Shape Of My Heart
2 Capítulo 02
Notas iniciais
Isabella – Claro. Pode sentar, se quiser.
Kevin – Obrigado.
Kevin se senta.
Na casa de Howie, na sala de jantar, Paula, sua mãe está vendo um álbum de fotos de seu filho caçula, John, que morreu. Howie chega por trás, dando um beijo no rosto dela.
Howie – Eu te adoro, mãe.
Paula – Me adora? Como se atreve a dizer tamanho blefe? Por acaso um filho que ama uma mãe é tão irresponsável a ponto de esquecer uma criança indefesa num carro?
Howie – Mãe, foi sem querer. Foi sem querer.
Paula – Quer saber? Eu não acredito em você. Você matou meu filho, seu irmão. É um assassino.
Howie – Mãe...
Paula – Pára, pára com essa ladainha de “mãe”. Coloca uma coisa na sua cabeça, Howard: Eu não sou sua mãe. Desde aquele dia você não tem mais mãe!
Pollyanna chega. Howie vai para a sala chorando.
Pollyanna – Péssimo. Péssimo. O Howie também é seu filho, sabia?
Paula – Eu tenho dois filhos. Dois. Você e o John. Eu não sou e nem quero ser mãe de um assassino.
Pollyanna – Mãe, foi um acidente! Essas coisas acontecem! Você não pode condenar o Howie a vida inteira como se ele tivesse cometido um crime.
Paula – Acidente? Acidente é tropeçar na rua. Levar um tiro, ser atropelado. Foi irresponsabilidade, isso sim. Nada justifica esquecer uma criança dentro de um carro. Nada.
Pollyanna – Eu também sinto falta do John, mãe. Ele era um menino lindo, tinha uma vida inteira pela frente. Mas entenda, o Howie não teve culpa.
Pollyanna sai. Ela vai até a sala. Pollyanna se senta ao lado de Howie e o abraça.
Pollyanna – (abraçando Howie) – Ei... Você é inocente, Howie. Não foi sua culpa. Não foi sua culpa.
Howie – Como eu posso ter certeza disso, Polly? Se minha própria mãe me culpa disso até hoje? Se minha mãe me odeia por isso? (chorando)
Pollyanna – Ela não te odeia, Howie. Eu garanto isso a você. Ela só não se conforma de ter perdido o filho dela. Mas ela te ama sim. E sabe disso.
Howie – Eu não sei, Pollyanna.
Pollyanna – Howie, a correria do dia nos deixa extremamente estressados. Foi isso o que aconteceu. Tudo influenciou. O stress, a correria. Você não pode ficar se martirizando por isso.
Howie – Eu te adoro.
Pollyanna – Eu também.
Eles se abraçam.
Na casa de Vanessa, Nick e Regina estão conversando. Eles estão no quarto de Vanessa. Ela está dormindo.
Regina – Ainda bem que ela dormiu, não é?
Nick – Pois é. Regina, eu não sei mais o que fazer com a Vanessa. Eu gosto dela, mas desse jeito não dá pra continuar.
Regina – Eu sei, Nick. É difícil, mas tenta ter um pouquinho de paciência com ela. Você sabe como ela é. Talvez se você rompesse tudo com ela só pioraria as coisas.
Nick – É, Regina, eu não duvido.
Regina – Por quê?
Nick – Ela me ameaçou hoje.
Regina – O quê?
Nick – Isso mesmo. Ela disse que me destruiria se eu a deixasse.
Regina – Ai, meu Deus...
Nick – Calma. Ela estava bêbada. Não era sério
Regina – É isso que me preocupa. Quando estamos sob o efeito da bebida dizemos as maiores verdades.
Nick – Regina... eu entendo a sua preocupação. Mas você precisa cuidar de si mesma também.
Regina – Eu sei disso, mas os filhos são os filhos. E á propósito... eu fui chamada para uma oferta de emprego.
Nick – Sério? E onde é a oferta?
Regina – No Colonial Mônaco. Tem uma moça que se mudou pra lá e está precisando de uma empregada.
Nick – Que bom. Eu vou ficar torcendo por você. E se você conseguir nós seremos praticamente vizinhos.
Regina – É verdade.
Na lanchonete onde Isabella e Kevin estão, Isabella continua sentada na mesa, mas evita olhar pra ele. Kevin fica observando o jeito dela.
Kevin – Você tá legal? Eu posso ir para outra mesa se estiver incomodando.
