Shattered
5 And I will run
O casarão era enorme. Todo decorado em papel de parede nas cores azul, verde e dourado tinha um ar de muita elegância e com a adição de algumas peças de arte espalhadas pelas paredes se constituía numa propriedade digna de uma família aristocrática do século XIX. Os seguranças postos por todo canto destoavam de uma maneira que chegava a incomodar Sherlock, estavam vestidos de preto e tinham os rostos rígidos e sérios. Dois deles o estavam levando até um cômodo que haviam anunciado como a sala de jantar, avisaram que lá estaria a pessoa que era a causadora de toda aquela situação horrível.
Já haviam se passado 36 horas desde que Patricia havia sido levada e nem ele e muito menos John haviam pregado o olho desde então. Sentia-se cansado da empreitada que tinha levado eles até os arredores de Bristol, a vista começava a cansar e as mãos não respondiam tão bem. Mas, ao mesmo tempo que sentia o corpo ter as energias esgotadas também fervilhava de ansiedade para descobrir quem estaria por trás de tudo.
Sherlock tinha um segurança na sua frente e outro atrás de si quando entrou no aposento que era seu destino. Quem o recebeu foi um homem de cabelo grisalho cortando rente que usava roupas finas, ele se aproximou, mas ficou calado e apenas o inspecionou mais uma vez. Sentiu-se inquieto e não pode evitar fazer uma cara rabugenta em resposta aquilo, ele estava a quase dois dias acordados procurando pela filha do amigo e aquela era a terceira inspeção que faziam nele em menos de vinte minutos, era pura e simplesmente perda de tempo. Soltou um grunhido quando o homem vasculhou suas pernas e então foi aí quando uma risada reverberou pela sala e chamou sua atenção. Procurou pelo aposento e o que viu foi uma loura com um sorriso no rosto; ela tinha o deboche estampado na boca.
— Até que enfim, Sherlock. Estive te esperando já faz muito tempo. – A mulher se alimentava do que parecia um café da manhã. Havia bolos, leite, suco, ovos mexidos, bacon, mel e torradas francesas a sua frente. Ela estendeu a mão para uma cadeira próxima aonde estava sentada; um prato e talheres estavam dispostos para esse assento, mas Sherlock os afastou como sinal de recusa da refeição.
— Quem é você? – Ele perguntou sem rodeios, sua voz não demonstrava nenhum medo ou receio. Sherlock parou para observa-la e de imediato se recordou de Irene. A mulher a sua frente exalava sexualidade como a morena, mas o detetive logo conseguiu ler a diferença entre as duas. Enquanto a mulher havia sido provocativa desde o primeiro instante ao aparecer nua, a loura a sua frente se escondia dentro de um vestido preto de mangas compridas. E, enquanto a primeira o olhava curiosamente e de forma ávida para conhece-lo e degusta-lo, a segunda tinha olhos que zombavam dele e sorriam de uma maneira ansiosa e desesperada.
— Morgan – ela respondeu de supetão.
— Nunca ouvi falar. – Sherlock falou duro. Ele observava os detalhes da mulher a sua frente: sua pele clara, os cabelos descendo em cascatas até o busto, a boca pálida, as unhas pintadas em vermelho e os olhos claros, mas quando ela respondeu com mais uma risada debochada ele foi tirado do seu devaneio.
— É claro que não. Nunca quis que você me conhecesse, então você não conheceu. Só que... – Morgan segurou a fala, os olhos encontraram os de Sherlock e ele percebeu que não eram azuis, mas de um cinza–claro que parecia mais com cor de gelo sujo. – Você conheceu meu primo, acredito eu.
— Seu primo? – O detetive perguntou curioso.
— Jim.
Morgan abriu um sorriso, sua boca era larga e o dentes brancos reluziam por trás. Parecia um sorriso que um tubarão daria logo antes de engolir a próxima refeição e Sherlock sabia que ali a próxima refeição era ele.
O detetive sentiu o corpo ficar rígido em resposta. Ele odiava como tudo parecia voltar para Moriarty. Cerca de seis anos atrás ele tinha o confrontado pela primeira vez naquela maldita piscina e naquela situação ele ameaçara explodir John, todo aquele tempo tinha se passado e tinha sido a vez de Pattie de servir como isca para Sherlock. E ele se odiava por aquilo, como odiava.
