“Me desculpe…”

Victor não esperava que aquela jovem fosse pedir desculpas para ele. E então percebe que era ele quem devia pedir desculpas. Mas ao vê-la ofegante e com a testa franzida, ele.fica sem saber o que fazer.

“Yuu-chan, seus fones!”

Victor vê Phichit erguer e colocar os fones nos ouvidos dela, completamente confuso com o que estava acontecendo.

“Me desculpe, Victor.” Ela diz, de novo.

“Victor, podemos sentar? Estamos com fome.” Phichit pergunta para ele, o fazendo sorrir.

“Mas é claro. Eu estava esperando vocês.” Victor mente, e vê Yuuri morder o lábio inferior. “E está tudo bem, Yuuri. Eu é que devo pedir desculpas por decidir pegar uma mesa sem os avisar.

Uau, Victor percebe. Ele mentiu duas vezes só porque não queria ver aquela garota estranha triste. Ele esperava que ela sorrisse e dissesse que estava tudo bem, mas tudo o que ela faz é procurar com a mão esquerda uma cadeira e ao achar, ela se senta. E não ela não sorri.

“Yuu-chan, o que acha de sanduíches? Café está bom para você?” Phichit pergunta, sendo observado por Victor.

“Sim, por favor. E obrigado, Phi.” Ela diz, virando o rosto para ele.

“Ok.” Phichit se afasta deles, e Victor o vê piscar para ele, o deixando surpreso.

Após momentos de silêncio, Yuuri é a primeira a falar.

“Victor, parabéns pelo primeiro lugar ontem.”

As palavras dela o fazem sorrir. Ela é mesmo diferente, ele pensa, a fitando com o rosto inclinado e apoiado na mesa com o punho direito.

“Muito obrigada, Yuuri.” Ele responde, a fazendo sorrir. “Então você acompanha patinação artística?”

“Sim. Por causa de Phichit e de meu ídolo.” Yuuri responde, e Victor percebe que as bochechas dela ficam vermelhas.

Espera um pouco… Ela tem um ídolo que patina?

“E ele está aqui hoje?” Ele pergunta, cruzando as pernas e olhando em volta, procurando o patinador tailandês.

“Sim.” Ela responde, e ele sente um aperto no peito.

Por quê?

“Espero que ele esteja bem. Ontem ele tava estressado por causa da competição.” Ela diz e ele sorri.

Ela é tão fofa e tão pura. Como alguém pode ser assim? Talvez seja por causa de ela não poder ver. Ou é algo dela mesma…

“Ei, Yuuri.” Ele diz, voltando a olhar para ela. “Você é do Japão, não é?”

“Sim?” Ela pergunta, surpresa.

“Pode me dizer um lugar bom para passar férias?” Ele pergunta para ela, que ergue uma sobrancelha.

“Hmm. Talvez Hasetsu. É de onde eu venho.” Ela diz, dando risada. “Tem uma pousada com fontes termais, um ringue de patinação de gelo e um castelo ninja.”

“Ninja?! Sério?!” Ele exclama, e ela se assusta.

“Hm? Ei, Victor!” A voz de Christophe Giacometti surge e lá está ele, acompanhado de Otabek Altlin, Jean-Jacques Leroy, Emil Nikola, Mila Babicheva, Sara Crispino, Michele Crispino e Phichit.

“Bom dia, pessoal.” Victor diz, com o celular na mão e digitando o nome Hasetsu no bloco de notas.

“Bom dia.” Yuuri se curva, na direção das vozes.

“Yuuri, eu convidei o pessoal para se juntar a nós? Tudo bem?” Phichit pergunta, e ela afirma com a cabeça.

“Você nos escuta mesmo com esses fones?” Mila pergunta para Yuuri,a fitando.

“Ela tem audição aguçada, que compensa a ausência da visão dela. Os fones a ajudam a abafar sons que para nós é inofensivo, mas que é perigoso para ela.” Phichit explica, para a surpresa dela e todos ali presentes.

“Que terrível.” Christophe começa a fazer drama. “Que terrível este mundo é para permitir que uma dama tão bela como você…”

“Me desculpe interromper.” Yuuri diz, e Victor percebe que ela está tremendo. “Eu tenho um compromisso importante e acredito que vocês também, então por favor, se juntem a nós para o café da manhã.”

“Oh, vamos juntar as mesas.”

“Que estranho. Geralmente a gente nunca se junta assim em campeonatos.”

“Verdade. Bem que a gente podia fazer isso mais vezes.”

“Concordo.”

Yuuri apenas sorri, respirando fundo. Victor a olha, preocupado com a moça.

“Aliás, Phichit. Como você conseguiu que K.Y. fizesse uma música para você?”

Os garçons servem aos patinadores e Yuuri, que começa a comer um sanduíche imediatamente.

“Ela é minha amiga.” Phichit responde. “Uma amiga muito importante”

Yuuri abre um longo sorriso, e Victor se vê surpreso.

