Shattered
13 I Can't Keep It Inside
Sherlock soltou um resmungado ao acordar. John estava a sua porta avisando que teria que sair naquele momento devido a uma emergência e que como ele já estava em casa, ele não tinha visto motivos para recusar a ir.
— Você dá uma olhada em Pattie, sim?
— Claro – o moreno respondeu com um sorriso, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o médico já saia apressado do apartamento. Sherlock verificou as horas na tela do celular e percebeu que tinha dormido apenas duas horas. Resolveu se levantar para ir até a cozinha fazer uma xícara de chá.
Um rastro de vapor subia da caneca e ele o aspirou sentindo logo em seguida o calor entrando dentro de si, tomou um gole e foi em busca de algum livro na estante. Passou os dedos pelas bordas das capas enquanto relia os títulos que conhecia tão bem. Escolheu um que dissertava sobre fisiologia e se sentou no sofá para que a leitura o mantivesse atento, mas sem que pudesse evitar ele acabou pegando no sono outra vez.
O choro de Pattie fez que ele acordasse de supetão. Subiu os degraus para o quarto de John enquanto bocejava. Apertou a ponte do nariz com uma careta e disse em seguida:
— Eu estou indo, querida.
Quando ele entrou no quarto Patricia estava de pé no berço e fez um beicinho quando o viu entrar. O detetive deu um sorriso no canto da boca, era a mesma cara que John fazia quando era contrariado.
— Desculpe pela demora, my luv. — Os bracinhos dela se estenderam enquanto ele se aproximava, Sherlock a pegou nos braços e então completou – O que você tem? – Pousou um dedo em uma das orelhas dela – Dodói?
— Pat quer mamá.
O Holmes sorriu. A memória do primeiro momento que eles tiveram juntos o invadiu com um peso enorme. Lembrava da primeira vez que tinha feito uma mamadeira para ela altas horas da noite, porque não queria que John acordasse após o exaustivo dia que tinha passado logo em seguida da morte de Mary... Patricia era tão pequena que praticamente cabia em suas mãos. O tempo tinha passado tão rápido e agora, quase dois anos depois, ela estava enorme, já conseguia falar o que queria, mas a melhor parte – de longe a melhor parte – ainda era o fato que ela o reconhecia e o chamava de pai. Na verdade, não era bem “pai”, mas não importava. A única coisa que tinha alguma relevância naquele instante, era que após todos aqueles meses que ele tinha passado longe tentando destruir Morgan tinham valido a pena e ele tinha voltado com vida para ter mais tempo com sua menina. E ele jurou que iria aproveitar os momentos dali em diante.
Ele nunca se imaginaria naquele tipo de situação. Sherlock Holmes, detetive consultor, gênio e – a principal parte que os jornais gostavam de frisar– a máquina sem emoções estava feliz porque tinha voltado para casa são e salvo e desse modo poderia fazer mamadeira para a filha mais uma vez. John a tinha posto no mundo, mas era ele quem tinha caído de amores após a primeira noite em claro.
— Pattie – ele começou respondendo a menina – vamos lá, quase dois anos depois e você ainda quer aquela fórmula horrorosa? Vamos comer outra coisa, mamá não.
— Mamá! — Ela insistiu.
Sherlock revirou os olhos em resposta e então riu.
— Tudo bem, então.
Era uma ação completamente comum, trivial e ordinárias, mas ele se sentia feliz por poder estar lá fazendo aquilo. Foi até a cozinha e percebeu uma novidade no aposento que não tinha prestado atenção quando havia feito o chá: um cadeirão. Pôs Patricia lá e foi fazer a mamadeira enquanto ela o seguia com os olhos enormes azuis ainda insistindo em fazer beicinho.
— Pronto.
Sherlock pegou a mamadeira e quando ele chegou perto Pattie pegou a mamadeira da mão dele e começou a beber sozinha. Ele ficou encarando a menina por um instante e aquilo mexeu dentro dele fazendo-o perceber que tinha perdido meses cruciais. Quando ele tinha ido embora, ela ainda era um bebê, mas agora já começava a ser uma criança pequena. Os olhinhos azuis dela o fitaram e ela esticou uma das mãos na direção dele e apertou enquanto dava um resmungado.
Ele a tirou do cadeirão, a pôs nos braços outra vez e deu um beijo nela.
— Cadê, Dadi? — A pergunta veio embolada já que ela ainda tinha o bico da mamadeira na boca.
— Ele está no trabalho.
— Tabaio?
— Sim, logo mais ele volta. – Ele se sentou na poltrona enquanto Pattie terminava de beber. Logo, ela lhe entregou a mamadeira e Sherlock viu por perto peças de um jogo educativo. Decidiu brincar enquanto esperava o médico voltar.
O jogo brincava com uma associação de cores e letras, fazendo Patricia se distrair por uns quarenta minutos, mas ela logo começou a ficar mais quietinha e deu um bocejo. Sherlock achou que ela ainda poderia estar fraca por causa da inflamação no ouvido e por isso já estava com sono outra vez. Um alarme apitou em algum lugar na sala e quando ele foi desliga-lo viu que tinha um aviso ao lado informando que era horário de mais uma dose do remédio.