— Eu sei que você se lembra dele, não é? – A boca dela se torceu enquanto fazia a pergunta. – Jim nunca bateu muito bem da cabeça desde criança, mas ele era inteligente e me ensinou tudo o que eu sei hoje. Espero que tenha apreciado o quebra-cabeça que fiz para você.
Sherlock fez uma careta em resposta. Tinha passado o último dia estudando casos históricos catalogados nos arquivos do MI-5 de acordo com as datas que equivaliam a versículos marcados de uma bíblia anglicana deixada em cima de sua mesa em 221b. Cada caso tinha um código equivalente que quando aplicado na sequência Fibonacci, tinha completado o final da quebra-cabeça revelando as coordenadas exatas do casarão, juntamente com a hora e data que ele deveria aparecer. – Foi apenas cansativo, mas nada de muito desafiador.
— Que pena. – Morgan tinha um sorriso guardado no canto da boca. – Eu nunca fui muito boa como ele em relação a isso. Jim era ótimo. Uma pena que tenha explodido a própria cabeça quando...
Algo incomodava o detetive ali e foi impossível para ele não perguntar – Eu, eu passei dois anos ocupado desmantelando a rede criminosa dele, como você passou por mim? – A raiva do detetive estava bem explicita na pergunta feita. Haviam sido dois anos longe de Londres, longe da vida que era habituado e principalmente dois anos longe de John e a ideia de havia sido um tempo perdido o enchia de frustração.
— Oh. – Morgan parou um instante e ergueu a mão pedindo que retirassem a mesa. O homem de cabelo grisalho se aproximou com um outro serviçal e levou toda a comida embora. – Você fez muita coisa, eu admito. Por pouco, muito pouco, me deixou sem nada. Mas, você voltou para Londres, não foi? – O sorriso debochado estava lá outra vez e Sherlock jurava para si mesmo que um dia faria de tudo para que ela não pudesse sorrir outra vez. – Lorde Moran, um tio distante, serviu bem ao seu propósito de te levar para longe dos meus negócios, afinal.
— Você... Como? O homem quase cometeu um ato terrorista porque você pediu?
— Não. Não porque eu pedi, mas cada um tem seu valor convenhamos. E a família dele que tinha título, mas, não tinha mais dinheiro algum vive muito bem no luxo outra vez. – Ela apoiou o braço esquerdo no braço da cadeira e apoiou o queixo na mão. – Alguns homens fazem de tudo pela família, Mr Holmes. Você é um deles?
— Patricia – Sherlock disse enquanto engolia em seco. A mente tinha se distraído na incógnita que era a mulher a sua frente e por alguns momentos tinha se esquecido do real propósito de ter ido até ali. – Onde ela está?
— Não se preocupe. Ela está especialmente segura. – Os olhos cinzentos o vasculhavam ávidos. – Eu não faria mal para uma moeda de troca tão importante – ela sorria outra vez enquanto falava aquilo. – Mas voltemos ao que interessa, foi bem estressante quando você voltou a atrapalhar meus planos. É sério não faça mais isso. Realmente me deixa uma fera.
— Por isso você sequestrou Patricia? Porque eu te tirei do sério?
— Claro, meu querido, porque mais seria? Poderia ter sido o médico, é claro, mas qual o valor de um namorado perto de uma filha?— Morgan disse sem titubear.
Sherlock ficou parado tentando processar o que a mulher havia dito. Desde o primeiro dia que tinha convivido com o médico tinha escutado comentários sobre serem namorados, mas aquilo não o incomodava. Como poderia incomodar?John tinha despertado algo nele desde o início e ele demorara tempo demais para entender, mas agora que entendia aquele tipo de piada tinha menos efeito ainda. Mas, o que Morgan que estava sentada a sua frente tinha dito, de alguma forma era diferente dos demais, eles soavam como uma família na boca dela. E se Sherlock nunca concebera na juventude que poderia ter amigos quando mais velho, o conceito de família era completamente absurdo para ele. Para ele, a ajuda que dava ao médico cuidando da filha dele, era apenas isso, uma ajuda. Não era como se estivessem formando uma família. Ele entrou no palácio mental por um instante e enquanto ficava calado, fez uma retrospectiva do ano último ano na sua mente e percebeu que aquilo estava realmente acontecendo. Com todas as limitações que tinha para compreender o conceito de família, mesmo assim ele compreendia.
— Patricia não é minha filha – foi a única coisa que Sherlock disse. – Aonde ela está?
