz um rangido quando piso, fazendo meu coração acelerar. Já estava acostumada com o silêncio. O único barulho era dos meus pés sob a grama seca. A porta não tem maçaneta e faz barulho quando a empurro, ela está emperrada. Usando um pouco de força consigo abri-la. O cheiro aqui dentro é enjoativo, é doce de mais. Torço o nariz. A porta está aberta ao máximo, mas não há vento, o cheiro continua impregnado. De algum modo a luz que entra pela porta não é o bastante para iluminar o pequeno — e único – cômodo da casa.

Nem faço o esforço de ir até as janelas e tirar os jornais que impedem a luz de entrar, já sei exatamente onde devo ir. Há um baú marrom, bem na frente da porta, com um cadeado brilhante e grande, mas não está trancado. Ajoelho-me em sua frente e abro sem hesitar. Têm um pote. Tiro-o para examinar melhor na luz. Passo a mão por dentro do baú, já que não consigo ver muito bem lá dentro. Afago um envelope, mas é só o que há. Saio da casa com os objetos na mão. Sento-me nas escadas e os coloco no chão. Começo com o pote de cerâmica. Não é muito pesado, não consigo ver dentro, já que seu formato é longo. Minha mão consegue passar e, com a ponta do dedo, constato que seu conteúdo é apenas pó. Talvez haja algo escondido no meio, mas verei isso depois de abrir o envelope.

“Nunca quis isso para mim, muito menos para você” dizia na primeira linha.

“Me desculpe por não poder te ajudar como deveria, me desculpe por não te estender a mão. Não a conheço muito bem, mas nunca conheci ninguém muito bem. Você exala força e eu nunca tive isso. É o motivo para eu ainda estar aqui. E, veja bem, eu não quero estar. Eu estou pronta para deixar ir, deixar para trás. Da pior maneira possível, descobri que se agarrar ao passado é como se auto-mutilar. Bom, pelo menos no meu caso e no seu, é. Minha jornada chegou ao fim, embora a sua ainda não. Jovem Quinn, me ajude e, prometo, te ajudarei em troca. Com carinho, Nora”

Nora.

- Argh – meu estômago revira ferozmente.

Tenho de obrigar meu vômito a ficar dentro de mim. Nada pude fazer quando percebi que o conteúdo do pote é: cinzas. É claro, Nora precisa ser livre. Limpo o dedo em minha blusa, o que causa uma dor tremenda pelos machucados.

Prendo o pé-de-cabra em meus shorts, passando ele por entre minha perna e o mesmo. Pego o pote com as duas mãos, coloco-me em pé rapidamente. A grama amarela agora é verde, o cemitério sumiu e eu encaro a floresta – que mais parece selva – outra vez. Respiro fundo.

- Vou te ajudar. Espero que cumpra sua promessa, Nora. – estremeço ao perceber como as palavras saíram confiantes, como se eu tivesse certeza de que Nora existe e de que está me ouvindo.

E não existe? Ainda me encontro na mesma situação, me perguntando se isso é real e o motivo de tudo. Pode parecer um pouco incoerente, mas eu estou feliz por ter algum tipo de contato com alguém, mesmo que eu não saiba o que significa. Nora vai me ajudar, me estender a mão, mesmo que ache que não. E desde que esse pesadelo começou é a melhor coisa que me aconteceu.

- Seria muito útil se você me dissesse onde quer que eu te liberte – falo alto enquanto ando pela floresta.

No instante em que termino a frase, escuto o mar. Não como quando colocamos uma concha na orelha, mas quando estamos na praia, deitados ao sol e ouvimos claramente as ondas quebrando na areia. Parece estar perto, mas as árvores não cedem nenhum pouco ao meu redor. Após poucos minutos de caminhada, os galhos se movem ferozmente, fazendo barulhos assustadores. Do tipo que eu não gostava de ouvir quando estava em casa e um temporal começava. A sensação é que, a qualquer momento, tudo vá cair em cima de mim. Mas o vento não chega ao chão. Só o que posso fazer é olhar.

Tudo acontece muito rápido quando o sopro para. As folhas caem ao chão como se fossem pesadas e tudo ao meu redor parece descascar, substituído por um rápido vermelho-sangue líquido, e então passam a ter a cor e formatos que deveriam ter.

Isso é coisa de gente louca. Só o que posso dizer.

