Shattered

1 Shattered


O corredor ressoou com o toc-toc barulhento do sapato da enfermeira fazendo John acordar do transe que tinha se metido. Ele levantou o rosto esperando que fosse alguma notícia, mas a mulher apenas passou reto sem lhe dirigir nem um olhar. Sentiu o punho fechar e as unhas apertarem contra sua carne, a angústia e desespero estavam tomando conta dele e aquela situação de ninguém lhe dizer nada apenas piorava tudo.

Estava em casa quando recebera a ligação que Mary estava no hospital, ele engoliu em seco, ainda não podia acreditar naquela situação, tinha falado com ela no telefone apenas dez minutos antes e estava tudo bem. De repente, ele estava esperando a notícia que diria se sua esposa e filha sobreviveriam a um acidente horrível. Ninguém lhe informara muita coisa, então apenas sabia que um carro maior tinha passado pelo sinal vermelho e tinha batido no carro que ela estava e tinha desaparecido em seguida. Os punhos continuavam fechados quando ele levou uma das mãos para abafar um gemido de angústia.

Não conseguia pensar no que faria se perdesse uma delas, Mary se tornara uma das pessoas mais importantes da sua vida com uma facilidade tão grande que não se deu por surpreso quando sugeriu que morassem juntos e depois também o pedido de casamento, já viviam como marido e mulher fazia um tempo, mas ele desejava poder dizer a todos que ela era a sua esposa. A filha, ainda não a conhecia, mas já se tornara alguém presente em seus sonhos e aspirações. Várias vezes já se tinha pego imaginando se ela seguiria a mesma carreira médica que ele. Ele não sabia o que responderia se algum médico aparecesse perguntando qual das duas deveria salvar, ele nunca saberia dizer. Mary nunca o perdoaria – nem ele a si mesmo – se ficassem sem a filha, mas ele não saberia como continuar em frente sem a esposa.

Ouviu fortes passadas vindas do fim do corredor, imaginou que fosse Sherlock chegando, mas quando olhou não era ninguém que conhecia. Onde você está, Sherlock? Tinha telefonado ao amigo assim que tinha posto os pés no hospital, mas ele ainda não aparecera.

— Sr. Watson?

John se virou e lá estava o médico que tinha temido tanto. Ele era careca com um farto bigode, parecido com o que ele tinha insistido em manter até um tempo atrás, os olhos escuros dele fitaram-no pesarosos. Ele se levantou e concordou com a cabeça e tentou dizer algo como um “sim”, mas tudo que saiu da sua garganta era mais parecido com um grunhido, respirou fundo esperando o que o doutor iria dizer, o nervosismo estava o consumido por dentro e não sabia o que era pior, a ansiedade sem saber o que estava acontecendo ou a notícia que ele vinha trazendo. Por que, droga, não tinha como não ser uma notícia terrível com o semblante que ele mostrava.

— Eu sinto muito pela sua esposa – o médico começou dizendo. John sentiu como se tivesse levado um soco no estômago, não isso ainda era leve demais. Não era apenas um soco, era a maior surra que tinha levado na vida. Da vida. – Nossa equipe fez de tudo, mas não conseguimos parar a hemorragia e nem...

— E, e, minha filha? – John o interrompeu. A voz embargada soou lhe estranha aos ouvidos, aquela voz não podia ser dele, era cheia de pesar, dor e angústia. Não poderia ser a mesma voz de alguém estava planejando com a esposa, entre vários risos, a decoração do quarto da filha apenas algumas horas antes. Ele torceu a boca cheio de nervosismo, se a tivesse perdido também John não tinha ideia de como conseguiria suportar toda aquela dor.

— Sua filha está bem. É uma menina enorme e aparentemente não terá nenhuma sequela do acidente. Ela estará no berçário em alguns instantes se o senhor desejar vê-la, acredito eu.

Sentiu um alivio dentro de si. Ela está bem. As palavras do médico tinham lhe tirado um peso enorme das costas, mas ao mesmo tempo tinham lhe dado outro. Como poderia cuidar de um bebê sozinho? Obviamente que ele tinha planejado cuidar da filha do jeito que fosse possível, mas ele teria Mary, estando só ele não saberia nem por onde começar, havia dezenas de tarefas que ele desconhecia tinha certeza. A garganta apertava e ele sabia que não conseguiria dizer nada sem começar a chorar, ainda tentou abrir a boca mas desistiu, acabou por apenas concordar com a cabeça.

— Eu tenho que voltar agora, há outros pacientes esperando. – John sentiu que o médico o encarava ao dizer aquilo, mas não conseguiu olha-lo novamente, era quase como se temesse que ele diria outra notícia terrível. Então ouviu-o completar – Eu sinto muito.

John olhou para cima alguns instantes, era a ação irracional de todo ser humano para procurar Deus acima de si, mas tudo que ele viu foi o teto claro do hospital e as luzes brancas. Naquele momento ele nem se lembrou se acreditava em um Deus, mas então decidiu que não. Nenhum Deus poderia ser tão cruel daquela forma.

— John...