— Então, John Watson é seu namorado? – Morgan debochou. – Essa parte não vai desmentir? Mas, oh Sherlock, não vamos se ater aos pormenores, sangue e essas coisas. Você mais do que ninguém sabe que isso é bobagem.
— Onde está ela? – Sherlock repetiu seco.
— Ela está bem não se preocupe.
— Quero vê-la. Agora.
— Antes, Sherlock, nós temos que firmar um trato. – Ele apenas arqueou a sobrancelha direita esperando que ela continuasse. – Você não se intromete em meus negócios e eu deixo sua linda família em paz. Que tal? Todo mundo fica feliz e ninguém se machuca.
— Eu acreditei que você estaria mais interessada em algum plano secreto de segurança do Reino Unido. – Sherlock fechou um punho quando ouviu ela rindo de novo.
— Não seja tolo, eu consigo esse tipo de coisa quando bem entender, não preciso dessa encenação estúpida. Eu não sou Jim.
O Holmes prestou atenção quando Morgan se levantou da cadeira e ele finalmente pôde vê-la por inteiro, seu corpo era delgado e elegante. O mordomo que o tinha revistado mais cedo se aproximou dela com um tipo de notebook e ela em seguida o virou para Sherlock.
— Aí você poderá ver que mesmo os passos que eles dão para ir ao parque estão fotografados. Então não ache que seria algo difícil para mim fazer isso outra vez, porque não seria.
O detetive encarou a tela do notebook. Havia uma pasta repleta de fotos de John e da filha. Aquilo foi assustador. Sentia quase como se fosse diretamente ele que estivesse fazendo mal para as duas pessoas que mais amava nesse mundo. Uma dor cresceu em seu peito e ele não sabia discernir se era medo pelos dois, angústia de ter que deixar a mulher a sua frente viver impunemente ou uma mistura de ambos. Por um momento ele procurou John perto de si e pela arma que ele sempre carregava, mas se recordou que haviam restringido a entrada do médico logo nos portões da propriedade. Sherlock não sabia como responder, então, apenas concordou com a cabeça.
— Está tudo certo então – a loura falou. – Apenas espero que a palavra de Sherlock Holmes seja confiável. – O mordomo se aproximou dela novamente, dessa vez com um casaco e algo que parecia um rádio. A mulher se vestiu e entregou o rádio para Sherlock, naquele momento foi quando ele percebeu que era uma babá eletrônica. A pequena tela mostrava um berço e Pattie dormindo tranquila.
– Uma enfermeira ficou cuidando dela enquanto esteve aqui, ela estará bem – Morgan disse. Ela então deu as costas e começou a andar em direção a porta principal do aposento.
— Ei, aonde está ela? Você disse que a devolveria em segurança. – Sherlock chamou em voz alta.
— Oh, e eu não devolvi? – A loura parou por um instante e se virou para Sherlock enquanto examinava o relógio no pulso. – Ah, sim. Você tem dez minutos para acha-la antes que o casarão exploda. Boa sorte.
— Porque você vai explodir sua casa? – O detetive perguntou surpreso. A mulher havia se mostrado como alguém perigosa desde o primeiro segundo que Sherlock havia posto os olhos nela, mas um comportamento como aquele não era previsível.
— Não seja estúpido, isso aqui não é minha casa. Você acha mesmo que eu daria o destino da minha casa para você? Eu apenas ganhei a propriedade numa aposta e resolvi que odeio esse papel de parede horroroso. – Ela gargalhou de novo. A risada ressoou nos ouvidos de Sherlock como um contador de cronômetro, o tempo corria apressado e ele finalmente tinha entendido o tamanho daquilo. A vingança por Moriarty e a impunidade nos planos criminosos sem o risco de Sherlock investigando tudo por trás.
— Você disse que ela era uma moeda de troca importante. E agora vai explodi-la? – Ele tentou manter a voz fria. Sabia que não podia demonstrar sinais de desespero.
— Ela só é valiosa se você estiver vivo, meu caro. – Ela parou para olhar o relógio outra vez. – Oito minutos, Mr Holmes. – Fez um barulho que imitava o girar dos ponteiros do relógio e saiu porta afora sem olhar outra vez para trás com todos os seguranças do recinto a acompanhando.
