Shattered Memories
1 Capítulo 1
Algo está errado.
Sei disso porque o relógio ao lado de minha cama marca 11 horas. E hoje é dia de escola. Não sei o porquê de não ter sido acordada, já que minha mãe disse que eu não poderia faltar só por não ter estudado para um teste. Disse que isso me serviria de lição.
É, sei o que ela quer dizer.
Nota ruim pode me custar o lugar de líder das cheerios. Apesar de minha mãe adorar tudo isso – pompons e jogos – ela se preocupa bem mais com a minha educação. O que não deixa de ser uma boa coisa. Mas então o que estou fazendo na cama?
Pisco freneticamente, esperando que meus olhos se acostumem com a luz que entra pela janela por trás de minha cama. Levanto subitamente, sentindo uma tontura em seguida. Meu corpo treme involuntariamente. Uma brisa gelada entra pela janela de meu quarto. Está aberta, está escancarada. Não só as persianas como também o vidro. Vou até a janela e fecho-a. Minha camisola deveria ser o bastante para suportar a brisa de, digamos, quase verão. Mas não. Aqui estou eu, congelando de frio!
Ando até meu armário, para pegar um casaco. Assim que o abro vejo que, não estar na escola não é nem de longe o meu maior problema.
Meu armário está quase vazio. Apenas um casaco preto e velho pendurado em um cabide. Ironicamente é exatamente o que eu ia procurar.
Não consigo achar um motivo para minha mãe ter confiscado minhas roupas. Acho que ela não teria feito isso nem quando fiquei grávida. Meu pai sim. Mas ao invés de roupas ele confiscou minha vida. Expulsou-me de casa. Admito que eu errei com aquilo, mas também senti raiva de minha mãe por ter deixado ele fazer o que fez. Agora não. Agora sinto orgulho. Ela o enfrentou e me trouxe de volta, de modo que agora não temos mais nenhuma sombra dele nessa casa.
Será que fomos assaltadas? Isso explicaria a janela aberta, o guarda-roupa vazio e... Bom, não explica eu estar na cama até uns segundos atrás. Meu sono é leve, eu acordo muito fácil. Esse é um dos motivos para eu sempre dormir de porta fechada. O outro motivo é que não queria escutar as brigas de meus pais – que eram bem freqüentes. Acabei acostumando com a porta fechada. Agora eu e minha mãe vivemos em total paz juntas. Ela até conheceu uns caras e, se não me engano, um tal de Hugo fisgou seu coração. Sorte dele.
Com as portas do armário abertas, encaro o casaco preto de moletom. Respiro fundo e o visto. Só então reparo na parede no fundo do armário. É de um rosa desbotado. Tenho quase certeza que antes era rosa forte, do tipo Pink. Com as minhas roupas ali eu nunca conseguia vê-la, então não posso dizer com certeza. Eu e meu pai pintamos juntos. Muito antes de eu engravidar. Uma risada, suco gelado, verão. As lembranças são tão vagas que parecem mais um sonho que minha mente já começa a esquecer.
Sonho!
Estou sonhando! Claro que estou sonhando! O que mais pode ser? Fecho o armário e me dirijo à porta do quarto. Abro-a lentamente e dou uma espiada no corredor. A boa notícia é que há luz. Eu odeio ficar no escuro. A ruim é que todas as janelas devem estar abertas, pois o ar gelado me faz lembrar o inverno.
Seja um sonho ou não... Eu tenho que sair e andar por aí. Se não o que vou fazer? Encarar a parede desbotada?
Saio do quarto. A porta bate logo que coloco os pés no corredor, me fazendo pular de susto. Tento abri-la outra vez, mas já está trancada.
Ao lado de meu quarto fica o de minha mãe e na frente do dela fica o quarto de visitas. Na frente do meu fica o banheiro. A primeira coisa que faço é tentar abrir a porta do mesmo. Não sei o porquê, só quis abrir. Porém, está trancado. Encosto a cabeça na porta por uns segundos e constato que nenhum barulho vem lá de dentro. Caminho até a porta do quarto de minha mãe e bato na porta. Ninguém responde. Decido abrir, mas realmente acho que estará trancado. Mas não. Abro a porta e espio lá dentro. O quarto está totalmente imerso na escuridão.
