Lissie corria sorridente para a escola. Salvou uma vida pela primeira vez – Seu sonho era ser médica. Mesmo não sendo numa sala de cirurgia ou algo parecido, Lissie se sentia como uma ferramenta que deveria ser usada para salvar. Ainda em passos pequenos, sempre era seguida por Mel — a sua A.T. No portão da escola, havia uma bela mulher na frente, barrando a entrada com os braços cruzados. O Cabelo era preso em um rabo-de-cavalo estranho, feito ao lado do cabelo. Estava de óculos escuros, bem finos. Lissie a olhou, abaixou a cabeça e foi devagar desenhando algo no chão com a ponta do pé direito, que estava parcialmente erguido

— Na minha sala, Lissie. – falou a mulher em tom sério.

As duas foram caminhando dentro da escola. Para Lissie, era tudo novo. Era o primeiro dia naquela escola. Lissie sempre morou com a mãe na Inglaterra. Era educada desde pequena a falar português, espanhol, francês, italiano, latim, entre outros idiomas. Vir morar no Brasil só era diferente pra ela, já que tudo era mais evoluído neste lugar. Mas nunca teve medo de se adaptar. Pelo contrário, era sua ambição se adaptar. Se adaptar para melhorar.

Não demorou muito, Lissie seguiu pelos corredores da escola vazios – a aula já havia começado – e foi rumo à sala da mulher que aparentava ser a diretora. Elas chegaram e se assentaram nas cadeiras que haviam ali.

— O que houve Lissie? Porque saiu do carro daquela forma?

— Meu pai já te contou né? Vocês dois são íntimos demais.

— Lissie, ouça! Você sabe por que veio para cá, então entenda que não pode

ter descuido algum! Eu e o seu pai só queremos que vocês três, Carry, você e Dmitri fiquem bem.

— Olha, você pode não me entender, tia Ada. – a menina respondeu após dar um longo suspiro- Mas eu não sou como meu pai e meus irmãos. Não sou nem como minha mãe. Não sou uma artesã!

— Shhh! Alguém pode ouvir. – Ada tentou acalmar a menina

— Não me importo se alguém ouvir! Eu sou diferente! E além do mais, eu tenho essa coisa no lugar de um braço! NINGUÉM IRIA ME QUERER!

— Lissie, pare de pensar negativo, você tem apenas 14 anos – A diretora tentou conter a garota, que gritava totalmente descontrolada.

Lissie continuava a reclamar. A diretora Ada, sentia na menina uma energia enorme se manifestando junto com sua fúria. Ela sabia que tinha alguma coisa a ver com o braço dela. Ada rapidamente pegou o no braço da menina, tirou-lhe a blusa num rápido movimento que contornou o corpo dela. Enquanto isso a menina, que já estava chorando de tanto gritar e se lamentar.

Assim, era possível ver com clareza: Lissie tinha o braço direito feito de metal, com articulações entre outros músculos totalmente artificiais. A diretora tentava acalmar a garota, mas era inútil. A porta se abriu e uma pequena voz, quase ofusca pelos gritos da menina, podia ainda sim ser ouvida.

- Com licença...

Era Jack Reyford, outro aluno de descendência estrangeira. 13 anos, ótimas notas, treinou boxe por 2 anos. Sua cautela ao entrar na sala, devido aos gritos, deixava-o quase ignorado com toda a situação. Notou a menina que encontrou mais cedo, em estado de choque. E também viu que seu braço direito era de metal.

“Agora tudo faz sentido, aquela força realmente não era algo que qualquer um teria.”, pensou ele. “Porque a filha do dono da LightTech teria o braço de metal e porque o esconder?”. Com cautela, ele se aproximou com a identidade da garota em mãos.

— Pára... pára... Eu não quero! –Lissie gritava, em estado de choque- Eu não quero ficar sozinha!!

— Jack! Não se aproxime! Não é seguro! –exclamou a diretora

O garoto, que ignorava a diretora, foi se aproximando até finalmente a alcançar. Ele a abraçou forte, tomando-a em seus braços. A menina, rapidamente se acalmou, olhando assustada.

— Eu não vou te deixar sozinha... – sussurrou ele no ouvido dela

Lissie estava em extrema exaustão. A Carga de energia que havia caído sobre ela era muito pesada. Quando toda aquela energia – que era estranha e podia ser visível por todos naquela sala- desapareceu... Finalmente Lissie desmaiou. O garoto a pegou no colo e correu até a enfermaria.

— Ei Ada, vou levar ela pra enfermaria. Liga pro Artha porque eu sei que tem o telefone da casa dele. – respondeu o garoto, em tom autoritário.

— Ma-mas como...? Tudo bem, leve ela depressa!

Jack foi correndo pelos corredores da escola com a menina no colo. Alguns funcionários os viram e ficaram assustados, não pelo estado da garota, e sim pelo seu braço direito – aquele braço artificial. “ Pega logo a maca, cara!” foi o que ele gritou para um dos funcionários da escola, enquanto corria com Lissie em seus braços. Depois de andar um pouco mais, aquele mesmo funcionário acompanhado de uma enfermeira trouxe uma maca. Jack a colocou-a deitada ali e então a acompanhou até a enfermaria. Lá, verificaram pressão, temperatura, respiração e batimentos cardíacos com um pequeno scanner, que cabia na palma da mão de uma criança. Ele era cinza e tinha uma pequena sonda na ponta, parecia um pequeno termômetro, bem antigo, dos tempos de 2003 ou algo assim.

“Tudo bem, obrigado.” Foi o que a enfermeira disse para o garoto que acompanhava Lissie desde a sala da diretora. Jack ainda tentou insistir, mas foi impedido pela mesma enfermeira. “ Não se preocupe. Ela está bem. Mandaremos notícias na sua Sala.” Jack abaixou a cabeça e saiu da sala.

— A filha do meu criador... Nunca a imaginei dessa forma! – Punch comentou um pouco aflito

— Mas tá tudo bem com ela. – Jack respondeu, sorrindo. – Só estou preocupado com ela. Ela me deu um belo susto.

— Ei, Jack.

— Hm?

— Porque está preocupado com ela? Tem alguma coisa a ver com o que disse pra ela?

— Não me pergunta coisa difícil. – Jack se desajeitou um pouco e chutou devagar o coelho, que caiu de cara no chão.

— Ei, não seja mal! – Punch dizia enquanto se levantava – Mas pelo menos, vai cumprir, não é? Vai mesmo protegê-la?

— Alguma vez eu quebrei uma promessa, Punch? – o garoto riu enquanto se assentava numa cadeira próxima da enfermaria da escola.

Os dois se olharam e abaixaram a cabeça esperando alguma notícia da garota de braço metálico. Jack sabia que estava tudo bem, mas algo era suspeito demais. Ele não sabia do que se tratava, mas tinha certeza que tinha algo a ver com o braço da menina. Ele tinha certeza que viu algo, parecido com uma nuvem de fumaça escura saindo de lá.