Sherlock não tinha imaginado aquilo acontecendo. Havia encarado a possibilidade de sete cenários ocorrendo, mas nenhum deles contava com o teto sobre sua cabeça ruindo. Ele encarou a babá eletrônica outra vez e ver Patricia o fez pensar em John que ainda deveria estar no portão da propriedade esperando sem saber o que acontecia ali dentro. Ele conhecia bem o amigo e sabia como ele deveria estar desesperado. O detetive procurou detalhes através da pequena tela preto-e-branco tentando deduzir onde ela poderia estar, mas como não conhecia os padrões da casa, aquilo acabou se revelando apenas perda de tempo. Então, ele respirou fundo e correu, largou a babá eletrônica que quebrou com um baque no chão e foi em direção as escadas. Sherlock teria oito minutos para salvar a filha do melhor amigo e, de quebra, se salvar também.
~
John se sentia desesperado. Os seguranças tinham o impedido de entrar junto com Sherlock e ele podia sentir a ansiedade consumindo-o. A cabeça já doía de todo o tempo que tinha ficado sem dormir e junto com a preocupação pela segurança da filha agora tinha o medo que acontecesse algo a Sherlock. Ele sabia que poderiam atirar na cabeça do detetive ali dentro e que nunca daria notícia disso.
O portão se abriu para um Rolls Royce preto passar e pela janela meio aberta ele viu de relance uma mulher loira que nunca tinha visto antes na vida. Mesmo sem saber quem era ele segurou o fôlego porque sentiu a tensão que rodeava ela. John percebeu então que os seguranças que haviam barrado sua entrada mais cedo haviam desaparecido do portão, ele olhou duas vezes procurando ao seu redor se não havia sinais deles e passou pelo portão correndo. Pretendia achar Sherlock de alguma forma e tirar sua filha dali. Um vento assobiou no seu ouvido e ele olhou para trás por um segundo e foi surpreendido por uma força que o empurrou para trás com um baque doloroso.
A cabeça doía quando ele levantou do chão e o coração parou de bater quando compreendeu o que havia acontecido. Todo o casarão que estava imponente a alguns instantes, agora estava consumido em poeira, janelas estilhaçadas e muitas paredes em pedaços.
— Não. Não. Não. Não. Não pode ser. Patricia. Sherlock. Não não não não. – Tudo aquilo era apenas um pesadelo terrível devido a tensão que vinha sentindo por estar próximo do primeiro ano de morte da falecida esposa. Nada daquilo podia ser real. John tinha certeza. – Sherlock! – ele gritou. – Sherlock! – mais uma vez, mais alto. As mãos tremiam ansiosas e nervosas.
— John...
Uma voz falha veio das suas costas e quando se virou o médico viu Sherlock. Ele estava coberto de poeira, uma faixa de sangue escorria da testa e seus braços seguravam algo que se escondiam embaixo do casaco. O detetive o abriu com as mãos trêmulas e John então viu a filha. Ela estava assustada com os olhos arregalados, a pequena boca tremia segurando o choro. A garganta dele embolou e ele sabia que se dissesse algo poderia começar a chorar também. John nunca sentira tanto alivio na vida.
— Estamos bem, acredito eu. – Sherlock falou enquanto entregava Patricia para os braços do pai. – Só preciso, você sabe... – Ele disse apontando para o corte na testa.
— Vocês quase me mataram de susto. Aliás, o que foi isso?
— Aquela mulher era louca. Depois eu te explico. – Sherlock fez uma careta sentindo a dor latejar pela cabeça.
— Ok. Vamos procurar um médico em Bristol então.
— Não. Tem que ser Molly. Eu aguento até lá.
John concordou com a cabeça. – Você precisa pelo menos se lavar em algum lugar. – Então, segurou a filha mais forte contra o corpo e disse para ela:
— Pattie está bem?
— Dadi. Dodó papa. – Ela respondeu com a língua embolada. Estendeu um dos braços para Sherlock e repetiu. –Papa.
John viu que o amigo olhava estranho para a filha. O detetive o encarava atônito sem entender o que tinha acontecido, mas ele entendia. Papai. Após um ano de convivência morando sob o mesmo teto, Patricia havia decido que Sherlock não era mais apenas Sherl, era agora algo mais. E John estava bem com aquilo. Sherlock acabara de salva-la de algo que poderia ser uma tragédia, se existia outra pessoa no mundo que poderia ser o pai de Pattie, essa era o detetive. E John confiava plenamente nele.
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