“Aliás, eu fiquei surpreso ao ver que ela fez um cover da música de Victor e com letras.” Phichit continua.

“Mesmo?”

“Eu quero escutar.”

Victor, ainda com o celular na mão, acessa o Youtube e abre o vídeo com a música [For You], para a surpresa de todos, menos Yuuri. E isso Victor não percebe.

“É linda.”

“Gostei das letras.”

“Ela nunca fez isso antes. Me pergunto o motivo disso agora.” Phichit diz, e Yuuri para de beber seu café.

“Talvez ela queira mandar uma mensagem.” Otabek diz, silenciando a mesa. “Para Victor.”

Surpreso por ser o centro da atenção de quase todos, Victor se vê tocando a música de novo e prestando a atenção nas letras. E finalmente cai a ficha. Ela está cantando para mim. Para me animar…

“Espero que ele esteja bem. Ontem ele tava estressado por causa da competição.”

“Yuuri… o ídolo que você falou antes sou eu?” Ele pergunta, olhando para a moça, que se engasga com o café.

“Ela confessou?!” Phichit exclama, fazendo-a franzir a testa.

“Quê?!”

“Isso aí, Victor! Arrumou uma fã muito fofa.”

Yuuri se levanta, silenciando a mesa

“Eu não sou fofa, nem bonita. Eu não sei nem o que eu sou. Se me derem licença, eu preciso ir. Obrigado pelo prazer de tomar café com vocês.” Ela fala, se curvando para eles.”Adeus.”

Ela se afasta, em direção à saída do restaurante do hotel.

“Droga, eu estraguei tudo.” Phichit comenta. “Espero que ela não tenha um ataque.”

“Ataque?” Victor pergunta, finalizando sua refeição.

“De pânico e ansiedade. Ela se culpa por ser cega e fazer com que ela seja dependente dos outros. Ela me disse quando estávamos em Detroit que ela fugiu de Hasetsu, cidade natal dela, por causa de bullying e dos comentários que ela escutava quando estava na casa dela, que é uma pousada. E apesar de difícil, eu tentei fazer o possível para ajudá-la. Droga, lembrar daquele tempo sempre me deixa deprimido.” Phichit diz, passando a mão nos cabelos.

“O que quer dizer com ‘ela se culpa’?” Victor pergunta, de olhos arregalados, como quase todos ali presentes.

“Ela já sofria bullying antes mesmo de ser cega por causa do fato dela ser capaz de engordar facilmente. Vocês mulheres devem entender um pouco aonde quero chegar.” Phichit olha para Sara e Mila, que afirmam com a cabeça. “E como a família dela cuida de uma pousada, eles mal tiveram tempo para se importar com ela. E quando ela ficou doente, piorou tudo. Ela foi para Detroit para não ter que ser um peso para os pais dela e para se tratar. Aliás, foi por sua causa que ela começou a sorrir, Victor. E fico feliz de ter sido quem apresentou ela para a patinação artística.”

“Você mostrou um programa meu para ela?” Victor pergunta, surpreso.

“Stammi Viccino. Gran Prix de dois anos atrás.” Phichit responde. “Lembra que eu disse que ela tem audição aguçada? Bem, não foi só a música que ela se encantou e sim com o seu ritmo ao dançar, dizendo que a sua alegria a contagiou.”

Victor lembra da apresentação, e se lembra que estava contente por ganhar Makkachin de Yakov, seu técnico, e que era véspera de seu aniversário de 17 anos. Mas ninguém havia percebido isso no campeonato.

Yuuri percebeu.

“Ei, ela é cega, não é?” Chris pergunta, de testa franzida.

“Sim.” Phichit afirma.

“Está tudo bem deixá-la sozinha?”

De repente, Victor e Phichit se erguem, e saem correndo do restaurante.

~x~

Rain_lover: [Vídeo ao vivo]

RoseLiz498: Kyaaaaa! É Victor Nikiforov!

VityaS2me: Meu deus! Aquele corpo!

Rain_lover: Merda! Eu quero ser aquela cadeira. Senta em mim, Victor!

Fleurs4you: Ei! Quem é aquela vadia tocando no ombro dele? Tira a mão dele!

VityaS2me: Quem ela acha que é para tocar no meu Vitya?

Ciaolyn: Quê? Phichit Chulanont? Por que ele está colocando fones nos ouvidos dela?

Rain_lover: Não, não, não, não! Se afaste dele! Não se sente! Nooooooo!

Rain_lover: Espera, por que outros patinadores se juntaram à eles? Droga, Eu poderia tirar a foto perfeita se não tivesse aquela ovelha negra no meio.

VityaS2me: Por que meu Vitya não desvia o olhar da vadia? Não, ele está se apaixonando por essa feia.

Fleurs4you: Espera, ela se levantou e está saindo.

Rain_lover: Vou falar com ela. Depois, vamos falar daquele vídeo magnífico de K.Y. cantando a música de nosso Vitya?