Pattie reclamou um pouco quando ele foi medica-la, mas Sherlock ligou a televisão em algum desenho e a menina logo se distraiu. Ele se sentou na poltrona e a pôs no colo e enquanto ela se acomodava na melhor posição, o moreno passava as mãos pelo cabelo dela fazendo cafuné. Então, ele se lembrou de alguma música e começou a cantarola-la baixinho...
Well I've never been a man of many words
(Bem, eu nunca fui um homem de muitas palavras)
And there's nothing I could say that you haven't heard
(E não há nada que eu possa dizer que você já não tenha escutado)
But I'll sing you love songs 'till the day I die
(Mas eu cantarei canções de amor para você até o dia que eu morra)
The way I'm feeling
(Porque o modo como eu me sinto)
I can't keep it inside
(Eu não posso manter dentro de mim)
Pattie se aninhou mais em seus braços e sua respiração ficava mais devagar à medida que ela ia caindo no sono outra vez. As mãozinhas procuraram uma das orelhas e ela deu um gemido reclamando. Sherlock afastou a mão dela devagar e começou a fazer massagem ali com o dedão direito. Ela se acalmou logo em seguida e ele recomeçou a cantar...
I'll sing you a sweet serenade whenever you're feeling sad
(Eu vou cantar para você doces serenadas sempre que você se sentir triste)
And a lullaby each night before you go to bed
(E uma canção de ninar cada noite antes de você ir para cama)
I'll sing to you for the rest of your life
(Eu você cantar para você o resto de sua vida)
The way I'm feeling
(Porque o modo como eu me sinto)
I can't keep it inside
(Eu não posso manter dentro de mim)
No I can't keep it inside
(Não, eu não posso manter dentro de mim)
Quando ele terminou a canção, Pattie deu um último suspiro ruidoso e pegou no sono de vez. Sherlock ficou alguns instantes a encarando e pensando em como amava aquele pequeno pedaço de John Watson. Ele já ia se levantar para ir coloca-la no berço quando ele ouviu as pegadas do médico subindo as escadas e logo ele já tinha entrado na sala. O detetive o recebeu com um sorriso quando ele chegou.
— Ela deu trabalho? – John perguntou enquanto respondia o sorriso e jogava sua mochila em algum lugar.
— Claro que não.
— O remédio dela, eu tentei chegar a tempo, mas não...
— Não se preocupe. O alarme tocou e eu dei a tempo – Sherlock disse. – Antes de você chegar, eu estava levando-a para o berço...
— Você parece cansado. – John falou enquanto o observava com um olhar preocupado.
— Tudo bem, eu só preciso de mais uma hora ou duas de sono.
— Então, tenho uma ideia melhor ainda.... Que tal dormimos todos juntos?
Sherlock o encarou por um instante até entender o que ele queria dizer. Ainda não tinham tido nenhum momento como aquele juntos e apesar de contradizer tudo que ele considerava de extrema importância no espaço pessoal, ele resolveu que não se importava. Além disso, ele resolveu que queria muito. Respondeu John com um balançar de cabeça e seguiu em direção ao seu quarto.
Primeiro, ele deitou Pattie no meio da cama de casal devagar e logo se acomodou no lado direito da cama. O médico ficou no outro lado. John deu um sorriso para ele e então perguntou baixinho:
— Mrs Hudson já o viu?
— Não, ainda não.
— Ela vai dar pulos de alegria, então. Não parava de me dizer o quanto sentia sua falta.
Sherlock sorriu.
— Quando... Desde quando Pattie toma a mamadeira sem ajuda?
— Acho que faz uns cinco meses.
— Tanto tempo assim? – O Holmes perguntou e o outro confirmou com a cabeça. – E eu perdi esse momento...
John o encarou calado, mas logo sacudiu a cabeça.
— Não importa, Sherlock. Você estava fora para nos proteger... E esse foi um só momento, ainda vão existir vários outros importantes: o primeiro dia que ela for para a escola, a primeira vez que ela andar de bicicleta, a primeira vez que ela ler. Patricia não tem seu sangue, mas você a ama do mesmo modo que eu. Ajudou a cuidar dela todos os momentos que eu não podia. E eu te amo para sempre, por isso.
Sherlock engoliu em seco. Que John Watson considerava-o melhor amigo tinha sido um choque enorme para ele. Dessa vez, com aquela declaração, ele quase tinha tido certeza que tinha morrido e ido para o céu. Ele sorriu. Crescera com a expectativa de ser alguém sozinho como o irmão mais velho sempre fora. Mas, o que faltava a ele era achar a pessoa certa. E, por Deus, ele tinha achado. John Watson era, com certeza, a pessoa que ele tinha esperado a vida toda. Então, ele se aproximou do médico e o beijou.
~
John tinha acordado naquele dia com uma vontade incrível de aproveitá-lo. E já que Sherlock tinha voltado, principalmente são e salvo, ele queria ter um momento com as duas pessoas que ele mais amava.