Isabella – Não. Não se preocupe. Pode ficar. (com a voz trêmula)
Kevin – Olha pra mim.
Isabella continua com o rosto virado e sem olhar pra ele.
Kevin – Pode olhar.
Isabella vira o rosto lentamente na direção dele e o olha nos olhos. Quando os olhares se cruzam, Kevin vê que os olhos dela estão embaçados pelas lágrimas.
Kevin – Qual é o seu nome? O meu é Kevin. Kevin Scott Richardson. E o seu?
Isabella – Isabella. Isabella Datto Moniz.
Kevin – E qual é o motivo dessas lágrimas nos seus olhos? O que aconteceu?
Isabella – Coisa minha.
Kevin – Problemas pessoais? Familiares?
Isabella – Eu não conheço você. Por que eu teria que te contar a minha vida?
Kevin – Porque é sempre bom desabafar, conversar com alguém. Pode falar. O que aconteceu?
Isabella – Não é nada, é que... meus pais morreram há um mês.
Kevin – Jura?
Isabella – Juro.
Kevin – Eu sei como você se sente. Eu também perdi o meu pai de câncer há três anos.
Isabella – Eu imagino.
Kevin coloca a mão no bolso da jaqueta e tira de dentro um lenço.
Kevin – (colocando o lenço na direção dela) – Toma. Não chora mais.
Isabella – Obrigada. (ela pega o lenço da mão dele e seca o rosto) – Você é muito gentil.
Kevin – Obrigado. Eu posso te chamar de “Bella”?
Isabella – Pode.
Kevin – Você pode me chamar de “Kev”, “Train” ou “Mr. Body Beautiful”.
Isabella começa a rir.
Kevin – Que foi?
Isabella – Seu apelido “Mr. Body Beautiful”.
Kevin – Gostou?
Isabella – É. É engraçado.
Kevin e Isabella começam a rir.
Isabella – Prazer em te conhecer.
Kevin – O prazer é meu. (eles apertam as mãos um do outro).
Isabella pega a sacola com os livros de Arquitetura que comprou e coloca em baixo do espaço que tem na cadeira pra colocar bolsas e afins. A garçonete chega.
Garçonete – (para Isabella) – E você? O que vai pedir para comer?
Isabella – Só um sundae de chocolate.
Garçonete – Ok.
A garçonete anota o pedido dela.
Kevin – Pode colocar o sundae dela na minha conta.
Isabella – Kevin, não precisa.
Kevin – Eu faço questão.
Garçonete – Tudo bem.
Isabella – Obrigada.
Garçonete – De nada.
A garçonete sai.
Isabella – Obrigada, Kevin. Mas não precisava.
Kevin – Magina. Me fala de você. Sobre sua vida, o que você faz...
Isabella – Eu tô terminando o ensino médio. Eu só preciso me matricular num colégio novo agora que acabei de me mudar pra cá. E você?
Kevin – Eu acabei de me formar em Direito.
Isabella – E por que você escolheu essa área?
Kevin – Eu gosto de justiça, entende? Gosto e me interesso por causas sociais, como a fome e o desemprego. E não suporto ver pessoas sendo injustiçadas. Quando eu era criança tinha uma menina no colégio que sofria bullying por estar acima do peso. Tinha um grupo de meninos que vivia zombando dela e a chamavam de “baleia”, “bolo fofo”, entre outros nomes pejorativos. Uma vez eu quase arrumei briga com um desses meninos para defendê-la. As outras meninas até falavam que eu gostava dela.
Isabella – E você gostava?
Kevin – Não. Era só amizade mesmo. Era ela que gostava de mim. E ela só se declarou no último dia de aula.
Isabella – Que romântico...
Kevin – E você? Já sabe o que quer fazer da vida?
Isabella – Sei. Eu quero Arquitetura. E pretendo fazer um cursinho pré vestibular.
Kevin – Isso aí. Se você tem um sonho, tem que batalhar por ele. E aliás, meu primo Brian é arquiteto, sabia?
Isabella – Sério? Que legal.
Kevin – Sério. Eu o admiro muito pela força de vontade que ele tem. Ele é meu melhor amigo.
Isabella – Assim como eu e a minha irmã.
Kevin – Qual é o nome dela?
Isabella – Laura. Ela é muito legal. É ela que tá sempre comigo, que cuida de mim. Esse foi o último pedido da minha mãe antes de morrer. Que ela cuidasse de mim e não me deixasse abater pelo que aconteceu.