VityaS2me: Claro! As músicas dela voltaram pro Youtube. Estou feliz.

Cyaolyn: Mas antes, mate aquela vadia!

~x~

Victor mentiu. Pude perceber imediatamente pelo tom da voz dele. Mordo meu lábio inferior para não chorar e decido deixar a conversa na mão de Phichit, até que ele se oferece para pedir café da manhã e me deixando sozinha com Victor. Decido parabenizar por ontem e acabamos conversando um pouco sobre mim e patinação de gelo. Ele pede sugestões de locais para férias e minha mente rapidamente lembra de Hasetsu, e indico minha cidade natal para ele e até a pousada de meus pais. E quando falo do Castelo de Hasetsu, me assusto ao escutar o grito dele.

Com a aproximação de outros patinadores, logo veio a primeira pergunta que me deixa incomodada, vinda de Mila Babicheva. Phichit responde por mim, me deixando grata. Mas as palavras de Christophe Giacometti me incomodam, e me fazem mentir para eles,me sentindo mais calma com as palavras de Phi. Quando eles mudam de assunto para K.Y., eu fico receosa e quando escuto Otabek falar sobre o motivo do cover, eu me assusto, agradecendo por parecer que eles estavam fixados no vídeo e não em mim. Mas quando Victor Nikiforov pergunta se é ele o meu ídolo e Christophe Giacometti me chama de fofa, eu acabo explodindo.

“Eu não sou fofa, nem bonita. Eu não sei nem o que eu sou. Se me derem licença, eu preciso ir. Obrigado pelo prazer de tomar café com vocês.” Falo, me curvando para eles.”Adeus.”

E com isso me afasto deles, rapidamente, usando o meu bastão atrapalhadamente para tentar não esbarrar em objetos e pessoas. Em vão, e me vejo pedindo desculpas incontáveis vezes. Agarro o celular de Minako-sensei e sigo até o elevador, me tremendo.

Não, por favor. Se acalme, Yuuri! Respire fundo! Você consegue! Não chore.

“Vadia, por que não morre? Deixe Vitya em paz!”

Dou uma risada, sem me incomodar se a voz que escutei veio de outra pessoa ou da minha mente.

“Verdade… Ninguém se incomodaria mesmo… obrigada por me dizer o óbvio… Mais uma música… e tudo acabará…”

E entro no elevador, indo até o meu andar e meu quarto, onde escuto Minako-sensei ainda roncava. Tateando a janela que dá para o rio que corre ao lado do hotel, eu a abro e jogo o celular dela, que cai até… splash.

Pego minha mochila e guardo minhas coisas dentro, deixando o meu celular na minha cama e saio do quarto carregando ela e o case do violão, indo até o elevador.

Aguente, Yuuri. Aguente. Só mais um pouco. E finalmente tudo acabará. E finalmente o mundo ficará livre do peso chamado K.Y.

Não. Eu não consigo aguentar. Eu preciso...

Jogo minha mochila no chão e abro meu case, retirando meu violão.

“Yuu…”

“Phi! Grave, agora!”

“Eh? Ok. Espera… pronto.”

E no meio do corredor mesmo, ela começa a tocar o violão agitadamente e começo a cantar bem alto… uma canção de amor.

As flores da primavera dançam com o vento

Ao som da minha canção de amor para você

Com todo o meu coração repleto de sentimentos

Para que as palavras consigam dar seu recado

O amanhã que irei vivenciar pouco a pouco

Eu desejo que você esteja nele comigo para sempre

E lentamente iremos construir os nossos futuros

É um desejo que eu quero que seja realizado

Eu amo você, e acredito que você sente o mesmo

Pelo jeito que me olha, pelo sorriso estampado

Nesta face que me é muito preciosa nesta vida

Ela me conta que esse sentimento é especial

Eu quero ser a sua única alma gêmea

Eu quero ser a sua única pessoa especial

Você me permite estar ao teu lado até o fim?

Eu quero te fazer feliz por apenas estar comigo

O amanhã que irei vivenciar pouco a pouco

Eu desejo que você esteja nele comigo para sempre

E lentamente iremos construir nosso futuro, juntos

É um desejo que me faria feliz se acontecesse

O amanhã que quero presenciar ao teu lado

Quero fazê-lo ser mágico, especial, perfeito

Para que cada dia eu seja capaz de te amar mais

Você me permite estar ao teu lado até o fim?

“Mande para Kenjiro e Sora, junto com todos os meus arquivos da nuvem que compartilhamos. Eles cuidarão do resto dos arranjos e depois passe a versão completa para Victor Nikiforov com as minhas desculpas por fazer sem saber que tema ele pretende para o próximo ano. E…”

“Yuuri, isso foi lindo…”

Mentira. Mentira. MENTIRA. Eu cantei uma canção de amor e Victor ouviu? Ele descobriu que sou K.Y.? Não. Não Não Não Não…

E largo a guitarra no chão, levo minhas mãos para a minha cabeça, e grito.