A ideia do passeio no parque surgiu quando Mrs Hudson apareceu lá em cima. Primeiro, ela foi pega de surpresa pela presença de Sherlock, mas logo o deu um abraço apertado. O moreno gostava da mãe, mas a verdadeira figura materna na vida dele era a senhoria já fazia tanto tempo...
— Meu querido, quando você chegou que eu não vi? – Ela perguntou com um sorriso no rosto.
— Já era muito tarde. A senhora devia estar dormindo a horas.
— Deveria ter me chamado. Só John sabe o quanto enchi a paciência dele perguntando por você.
— Ele me disse.
— O que vocês vão fazer hoje? – A senhoria perguntou enquanto ia até Patricia e a pegava para lhe dar um beijo – Espero que não tenha nenhum caso em mente, Sherlock. Você acabou de chegar não seria justo que já ficasse tão ocupado assim.
— Não temos nada planejado, Mrs Hudson. – John respondeu enquanto bebia chá em uma caneca.
— Por que não vão dar uma volta no parque? – A mulher sugeriu.
— Não sei se devemos, Pattie melhorou agora e... – Sherlock ia dizendo, mas não completou porque John o interrompeu:
— Sim. É uma ótima ideia.
Mrs Hudson buscou Patricia e a vestiu bem agasalhada. Tinha um gorro, cachecol e botas combinando com o tom azul dos olhos dela.
O parque era grande e tinha uma infinidade de árvores que o Holmes conhecia. John carregava a filha nos braços e ela ia mordendo um avião de brinquedo que tinha insistido em não largar. O barulho do vento passando pelas folhas, o ruído dos animais em volta e as vozes das pessoas conversando faziam uma bonita harmonização.
— Sherlock?
— Hm?
— Você acha que... – O médico ia começar a falar algo, mas parou por um instante – Oh, olhe ali está Frank. Vou cumprimenta-lo.
— Frank?
— Ele é um médico novo lá na clínica. Volto em um instante. – Ele entregou a filha ao moreno que resmungou alguma coisa, mas ele não conseguiu entender.
Quando voltou para próximo dos dois, após ir falar com o colega de trabalho, John percebeu que Sherlock estava sentado no chão embaixo de uma árvore enorme e frondosa enquanto segurava uma folha comprida e mostrava a Pattie enquanto explicava uma história.
— Mycroft sempre me contava quando eu era pequeno... Que quando o freixo foi criado, ele deixou todas as outras na floresta com ciúmes. Era a árvore mais bonita da floresta, além de que tinha uma madeira forte. Poderia ser usada para qualquer coisa. Ainda tinha a honra de ser a Árvore do Mundo na mitologia nórdica. Ninguém poderia colocar um defeito nela. E quando todas as outras árvores tinham ciúmes dele ser tão especial e quando perceberam seus botões pretos, começaram a rir... Mas, não tem problema, my dear, afinal pessoas para criticarem quem você é sempre vão existir. O que importa são aqueles que sempre estarão ao seu lado.
John pisou em um galho com a intenção de fazer barulho e chamar atenção, Sherlock percebeu sua presença e o deu um sorriso.
— Não vi você chegando, John.
— Você estava contando uma história para Pattie.
— Só uma história boba que meu irmão sempre me repetia. Nada demais.
Pattie andou por cima das folhas, os dois a observavam atenciosos, olhando para a menina enquanto ela olhava para tudo com olhar de curiosidade. Ela buscou uma das folhas no chão e entregou a John.
— Dadi, feixo.
Foi a vez de Sherlock de rir.
— Ela aprende rápido.
— Gatinho! — A menina gritou quando um gato laranja passou correndo por eles carregando algo na boca. Ela fez que ia atrás dele, mas John a segurou e disse:
— Não, Pattie. Ele vai comer, ele tá com fome.
— Pat, também com fome.
— O que você quer?
— Mamá!
— Nãaaaao, Pattie! C’mon! Outra coisa, mamá não! – Sherlock respondeu fazendo uma careta. A menina o respondeu fazendo beiço e ele então se dirigiu a John – Ela tem que comer outras coisas, aquela fórmula tem um gosto horrível.
— Quem diria... – John não conseguiu terminar a própria frase porque começou a rir.
— Quem diria o quê?
— Quem diria que Sherlock Holmes um dia acharia um assunto digno da sua mente um debate sobre gosto de fórmulas para bebês.
Sherlock sentiu que corava.
— Ora, Pattie é assunto prioritário e, por consequência, qualquer coisa que a envolva.
— Pattie, vá com o papá. Ele vai te dar a mamá.
A menina foi até a Sherlock que logo a pegou nos braços e com uma sacudida tirou um pedaço de folha que tinha caído no cabelo dourado dela. John então se aproximou e beijou o alto da cabeça dela e antes que desse um beijo em Sherlock falou:
— Que bom que você voltou. Eu agora sou o cara mais sortudo do mundo. Tenho vocês dois.
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