Sinto-me como se estivesse drogada. Pelo menos é assim que as pessoas costumam a descrever — já que eu nunca cheguei a experimentar.

Estou na praia. Está longe de ser um lindo dia de verão. O céu está iluminado, porém sua cor é cinza. Sem vida. Como eu. Como Nora.

Não há areia, só pedras até o mar. A água está bem calma, não há vento. O lugar não é bonito como eu pensei que pudesse ser, então quero fazer isso logo. Entro no mar deixando que a água bata até o tornozelo e viro o vaso, fazendo com que as cinzas caiam. Elas não se dissiparam ou se espalharam como eu achei que aconteceria. Parece densa de mais para isso. Chego a pensar que fiz algo de errado, mas uma sirene ensurdecedora começa a soar em resposta.

O som é muito alto e me deixa um pouco transtornada. Concentro-me apenas em sair do mar – que agora está agitado em resposta ao súbito vento. Meu corpo está pesado, sendo empurrado para trás pelo vento, o mar parece estar concordando com o vento: uma corrente fora do normal me puxa para trás.

- Achei que me ajudaria, Nora! – rosno enquanto forço a saída da água.

Eu, novamente, já devia saber que não haveria resposta e nenhum tipo de ajuda. Afinal, agora Nora é livre. Já deve estar longe. Exatamente o que eu faria se tivesse a chance.

Não sei quando o céu escureceu, mas só agora notei que aparenta ser noite. A cor cinza virou preta. E quase como sistemático, o vento para e a correnteza não se agarra as minhas pernas como cordas. O mar desapareceu e há apenas um grande vazio cercado de escuridão. Não sei se têm uma mão de Nora nessa rápida resposta... Acho que nunca saberei, afinal de contas.

- Argh – inspiro fundo. Minha boca está seca e a garganta coçando.

Mas agora sei que, mais uma vez, este não é nem de longe o meu pior problema. Como se brotassem do chão, sombras se movem em minha direção. Minha visão é limitada – um fraco luar é minha única fonte de luz – mas as sombras estão claramente se aproximando. Sussurros agonizantes surgem por trás de mim... E pela minha direita... Por minha esquerda... Estou sendo cercada!

- Parem – ordeno – fiquem longe de mim! – grito para as sombras.

Por nenhum segundo elas vacilam e, agora que estão mais perto, posso reconhecer suas naturezas. São sombras, como um véu escuro esvoaçando no vento. Sem rosto. Oh, como eu queria que tivessem um.

Não vou cair sem lutar, não importa quantas sombras venham! Lutarei contra cada uma delas. Mesmo que pareça improvável alguém lutar contra uma sombra. Encontro-me sem escolha, sem saída. Desprendo o pé-de-cabra de minha cintura, o seguro com as duas mãos. Deixo-o na frente de meu corpo e um pouco levantado, em posição de ataque.

- Podem vir! Estou pronta! – grito para o alto, querendo convencer eu mesma. – E procurem chamar reforços, pois isto não será tão fácil quanto imaginam!

Uma delas já está perto o bastante para que eu possa alcançar com poucos passos, e como elas não param de encurtar a distância, dois passos rápidos são o bastante para que eu chegue neles.

Grito de modo que os seus lamentos não sejam mais ouvidos, e quando estou prestes a atacar o primeiro, o pé-de-cabra cai de minhas mãos. Não sei o que aconteceria se eu tivesse os atacado, se tivesse ao menos tocado em algum deles.

Mas as forças parecem se desvairar de meu corpo, não só meus braços cederam ao leve peso da ferramenta, minhas pernas cederam ao peso de meu corpo. Estou caída ao chão, minha visão embaçada.

Há mais de uma lua no céu e sinto que vou vomitar a qualquer momento. Tudo está tremendo e dando voltas. Vertigens fazem com que as sombras pareçam deformadas e andem de lado, mas claramente se aproximam de mim. E eu não posso fazer nada. Não posso me mexer e mal consigo respirar. Estou presa ao chão.

Para aumentar meu desespero e agonia, minha visão escurece. Estou tão impotente, sem poder ver e me mexer. Sem poder reagir.

Um ponto gelado toca meu braço direito, depois minha mão. Assim se seguem vários pontos congelantes por todo meu corpo, até que chegam ao meu rosto, fazendo-me sentir uma dor de cabeça tão forte que o único motivo que vem à minha mente é que a sombras estão me tocando. Segundos depois perco a consciência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.