A voz de Sherlock lhe tirou do devaneio, o amigo estava com o rosto curioso de sempre, mas os olhos estavam assustados. John se perguntou se ele estivera com aquele olhar quando havia chegado.

— Sherlock...

— Mary, como ela...

O Watson apenas balançou a cabeça, não queria ter que dizer aquilo em voz alta, era como se ele não falasse o que havia acontecido, talvez não fosse verdade. Tudo iria ficar bem outra vez, era tudo só um pesadelo horrível e Mary... Oh, Mary.... Como poderia conseguir sem Mary? Ela era parte essencial da sua vida, tinham passado por todas aquelas complicações com o Magnussen a pouco tempo, mas ele tinha decidido superar tudo, nada daquilo valia a pena para ter que ficar sem Mary. Mas, agora ele a tinha perdido. E aquilo doía, como doía, quase não conseguia aguentar. Fechou os punhos novamente, mas dessa vez com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos e ele viu um filete de sangue escorrer pela mão. Queria bater em alguém até que a própria mão quebrasse e queria matar o maldito que tinha causado aquilo tudo. Ele tinha certeza que se o visse naquele instante o mataria sem nem pensar duas vezes.

— John, eu sinto muito. Mesmo.

Sherlock chamava sua atenção novamente, era uma situação quase irônica, o amigo que era sempre o que estava perdido em meio aos devaneios deduzindo tudo a sua volta e ele era o que ficava chamando-o direto.

— E-eu sei – John respondeu. – Eu só ainda não consigo acreditar, Sherlock. Eu estava com ela no telefone não tem nem uma hora eu acho e de repente, estamos aqui. – Ele pode ver o amigo torcendo a boca, sabia o quanto ele apreciava Mary, se no início temia que eles não pudessem se dar bem, no final Sherlock havia feito de tudo para protege-la. Porque ele sabia o quanto ela importante para John, mas ele sabia que depois de tudo Sherlock havia criado seu próprio elo com ela também. E ele era grato pelos os dois se darem bem, em tantos níveis que mal conseguia dizer. Mas, tudo acabara.

John se sentou novamente, pôs a mão no rosto e começou a chorar. Tudo acabara. Tudo que tinha planejado com a esposa, mais nada daquilo fazia sentido. Quase podia sentir que o coração ia explodir por causa da dor que estava sentindo. Aquilo era horrível demais para poder suportar. Foi tirado de si por um puxão, quando olhou era a senhora Hudson com a mesma cara preocupada de sempre. Ela tinha vindo juntamente com Sherlock, mas tinha ficado para pagar o táxi, então tinha demorado alguns minutos a mais para chegar até aonde ele estava. Ela o deu um abraço apertado.

— Oh John, eu sinto tanto – a voz dela soara pesarosa. John a abraçou de volta, envolto no agradecimento por aquele gesto que naquele momento significa tanto. Sentiu uma mão no seu ombro e logo Sherlock disse em um tom sério:

— Não vou descansar até que ele esteja preso. Eu te prometo.

John olhou para o amigo, ele estava com aquela mesma chama no olhar que sempre ficava quando estava decidido, decidiu puxa-lo para um abraço, sabia que ele não era feito a esses tipos de gestos, mas era importante demais para John agora. Sherlock agora era o único das duas pessoas mais importantes da sua vida, tinha sua filha, mas.... Pelos céus, sua filha, fez o que pode para enxugar as lágrimas na manga da camisa e então disse:

— Vocês querem comigo ir ver Patricia?

— Patricia? – Senhora Hudson perguntou curiosa.

— Era o nome que Mary queria – ele respondeu certo de que aquilo era o mínimo que poderia fazer pela esposa. Sherlock concordou com a cabeça e a senhora Hudson elogiou dizendo como era um nome bonito e que ela tinha bom gosto. Se dirigiram até o berçário, onde havia uma dúzia de recém-nascidos, uma enfermeira se aproximou perguntando qual eles queriam ver, quando John disse seu nome ela apontou para um bebê que estava no canto bem na fila da frente. Dava para perceber todos os detalhes dela e John ficou feliz por isso.

— Ela é a sua cara, John – senhora Hudson disse gentilmente ainda admirando a pequena.

— Não seja tola, Mrs. Hudson – Sherlock começou – ela tem cara é de joelho.

— Que grosseria, Sher...

— Mas é a verdade! – O moreno disse apontado para a pequena bebê com a mão estendida. Mrs. Hudson apenas revirou os olhos em resposta. John deu um pequeno sorriso enquanto olhava para a filha, Mary deu sua vida para poder salvá-la e ele prometeu que cuidaria dela para sempre. Com todo o amor e atenção que fosse possível. Alguém tão pequeno, mas que de repente se tornara um dos maiores pilares de sua vida, John iria se dedicar a ela e talvez nunca pudesse substituir a esposa, mas ele prometeu que daria tudo de si.

Notas finais
Shattered é inspirada na música "Shattered" da banda Treding Yesterday. A história tem o objetivo de ser uma parent!lock mas, acabou se mostrando um pouco fluffy, um pouco angst e até mesmo uma pitada de policial! Espero que gostem :)