Kevin – Desculpe a indiscrição, mas... o que houve com seus pais?
Isabella – Foi uma tentativa de assalto. Eles foram assaltados no sinal. Quando o farol se abriu eles tentaram fugir e os bandidos atiraram no carro. Os dois foram atingidos na cabeça. Eu escapei por milagre.
Kevin – Você estava com eles?
Isabella – Sim. Foi tudo na minha frente. Meu pai morreu na hora. Minha mãe depois de dois dias em estado gravíssimo.
Kevin segura a mão dela.
Kevin – Eu sinto muito.
A garçonete chega com o sundae de Isabella.
Garçonete – Pronto. O seu sundae. (ela coloca o sundae em frente à Isabella)
Isabella – Obrigada.
Garçonete – De nada.
A garçonete sai. Isabella solta a mão da mão de Kevin.
Isabella – Obrigada. E o seu pai? O que aconteceu com ele?
Kevin – Meu pai tinha um câncer no estômago. E eu só soube quando ele já estava nas últimas. Minha mãe sofreu muito. Foi um choque pra mim. Mas eu nunca me senti sozinho. Tenho minha mãe, meus amigos, minha namorada... São pessoas incríveis. Eu adoro tê-las por perto.
Isabella – É, eu vi que você tá com um anel na sua mão direita. E qual é o nome dela?
Kevin – Danielly. Ela é demais. Saindo daqui eu vou buscá-la na faculdade.
Isabella – É... De “Mr. Body Beautiful eu não posso te chamar.
Kevin – Por quê?
Isabella – Por causa da Danielly.
Eles começam a rir de novo.
Kevin – Você é muito legal.
Isabella – Você também, Kev. Mas sério, não vai se atrasar com a Danielly.
Kevin – Não. Onde você mora? Pode me passar seu endereço e seu telefone? Eu gostei de você. Podemos continuar nos falando. Se você quiser, é claro.
Isabella – Eu quero. Eu também gostei de te conhecer.
Isabella pega uma caneta e um papel e escreve seu endereço e telefones de casa e celular. Ela dá o papel para Kevin.
Isabella – Agora você anota o seu.
Kevin – Ok.
Kevin escreve num papel o endereço e telefones. Ele dá o papel para Isabella.
Isabella – Obrigada.
Kevin lê o papel que Isabella escreveu e faz uma cara de espanto.
Isabella – Que foi, Kev?
Kevin – Bella, eu não acredito.
Isabella – O quê? Fala!
Kevin – Você mora no mesmo colonial onde mora meu amigo Nicholas.
Isabella – Como assim? No Colonial Mônaco? (rindo)
Kevin – Sim. (rindo também).
Isabella – Nossa, mas é muita coincidência! Esse mundo realmente é muito pequeno.
Kevin – Mas... se você mora lá... como é que eu nunca te vi?
Isabella – Meus pais tinham uma casa lá há muitos anos, mas nós nunca íamos pra lá. Depois do que aconteceu, minha irmã resolveu que nós tinhamos que nos mudar pra lá com o objetivo de recomeçar a vida. A outra casa fica no Canadá.
Kevin – Entendi. Você e o Nicholas estão perto e longe ao mesmo tempo.
Isabella – É verdade. Isso chega a ser até meio irônico.
Kevin – Coisas do destino.
Isabella – Destino?
Kevin – É. Eu vou apresentar você à ele. Você vai adorar conhecê-lo. Ele é bem legal.
Isabella – Tenho certeza que sim.
Kevin – A namorada dele é muito, muito chata. Eu e ela não nos damos bem de jeito nenhum.
Isabella – Por quê?
Kevin – Não me inspira confiança. Você parece ser bem diferente. É por isso que eu gostei de você logo de cara.
Isabella – Deve ser muito legal ter alguém sempre do seu lado, em todos os momentos. Eu ainda não tive essa chance. É o meu sonho. Ter alguém que goste de mim de verdade do jeito que eu sou.
Kevin – Se é o seu sonho você vai conseguir. Talvez hoje ou amanhã... Pode ser até no seu caminho de volta pra casa.
Isabella sorri.
Isabella – Isso é incrível, Kevin. A gente se conheceu agora e já estamos conversando como se nos conhecêssemos há anos!
Kevin – É verdade.
Isabella – Você já é meu amigo.
Kevin – Você também já é minha amiga.
Isabella – Você é demais, Kevin.
Kevin – Amigos?
Isabella – Amigos.
Eles apertam as mãos um do outro.
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