- Mãe – chamo-a, sussurrando. Ninguém responde. Aumento a voz e chamo outra vez. – Mãe!
Nesse instante escuto um barulho vindo do andar de baixo. Dois metais se raspando. O barulho durou apenas 5 segundos e durante esse tempo só fiquei imóvel, segurando o trinco da porta.
Está bem! Quando o sonho se tornou pesadelo? Fecho a porta do quarto, pois não quero entrar. Tenho pavor de escuridão, pavor de não conseguir ver para onde estou indo.
Viro-me para o meu quarto e dou um pulo para trás. Vejo uma garota de camisola branca, seus pés descalços, casaco preto comprido. Demoro uns segundos para notar que a garota sou eu, refletida no espelho no final do corredor, ao lado de meu quarto. É como olhar uma estranha. Meu cabelo está mais desgrenhado do que jamais esteve. As pessoas gostam de pensar que por eu ter cortado é mais simples arrumá-lo, mas é tão ruim quanto antes. Secador e tudo o mais.
Não posso voltar para o quarto, pois ele está trancado. Não posso ficar aqui me olhando feito uma idiota. O melhor que posso fazer é descer as escadas e ir conferir de onde veio o barulho. Quem sabe assim eu acorde de uma vez.
Meus pés fazem um som abafado quando piso na madeira da escada. Seja o que for que esteja lá embaixo, sabe que estou chegando.
Tudo parece normal aqui embaixo. Fora as janelas abertas, o frio congelante e a luz cinza. Alguém tapou o sol por acaso? Passo pela sala e vou direto para a cozinha. O chão da sala era de madeira e pisar no azulejo da cozinha só me deixa com mais frio. E me faz desejar minha cama quentinha. Percebo um zumbido ao longe.
Quero voltar para o quarto, quero acordar.
O zumbido se torna mais alto enquanto eu estou imóvel na cozinha e, em seguida, uma sirene toca. O barulho é muito alto e parece vir da rua. Conforme a sirene toca, o zumbido aumenta, mas muito mais agudo. Tapo os ouvidos com as mãos, tentando me proteger, mas quanto mais ele aumenta, eu sinto que não tenho forças. Caio de joelhos no chão.
Acorda, acorda! Falo para mim mesma. Vamos, Quinn!
E então o barulho some. Tiro a mão de meus ouvidos e percebo que o silêncio é total. Levanto-me. Agora tudo está escuro. Não como o quarto de minha mãe, mas escuro. É como se alguém tivesse entrado aqui e trancado toda a casa. As paredes – antes brancas e desbotadas – agora são vermelhas. Todos os azulejos da cozinha estão quebrados em pedaços pequenos e sei que se me mover daqui vou me machucar.
Quanto tempo vou demorar para acordar?
BAM!
Alguém bate na porta da cozinha – a porta que leva ao pátio dos fundos. Não é alguém me visitando. Parece mais que alguém está se chocando contra a porta. BAM! Outra vez e eu dou um passo para trás, sentindo a dor em seguida. BAM! Alguém quer entrar! O que devo fazer? Ergo o pé e percebo que um pedaço de azulejo está preso no meu pé e o sangue já escorre. O vermelho de meu sangue parece muito o da parede, seria isso afinal?
Não tenho tempo para decidir o que fazer, pois a porta se abre. Abre-se com tanta força que bate na parede. Não há ninguém lá. Vejo o pátio. A grama agora é terra, o céu está escuro e a água da piscina mais parece... Lama! Vejo uma árvore logo depois dela. Ela está normal. Tirando o fato de que ela não existe na verdade.
Um choro baixo começa a soar. Mais parece um murmúrio e logo se transforma em um grito de dor agonizante, que faz meu coração bater mais rápido do que nunca. Só então olho para baixo e vejo o dono do grito.
Pele branca. Tão branca que mesmo com pouca luz, consigo ver suas veias por baixo da pele. Veias vermelhas. Tudo tem de ser vermelho? Não posso ver seu rosto, pois sua cabeça está abaixada. Ele se arrasta lentamente em minha direção, enquanto grita. Dane-se a dor! Não vou ficar para descobrir o que essa coisa pode ou o quer fazer!
Fale com o autor